quarta-feira, 10 de junho de 2026

Brasileiros x seleção brasileira

O distanciamento de uma maioria de brasileiros com a seleção de futebol do país e com a Copa do Mundo é um fenômeno real, complexo e comprovado em pesquisas de opinião. Um colunista da Folha de S. Paulo, Gustavo Alonso, doutor em história, autor de Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira e Simonal: quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga, em sua coluna do dia 23 de maio de 2026, levanta uma hipótese questionável para justificar esse afastamento.

“Os identitários de direita, leia-se os bolsonaristas, instrumentalizaram a camisa da seleção em manifestações da extrema-direita. Então, ela passou a ser esnobada pela esquerda, contribuindo para borrar a ideia de um time nacional acima das diferenças sociais particulares. Por sua vez, os identitários de esquerda jogaram luz sobre contradições históricas do país como o racismo, o machismo, a homofobia e os preconceitos difusos contra minorias em geral. Para estes, a ideia de se unir cegamente em torno de um símbolo nacional (a camisa, a bandeira, o hino) perdeu o sentido ou passou a ser vista com ceticismo”.

Eu me pergunto: antes desses “identitarismos”, na Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, a seleção brasileira não envergonhou a nação na goleada sofrida da Alemanha por 7×1?! Por essa pura razão futebolística não aconteceu o distanciamento?

Essa questão toca em uma transformação muito profunda da cultura política contemporânea: a crise dos grandes símbolos nacionais compartilhados e a fragmentação das identidades coletivas em sociedades altamente polarizadas, desiguais e mediadas por redes digitais.

No Brasil, a seleção de futebol durante décadas funcionou como um raro símbolo de integração nacional relativamente transversal. Ela permitia, ao menos simbolicamente, classes sociais distintas, regiões com desenvolvimentos díspares, grupos étnico-raciais apartados e orientações políticas de direita e de esquerda se reconhecessem momentaneamente em uma narrativa comum de “Brasil”.

Isso não eliminava conflitos reais, mas criava um imaginário nacional compartilhado. A seleção atuava como mito nacional integrador quando conquistou cinco Copas do Mundo.

Ajudava a construir a ideia de mestiçagem nacional, criatividade brasileira, alegria popular e talento vindo do povo. Ela funcionava quase como religião civil, ritual nacional e narrativa emocional do país.

A apropriação política dos símbolos nacionais, a partir de meados da década de 2010, com o golpismo de direita contra o governo petista reeleito. Ocorreu forte politização dos símbolos nacionais – camisa amarela, bandeira e hino nacional – com a direita se apresentando como fosse ultranacionalista.

Movimentos ligados ao bolsonarismo passaram a utilizar intensamente a camisa da seleção, as cores nacionais e um suposto patriotismo visual. Isso gerou em parte da esquerda uma elevada rejeição, desconforto com torcida para aquela camisa e distanciamento simbólico. Muitos cidadãos passaram a perceber a camisa amarela não mais como símbolo nacional neutro, mas como marcador político-partidário.

Em certa medida, isso enfraqueceu a ideia de “nação unificada”. Mas o processo é mais amplo e global.

Em várias sociedades contemporâneas, com o aparecimento do neofascismo ultranacionalista e xenófobo, ocorreu erosão das identidades nacionais homogêneas, fragmentação cultural, polarização política e fortalecimento de identidades específicas.

Quanto ao papel dos movimentos identitários de esquerda, é necessário reconhecer os movimentos identitários contemporâneos – feministas, negros antirracistas, indígenas, LGBTQIA+ – trouxeram à tona contradições históricas antes frequentemente invisibilizadas. Eles questionaram narrativas nacionais como “o povo brasileiro”, “a democracia racial” e “a cordialidade nacional” como se fossem experiências universais compartilhadas igualmente por todos.

A análise das causas de mortalidade no Brasil, por exemplo, revela: a cor da pele e o gênero influenciam diretamente o tipo de risco enfrentado pelo cidadão. Para os homens, a elevada exposição à violência é o fator mais alarmante: quase metade da diferença de longevidade entre brancos e negros deve-se a causas externas, especialmente homicídios ao vitimarem jovens entre 15 e 34 anos.

Caso essa sobremortalidade por violência fosse neutralizada, a diferença de expectativa de vida entre homens negros e brancos seria reduzida.

A crítica central não é necessariamente “o Brasil não existe”. Mas sim quem foi incluído na narrativa nacional? Quem foi excluído? Quem definiu o significado de “ser brasileiro”? Por exemplo, povos indígenas, negros, mulheres e homossexuais costumavam ser subordinados, invisibilizados, estereotipados ou apenas simbolicamente incorporados. Por isso, o “universal” passou a ser visto com desconfiança.

Muitos movimentos contemporâneos passaram a enxergar discursos nacionalistas como mascaramento de desigualdades, apagamento de experiências específicas e homogeneização artificial. Assim, “somos todos iguais” pode soar, para alguns grupos, como invisibilização de opressões concretas.

Mas isso não significa necessariamente abandono total da ideia de Brasil porque há uma nuance importante. Nem todos os movimentos identitários rejeitam a identidade nacional ou defendem a fragmentação absoluta.

Muitos tentam justamente redefinir o significado do nacional, ampliar quem é reconhecido e pluralizar a ideia de povo. Logo, não se trata de eliminar o Brasil, mas sim disputar o significado de “Brasil”.

Sim, claramente, a seleção de futebol perdeu o monopólio simbólico do “ser brasileiro”. Durante décadas, samba, futebol, carnaval e seleção funcionavam como símbolos centrais da brasilidade.

Hoje, a identidade nacional compete com identidades de gênero, raça, território, religião, consumo, redes digitais, correntes políticas e culturas globais. A sociedade tornou-se muito mais fragmentada simbolicamente.

A globalização e as redes sociais aceleraram isso. As redes digitais segmentam públicos, criam bolhas ou “câmeras de eco”, reforçam pertencimentos específicos e favorecem microidentidades. Ao mesmo tempo, diminuem experiências nacionais simultâneas.

Antigamente, quase todo o país assistia aos mesmos programas e jogos. Hoje, o consumo cultural é fragmentado e as referências comuns diminuíram.

O futebol também perdeu centralidade cultural absoluta. A seleção ainda é importante, mas já não ocupa posição hegemônica absoluta no imaginário nacional. Há vários fatores explicativos desse fenômeno: hipermercantilização do futebol, jogadores distantes do cotidiano popular, carreiras internacionais, enfraquecimento da identificação local, polarização política e multiplicação de referências culturais globais.

Quanto ao risco da fragmentação absoluta, é uma tensão central contemporânea. Se toda identidade coletiva ampla for dissolvida, sobra apenas fragmentação de grupos, competição simbólica permanente e ausência de projeto comum. Isso pode dificultar solidariedade nacional, políticas universais e imaginação coletiva de futuro.Por outro lado, ignorar diferenças históricas concretas como as raciais, sociais, de gênero e territoriais também produz exclusão e ressentimento.

Talvez o grande desafio contemporâneo seja exatamente este: como construir identidade nacional democrática, plural e inclusiva sem apagar diferenças nem dissolver completamente a ideia de coletividade nacional? Como articular universalidade, diversidade, pertencimento comum e reconhecimento das diferenças?

Essa tensão hoje atravessa o futebol, a política, a cultura, a educação e o próprio significado simbólico de “Brasil”.

 

Fonte: Por Fernando Nogueira da Costa, em A Terra é Redonda

 

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