Como
plataformas digitais transformam política em comportamento de enxame
Durante
muito tempo, a ideia de inteligência esteve associada ao indivíduo. O ser
humano racional, autônomo e consciente ocuparia o centro da ação política e
social. Mas a natureza oferece exemplos desconfortáveis de sistemas altamente
organizados nos quais o comportamento coletivo não depende da consciência
individual de seus integrantes. Abelhas, formigas e cupins constroem estruturas
complexas, distribuem tarefas, tomam decisões coletivas e defendem suas
colônias, sem que exista propriamente uma consciência central coordenando cada
ação individual. A inteligência deixa de residir exclusivamente no indivíduo e
passa a emergir das interações da rede. Uma formiga isolada é quase incapaz de
sobreviver por muito tempo. O que chamamos de “colônia” funciona, na prática,
como um superorganismo distribuído, no qual cada indivíduo atua como uma célula
de um sistema maior. A coordenação coletiva ocorre por meio de sinais químicos
– os feromônios – que orientam trajetórias, organizam ataques, identificam
inimigos e sincronizam comportamentos. Mais do que simples comunicação, os
feromônios produzem a coesão sistêmica. Eles permitem que milhares ou milhões
de indivíduos operem como se compartilhassem uma única lógica organizadora. A
colônia reage, adapta-se, defende-se e expande-se sem depender de consciência
centralizada permanente. Talvez seja precisamente esse o ponto mais inquietante
da analogia contemporânea. Não porque seres humanos tenham se tornado,
literalmente, insetos eusociais, mas porque plataformas digitais passaram a
criar ambientes de hipercoordenação emocional capazes de progressivamente
reduzir a autonomia cognitiva dos indivíduos em favor de dinâmicas coletivas de
enxame.
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Os novos feromônios
Nos
insetos eusociais, feromônios funcionam como a infraestrutura invisível da
colônia. Eles indicam caminhos, acionam respostas defensivas, reforçam
pertencimento e mantêm a coesão do grupo. Nas plataformas digitais, memes,
hashtags, vídeos curtos, áudios virais, correntes de WhatsApp e algoritmos de
recomendação passaram a desempenhar função análoga. Não transportam substâncias
químicas, mas sim estímulos emocionais sincronizados em tempo real. Os
feromônios das colmeias digitais são algorítmicos. Em ecossistemas políticos radicalizados,
o indivíduo opera raramente de maneira isolada. Sua percepção do mundo é
continuamente reforçada por uma arquitetura comunicacional que combina
indignação permanente, pertencimento tribal, repetição memética e hostilidade
ao dissenso. A sociedade contemporânea passou a operar crescentemente por meio
de estruturas de poder organizadas em redes digitais distribuídas, capazes de
conectar comunicação, identidade e mobilização política em tempo real.
O
radicalizado não é apenas alguém que possui determinadas opiniões. Ele se torna
um nó de uma rede emocionalmente sincronizada. O indivíduo experimenta a
redução da angústia ao dissolver sua singularidade em um corpo coletivo maior,
no qual medo, responsabilidade e identidade passam a ser compartilhados.
Décadas antes, Freud já havia observado que, nas massas organizadas, o
indivíduo tende a suspender parcialmente suas capacidades críticas e a
transferir sua autonomia psíquica para o grupo e para a figura do líder,
produzindo formas intensas de identificação emocional coletiva. Sua identidade
política passa a depender do fluxo contínuo de estímulos provenientes da
colmeia digital. Quando afastado desse ecossistema – grupos, canais, vídeos,
cultos, lives, influencers e redes de reforço emocional –,
parte significativa da intensidade do comportamento tende a enfraquecer. Talvez
por isso muitos processos contemporâneos de radicalização se assemelhem menos à
conversão intelectual tradicional e mais à imersão ecológica em ambientes
informacionais fechados. O indivíduo passa a respirar permanentemente a mesma
atmosfera simbólica. Os mesmos medos, os mesmos inimigos, as mesmas palavras de
ordem e os mesmos afetos circulam continuamente pela rede. Aqui, a analogia com
insetos eusociais deixa de ser mera metáfora estética e passa a adquirir
dimensão estrutural. Em colônias de formigas ou cupins, o indivíduo não carrega
internamente todas as informações necessárias para orientar seu comportamento.
A inteligência encontra-se distribuída pelo sistema. O mesmo parece ocorrer em
ecossistemas políticos fortemente mediados por plataformas digitais.
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Pastores, influencers e soldados do enxame
Nas
colônias eusociais, diferentes castas desempenham funções específicas: defesa,
exploração, manutenção e reprodução. Em sistemas políticos altamente
radicalizados, estruturas semelhantes emergem espontaneamente. Influenciadores
digitais amplificam narrativas e produzem mobilização contínua. Pastores
oferecem legitimação moral e transcendência simbólica. Militâncias digitais
executam ataques coordenados contra adversários e dissidentes. Empresários e
financiadores garantem sustentação material. Plataformas distribuem alcance e
priorizam conteúdos emocionalmente mais explosivos. Frequentemente, nem mesmo é
necessário que exista uma coordenação explícita. O sistema aprende a se
autorregular. Os participantes internalizam padrões de reação, reconhecem sinais
de pertencimento e passam a responder automaticamente aos estímulos emitidos
pela própria rede.
A
lógica do enxame substitui progressivamente os mecanismos tradicionais de
deliberação racional. A velocidade da circulação emocional passa a importar
mais do que a verificação factual, a coerência argumentativa ou a reflexão
crítica. O sistema privilegia respostas rápidas, o alinhamento afetivo e a
sincronização grupal. Talvez por isso determinados movimentos contemporâneos
revelem enorme capacidade de mobilização instantânea e, simultaneamente,
extrema dificuldade de convivência com o pluralismo, a dúvida ou a ambiguidade.
Como ocorre em sistemas imunológicos, o dissidente deixa de ser percebido como
alguém que diverge. Passa a ser tratado como um corpo estranho. O debate deixa
de ser concebido como confronto legítimo entre perspectivas distintas e passa a
funcionar segundo lógica sanitária: eliminar contaminações simbólicas capazes
de ameaçar a integridade emocional da colmeia. A linguagem frequentemente
assume características imunológicas: “infiltrado”, “traidor”, “vendido”,
“comunista”, “globalista”, “herege”. O objetivo já não é debater, mas sim
neutralizar elementos percebidos como uma ameaça à integridade simbólica da
colmeia. Essa dinâmica ajuda a explicar por que movimentos de tipo sectário
frequentemente apresentam enorme dificuldade de convivência com instituições
pluralistas. Democracias dependem de dissenso legítimo. Colmeias, não. Como
observou Hannah Arendt ao analisar os regimes totalitários do século XX, a
destruição da pluralidade humana constitui condição essencial para sistemas
políticos que buscam dissolver o indivíduo em identidades coletivas
totalizantes.
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A rainha e a colônia
Nas
colônias de insetos eusociais, a rainha exerce papel biológico e organizador
central. Sua presença mantém a estabilidade química e funcional do sistema.
Quando a rainha desaparece ou perde a capacidade de coordenação, a colônia
frequentemente entra em desorganização, disputa interna ou colapso gradual. A
analogia ajuda a compreender um dos dilemas atuais do bolsonarismo radical.
Desde a
campanha de 2018, Jair Bolsonaro passou a funcionar não apenas como liderança
política, mas sobretudo como o principal núcleo de coesão emocional do
ecossistema bolsonarista. Em torno de sua figura convergiam ressentimentos,
medos, crenças religiosas, teorias conspiratórias, antipetismo, militarismo e
fortes mecanismos de pertencimento grupal. Mais do que um programa político
coerente, o bolsonarismo estruturou-se como uma arquitetura afetiva centrada no
líder, simultaneamente referência moral, catalisador emocional e mecanismo de
sincronização do enxame. Mas sistemas altamente dependentes de liderança
carismática enfrentam dificuldades quando o centro organizador se fragiliza.
Inelegibilidade,
desgaste político, investigações judiciais, divisões internas e perda gradual
de capacidade mobilizadora criam um problema estrutural: como preservar a
coesão do enxame sem a presença plenamente funcional da “rainha”? O sistema
tenta responder distribuindo funções entre influencers,
parlamentares, pastores, militares e plataformas digitais. Mas isso produz
tensões permanentes de sucessão, competição e fragmentação. Em ecossistemas
desse tipo, a ausência progressiva da liderança central frequentemente não
produz moderação. Pode produzir exatamente o contrário: radicalização
crescente, disputas de pureza ideológica e proliferação de facções concorrentes
tentando reivindicar a herança simbólica do líder original. Em colônias
naturais, a perda da rainha frequentemente desencadeia desorganização. Em
sistemas humanos altamente polarizados, o enfraquecimento do centro organizador
pode produzir paranoia crescente e busca desesperada por novos mecanismos de
coesão.
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As plataformas que fabricam enxames
Talvez
o aspecto mais inquietante das colmeias humanas contemporâneas não seja apenas
a existência de líderes carismáticos, mas também a infraestrutura tecnológica
capaz de produzir sincronização emocional em escala planetária. As colmeias
digitais não emergem espontaneamente da sociedade. Elas são produzidas,
moduladas e amplificadas por arquiteturas tecnológicas desenhadas para
maximizar a captura da atenção, o engajamento emocional e a permanência nas
plataformas. Esse talvez seja um dos aspectos mais importantes – e
frequentemente menos discutidos – da nova ecologia informacional contemporânea.
As plataformas digitais não funcionam apenas como meios neutros de comunicação.
Elas operam como sistemas ativos de modulação comportamental. Seu modelo
econômico depende da atenção contínua dos usuários. E, nesse ambiente
competitivo, conteúdos emocionalmente intensos tendem a possuir enorme vantagem
adaptativa. Indignação, medo, ressentimento, paranoia, escândalo e conflito
geram mais compartilhamentos, mais comentários, mais tempo de permanência e
maior circulação algorítmica. A própria lógica econômica das plataformas
favorece, assim, dinâmicas de polarização emocional e sincronização coletiva.
As
colmeias humanas do século XXI possuem infraestrutura corporativa. As
plataformas não apenas hospedam enxames digitais. Elas possuem incentivos
econômicos para produzi-los.A radicalização política deixa então de ser apenas
um fenômeno ideológico ou psicológico. Ela passa a integrar modelos de negócio
baseados em vigilância comportamental, mineração de dados e engenharia
algorítmica da atenção. Nesse ambiente, algoritmos aprendem continuamente quais
estímulos produzem maior ativação emocional nos usuários. O sistema identifica
medos, preferências, vulnerabilidades, ressentimentos e padrões de
comportamento, retroalimentando-os em ciclos sucessivos de reforço cognitivo.
Os feromônios das colmeias digitais são produzidos industrialmente. Talvez por
isso o comportamento de enxame contemporâneo apresente intensidade sem
precedentes históricos. Nunca existiu, em nenhuma época, infraestrutura
comunicacional capaz de sincronizar afetos, medos e reações de centenas de
milhões de indivíduos em tempo real. A arquitetura técnica das plataformas
favorece respostas rápidas, impulsivas e emocionalmente carregadas. A reflexão
lenta torna-se uma desvantagem competitiva em ecossistemas governados por
velocidade, visibilidade e engajamento.
O
próprio desenho das redes estimula mimetismo coletivo. Quanto mais
compartilhado um conteúdo, maior sua legitimidade aparente. Quanto mais intensa
a reação emocional, maior sua circulação algorítmica. O enxame aprende
continuamente consigo mesmo. Em consequência, plataformas digitais tendem a
funcionar menos como espaços públicos deliberativos e mais como sistemas de
amplificação emocional em larga escala. Talvez seja precisamente essa
combinação entre capitalismo de vigilância, arquitetura algorítmica e sincronização
afetiva que esteja criando as condições para formas inéditas de eusocialidade
simbólica entre humanos.
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Do rádio às plataformas: a industrialização da sincronização social
A
tentativa de sincronizar emocionalmente grandes massas humanas não surgiu com
as redes sociais. O século XX já havia testemunhado formas poderosas de
coordenação coletiva mediadas por tecnologias de comunicação de massa. Poucos
exemplos foram tão emblemáticos quanto o uso político do rádio durante a
consolidação do nazismo na Alemanha. Sob a direção de Joseph Goebbels, o regime
compreendeu precocemente que o controle da infraestrutura comunicacional seria
decisivo para moldar percepções, emoções e pertencimentos coletivos. O rádio
deixava de ser apenas um meio de informação. Tornava-se instrumento de
sincronização social. O governo nazista incentivou massivamente a produção
do Volksempfänger – o “rádio do povo” –, aparelho de baixo
custo projetado para ampliar o alcance da propaganda estatal. Discursos de
Hitler, cerimônias públicas, marchas e palavras de ordem passaram a penetrar
simultaneamente milhões de lares alemães. A repetição contínua produzia um
efeito cumulativo de imersão simbólica.
O
indivíduo deixava progressivamente de perceber suas emoções como experiências
privadas e passava a compartilhá-las coletivamente em tempo real. Medos,
ressentimentos, humilhações nacionais, paranoias conspiratórias e promessas de
redenção eram continuamente reforçados por uma ecologia comunicacional
centralizada e altamente coordenada. A tecnologia permitia transformar
multidões dispersas em uma massa emocionalmente sincronizada.
No
Brasil, o Estado Novo de Getúlio Vargas também compreendeu precocemente o poder
das novas tecnologias de comunicação na construção de pertencimento político e
da identidade nacional. Sob a direção de Lourival Fontes, o Departamento de
Imprensa e Propaganda (DIP) coordenou uma vasta máquina de produção simbólica
voltada à consolidação da imagem de Vargas como líder nacional e mediador
paternal da sociedade brasileira. Mais uma vez, o rádio desempenhou um papel
central nesse processo. Discursos oficiais, programas culturais, campanhas
cívicas e cadeias nacionais ajudavam a produzir uma sensação de simultaneidade
emocional entre regiões social e culturalmente muito distintas do país. Ainda
se tratava de uma lógica vertical, centralizada e unidirecional. Mas já era
possível perceber o potencial das tecnologias de comunicação para transformar
populações dispersas em comunidades afetivamente sincronizadas. Outros regimes
autoritários compreenderam rapidamente o mesmo fenômeno. Na Itália fascista, o
rádio desempenhou papel central na construção do culto à personalidade de
Mussolini. Na União Soviética stalinista, cinema, imprensa e radiodifusão foram
utilizados para alcançar a homogeneização ideológica em escala continental.
Durante a Revolução Cultural chinesa, megafones, jornais murais e sessões
públicas de mobilização coletiva desempenharam funções semelhantes de
sincronização simbólica. Mesmo em democracias liberais, a expansão da televisão
ao longo da segunda metade do século XX ampliou enormemente a capacidade de
coordenação afetiva das sociedades contemporâneas. Guerras, eleições, crises
econômicas e grandes eventos passaram a ser vividos simultaneamente por
populações inteiras.
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Da árvore ao enxame
Durante
grande parte do século XX, os sistemas de comunicação de massa operavam segundo
uma lógica essencialmente arbórea ou radicular. A informação partia de centros
relativamente bem definidos – emissoras de rádio, jornais, redes de televisão,
aparelhos de propaganda estatal – e se espalhava de maneira hierárquica pela
sociedade. Mesmo regimes altamente autoritários dependiam de estruturas
relativamente centralizadas de emissão simbólica. O fluxo comunicacional
possuía uma direção previsível: poucos falavam para muitos. O rádio, a
televisão e os jornais operavam predominantemente segundo a lógica
unidirecional: poucos emissores transmitiam mensagens relativamente homogêneas
para as grandes audiências. As plataformas digitais introduziram algo
qualitativamente novo.
O
modelo contemporâneo aproxima-se menos de uma árvore hierárquica e mais de
sistemas distribuídos de tipo enxame. A informação já não depende
exclusivamente de centros fixos de emissão. Ela circula horizontalmente,
replica-se em cascata, adapta-se continuamente e reorganiza-se em tempo real.
Elas combinam comunicação horizontal, vigilância comportamental contínua,
personalização algorítmica e retroalimentação emocional em tempo real. Cada
indivíduo passa a receber fluxos informacionais ajustados dinamicamente às suas
vulnerabilidades cognitivas, preferências emocionais e padrões prévios de
comportamento. Nesse novo ambiente, memes, vídeos, hashtags, correntes de
mensagens e algoritmos passam a operar de maneira funcionalmente semelhante aos
feromônios das colônias eusociais: sinais simples, mas capazes de produzir
coordenação coletiva altamente complexa. O enxame deixa então de ser apenas
massa mobilizada. Passa a funcionar como um sistema adaptativo autorregulado.
Talvez resida aí a singularidade histórica das colmeias digitais
contemporâneas: pela primeira vez, as infraestruturas tecnológicas permitem a
sincronização emocional massiva, sem a necessidade permanente de um comando
central explícito. O próprio sistema aprende, adapta-se e reorganiza-se continuamente.
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Cambridge Analytica e a engenharia do enxame
A
passagem da propaganda de massas clássica para a engenharia algorítmica do
comportamento político talvez tenha alcançado sua expressão mais emblemática no
caso da Cambridge Analytica, empresa britânica de consultoria política e
análise de dados ligada ao estrategista norte-americano Steve Bannon e
financiada pelo bilionário Robert Mercer, cientista da computação, investidor e
importante financiador de organizações conservadoras e nacionalistas nos
Estados Unidos. A empresa ganhou notoriedade internacional ao utilizar dados
extraídos de redes sociais – especialmente do Facebook – para construir perfis
psicométricos detalhados de milhões de usuários, identificando traços de
personalidade, medos, vulnerabilidades emocionais e predisposições políticas. O
objetivo já não era apenas difundir propaganda homogênea para grandes
audiências, como ocorria nos sistemas clássicos de comunicação de massa.
Tratava-se agora de personalizar estímulos emocionais e mensagens políticas
para segmentos específicos da população, explorando medos, ressentimentos e
predisposições cognitivas de maneira altamente segmentada. A Cambridge
Analytica tornou-se particularmente conhecida por seu envolvimento nas
campanhas do Brexit, no Reino Unido, e na primeira eleição presidencial de Donald
Trump, em 2016. Steve Bannon, que integrava o conselho da empresa antes de
assumir um papel central na campanha de Trump, enxergava nas novas tecnologias
de microtargeting político uma ferramenta poderosa para
intensificar a polarização, a mobilização emocional e o comportamento tribal em
ambientes digitais.
O
cientista de dados Michal Kosinski havia demonstrado anteriormente que padrões
de comportamento digital – curtidas, compartilhamentos e interações –,
aparentemente banais, permitiam inferir características psicológicas com
surpreendente precisão. A perspectiva de aplicar esses métodos à disputa
política chamou rapidamente a atenção de atores como Steve Bannon e da própria
Cambridge Analytica. A lógica da propaganda política sofria então uma mutação
profunda. Durante grande parte do século XX, líderes, partidos e governos
buscavam persuadir multidões. Agora passava a ser possível influenciar
indivíduos específicos, explorando suas vulnerabilidades psicológicas de
maneira personalizada. A propaganda deixava de ser massiva para tornar-se
cirúrgica. Ao mesmo tempo, autores como Eli Pariser passaram a alertar para o
surgimento das chamadas “bolhas de filtro”, ambientes digitais nos quais
algoritmos tendem a reforçar continuamente crenças, preferências e visões de
mundo já existentes, reduzindo exposição ao contraditório e intensificando
processos de radicalização cognitiva. A lógica da propaganda política sofria
então uma mutação profunda. Em vez de mensagens padronizadas irradiadas para
toda a população, as plataformas digitais permitiam a microsegmentação contínua
de estímulos emocionais adaptados a diferentes perfis psicológicos. A
comunicação política aproximava-se cada vez mais do funcionamento de sistemas
eusociais distribuídos. O enxame já não precisava apenas ser mobilizado.
Precisava ser permanentemente calibrado, estimulado e sincronizado em tempo
real.
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Quem controla os feromônios digitais
À
medida que as plataformas digitais se tornam infraestrutura central da vida
social, econômica e política, a disputa contemporânea pelo poder passa de modo
crescente pelo controle dos fluxos de informação, vigilância e modulação
comportamental. As Big Techs deixaram de funcionar apenas como empresas de
tecnologia. Tornaram-se arquiteturas privadas de coordenação social em escala
planetária. Diferentemente dos sistemas de propaganda do século XX, que
dependiam principalmente de Estados nacionais, a nova infraestrutura
informacional encontra-se concentrada em um número reduzido de corporações
privadas capazes de operar simultaneamente em escala global. Pela primeira vez
na história, empresas privadas dispõem de capacidade técnica para observar,
classificar, segmentar e influenciar bilhões de indivíduos em tempo real. A
questão central deixa então de ser apenas quem controla o Estado. Passa a ser
também quem controla as infraestruturas que moldam a percepção da realidade. Em
sociedades cada vez mais mediadas por plataformas digitais, o poder de definir
quais informações circulam, quais emoções são amplificadas e quais narrativas
recebem visibilidade torna-se um dos principais instrumentos de influência
política do século XXI. Seu poder já não reside apenas na capacidade de
armazenar dados, mas também de identificar padrões, antecipar comportamentos,
modular preferências e influenciar dinâmicas coletivas em tempo real.
Empresas
como a Palantir – originalmente associada a sistemas de inteligência, análise
de dados e segurança – ajudam a revelar a crescente convergência entre
vigilância algorítmica, inteligência artificial e poder político. O
monitoramento contínuo de populações, fluxos financeiros, deslocamentos, redes
de relacionamento e padrões de comportamento passa a integrar uma nova
infraestrutura de gestão social baseada em dados massivos. Em ecossistemas
digitais altamente conectados, a vigilância e a modulação tornam-se processos
inseparáveis. O sistema aprende continuamente não apenas a observar o enxame,
mas também a influenciar sua direção, intensidade emocional e padrões de
reação. Talvez o maior risco contemporâneo não seja apenas a existência de
colmeias humanas digitais, mas a crescente concentração privada da capacidade
de produzir, monitorar e direcionar seus feromônios algorítmicos.
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O desaparecimento silencioso do indivíduo
Talvez
o aspecto mais inquietante das colmeias humanas contemporâneas não seja a
existência de líderes carismáticos, mas a gradual dissolução da autonomia
individual. Plataformas digitais recompensam conformidade emocional, respostas
rápidas, indignação permanente e pertencimento tribal. A reflexão lenta
torna-se uma desvantagem competitiva dentro da lógica algorítmica. A própria
arquitetura técnica das redes favorece comportamentos miméticos. Conteúdos
emocionalmente intensos recebem mais engajamento. O algoritmo amplifica reações
rápidas. O pertencimento grupal gera recompensas psicológicas contínuas. A
dissidência produz punição simbólica imediata. Progressivamente, a política
deixa de funcionar como espaço de deliberação e passa a operar como um circuito
fechado de estímulos afetivos sincronizados. Talvez estejamos assistindo ao
surgimento da primeira infraestrutura tecnológica capaz de induzir
comportamentos de enxame em escala planetária e em tempo real. Nunca existiu
democracia sem indivíduos capazes de sustentar pensamento autônomo diante da
pressão do grupo. Talvez o maior perigo das colmeias humanas do século XXI não
seja a obediência imposta pela força, mas a entrega voluntária da própria
capacidade de pensar ao conforto emocional da colônia. Humanos não são
formigas. Mas talvez as plataformas digitais estejam criando, pela primeira vez
na história, condições tecnológicas para que parcelas inteiras da vida política
passem a funcionar como se fossem. A questão decisiva já não é apenas se
estamos formando colmeias humanas. É quem controla seus feromônios.
Fonte:
Por Celso P. de Melo, no Le Monde

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