Luís
Nassif: É hora de discutir o extrativismo financeiro
O
extrativismo é o modelo em que o crescimento de um país se apoia na apropriação
intensiva de recursos para exportação — naturais, como minérios, petróleo e
produtos agrícolas; ou, em sua face contemporânea, financeiros e tecnológicos,
como juros, lucros, dividendos, royalties, software, marcas e patentes.
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O que
define o extrativismo não é o tipo de recurso explorado, mas sua lógica: o país
entrega valor, retém o passivo e vê o excedente ser drenado para fora — ou para
o topo da pirâmide interna. Há baixa integração produtiva, dependência de
preços e de atores externos, e captura do Estado pelos interesses rentistas ou
exportadores.
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A raiz histórica do subdesenvolvimento
A
história do subdesenvolvimento brasileiro está ligada justamente à incapacidade
de reter internamente os frutos da atividade econômica.
No
começo, eram as matérias-primas — cana, algodão, café — exportadas para os
países centrais, onde eram industrializadas. A maior parte do valor agregado
ficava fora do Brasil.
Depois,
com as primeiras revoluções tecnológicas — ferrovias, iluminação urbana,
serviços públicos —, mudaram as formas de espoliação, mas não o padrão. O
capital estrangeiro associava-se a grupos nacionais e impunha regras que
garantiam a remessa dos lucros ao exterior. No caso das ferrovias, por exemplo,
a legislação assegurava remuneração mínima ao capital investido, fosse em
locomotivas, trilhos ou vigas de ferro.
As
primeiras tentativas consistentes de exigir contrapartidas vieram com o Plano
de Metas de Juscelino Kubitschek. As montadoras estrangeiras, para se
instalarem no país, tiveram de aceitar sócios brasileiros e fornecedores
locais, com nacionalização gradual da produção.
A
lógica desenvolvimentista era clara. Primeiro, atrair indústrias de consumo.
Depois, consolidar a indústria de base, de máquinas e equipamentos. A partir
daí, criar condições para dominar os setores mais sofisticados da economia,
desenvolver tecnologia e reter no país a maior parte dos ganhos.
Esse
modelo ganhou músculos nos anos 80, começou a ser desmontado no governo Collor
e foi demolido a partir do Plano Real e dos governos que se seguiram.
Privatizações selvagens, câmbio desfavorável à produção nacional, abandono do
conteúdo local e abertura passiva produziram uma economia em que parcela
relevante da renda gerada no país é remetida para fora. A única tentativa de
reverter essa lógica veio no primeiro governo Dilma Rousseff, que soçobrou ante
críticas do mercado e falta de estratégia política.
A
jazida deixou de ser apenas a mina, o poço ou a plantação. Passou a ser o
próprio balanço de pagamentos — e, como veremos, o próprio Tesouro Nacional.
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As seis formas de vazamento para o exterior
O
quadro completo das saídas de recursos para fora do país tem pelo menos seis
canais, com graus muito diferentes de visibilidade e legalidade:
• Remessa de lucros e dividendos — é o
maior canal e o mais estrutural. Empresas estrangeiras instaladas no Brasil
remetem lucros às matrizes. Em 2024, as despesas líquidas de lucros e
dividendos de investimento direto e em carteira somaram US$ 45,6 bilhões. Em
2025 o número subiu, e dezembro registrou recorde: as remessas de lucros
somaram US$ 18 bilhões no mês, o volume mensal mais alto da série histórica
iniciada pelo Banco Central em 1995 — movimento turbinado pela antecipação à
nova tributação de 10% que passou a valer em 2026.
• Pagamento de juros (serviço da dívida
externa) — juros sobre dívida externa pública e privada, operações
intercompanhia e títulos. As despesas líquidas de juros somaram US$ 30,3
bilhões em 2024. É um componente que cresce com o estoque de dívida e com a alta
dos juros internacionais.
• Royalties e serviços de propriedade
intelectual — pagamento pelo uso de marcas, patentes, softwares e streaming. É
o item de crescimento mais acelerado: o déficit em serviços de propriedade
intelectual subiu 58%, puxado por streaming e venda de software, totalizando
US$ 8,683 bilhões em 2024. Reflete a digitalização da economia e a dependência
tecnológica.
• Investimento direto de brasileiros no
exterior — saída de capital nacional para constituir ativos lá fora. É
legítima, mas representa saída líquida de poupança doméstica.
• Sub e superfaturamento comercial —
manipulação de preços de importação e exportação, sobretudo entre partes
relacionadas (transfer pricing), que desloca lucro para jurisdições de baixa
tributação. Não aparece como “remessa”, mas evade base tributável. A reforma de
2023/2024, que extinguiu o limite de 5% e adotou regras de preços de
transferência alinhadas à OCDE, mexeu exatamente nesse ponto.
• Fluxos opacos e ilícitos — evasão via
paraísos fiscais, contas no exterior não declaradas e operações de lavagem. Por
definição não estão nas estatísticas oficiais; entram apenas parcialmente na
rubrica “erros e omissões” do balanço.
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A inversão da composição: de país endividado a país de lucros remetidos
Os três
primeiros canais — lucros, juros e royalties — são os que se podem medir com
precisão no balanço de pagamentos, e a série das últimas três décadas conta uma
história de troca de credor.
Nos
anos 1990 e início dos 2000, o vazamento era dominado pelos juros — o serviço
da dívida externa, que consumiu entre 2,5% e 2,7% do PIB de 1999 a 2002, no
auge da crise cambial, quando o país dependia de capital externo caro para
fechar suas contas. Era a sangria clássica de uma economia endividada e refém
da confiança dos mercados.
Esse
perfil virou de cabeça para baixo a partir de meados dos anos 2000. Conforme o
Brasil reduziu sua dívida externa líquida, acumulou reservas e se tornou
destino de um volume crescente de investimento estrangeiro, os juros
despencaram — chegaram a apenas 0,4% do PIB em 2008. No lugar deles cresceu a
remessa de lucros e dividendos das multinacionais e dos investidores em
carteira instalados no país. Por volta de 2005 e 2006 as duas curvas se
cruzaram: o Brasil deixou de sangrar pela dívida e passou a sangrar pela
rentabilidade do capital estrangeiro que opera dentro de suas fronteiras. Hoje,
lucros e dividendos beiram 2,2% do PIB e são, isoladamente, o maior dreno
externo de divisas.
O
detalhe que merece destaque é que o total é surpreendentemente estável — e está
de volta ao patamar de crise. Apesar da troca de composição, o vazamento
externo oscila numa faixa de 2% a 3,9% do PIB. Depois de cair ao mínimo de
cerca de 1,9% em 2012–2013 (auge do boom de commodities e do real forte), a
curva voltou a subir e fechou 2024 e 2025 em torno de 3,9% do PIB — o mesmo
patamar do pico de 2002, no fundo do poço da vulnerabilidade externa. A
diferença é a natureza: em 2002 era dívida; hoje é rentabilidade do capital
instalado.
Há
ainda a curva silenciosa: os royalties e serviços de propriedade intelectual, o
componente menor, mas o único em ascensão ininterrupta e acelerada — de 0,09%
do PIB em 1994 para 0,48% em 2025, com salto claro a partir de 2024. É o
vazamento que cresce sem fazer barulho, expressão direta da digitalização e da
dependência tecnológica estrutural.
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O extrativismo interno: o serviço da dívida como “dízimo fiscal”
Até
aqui falamos do que escapa pela fronteira. Mas o extrativismo financeiro tem
uma face interna ainda mais pesada — e é nela que a política de juros se revela
a modalidade mais letal de todas.
Diferentemente
das remessas ao exterior, a dívida pública brasileira é quase toda denominada
em reais e detida por agentes domésticos. O serviço dessa dívida não é uma
sangria para fora: é uma transferência interna de renda — da economia produtiva
e do orçamento público para os detentores de títulos. A jazida, aqui, é o
próprio Tesouro; o minério é o juro real; e a captura do Estado se dá pela
indexação da dívida à taxa que o próprio Estado controla.
Os
números de 2025 dão a dimensão da extração. A conta de juros da dívida pública
cruzou, pela primeira vez na história, a marca de R$ 1 trilhão em doze meses —
7,91% do PIB, contra 8,07% em 2024, um patamar que dobrou em cinco anos. O
motor é a Selic, elevada a 15% ao ano em 2025, o nível mais alto em quase duas
décadas; como cerca de metade da dívida é indexada a essa taxa, cada aperto
monetário engorda automaticamente a conta.
A
natureza extrativista fica nítida na dinâmica de bola de neve. Como o governo
não consegue pagar os juros apenas com a arrecadação — tem déficit primário —,
o Tesouro emite mais dívida para pagar os juros da dívida anterior. É o juro
sobre juro, a dívida sobre dívida. O estoque cresce não porque o Estado gaste
mais com a população, mas porque remunera o capital que o financia: a dívida
bruta avançou sete pontos percentuais no atual mandato e deve atingir 83,6% do
PIB em 2026, segundo o Tesouro — evolução explicada, sobretudo, pela
incorporação dos próprios juros nominais. A dívida cresce, em essência, por
seus próprios juros. O mecanismo de extração se autoalimenta.
Por
isso a conta de juros tem sido chamada de dízimo fiscal: um valor que não
levanta hospitais, não equipa escolas, não asfalta estradas. Faz uma coisa só —
remunera quem empresta dinheiro ao Estado. Para dar a escala, R$ 1 trilhão é
mais do que o dobro do orçamento anual de saúde e educação somadas.
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Quem recebe o dízimo
E quem
empresta não é o cidadão comum. Ao final de 2025, segundo o Tesouro Nacional, a
composição dos detentores da Dívida Pública Mobiliária Federal interna era a
seguinte: instituições financeiras com 32,9% do estoque, previdência com 22,8%,
fundos de investimento com 20,8% e não residentes com 10,3%, seguidos de
outros, seguradoras e governo. Somados bancos, fundos e seguradoras, o capital
financeiro privado abocanha perto de 57% da dívida.
Do
outro lado do balcão, quem paga é o conjunto da população, por meio de uma
estrutura tributária que pesa proporcionalmente mais sobre os mais pobres —
impostos sobre o consumo e spreads bancários enormes. O resultado é uma
transferência líquida da base para o topo, mediada pelo orçamento público: a
renda do trabalho financia, via tributos, a renda do capital rentista. É um
imposto invertido, em que os muitos sustentam o rendimento dos poucos.
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Quanto custa em crescimento
Resta a
pergunta que dá a medida do estrago: o que o país ganharia se reduzisse esses
vazamentos?
O ganho
real é dinâmico, de segunda ordem, e depende de o recurso retido ser
produtivamente redirecionado. É aqui que entram os multiplicadores fiscais. A
literatura brasileira converge num ponto: a composição importa mais que o
volume. O multiplicador das transferências fica em torno de 0,72; o do
investimento público é muito maior, com estimativas que vão de 1,5 a 2,2 — e,
em alguns estudos, ainda mais alto no acumulado de cinco anos. Em outras
palavras: tirar R$ 1 do rentista, que tem baixíssima propensão a consumir, e
pô-lo em investimento público gera atividade muito acima do valor original;
deixá-lo onde está, quase nada.
Redirecionar
metade desses fluxos para investimento produtivo poderia elevar o nível do PIB
em algo entre 3% e 8%, materializado ao longo de quatro a seis anos. É preciso
ser rigoroso sobre a natureza desse ganho: trata-se de um deslocamento de
patamar, não de um aumento permanente da taxa de crescimento. Esta só sobe de
forma durável se a operação elevar de modo permanente a taxa de investimento da
economia — e aí, sim, o prêmio de longo prazo aparece, com talvez 0,5 a 1,5
ponto percentual a mais de crescimento anual por alguns anos.
O
Brasil opera com um dreno estrutural de renda da ordem de um décimo do PIB,
capturado pelo capital financeiro e pelo exterior, cujo simples
redirecionamento para investimento produtivo — pela composição, não pelo volume
— teria efeito multiplicador várias vezes superior ao uso atual.
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O nó górdio
Hoje, o
Brasil transfere todos os anos uma fatia expressiva de sua riqueza em lucros,
juros, dividendos, royalties e serviços tecnológicos — e, internamente, em
juros da dívida pública. É o extrativismo em sua forma mais sofisticada: não se
exporta apenas minério ou soja; exporta-se renda, e remunera-se o rentista
interno antes de remunerar o país.
Esse é
o nó górdio que terá de ser cortado se o país quiser retomar uma visão de
futuro. Sem enfrentar o extrativismo financeiro e tecnológico, qualquer projeto
nacional continuará condenado a produzir riqueza aqui para realizar valor lá
fora — ou no topo da pirâmide de cá. Se o governo Lula 4 não ousar romper com
esse nó, selará o fracasso final da geração das diretas.
Fonte:
Jornal GGN

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