quinta-feira, 11 de junho de 2026

Como plataformas digitais transformam política em comportamento de enxame

Durante muito tempo, a ideia de inteligência esteve associada ao indivíduo. O ser humano racional, autônomo e consciente ocuparia o centro da ação política e social. Mas a natureza oferece exemplos desconfortáveis de sistemas altamente organizados nos quais o comportamento coletivo não depende da consciência individual de seus integrantes. Abelhas, formigas e cupins constroem estruturas complexas, distribuem tarefas, tomam decisões coletivas e defendem suas colônias, sem que exista propriamente uma consciência central coordenando cada ação individual. A inteligência deixa de residir exclusivamente no indivíduo e passa a emergir das interações da rede. Uma formiga isolada é quase incapaz de sobreviver por muito tempo. O que chamamos de “colônia” funciona, na prática, como um superorganismo distribuído, no qual cada indivíduo atua como uma célula de um sistema maior. A coordenação coletiva ocorre por meio de sinais químicos – os feromônios – que orientam trajetórias, organizam ataques, identificam inimigos e sincronizam comportamentos. Mais do que simples comunicação, os feromônios produzem a coesão sistêmica. Eles permitem que milhares ou milhões de indivíduos operem como se compartilhassem uma única lógica organizadora. A colônia reage, adapta-se, defende-se e expande-se sem depender de consciência centralizada permanente. Talvez seja precisamente esse o ponto mais inquietante da analogia contemporânea. Não porque seres humanos tenham se tornado, literalmente, insetos eusociais, mas porque plataformas digitais passaram a criar ambientes de hipercoordenação emocional capazes de progressivamente reduzir a autonomia cognitiva dos indivíduos em favor de dinâmicas coletivas de enxame.

<><> Os novos feromônios

Nos insetos eusociais, feromônios funcionam como a infraestrutura invisível da colônia. Eles indicam caminhos, acionam respostas defensivas, reforçam pertencimento e mantêm a coesão do grupo. Nas plataformas digitais, memes, hashtags, vídeos curtos, áudios virais, correntes de WhatsApp e algoritmos de recomendação passaram a desempenhar função análoga. Não transportam substâncias químicas, mas sim estímulos emocionais sincronizados em tempo real. Os feromônios das colmeias digitais são algorítmicos. Em ecossistemas políticos radicalizados, o indivíduo opera raramente de maneira isolada. Sua percepção do mundo é continuamente reforçada por uma arquitetura comunicacional que combina indignação permanente, pertencimento tribal, repetição memética e hostilidade ao dissenso. A sociedade contemporânea passou a operar crescentemente por meio de estruturas de poder organizadas em redes digitais distribuídas, capazes de conectar comunicação, identidade e mobilização política em tempo real.

O radicalizado não é apenas alguém que possui determinadas opiniões. Ele se torna um nó de uma rede emocionalmente sincronizada. O indivíduo experimenta a redução da angústia ao dissolver sua singularidade em um corpo coletivo maior, no qual medo, responsabilidade e identidade passam a ser compartilhados. Décadas antes, Freud já havia observado que, nas massas organizadas, o indivíduo tende a suspender parcialmente suas capacidades críticas e a transferir sua autonomia psíquica para o grupo e para a figura do líder, produzindo formas intensas de identificação emocional coletiva. Sua identidade política passa a depender do fluxo contínuo de estímulos provenientes da colmeia digital. Quando afastado desse ecossistema – grupos, canais, vídeos, cultos, lives, influencers e redes de reforço emocional –, parte significativa da intensidade do comportamento tende a enfraquecer. Talvez por isso muitos processos contemporâneos de radicalização se assemelhem menos à conversão intelectual tradicional e mais à imersão ecológica em ambientes informacionais fechados. O indivíduo passa a respirar permanentemente a mesma atmosfera simbólica. Os mesmos medos, os mesmos inimigos, as mesmas palavras de ordem e os mesmos afetos circulam continuamente pela rede. Aqui, a analogia com insetos eusociais deixa de ser mera metáfora estética e passa a adquirir dimensão estrutural. Em colônias de formigas ou cupins, o indivíduo não carrega internamente todas as informações necessárias para orientar seu comportamento. A inteligência encontra-se distribuída pelo sistema. O mesmo parece ocorrer em ecossistemas políticos fortemente mediados por plataformas digitais.

<><> Pastores, influencers e soldados do enxame

Nas colônias eusociais, diferentes castas desempenham funções específicas: defesa, exploração, manutenção e reprodução. Em sistemas políticos altamente radicalizados, estruturas semelhantes emergem espontaneamente. Influenciadores digitais amplificam narrativas e produzem mobilização contínua. Pastores oferecem legitimação moral e transcendência simbólica. Militâncias digitais executam ataques coordenados contra adversários e dissidentes. Empresários e financiadores garantem sustentação material. Plataformas distribuem alcance e priorizam conteúdos emocionalmente mais explosivos. Frequentemente, nem mesmo é necessário que exista uma coordenação explícita. O sistema aprende a se autorregular. Os participantes internalizam padrões de reação, reconhecem sinais de pertencimento e passam a responder automaticamente aos estímulos emitidos pela própria rede.

A lógica do enxame substitui progressivamente os mecanismos tradicionais de deliberação racional. A velocidade da circulação emocional passa a importar mais do que a verificação factual, a coerência argumentativa ou a reflexão crítica. O sistema privilegia respostas rápidas, o alinhamento afetivo e a sincronização grupal. Talvez por isso determinados movimentos contemporâneos revelem enorme capacidade de mobilização instantânea e, simultaneamente, extrema dificuldade de convivência com o pluralismo, a dúvida ou a ambiguidade. Como ocorre em sistemas imunológicos, o dissidente deixa de ser percebido como alguém que diverge. Passa a ser tratado como um corpo estranho. O debate deixa de ser concebido como confronto legítimo entre perspectivas distintas e passa a funcionar segundo lógica sanitária: eliminar contaminações simbólicas capazes de ameaçar a integridade emocional da colmeia. A linguagem frequentemente assume características imunológicas: “infiltrado”, “traidor”, “vendido”, “comunista”, “globalista”, “herege”. O objetivo já não é debater, mas sim neutralizar elementos percebidos como uma ameaça à integridade simbólica da colmeia. Essa dinâmica ajuda a explicar por que movimentos de tipo sectário frequentemente apresentam enorme dificuldade de convivência com instituições pluralistas. Democracias dependem de dissenso legítimo. Colmeias, não. Como observou Hannah Arendt ao analisar os regimes totalitários do século XX, a destruição da pluralidade humana constitui condição essencial para sistemas políticos que buscam dissolver o indivíduo em identidades coletivas totalizantes.

<><> A rainha e a colônia

Nas colônias de insetos eusociais, a rainha exerce papel biológico e organizador central. Sua presença mantém a estabilidade química e funcional do sistema. Quando a rainha desaparece ou perde a capacidade de coordenação, a colônia frequentemente entra em desorganização, disputa interna ou colapso gradual. A analogia ajuda a compreender um dos dilemas atuais do bolsonarismo radical.

Desde a campanha de 2018, Jair Bolsonaro passou a funcionar não apenas como liderança política, mas sobretudo como o principal núcleo de coesão emocional do ecossistema bolsonarista. Em torno de sua figura convergiam ressentimentos, medos, crenças religiosas, teorias conspiratórias, antipetismo, militarismo e fortes mecanismos de pertencimento grupal. Mais do que um programa político coerente, o bolsonarismo estruturou-se como uma arquitetura afetiva centrada no líder, simultaneamente referência moral, catalisador emocional e mecanismo de sincronização do enxame. Mas sistemas altamente dependentes de liderança carismática enfrentam dificuldades quando o centro organizador se fragiliza.

Inelegibilidade, desgaste político, investigações judiciais, divisões internas e perda gradual de capacidade mobilizadora criam um problema estrutural: como preservar a coesão do enxame sem a presença plenamente funcional da “rainha”? O sistema tenta responder distribuindo funções entre influencers, parlamentares, pastores, militares e plataformas digitais. Mas isso produz tensões permanentes de sucessão, competição e fragmentação. Em ecossistemas desse tipo, a ausência progressiva da liderança central frequentemente não produz moderação. Pode produzir exatamente o contrário: radicalização crescente, disputas de pureza ideológica e proliferação de facções concorrentes tentando reivindicar a herança simbólica do líder original. Em colônias naturais, a perda da rainha frequentemente desencadeia desorganização. Em sistemas humanos altamente polarizados, o enfraquecimento do centro organizador pode produzir paranoia crescente e busca desesperada por novos mecanismos de coesão.

<><> As plataformas que fabricam enxames

Talvez o aspecto mais inquietante das colmeias humanas contemporâneas não seja apenas a existência de líderes carismáticos, mas também a infraestrutura tecnológica capaz de produzir sincronização emocional em escala planetária. As colmeias digitais não emergem espontaneamente da sociedade. Elas são produzidas, moduladas e amplificadas por arquiteturas tecnológicas desenhadas para maximizar a captura da atenção, o engajamento emocional e a permanência nas plataformas. Esse talvez seja um dos aspectos mais importantes – e frequentemente menos discutidos – da nova ecologia informacional contemporânea. As plataformas digitais não funcionam apenas como meios neutros de comunicação. Elas operam como sistemas ativos de modulação comportamental. Seu modelo econômico depende da atenção contínua dos usuários. E, nesse ambiente competitivo, conteúdos emocionalmente intensos tendem a possuir enorme vantagem adaptativa. Indignação, medo, ressentimento, paranoia, escândalo e conflito geram mais compartilhamentos, mais comentários, mais tempo de permanência e maior circulação algorítmica. A própria lógica econômica das plataformas favorece, assim, dinâmicas de polarização emocional e sincronização coletiva.

As colmeias humanas do século XXI possuem infraestrutura corporativa. As plataformas não apenas hospedam enxames digitais. Elas possuem incentivos econômicos para produzi-los.A radicalização política deixa então de ser apenas um fenômeno ideológico ou psicológico. Ela passa a integrar modelos de negócio baseados em vigilância comportamental, mineração de dados e engenharia algorítmica da atenção. Nesse ambiente, algoritmos aprendem continuamente quais estímulos produzem maior ativação emocional nos usuários. O sistema identifica medos, preferências, vulnerabilidades, ressentimentos e padrões de comportamento, retroalimentando-os em ciclos sucessivos de reforço cognitivo. Os feromônios das colmeias digitais são produzidos industrialmente. Talvez por isso o comportamento de enxame contemporâneo apresente intensidade sem precedentes históricos. Nunca existiu, em nenhuma época, infraestrutura comunicacional capaz de sincronizar afetos, medos e reações de centenas de milhões de indivíduos em tempo real. A arquitetura técnica das plataformas favorece respostas rápidas, impulsivas e emocionalmente carregadas. A reflexão lenta torna-se uma desvantagem competitiva em ecossistemas governados por velocidade, visibilidade e engajamento.

O próprio desenho das redes estimula mimetismo coletivo. Quanto mais compartilhado um conteúdo, maior sua legitimidade aparente. Quanto mais intensa a reação emocional, maior sua circulação algorítmica. O enxame aprende continuamente consigo mesmo. Em consequência, plataformas digitais tendem a funcionar menos como espaços públicos deliberativos e mais como sistemas de amplificação emocional em larga escala. Talvez seja precisamente essa combinação entre capitalismo de vigilância, arquitetura algorítmica e sincronização afetiva que esteja criando as condições para formas inéditas de eusocialidade simbólica entre humanos.

<><> Do rádio às plataformas: a industrialização da sincronização social

A tentativa de sincronizar emocionalmente grandes massas humanas não surgiu com as redes sociais. O século XX já havia testemunhado formas poderosas de coordenação coletiva mediadas por tecnologias de comunicação de massa. Poucos exemplos foram tão emblemáticos quanto o uso político do rádio durante a consolidação do nazismo na Alemanha. Sob a direção de Joseph Goebbels, o regime compreendeu precocemente que o controle da infraestrutura comunicacional seria decisivo para moldar percepções, emoções e pertencimentos coletivos. O rádio deixava de ser apenas um meio de informação. Tornava-se instrumento de sincronização social. O governo nazista incentivou massivamente a produção do Volksempfänger – o “rádio do povo” –, aparelho de baixo custo projetado para ampliar o alcance da propaganda estatal. Discursos de Hitler, cerimônias públicas, marchas e palavras de ordem passaram a penetrar simultaneamente milhões de lares alemães. A repetição contínua produzia um efeito cumulativo de imersão simbólica.

O indivíduo deixava progressivamente de perceber suas emoções como experiências privadas e passava a compartilhá-las coletivamente em tempo real. Medos, ressentimentos, humilhações nacionais, paranoias conspiratórias e promessas de redenção eram continuamente reforçados por uma ecologia comunicacional centralizada e altamente coordenada. A tecnologia permitia transformar multidões dispersas em uma massa emocionalmente sincronizada.

No Brasil, o Estado Novo de Getúlio Vargas também compreendeu precocemente o poder das novas tecnologias de comunicação na construção de pertencimento político e da identidade nacional. Sob a direção de Lourival Fontes, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) coordenou uma vasta máquina de produção simbólica voltada à consolidação da imagem de Vargas como líder nacional e mediador paternal da sociedade brasileira. Mais uma vez, o rádio desempenhou um papel central nesse processo. Discursos oficiais, programas culturais, campanhas cívicas e cadeias nacionais ajudavam a produzir uma sensação de simultaneidade emocional entre regiões social e culturalmente muito distintas do país. Ainda se tratava de uma lógica vertical, centralizada e unidirecional. Mas já era possível perceber o potencial das tecnologias de comunicação para transformar populações dispersas em comunidades afetivamente sincronizadas. Outros regimes autoritários compreenderam rapidamente o mesmo fenômeno. Na Itália fascista, o rádio desempenhou papel central na construção do culto à personalidade de Mussolini. Na União Soviética stalinista, cinema, imprensa e radiodifusão foram utilizados para alcançar a homogeneização ideológica em escala continental. Durante a Revolução Cultural chinesa, megafones, jornais murais e sessões públicas de mobilização coletiva desempenharam funções semelhantes de sincronização simbólica. Mesmo em democracias liberais, a expansão da televisão ao longo da segunda metade do século XX ampliou enormemente a capacidade de coordenação afetiva das sociedades contemporâneas. Guerras, eleições, crises econômicas e grandes eventos passaram a ser vividos simultaneamente por populações inteiras.

<><> Da árvore ao enxame

Durante grande parte do século XX, os sistemas de comunicação de massa operavam segundo uma lógica essencialmente arbórea ou radicular. A informação partia de centros relativamente bem definidos – emissoras de rádio, jornais, redes de televisão, aparelhos de propaganda estatal – e se espalhava de maneira hierárquica pela sociedade. Mesmo regimes altamente autoritários dependiam de estruturas relativamente centralizadas de emissão simbólica. O fluxo comunicacional possuía uma direção previsível: poucos falavam para muitos. O rádio, a televisão e os jornais operavam predominantemente segundo a lógica unidirecional: poucos emissores transmitiam mensagens relativamente homogêneas para as grandes audiências. As plataformas digitais introduziram algo qualitativamente novo.

O modelo contemporâneo aproxima-se menos de uma árvore hierárquica e mais de sistemas distribuídos de tipo enxame. A informação já não depende exclusivamente de centros fixos de emissão. Ela circula horizontalmente, replica-se em cascata, adapta-se continuamente e reorganiza-se em tempo real. Elas combinam comunicação horizontal, vigilância comportamental contínua, personalização algorítmica e retroalimentação emocional em tempo real. Cada indivíduo passa a receber fluxos informacionais ajustados dinamicamente às suas vulnerabilidades cognitivas, preferências emocionais e padrões prévios de comportamento. Nesse novo ambiente, memes, vídeos, hashtags, correntes de mensagens e algoritmos passam a operar de maneira funcionalmente semelhante aos feromônios das colônias eusociais: sinais simples, mas capazes de produzir coordenação coletiva altamente complexa. O enxame deixa então de ser apenas massa mobilizada. Passa a funcionar como um sistema adaptativo autorregulado. Talvez resida aí a singularidade histórica das colmeias digitais contemporâneas: pela primeira vez, as infraestruturas tecnológicas permitem a sincronização emocional massiva, sem a necessidade permanente de um comando central explícito. O próprio sistema aprende, adapta-se e reorganiza-se continuamente.

<><> Cambridge Analytica e a engenharia do enxame

A passagem da propaganda de massas clássica para a engenharia algorítmica do comportamento político talvez tenha alcançado sua expressão mais emblemática no caso da Cambridge Analytica, empresa britânica de consultoria política e análise de dados ligada ao estrategista norte-americano Steve Bannon e financiada pelo bilionário Robert Mercer, cientista da computação, investidor e importante financiador de organizações conservadoras e nacionalistas nos Estados Unidos. A empresa ganhou notoriedade internacional ao utilizar dados extraídos de redes sociais – especialmente do Facebook – para construir perfis psicométricos detalhados de milhões de usuários, identificando traços de personalidade, medos, vulnerabilidades emocionais e predisposições políticas. O objetivo já não era apenas difundir propaganda homogênea para grandes audiências, como ocorria nos sistemas clássicos de comunicação de massa. Tratava-se agora de personalizar estímulos emocionais e mensagens políticas para segmentos específicos da população, explorando medos, ressentimentos e predisposições cognitivas de maneira altamente segmentada. A Cambridge Analytica tornou-se particularmente conhecida por seu envolvimento nas campanhas do Brexit, no Reino Unido, e na primeira eleição presidencial de Donald Trump, em 2016. Steve Bannon, que integrava o conselho da empresa antes de assumir um papel central na campanha de Trump, enxergava nas novas tecnologias de microtargeting político uma ferramenta poderosa para intensificar a polarização, a mobilização emocional e o comportamento tribal em ambientes digitais.

O cientista de dados Michal Kosinski havia demonstrado anteriormente que padrões de comportamento digital – curtidas, compartilhamentos e interações –, aparentemente banais, permitiam inferir características psicológicas com surpreendente precisão. A perspectiva de aplicar esses métodos à disputa política chamou rapidamente a atenção de atores como Steve Bannon e da própria Cambridge Analytica. A lógica da propaganda política sofria então uma mutação profunda. Durante grande parte do século XX, líderes, partidos e governos buscavam persuadir multidões. Agora passava a ser possível influenciar indivíduos específicos, explorando suas vulnerabilidades psicológicas de maneira personalizada. A propaganda deixava de ser massiva para tornar-se cirúrgica. Ao mesmo tempo, autores como Eli Pariser passaram a alertar para o surgimento das chamadas “bolhas de filtro”, ambientes digitais nos quais algoritmos tendem a reforçar continuamente crenças, preferências e visões de mundo já existentes, reduzindo exposição ao contraditório e intensificando processos de radicalização cognitiva. A lógica da propaganda política sofria então uma mutação profunda. Em vez de mensagens padronizadas irradiadas para toda a população, as plataformas digitais permitiam a microsegmentação contínua de estímulos emocionais adaptados a diferentes perfis psicológicos. A comunicação política aproximava-se cada vez mais do funcionamento de sistemas eusociais distribuídos. O enxame já não precisava apenas ser mobilizado. Precisava ser permanentemente calibrado, estimulado e sincronizado em tempo real.

<><> Quem controla os feromônios digitais

À medida que as plataformas digitais se tornam infraestrutura central da vida social, econômica e política, a disputa contemporânea pelo poder passa de modo crescente pelo controle dos fluxos de informação, vigilância e modulação comportamental. As Big Techs deixaram de funcionar apenas como empresas de tecnologia. Tornaram-se arquiteturas privadas de coordenação social em escala planetária. Diferentemente dos sistemas de propaganda do século XX, que dependiam principalmente de Estados nacionais, a nova infraestrutura informacional encontra-se concentrada em um número reduzido de corporações privadas capazes de operar simultaneamente em escala global. Pela primeira vez na história, empresas privadas dispõem de capacidade técnica para observar, classificar, segmentar e influenciar bilhões de indivíduos em tempo real. A questão central deixa então de ser apenas quem controla o Estado. Passa a ser também quem controla as infraestruturas que moldam a percepção da realidade. Em sociedades cada vez mais mediadas por plataformas digitais, o poder de definir quais informações circulam, quais emoções são amplificadas e quais narrativas recebem visibilidade torna-se um dos principais instrumentos de influência política do século XXI. Seu poder já não reside apenas na capacidade de armazenar dados, mas também de identificar padrões, antecipar comportamentos, modular preferências e influenciar dinâmicas coletivas em tempo real.

Empresas como a Palantir – originalmente associada a sistemas de inteligência, análise de dados e segurança – ajudam a revelar a crescente convergência entre vigilância algorítmica, inteligência artificial e poder político. O monitoramento contínuo de populações, fluxos financeiros, deslocamentos, redes de relacionamento e padrões de comportamento passa a integrar uma nova infraestrutura de gestão social baseada em dados massivos. Em ecossistemas digitais altamente conectados, a vigilância e a modulação tornam-se processos inseparáveis. O sistema aprende continuamente não apenas a observar o enxame, mas também a influenciar sua direção, intensidade emocional e padrões de reação. Talvez o maior risco contemporâneo não seja apenas a existência de colmeias humanas digitais, mas a crescente concentração privada da capacidade de produzir, monitorar e direcionar seus feromônios algorítmicos.

<><> O desaparecimento silencioso do indivíduo

Talvez o aspecto mais inquietante das colmeias humanas contemporâneas não seja a existência de líderes carismáticos, mas a gradual dissolução da autonomia individual. Plataformas digitais recompensam conformidade emocional, respostas rápidas, indignação permanente e pertencimento tribal. A reflexão lenta torna-se uma desvantagem competitiva dentro da lógica algorítmica. A própria arquitetura técnica das redes favorece comportamentos miméticos. Conteúdos emocionalmente intensos recebem mais engajamento. O algoritmo amplifica reações rápidas. O pertencimento grupal gera recompensas psicológicas contínuas. A dissidência produz punição simbólica imediata. Progressivamente, a política deixa de funcionar como espaço de deliberação e passa a operar como um circuito fechado de estímulos afetivos sincronizados. Talvez estejamos assistindo ao surgimento da primeira infraestrutura tecnológica capaz de induzir comportamentos de enxame em escala planetária e em tempo real. Nunca existiu democracia sem indivíduos capazes de sustentar pensamento autônomo diante da pressão do grupo. Talvez o maior perigo das colmeias humanas do século XXI não seja a obediência imposta pela força, mas a entrega voluntária da própria capacidade de pensar ao conforto emocional da colônia. Humanos não são formigas. Mas talvez as plataformas digitais estejam criando, pela primeira vez na história, condições tecnológicas para que parcelas inteiras da vida política passem a funcionar como se fossem. A questão decisiva já não é apenas se estamos formando colmeias humanas. É quem controla seus feromônios.

 

Fonte: Por Celso P. de Melo, no Le Monde 

 

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