quarta-feira, 10 de junho de 2026

Envelhecimento acelerado desafia sustentabilidade dos sistemas de saúde

O rápido envelhecimento da população brasileira tem imposto novos desafios ao sistema de saúde suplementar.  Segundo o Censo de 2023, o Brasil teve um aumento de 57,4% no período de doze anos, enquanto a parcela da população até 14 anos teve uma queda de cerca de 4%, o que exige mudanças estruturais para garantir a sustentabilidade do setor nas próximas décadas.

Mesmo que impondo desafios, o aumento da longevidade é, antes de tudo, uma conquista, destaca o diretor executivo da FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar), Bruno Sobral, em entrevista à CNN Brasil. "Primeiro, isso é uma boa notícia. Ela é resultado de uma melhor qualidade da atenção à saúde, de soluções mais eficazes e de uma melhor qualidade de vida da população", afirma.

No entanto, o executivo alerta que a mudança demográfica traz impactos significativos para o modelo de financiamento dos planos de saúde. Segundo ele, houve um aumento de 32% na participação de beneficiários com mais de 60 anos nas carteiras dos planos, enquanto a faixa entre 20 e 39 anos registrou redução de 12%. "Como é um sistema baseado em um mutualismo, no qual, de certa forma, os mais jovens ajudam a financiar os custos daqueles que utilizam mais os serviços. Quando a população envelhece, esse desafio aumenta muito", explica.

De acordo com o levantamento do IBGE, o Brasil dobrou sua população idosa em apenas duas décadas, e Sobral aponta que países europeus e os Estados Unidos levaram entre 70 e 100 anos para passar pelo mesmo processo.

Sobral aponta que, ao longo dos anos, houve também uma mudança no perfil das doenças, e, se antes predominavam enfermidades infecciosas, hoje ganham espaço doenças crônicas e degenerativas, que demandam tratamentos mais elaborados e custosos.  "São doenças que exigem acompanhamento contínuo, tecnologias mais avançadas e custos crescentes. Isso aumenta a pressão financeira sobre todo o sistema", afirma.

Outro desafio apontado pelo diretor-executivo da FenaSaúde é a escassez de profissionais especializados no atendimento à população idosa. Segundo ele, não se deve encarar o idoso como "saudável" ou "não saudável", mas sim em uma abordagem multidisciplinar que lhe garanta qualidade de vida, dando atenção à mobilidade, saúde mental e outros aspectos.

<><> Debate sobre mudanças regulatórias

Na avaliação do especialista, mudanças regulatórias precisam ser discutidas quando se trata de precificar o atendimento de idosos. "Hoje, você tem o risco de um colapso do sistema, uma vez que você tem menos pessoas que paguem o custo adicional gerado pelo envelhecimento da população", aponta o especialista.

Atualmente, a legislação limita os reajustes dos planos de saúde por faixa etária e impede aumentos após os 59 anos. Chamado de Pacto Intergeracional, foi criado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar como uma demanda do "Estatuto do Idoso", que buscava a não discriminação de idosos nos planos em razão da mudança de faixa etária.

Para Sobral, a regra dificulta uma precificação mais adequada do risco e pode acabar elevando excessivamente os custos para os beneficiários mais jovens. "Ninguém deseja aumentar o preço dos planos para os idosos. Mas, se não houver algum tipo de mudança, para que possa ter preços mais elevados em faixas mais idosas, o custo acaba repassando para os mais jovens, que podem não estar dispostos a participar desse sistema", argumenta.

O executivo ressalta que o tema exige amplo debate social, que a sociedade pense em uma forma de melhor precificar a nova realidade, e que assim encontremos mecanismos que preservem o equilíbrio financeiro da saúde suplementar.

Outra estratégia para lidar com o aumento da população com mais de 60 anos são programas de cuidados voltados aos idosos, o que é implementado por algumas operadoras. As iniciativas incluem acompanhamento médico especializado, incentivo à prática de exercícios físicos, ações de saúde mental e monitoramento contínuo dos pacientes. "Se você consegue melhorar a qualidade de vida do idoso, você consegue também reduzir custo. Cuidar melhor desse público, promover uma vida mais saudável, também é tarefa nossa. Acho que esse é o convite que a gente faz: que as pessoas cuidem da saúde para que elas possam viver melhor."

Ao projetar o futuro, Ribeiro acredita que o Brasil terá uma população majoritariamente mais velha e que será necessário promover mudanças não apenas no sistema de saúde, mas também na organização da sociedade e da economia. "As organizações sociais têm que se preparar para atuação não só como cuidadoras de um problema, para solucioná-lo, mas também como conselheiras no sentido de navegação pela, melhoria nas relações sociais, nos cuidados pessoais, que vamos ter um melhor resultado para todo mundo."

•        Envelhecer com autonomia: um desafio que o Brasil precisa enfrentar agora

Projeções indicam que o Brasil terá mais idosos do que jovens já nas próximas décadas. Isso nos impõe uma escolha: continuar enxergando a velhice como um problema ou assumi-la como uma responsabilidade coletiva e um valor social. O envelhecimento da população brasileira, segundo dados conduzidos pelo IBGE, revela que a população atingiu 203,1 milhões de habitantes, dos quais 32,1 milhões (15,6%) têm 60 anos ou mais, representando um aumento de 56% em relação ao ano de 2010.

Esse fenômeno reflete uma inversão na pirâmide etária brasileira, evidenciada pelo aumento da idade mediana da população de 29 anos em 2010 para 35 anos em 2022. As projeções do IBGE indicam que até 2070, cerca de 37,8% da população brasileira será composta por pessoas com 60 anos ou mais, totalizando aproximadamente 75,3 milhões de indivíduos.

O cenário reforça a necessidade de um planejamento estratégico que assegure qualidade de vida e autonomia para as futuras gerações de idosos.

Apesar do aumento na longevidade, muitos idosos enfrentam barreiras significativas para viver com autonomia. O envelhecimento é frequentemente associado a doenças crônicas, limitações físicas e cognitivas, além de fatores sociais como isolamento e vulnerabilidade econômica. Esses desafios exigem uma abordagem integrada que considere não apenas a saúde, mas também o acesso a serviços, transporte, moradia adequada e participação social.

<><> Políticas públicas: a lacuna entre o ideal e o real

Apesar do crescimento expressivo da população idosa no Brasil, a estrutura de políticas públicas voltadas para essa faixa etária permanece fragmentada, insuficiente e muitas vezes ineficaz. Essa lacuna coloca em risco não apenas a qualidade de vida na velhice, mas a própria autonomia funcional e social dos idosos. O crescimento da população idosa expõe a urgência de políticas públicas eficazes. É imperativo que o Estado invista em infraestrutura acessível, serviços de saúde adaptados às necessidades dos idosos e programas que promovam a inclusão social e a educação continuada.

De acordo com o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003), o envelhecimento deve ser assegurado com dignidade, liberdade e participação. Na prática, no entanto, a ausência de políticas públicas integradas e sustentáveis tem comprometido a materialização desses direitos. Muitos municípios, por exemplo, ainda não implementaram Conselhos Municipais do Idoso, nem executam planos locais de atenção integral à população idosa.

A falta de investimentos em cuidados continuados, habitação adaptada, acessibilidade urbana, transporte público inclusivo e centros de convivência compromete diretamente a capacidade dos idosos de manterem sua independência física e emocional. Além disso, a atenção primária em saúde, porta de entrada do SUS, muitas vezes não está equipada para lidar com as complexidades do envelhecimento — como doenças crônicas múltiplas, fragilidade e demência.

O resultado disso é um ciclo de vulnerabilidade: idosos que poderiam manter-se ativos e autônomos acabam precocemente institucionalizados, hospitalizados com frequência ou submetidos a cuidados informais precários, geralmente oferecidos por familiares também sobrecarregados e sem suporte do Estado. Ou seja, o país caminha para uma realidade em que a maior parte da população envelhecerá em um sistema social que ainda não se preparou adequadamente para acolhê-la.

<><> A autonomia como expressão da cidadania

Envelhecer com autonomia vai muito além de conseguir realizar atividades do dia a dia sem ajuda. Significa ter o direito de decidir sobre a própria vida, manter-se ativo socialmente, acessar serviços essenciais com dignidade e participar plenamente da comunidade. É, acima de tudo, uma expressão da cidadania.

É urgente implementar políticas de longo prazo que transcendam gestões governamentais e considerem o envelhecimento como uma pauta central de desenvolvimento nacional. Políticas urbanas inclusivas são indispensáveis. Hoje, grande parte das políticas e práticas voltadas à velhice são reativas — focadas em tratar consequências, e não em prevenir perdas de autonomia. O direito à saúde inclui mais do que consultas e medicamentos. Envolve acesso contínuo, integral e humanizado, com profissionais capacitados em geriatria e gerontologia, programas de prevenção de quedas, estímulo à atividade física e atenção à saúde mental. Um sistema de saúde que reconhece a singularidade da velhice é essencial para garantir autonomia.

Entre as ações prioritárias, destacam-se: fortalecimento da rede de atenção primária com foco na geriatria e gerontologia; implementação de políticas de “cidades amigáveis para idosos”; incentivo à formação de cuidadores e suporte a familiares; ampliação do acesso à tecnologia e educação digital para idosos, sendo uma estratégia poderosa contra o isolamento.

Em pleno século XXI, a velhice ainda é frequentemente associada à decadência, inutilidade e invisibilidade. Esse olhar reducionista não só desrespeita a trajetória de vida de milhões de pessoas, como também alimenta um sistema que marginaliza os idosos e naturaliza a exclusão social na velhice. Essa visão compromete diretamente a construção de uma cultura de dignidade, inclusão e prevenção da dependência.

Envelhecer não é sinônimo de adoecer ou de perder valor social. Ao contrário: o envelhecimento é uma conquista histórica da humanidade. Nunca se viveu tanto, e isso deveria ser motivo de celebração e planejamento coletivo.

O envelhecimento populacional é um fenômeno global que exige respostas adequadas e eficazes. No Brasil, é fundamental que profissionais da saúde, gestores públicos e a sociedade civil trabalhem juntos para criar um ambiente que permita aos idosos envelhecer com dignidade, saúde e autonomia.

Sem esse esforço, o Brasil corre o risco de se tornar uma sociedade onde o envelhecimento, ao invés de ser celebrado como conquista da longevidade, será vivido como abandono social. Uma sociedade que valoriza seus idosos, que investe na prevenção da dependência e que combate o preconceito etário, é uma sociedade que cuida melhor de todos.

Porque, no fim das contas, todos nós estamos envelhecendo. E o futuro de cada um depende das escolhas que fazemos agora.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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