quarta-feira, 10 de junho de 2026

Trump usa fundos, pressão diplomática e segurança privada para tomar minerais da RDC

No princípio de 2026, a Administração Trump intensificou seu militarismo em nível mundial e, paralelamente, pôs em marcha uma ofensiva mais discreta, mas agressiva, pelos recursos da República Democrática do Congo (RDC). Continuando o trabalho iniciado na era Biden, os EUA consolidaram uma “aliança estratégica” que lhes outorga acesso especial às vastas jazidas de cobre, cobalto e lítio da RDC, todos metais-chave para o desenvolvimento de dispositivos de tecnologia de ponta.

A decapitação do governo da Venezuela. Os tambores de guerra em torno da anexação da Groenlândia. A guerra empreendida pelos EUA e Israel contra o Irã. Os primeiros meses de 2026 trouxeram consigo um recrudescimento drástico do militarismo belicoso de Donald Trump. Embora essas três crises sejam muito diferentes entre si, o denominador comum de todas elas é o afã do presidente dos EUA por controlar os fluxos estratégicos de matérias-primas, sejam os parceiros petroleiros e de gás com que a China conta em Caracas e Teerã, ou a possibilidade mais distante da riqueza mineral no Ártico.

Em outras latitudes, a ofensiva dos EUA pelos recursos não se desenvolve com tanta estridência. Um exemplo disso é a aposta, relativamente mais discreta, de forjar uma esfera de influência estadunidense em um país que um dia pareceu estar à margem dos desígnios dos EUA: a República Democrática do Congo. A RDC, um extenso país encravado no coração da África equatorial, abriga reservas de recursos consideravelmente importantes, entre as quais se destacam o cobre, o cobalto e o lítio. Esses metais são imprescindíveis para a fabricação de produtos de alta tecnologia, tais como microchips, baterias para veículos elétricos e sistemas de armamento de última geração.

Embora já fosse uma iniciativa em marcha durante a administração de Joe Biden, a aproximação dos Estados Unidos da RDC acelerou-se com a volta de Trump à Casa Branca. Ao que tudo indica, as autoridades da capital, Kinshasa, entraram em contato com o então presidente eleito em busca de apoio para sua prolongada batalha contra as milícias separatistas nas regiões orientais de Kivu e Katanga. Esse processo culminou em dezembro passado, na Casa Branca, com a formalização de uma “aliança estratégica” entre os Estados Unidos e a RDC.

Esse acordo, pelo qual se concedia aos EUA acesso especial à riqueza mineral da RDC, representou a continuação do tão apregoado “acordo de paz” do verão passado entre a RDC e Ruanda, país que apoia os paramilitares do Movimento 23 de Março (M23) em sua devastadora guerra civil contra Kinshasa. Apesar das afirmações da Casa Branca sobre o início de uma nova era de paz na RDC, os combates persistem até hoje. Em 2 de março, os Estados Unidos impuseram sanções ao Exército ruandês por seu contínuo apoio às milícias contrárias a Kinshasa.

Certos setores analíticos opinam que a aproximação de Trump com Kinshasa se baseia no conceito de “minerais em troca de proteção”, gestado pela primeira vez no princípio de 2025 com o acordo sobre minerais firmado com a Ucrânia. Por ora, a implicação direta do governo dos EUA com a RDC limita-se, em grande medida, ao apoio ao presidente Félix Tshisekedi — que Trump elogiou como um “homem valente” no Café da Manhã Nacional de Oração realizado em 5 de fevereiro, em Washington — e à defesa diplomática das empresas investidoras estadunidenses.

No entanto, empresas contratadas do setor de defesa dos Estados Unidos, como Erik Prince, ex-diretor da Blackwater (atual Constellis), mostram-se desejosas de estabelecer um vínculo mais estreito em matéria de segurança. Ao que parece, alguns agentes da Vectus Global, nova empresa de segurança de propriedade de Prince, participaram ao lado das forças do governo central da luta travada no princípio de janeiro por Uvira, cidade do leste da RDC às margens do lago Tanganica.

Aos olhos da sociedade civil congolesa, não há dúvida de que a pressão dos EUA vai além dos negócios. Diante da falta de um controle mais democrático da riqueza mineral do país, teme-se que a população da RDC volte a ficar com uma parcela mínima dos lucros, enquanto o capital estadunidense empreende um investimento desenfreado que parece destinado principalmente a aplainar o caminho de um governo corrupto e a engrossar os lucros das corporações estrangeiras.

“A luta contra a corrupção é algo que a administração estadunidense deixou totalmente de lado”, afirmou Jean-Claude Mputu, porta-voz do coletivo Congo n’est pas à vendre (CNPAV, “O Congo não está à venda”). “A população congolesa tem uma grande riqueza mineral sob seus pés, mas não obtém lucro algum com ela porque as elites locais acaparam o dinheiro e porque as empresas estrangeiras que contaminam nosso solo subornam nossa direção política para que não sejam empreendidas ações legais contra elas.”

<><> Guerras de influência

A tentativa da Administração Trump de enraizar-se na RDC não está isenta de obstáculos. O país já se encontra sob a influência de rivais dos EUA, como a China, cujas empresas, segundo se calcula, controlam cerca de 80% da riqueza mineral da RDC atualmente, incluindo muitos de seus ativos mais valiosos e sólidos. Por sua vez, Tshisekedi abriu a porta para um aumento do investimento estadunidense, mas parece ter o mesmo interesse em colocar os interesses estrangeiros em disputa.

Os especialistas do setor estadunidense esperam que a oferta de Washington de uma aliança mais proativa possa equilibrar o terreno de jogo, em contraste com a política de não intervenção de Pequim. No entanto, não há muitos indícios de que a China esteja preocupada. Em 26 de março, a RDC e a China reforçaram seus vínculos com um novo acordo de cooperação em matéria de minerais, que inclui medidas para ampliar o processamento local de metais.

À frente da contraofensiva estadunidense encontra-se uma nova série de fundos de investimento, consórcios mineiros e empresas mineradoras emergentes de exploração, todas com decisivo apoio diplomático e financiamento público dos Estados Unidos. Desde o retorno de Trump à Casa Branca, essas entidades vêm assentando as bases do ressurgimento da esfera de influência estadunidense na RDC.

Uma das entidades que irrompeu na corrida pelos recursos é a Orion Resource Partners, empresa relativamente opaca que administra investimentos mineiros globais no valor de cerca de US$ 8,6 bilhões. Depois de se consolidar em lugares como Guiné e Namíbia, onde extrai bauxita, ferro e lítio, a empresa busca agora abrir espaço no mercado congolês. Graças ao apoio financeiro do governo estadunidense, a Orion fundou em outubro passado o Orion Critical Minerals Consortium (Orion CMC), um fundo de investimento conjunto que arrecadou capital de US$ 4 bilhões.

Em fevereiro, a Orion CMC anunciou sua associação com a gigante mineradora anglo-suíça Glencore, que cedeu uma participação de 40% em suas operações na RDC ao consórcio liderado pelos Estados Unidos, em uma operação avaliada em US$ 9 bilhões. Essa aliança concederá à Orion CMC e a seus investidores, incluído o governo dos EUA, o controle sobre parte da produção das minas de cobre e cobalto da Glencore na RDC. Além disso, em março, a Orion CMC proporcionou financiamento à empresa estadunidense Virtus Minerals para a aquisição da Chemaf, corporação mineradora sediada em Dubai que opera na RDC desde o princípio dos anos 2000.

O governo dos EUA esteve profundamente implicado nessas operações, tanto durante as administrações democratas quanto nas republicanas. Em 2024, a administração Biden pressionou o governo congolês para que bloqueasse a venda da Chemaf à empresa chinesa Norinco. A Administração Trump influenciou Kinshasa para que afastasse a alta direção do grupo minerador estatal Gécamines, que se opunha à cessão da Chemaf a firmas investidoras estadunidenses.

Outro indicador determinante do apoio recebido é o suporte financeiro concedido pela Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (DFC, na sigla em inglês) às empresas privadas que lideram a ofensiva estadunidense. Fundada em 2019, durante o primeiro mandato de Trump, essa entidade tem por objetivo facilitar a projeção dos interesses econômicos dos EUA no exterior, aportando capital inicial para investimentos em cadeias de fornecimento de matérias-primas no estrangeiro.

Em dezembro de 2024, a DFC da era Biden destinou mais de US$ 500 milhões para a construção do Corredor de Lobito, uma linha ferroviária concebida para facilitar a extração de minerais da Zâmbia, país sem saída para o mar, e do sudeste da República Democrática do Congo para a costa atlântica de Angola. O investimento de US$ 600 milhões da DFC na Orion CMC no outono passado é considerado a maior injeção de capital da entidade até o momento, evidenciando sua importância estratégica na ofensiva mineira de Trump no continente africano.

Por outro lado, há o setor tecnológico estadunidense. O Vale do Silício também está consolidando uma participação direta na mineração africana ao apostar decididamente na inteligência artificial, impulsionando assim um aumento esperado da demanda por minerais críticos nos próximos anos. No princípio da década de 2020, circulou o rumor de que o diretor-executivo da Tesla, Elon Musk, considerava adquirir a Glencore, o maior conglomerado minerador do mundo em receita anual.

A KoBold Metals, empresa mineradora fundada em 2018, afirma utilizar inteligência artificial e métodos avançados de investigação para mapear jazidas minerais inexploradas. Entre seus investidores está a Breakthrough Energy Ventures, fundo constituído em 2016 por Bill Gates e do qual participam acionistas como Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Michael Bloomberg, entre outros. No verão passado, a KoBold assinou um acordo com o governo da República Democrática do Congo pelo qual lhe foram concedidas sete concessões para a exploração de jazidas de lítio, coltan e terras raras em uma área de 1.600 quilômetros quadrados.

<><> E agora?

Quando, em meados da década de 2010, a gigante mineradora estadunidense Freeport-McMoRan decidiu vender seus ativos na RDC a empresas chinesas, tudo indicava que o capital estadunidense estava abandonando o terreno. Dados os elevados custos da mineração em uma região marcada pela instabilidade — e o risco de litígios inerente a um ambiente empresarial castigado pela corrupção endêmica —, parecia que as empresas estadunidenses se encontravam em desvantagem estrutural diante dos titãs chineses do setor minerador, respaldados pelo Estado.

Dez anos mais tarde, uma nova geração de empresas estadunidenses está de volta, preparada para entrar em cheio no terreno. Além disso, essas empresas poderão contar com ampla margem de manobra por parte de uma administração estadunidense que assume sem reservas o caráter transacional de sua ofensiva pelos recursos da RDC.

Em 2025, a Platform to Protect Whistleblowers in Africa (Plataforma para a Proteção dos Denunciantes na África, PPLAAF, na sigla em francês) realizou uma investigação sobre os negócios da Orion na Guiné e revelou evidências de suborno a funcionários guineanos para acelerar a exportação de minerais, além de abusos ambientais e falhas nos procedimentos de controle e fiscalização.

Exemplo disso foi um acidente industrial ocorrido em 2023 em uma filial da Orion que provocou o derramamento de cerca de 7.500 toneladas de bauxita, incidente que os executivos do grupo tentaram encobrir. Fontes internas informaram à PPLAAF que a empresa ainda não desembolsou os US$ 15 milhões prometidos em investimentos comunitários, enquanto os lucros dos minerais do país continuam escapando sistematicamente ao controle das comunidades locais.

“O mais preocupante da conduta da Orion na Guiné é a má gestão em geral e o fato de que seu único interesse imediato é o lucro, independentemente das condições de trabalho e do impacto nas comunidades locais”, afirmou Jimmy Kande, diretor-executivo da PPLAAF. E acrescentou:

“Isso estabelece um precedente que deveria ter alertado a DFC e impedido que apoiasse a Orion como seu braço operativo no continente, dadas as acusações de corrupção e os delitos ambientais que foram investigados, inclusive pelas autoridades guineanas, e que continuam sendo objeto de processos judiciais em curso.”

O acordo da Orion CMC com a Glencore também implica que a entidade respaldada pelo governo dos EUA poderia estar envolvida em um dos casos de corrupção mais sórdidos da história recente da mineração da RDC.

O acordo coloca o grupo — e seus investidores, inclusive a DFC — em uma colaboração implícita com o multimilionário minerador israelense Dan Gertler, sancionado pelo Departamento do Tesouro dos EUA desde 2017.

A decisão do Tesouro de sancionar Gertler com base na Lei Magnitsky de 2012 fundamentou-se na avaliação de que o magnata israelense “fez sua fortuna mediante acordos opacos e corruptos no setor minerador e petroleiro da República Democrática do Congo no valor de centenas de milhões de dólares”. Gertler continuou extraindo benefícios econômicos de seus acordos com a Glencore graças a um mecanismo que lhe permite receber seus direitos minerários em euros, e não em dólares.

Em 2017, o Tesouro dos EUA estimou que o déficit orçamentário da RDC derivado dessas transações chegava a cerca de US$ 1,3 bilhão. Musk negou concorrer pela aquisição total da Glencore, mas um estudo sugere que o acordo da Tesla para a compra de seis mil toneladas de cobalto por ano da empresa anglo-suíça se traduz em cerca de US$ 4 milhões a US$ 5 milhões anuais em recursos para o multimilionário israelense.

“Talvez Dan Gertler seja a pessoa que mais lucrou com a riqueza mineral do Congo: construiu um sistema colossal de corrupção que, embora tenha sido sancionado pelo governo dos EUA, foi contornado com a cumplicidade da Glencore”, afirmou Mputu, do coletivo CNPAV. “Parece que todo o mundo se resignou a essa situação. Agora que Trump voltou ao poder, um de nossos temores é que essas sanções sejam revogadas para permitir que a Orion trabalhe com a Glencore.”

Nem a DFC nem a Orion responderam aos pedidos de comentário sobre o tema.

Não há dúvida de que, agora que os Estados Unidos retomam a corrida pelos recursos da RDC, outras prioridades estão emergindo no primeiro plano. Por sua vez, Trump não fez rodeios quando, em dezembro passado, celebrou o acordo na Casa Branca:

“Vamos extrair parte das terras raras, ficar com alguns dos ativos e pagar. Todo o mundo vai ganhar muito dinheiro”.

¨      Reservas de ouro da China sobem por 19 meses e fortalecem estratégia contra riscos globais, diz mídia

A China ampliou suas reservas de ouro pelo 19º mês seguido, alcançando 74,96 milhões de onças troy em maio e reforçando sua estratégia de diversificação em meio às incertezas globais. Segundo a mídia asiática, as reservas cambiais totais chinesas subiram para US$ 3,44 trilhões, o maior nível desde 2015.

De acordo com o Global Times, a China ampliou suas reservas de ouro pelo 19º mês consecutivo, reforçando sua estratégia de diversificação e proteção financeira em meio às incertezas globais. Segundo a Administração Estatal de Câmbio (SAFE, na sigla em inglês), o país alcançou 74,96 milhões de onças troy no fim de maio, após adicionar 320 mil onças em um mês.

Para o analista Zhao Qingming, consultado pela apuração, o avanço contínuo das compras ajuda a otimizar a estrutura das reservas internacionais e a blindar o país contra oscilações cambiais. Ele afirmou que, apesar do crescimento, a proporção de ouro nas reservas chinesas segue abaixo da média global, o que abre espaço para novas aquisições nos próximos meses.

Zhao destaca ainda que o ouro, por ser um ativo de refúgio seguro, fortalece a credibilidade internacional do yuan e sustenta sua internacionalização. A queda recente nos preços globais — com o ouro recuando para US$ 4.327 (R$ 22.380) por onça em Londres — é vista por ele como uma correção natural após quatro anos de forte valorização e formação de bolhas.

Paralelamente, as reservas cambiais totais da China atingiram US$ 3,442 trilhões (cerca de R$ 17,8 trilhões) no fim de maio, o maior nível desde 2015. O aumento mensal de US$ 31,7 bilhões (R$ 163,9 bilhões) foi impulsionado pela valorização do dólar e pela alta dos preços de ativos globais, segundo a SAFE.

A autoridade cambial afirma que o desempenho econômico doméstico tem sustentado a estabilidade das reservas, que permanecem acima de US$ 3,3 trilhões (mais de R$ 17,06 trilhões) há dez meses. A combinação de crescimento estável e políticas de desenvolvimento de alta qualidade reforça a resiliência financeira do país, aponta a mídia.

Diante de um cenário internacional marcado por ajustes monetários e volatilidade cambial, a China aposta na expansão das reservas de ouro e na manutenção de um colchão robusto de divisas como pilares para enfrentar riscos externos e fortalecer sua segurança econômica.

 

Fonte: El Ciudadano/Sputnik Brasil

 

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