quarta-feira, 10 de junho de 2026

Wagner Sousa: Estratégia e fracasso dos EUA no Irã

O “Oriente Médio” é uma criação ocidental, tanto no que se refere a esta expressão (muitos se referem à mesma região como Ásia Ocidental) quanto pela criação dos Estados Nacionais neste espaço. De regiões tribais tornadas Estados pela “unificação” de tribos (os Estados Árabes do Golfo Pérsico) a um império (Pérsia) que adquire a forma de um Estado (Irã), ambos sob decisiva influência do Império Britânico, até a criação de Israel no pós-guerra, já sob os auspícios da nova hegemonia norte-americana, culminação da proposta de um Estado judeu, que já era apoiada pelos britânicos, têm-se, em linhas gerais, a formatação dos principais atores estatais regionais.

A descoberta de grandes reservas de petróleo, a partir do início do século XX, deu a este espaço geográfico uma posição especial no mundo. A primeira grande descoberta se deu no Irã, na cidade de Masjed Soleiman, em 1908, o que levou à fundação da Anglo-Persian Oil Company, atual BP, com os britânicos à época como sócios majoritários. Em 1927, no Iraque (Kirkuk) e, na década de 1930, em vários outros países do Golfo Pérsico, foram descobertas novas reservas, consolidando o papel da região como fornecedora de hidrocarbonetos essencial na geopolítica energética mundial.

Ter controle, influência e explorar seus vastos recursos, necessários à economia industrial moderna, passou a ser objetivo das grandes potências, em especial das dominantes anglo-saxãs. Mesmo após as nacionalizações do setor promovidas pelos estados produtores na década de 1970 (esta mudança e o consequente fim do petróleo muito barato foram uma das razões do fim dos “trinta anos gloriosos” do pós-guerra), a garantia do suprimento norteou a política norte-americana para a região e a manutenção da aliança, inclusive militar, com os Estados do Golfo. A partir dos anos 2010, com a consolidação da exploração em seu território do petróleo e gás provenientes de xisto, os Estados Unidos não mais precisaram da região para o seu abastecimento interno.

A região segue fundamental, contudo, para o abastecimento do mercado internacional, com os reflexos de instabilidades neste espaço geográfico, como a atual, no preço e no desempenho das economias de todo o mundo; a energia cara vem reduzindo as perspectivas de crescimento global, o que evidentemente também abala a economia estadunidense. Outro aspecto de fundamental importância para a manutenção da hegemonia norte-americana é a denominação do comércio de hidrocarbonetos em sua moeda nacional, o dólar. Os países do Golfo Pérsico “reciclam” muitos desses dólares obtidos pelas receitas de suas exportações de energia com papéis norte-americanos, sejam títulos de dívida pública, ações de suas empresas e compra de material bélico (são um importante mercado). Mais recentemente, com sua busca por diversificação econômica, têm-se feito acordos em outras áreas, com destaque para Inteligência Artificial e a instalação de data centers de grandes empresas norte-americanas nesta região.

A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, lançada em novembro de 2025, delineou as “linhas mestras” dos objetivos a serem perseguidos pelo país com reflexões acerca de sua posição no mundo e das mudanças necessárias; o texto é bastante crítico ao internacionalismo liberal prevalecente na política externa de ambos os partidos a partir do fim da Segunda Guerra Mundial e enfatiza que o interesse nacional passará a guiar as ações dos EUA no campo internacional, o que sempre ocorreu, contudo, o documento destaca que isto deve se dar sem os Estados Unidos assumirem papel de árbitro ou “estabilizador” da ordem global.

Esta estratégia coloca entre seus objetivos, na página 09 do documento: “Queremos impedir que uma potência adversária domine o Oriente Médio, seu fornecimento de petróleo e gás e os pontos de estrangulamento por onde passam, evitando ao mesmo tempo as ‘guerras intermináveis’ que nos atolaram naquela região a um custo altíssimo”. Menciona ainda (p.18) “dominância energética” em petróleo, gás, energia nuclear e carvão como vital para promoção dos interesses dos EUA e ainda critica a “ideologia da mudança climática.” Mais ao final do texto, na página 32, se diz que a política para a região “exigirá o abandono da experiência equivocada dos Estados Unidos de pressionar essas nações — especialmente as monarquias do Golfo — a abandonar suas tradições e formas históricas de governo. (…) A chave para relações bem-sucedidas com o Oriente Médio é aceitar a região, seus líderes e suas nações como são, enquanto se trabalha em conjunto em áreas de interesse comum.” Premissas bem diversas das dos neoconservadores do período George W. Bush com a sua ênfase em “promover a democracia” na região. Mas é oportuno observar que o “respeito pela diferença” no que diz respeito aos governos e regimes cabe àqueles países que se podem considerar aliados e/ou tutelados. Mas a tolerância com as autocracias não vale para o rival regional, o Irã, alinhado ao eixo Moscou-Pequim. Neste caso, se tentou, e foi colhido um grande fracasso, uma mudança de regime.

<><> As razões do conflito atual

Muito se especula sobre as razões que levaram Donald Trump a decidir pelo ataque iniciado em 28 de fevereiro deste ano ao Irã, em coordenação com Israel. Do lobby israelense nos EUA, especialmente o do próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o que envolveria, talvez, chantagens referentes à informações, ocultadas do grande público, do possível envolvimento do mandatário estadunidense no caso Epstein, a uma possível crença do presidente norte-americano em uma ação militar fulminante que derrubasse o regime iraniano similar ao que ocorreu na Venezuela (embora neste caso não tenha havido “regime change” e sim troca da principal liderança e subordinação do regime existente aos EUA) somados a considerações mais propriamente estruturais no que diz respeito à ordem internacional sobre a presença e primazia no chamado “Oriente Médio”, a competição com a China (e, em menor grau, com a Rússia), o domínio no setor energético e buscar impedir o país persa de possuir artefatos nucleares.

Como já destacado, a aposta fracassou de forma retumbante, conforme percebido em todo o mundo (até mesmo o chanceler alemão Friedrich Merz, dos normalmente contidos europeus, disse que os EUA foram humilhados pelo Irã) e o governo norte-americano busca uma “porta de saída” do conflito com um acordo que não seja (ou não pareça) algo efetivamente pior para os interesses estadunidenses do que a situação anterior ao início deste conflito. O que está se mostrando algo bastante difícil, pois a eclosão da guerra durante uma negociação (o que já tinha ocorrido em junho de 2025, quando EUA e Israel atacaram as instalações nucleares iranianas, e supostamente, segundo Trump, teriam “obliterado” o programa nuclear) demonstrou que a capacidade de resistência do Irã e os danos que podem causar para as instalações militares norte-americanas nesta região e também para os países que as hospedam é considerável. Com a guerra, um ponto crítico da geopolítica internacional, o Estreito de Ormuz, está na prática fechado há dois meses e o Irã pôde verificar na prática que pode utilizá-lo efetivamente como elemento de barganha e eventualmente transformá-lo em fonte de arrecadação. Sua característica como ponto de passagem vital de petróleo, gás natural e outros derivados (como fertilizantes) para a economia internacional transformou-se efetivamente em um trunfo da liderança iraniana e um grande problema para o governo Trump, que enfrentará eleições legislativas em novembro e amarga grande impopularidade com esta guerra e seus efeitos inflacionários. Outras regiões vêm sofrendo com escassez de combustíveis, como vários países asiáticos e a Europa, onde companhias aéreas já planejam cortes de voos, o setor turístico refaz suas contas para um desempenho pior e se estimula o trabalho em casa para poupar combustível.

Geoestratégia é um subcampo da geopolítica que se concentra em como o poder estatal é projetado e protegido no espaço geográfico. A geopolítica analisa a influência da geografia na política internacional de forma ampla e a geoestratégia é a aplicação prática desse conhecimento para atingir objetivos militares ou políticos específicos. Do ponto de vista estratégico, portanto, os EUA foram derrotados e, neste momento, em que estas linhas estão sendo redigidas, as tratativas que vêm sendo feitas através da mediação do Paquistão para um possível acordo não saem de um impasse e ambos os lados proferem ameaças. O status do Estreito de Hormuz (aberto ou com controle iraniano) e a continuidade ou período de pausa do programa nuclear iraniano são os maiores entraves. Cabe destacar também que Israel vem descumprindo o compromisso de um cessar-fogo com o Hezbollah no Líbano, que foi uma das exigências iranianas para o atual cessar-fogo com os EUA, o que também pode inviabilizar um acordo de paz.

Os países do Golfo Pérsico estão refazendo os seus cálculos geopolíticos. A “inviolabilidade” da proteção das bases militares dos EUA se revelou falsa. O fluxo de petróleo já tem o leste asiático (China em destaque) como principal destino. O gigante asiático se revelou preparado para esta crise com grandes estoques de hidrocarbonetos e diversificação da matriz energética e vai se mostrando ao mundo como a grande potência mais previsível. O “Oriente Médio”, criado pelos anglo-saxões, vai se reconfigurando e politicamente apontando para o leste da Ásia.

¨      Alcançando aquilo que Israel não conseguiu alcançar por meio da guerra. Por Heba Ayyad

O “Conselho da Paz”, estabelecido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para resolver o conflito em Gaza, inclui duas figuras que evocam fortes impressões negativas na memória coletiva palestina, com base em suas experiências anteriores na Palestina ocupada: Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico e criminoso de guerra no Iraque em 2003, que também atuou como enviado do Quarteto à Palestina ocupada durante o mandato do ex-primeiro-ministro palestino Salam Fayyad; e Nikolay Mladenov, Alto Representante do Conselho da Paz, que anteriormente atuou como Coordenador Especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio e Representante Especial da ONU para o Território Palestino Ocupado entre 2015 e 2020.

Ambos trabalharam na Palestina ocupada e deixaram o território após causar imensos danos ao povo palestino e à sua justa causa, dando cobertura para que Israel continuasse seus crimes sob o pretexto da autodefesa e do combate ao terrorismo. Ambos foram membros do Quarteto, que entrou em declínio sob a liderança de Blair e, efetivamente, deixou de existir sob a atuação de Mladenov.

Tony Blair foi nomeado pelo ex-presidente dos EUA, George W. Bush, em 2007, como recompensa por seu papel na guerra ilegal contra o Iraque em 2003. Permaneceu no cargo até 2015. Sua missão era “auxiliar na reforma das instituições da Autoridade Palestina e abordar questões de segurança e econômicas”. Durante seu mandato, o general norte-americano Keith Dayton foi designado para treinar as forças de segurança palestinas.

Blair e Fayyad também são creditados por um programa que facilitou empréstimos para que funcionários da Autoridade Palestina comprassem casas, apartamentos e carros. Quando Blair deixou o cargo — sem que ninguém lamentasse sua saída —, as forças de segurança palestinas haviam se transformado em um aparato de coordenação de segurança e repressão aos protestos palestinos. Funcionários e agentes de segurança tornaram-se reféns dos bancos, aguardando seus salários no fim do mês. Isso reduziu sua preocupação com a ocupação e seus crimes, já que seu foco principal passou a ser o pagamento das prestações e o cumprimento de suas obrigações financeiras.

Em seus últimos dias, Blair visitou a Mesquita de Ibrahimi, em Hebron, em 20 de outubro de 2009. Um jovem palestino o viu, aproximou-se, cuspiu nele e disse: “Saia daqui, descendente de Balfour. Seu terrorista. Você não é bem-vindo aqui.” Em seguida, Blair encerrou abruptamente sua visita e foi embora.

Na Faixa de Gaza, colocando-a sob o controle da Autoridade Palestina, ele disse algo ainda mais perigoso. Prosseguiu explicando as origens da operação de 7 de outubro, como se respondesse à declaração do secretário-geral de que ela não surgiu do nada, mas sim da longa ocupação. Mladenov afirmou: “O 7 de outubro foi resultado de quase duas décadas de incitação e mobilização”, querendo dizer que a causa não foi a ocupação, mas uma ideologia baseada no ódio e na demonização do outro.

Em seu perigoso discurso de 21 de maio, começou dizendo: “As armas silenciaram em grande parte em Gaza pela primeira vez em dois anos. Antes do outono passado, cerca de 1.300 caminhões entravam em Gaza semanalmente, e a grande maioria dessa ajuda era saqueada ou confiscada por grupos armados antes de chegar a quem precisava. Desde o cessar-fogo, esse número aumentou significativamente, e a situação da fome melhorou muito para a população.”

Poderia haver uma distorção mais flagrante dos fatos? No mesmo discurso, também pediu ao Conselho de Segurança que utilizasse todos os meios para instar o Hamas a aceitar o Roteiro para a Paz sem mais demora. O ponto de partida, portanto, é o Hamas, e não as etapas do plano de paz, porque Israel suspendeu toda a implementação de suas obrigações relativas ao desarmamento do Hamas.

Quanto a Blair, em seu pronunciamento de 28 de abril, afirmou: “As negociações de desarmamento com o Hamas estão em andamento, lideradas pelos enormes esforços dos mediadores do Egito, Catar e Turquia, juntamente com o Alto Representante do Conselho de Paz para o Processo de Paz no Oriente Médio, Mladenov, e representantes do Conselho de Paz.”

E acrescentou: “O Hamas, em sua forma atual, não pode ter qualquer papel no governo de Gaza, nem diretamente, administrando o governo de Gaza, nem indiretamente, mantendo suas armas. Se o Hamas mudar e concordar com o objetivo de buscar um Estado palestino por meio de negociações políticas, vivendo em paz e segurança com o Estado de Israel, então terá liberdade para participar da política em Gaza.”

Em resumo, esses dois indivíduos foram escolhidos para alcançar aquilo que Israel não conseguiu no campo de batalha. E alguém virá e gritará: “Parem com os pretextos e entreguem suas armas, rapazes... Depois, formem uma longa fila diante da guilhotina.”

¨      Trump adverte Netanyahu de que EUA não apoiarão novas ações militares israelenses contra o Irã

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira (8) que advertiu o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de que Washington não apoiaria Tel Aviv em suas ações militares contra o Irã.

Mais cedo, o canal israelense N12 noticiou que Netanyahu havia conversado por telefone com Trump em meio a uma nova escalada no conflito com o Irã.

"Eu disse: 'Bibi [Netanyahu], é melhor você ter cuidado, ou logo estará sozinho'", disse Trump em entrevista à Axios.

O presidente republicano acrescentou que cinco países da região lhe pediram que pressionasse Netanyahu para interromper as ações militares.

"Esses países estavam muito preocupados. Eles adoram o acordo que estamos negociando", disse Trump.

Mais cedo, a CBS News noticiou, citando fontes, que o Exército norte-americano não interceptou nenhum dos mísseis iranianos disparados contra Israel durante a noite e não participou dos ataques israelenses contra o Irã.

No último domingo (7), o Irã disparou vários foguetes contra o norte de Israel. O alerta aéreo foi acionado diversas vezes, inclusive em Haifa. O ataque ocorreu poucas horas depois de declarações do Irã de que Teerã responderia ao recente ataque do exército israelense a um subúrbio de Beirute. Mais tarde, as Forças de Defesa de Israel (FDI) anunciaram bombardeios contra alvos militares nas regiões central e oeste do Irã.

Mais cedo naquele dia, o comando militar iraniano definiu a suspensão dos ataques contra Israel. O Canal 12 da televisão israelense noticiou que Israel também havia interrompido seus ataques contra o Irã a pedido de Trump.

<><> Irã causou sérios danos a Israel em recentes ataques de mísseis, diz representante militar iraniano

O Irã foi responsável por sérios danos a Israel no curso de recentes ataques, afirma o representante oficial do quartel-general central das Forças Armadas iranianas em Khatam al-Anbiya, Ebrahim Zolfaghari.

"No decorrer de uma nova onda de ações [militares] contra alvos sensíveis e importantes nos territórios ocupados, o inimigo recebeu golpes graves e devastadores, tendo experimentado por si próprio uma operação ofensiva bem-sucedida das Forças Armadas iranianas", disse Zolfaghari, citado pela agência Tasnim.

Na noite de 7 de junho, o Irã disparou vários mísseis contra o norte de Israel. O ataque ocorreu horas após declarações no Irã de que Teerã retaliaria contra um recente ataque das Forças de Defesa de Israel (FDI) nos arredores de Beirute.

Mais tarde, as Forças de Defesa de Israel anunciaram ataques contra alvos militares nas regiões do centro e oeste do Irã. A República Islâmica do Irã respondeu continuando seu bombardeio ao território israelense.

<><> Vance: EUA continuarão a buscar acordo nuclear com Irã, independentemente da posição de Israel

O vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, afirmou nesta segunda-feira (8) que Washington continuará a buscar o acordo nuclear com o Irã, quer Israel goste ou não da decisão da Casa Branca.

"O presidente [Donald Trump] acredita, e eu acho que ele está certo, que podemos chegar a uma solução de longo prazo para o acordo nuclear com o Irã. Agora, Israel pode gostar disso, pode não gostar, mas, fundamentalmente, acreditamos que isso é do melhor interesse dos Estados Unidos da América", disse Vance à Fox News.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, conversou por telefone com o presidente norte-americano em meio a uma nova escalada no conflito com o Irã. Trump disse posteriormente que Israel e o Irã buscam um cessar-fogo imediato, mas não conseguiram chegar a um acordo devido à "ignorância ou estupidez".

Mais cedo, Trump afirmou que advertiu Netanyahu de que Washington não apoiaria Tel Aviv em suas ações militares contra o Irã. O presidente republicano acrescentou que cinco países da região lhe pediram que pressionasse Netanyahu para interromper as ações militares.

Também nesta segunda-feira, uma emissora norte-americana noticiou, citando fontes, que o Exército norte-americano não interceptou nenhum dos mísseis iranianos disparados contra Israel durante a noite e não participou dos ataques israelenses contra o Irã.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247/Sputnik Brasil

 

 

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