Moradia:
A fé pode ajudar a mover montanhas?
“Direitos
fundamentais, como a saúde, fizeram uma trajetória muito melhor no Brasil”, diz
Frei Marcelo Toyansk Guimarães, coordenador nacional da Pastoral da Moradia e
Favela. “Mas o direito à moradia avança muito lentamente porque toca a ocupação
do território. Assim como conflitos pela terra no campo, a ocupação do solo
urbano também é bastante disputada. É, portanto, um desafio que está na
estrutura da própria cidade.”
Frei
Marcelo foi um dos articuladores da Campanha da Fraternidade deste ano, que,
com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo
1,14), propôs tocar numa grave ferida política, num contexto aterrador: no
Brasil, 70 milhões de pessoas vivem em moradias com inadequações urbanas ou
habitacionais, segundo pesquisa da Fundação João Pinheiro. O teto, ali, não é
segurança, mas drama: falta de água, coleta de lixo, esgoto, energia, além de
insegurança fundiária e problemas construtivos. Entre 2020 e 2024, 1,5 milhão
de pessoas foram afetadas por despejos e remoções forçadas — número que se soma
a uma crise sem precedentes: mais de 6 milhões de domicílios em déficit
habitacional, 3,5 milhões de desabrigados por desastres e milhares em situação
de rua. O balanço da Campanha Despejo Zero, em cinco anos, revela que 2,1
milhões de pessoas (437 mil famílias) estão hoje sob ameaça de remoção forçada.
O levantamento reúne 3.078 casos de conflitos por terra e moradia, que atingem
majoritariamente pessoas negras (quase 1,4 milhão) e mulheres (mais de 1,3
milhão). Entre os vulneráveis, estão ainda 415 mil crianças e 327 mil idosos.
Mas
será que essa iniciativa da Igreja Católica pode produzir mudanças concretas?
Criada em 1962, em Natal (RN), por Dom Eugênio Sales, a Campanha da
Fraternidade passou a ser promovida anualmente pela Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB) durante a Quaresma.
Aproximadamente
90% dos brasileiros declaram ter alguma religião, de acordo com o Censo. Mas a
presença cada vez mais organizada de atores religiosos na política
institucional tem impulsionado uma agenda que combina conservadorismo moral e
neoliberalismo. Trata-se de uma coalizão em defesa da ordem patriarcal, da
família nuclear e de valores cristãos tradicionais, ao mesmo tempo que promove
o individualismo, a redução do papel do Estado e, inclusive, das próprias
instituições democráticas. Nesse contexto, trazer para o centro da campanha uma
luta social histórica representou um passo importante numa religião que,
segundo o Censo, tem 100,2 milhões de fiéis e, apesar de ter perdido espaço
para os evangélicos nos últimos anos (que passaram de 21,6% para 26,9% da
população), ainda é a maior religião e permaneceu majoritária em todas as
grandes regiões do país em 2022.
Mas,
como em qualquer religião, a alta cúpula da Igreja é atravessada por disputas
políticas, e os setores progressistas nem sempre são majoritários. O tema da
campanha é incômodo para muitos setores da sociedade, reconhece Frei Marcelo.
Isso porque ela consegue articular críticas sociais dispersas a partir de um
princípio simples: o amor ao próximo. Não se trata, porém, de uma noção
abstrata ou restrita à esfera individual. Ao contrário, essa ideia é traduzida
em ações coletivas, mobilização comunitária e propostas concretas de
transformação social. E, claro, chega às paróquias de todo o país.
O
coordenador da Pastoral da Moradia explica que quatro dimensões foram elencadas
para botar a mão na massa. A primeira é a comunitária: afinal, movimentos
sociais estão há décadas na linha de frente da luta pelo direito à moradia
digna, resistindo às ameaças do mercado, pressionando o poder público,
construindo alianças com outros setores da sociedade e propondo soluções
concretas. Portanto, é tarefa essencial apoiar e fortalecer as ações dos mais
impactados pela violação desse direito fundamental. Estar ombro a ombro com a
“vanguarda”.
Há
também a base educativa. Nela, Frei Marcelo vê que a Igreja Católica pode ter
uma participação muito importante, principalmente ao trabalhar com a opinião
pública uma visão de moradia como um direito e evitar a culpabilização dos
pobres pelo déficit habitacional. “Há, sim, um amplo campo de conscientização e
aprofundamento de temas como o direito à moradia, a especulação imobiliária, a
emergência climática e o papel da comunicação e das tecnologias, que muitas
vezes também são apropriadas pelos interesses de mercado”, diz ele.
O outro
campo é o eclesial. Frei Marcelo cita o Papa Francisco, que, em documentos e
homilias, sempre apontou as vidas “exploradas, mas descartadas” pelo sistema
global. “A Igreja também precisa se despertar”, afirma ele. Recorda que ela já
o fez diante de outros temas, como a fome — e hoje é comum que paróquias
atendam populações locais com cestas básicas. O desafio atual, diz, é ter uma
participação efetiva na realidade das moradias precárias: desde fortalecer
mutirões até apoiar movimentos populares que lutam por moradia e atuam em
conselhos municipais, por exemplo.
Uma
tentativa de resgatar aquele viço político das CEBs (Comunidades Eclesiais de
Base) que nos anos 1960 e 1970 atuaram ombro a ombro com moradores das
periferias urbanas e áreas rurais? Isso está longe de ser anacronismo para Frei
Marcelo, afinal, elas ganharam força em um dos momentos mais sombrios da
história recente do Brasil. Recorda, claro, que a realidade é muito distinta,
especialmente devido a novos paradigmas da Era Digital. Há diferenças de método
e mentalidade para se fazer um trabalho pastoral entre os mais vulneráveis.
Porém, uma coisa pouco mudou: “as pessoas continuam muito abertas ao encontro;
é a forma que têm para se fortalecerem, seja em torno da fé, dos direitos
sociais ou de grupos, a partir de questões concretas”.
Ou
seja, aquilo que o Papa Francisco chamava de ecologia humana: relações
calorosas e fortes laços de solidariedade, que ajudam a população das áreas
mais periféricas a sobreviver com criatividade, força e ajuda mútua. Por isso,
as periferias são grandes laboratórios de iniciativas de autogestão e mutirões
para mitigar os dramas habitacionais.
Então
entra a quarta dimensão: a da política pública. “Tudo bem que nós possamos e
precisamos despertar as pessoas para a sensibilidade, para a participação, para
a organização, mas a gente não vai asfaltar avenida nem vai fazer escola. Isso
é política pública”, diz Frei Marcelo. “A solução não virá sem uma incidência
sobre a política habitacional.”
O
Periferia Viva, programa federal de urbanização de favelas, ainda precisa
avançar muito, avalia ele. As políticas de habitação popular, apesar de algumas
conquistas, seguem dispersas e, com frequência, reféns das construtoras. A
grave crise habitacional brasileira, defende, exige políticas públicas mais
robustas e a aposta num “SUS da
Habitação”: um sistema universal de arquitetura e engenharia públicas para
famílias de baixa renda, que permita reformar ou construir moradias com
segurança e acompanhamento técnico gratuito.
• Onde (também) mora a angústia urbana.
Por Neiva de Souza Daniel
A
relação entre saúde mental e moradia é direta, especialmente quando observada
sob a perspectiva da determinação social da saúde. No Brasil, essa relação é
observada com muita força nas ocupações, assentamentos e favelas. Nesses
contextos, a falta de moradia digna e o risco constante de desocupação ou
despejo acabam atravessando o cotidiano e impactando a saúde mental de forma
muito concreta (Rosa; Coelho; Tchalekian, 2025; Vieira et al., 2025).
Quando
famílias e comunidades são obrigadas a sair de seus territórios, muitas vezes
para a construção de obras ou projetos urbanos, o discurso costuma ser de
desenvolvimento e modernização. Mas, na prática, o que acontece é o aumento da
exclusão e vulnerabilidade. E isso acarreta consequências materiais e
psicológicas. As condições de moradia, renda e inserção social têm relação
direta com transtornos como depressão, ansiedade, Transtorno de Estresse
Pós-Traumático, psicoses e ao uso abusivo de substâncias (Padgett, 2020).
Moradia
também é a garantia de estabilidade, sensação de segurança e o direito de poder
planejar minimamente a vida. Quando o direito à moradia não é garantido, o que
ocorre é o medo constante, ansiedade, tensão. O risco de não ter onde morar e
se abrigar, mesmo quando ainda não ocorreu, já produz sofrimento. Além disso,
há todo o contexto de conflito: disputa por terra, violência institucional,
estigma, que geram desgastes não só às pessoas individualmente, mas também às
relações dentro da comunidade. As redes de apoio vão enfraquecendo, aumentam as
tensões, e o sofrimento deixa de ser só individual e torna-se coletivo.
Por
outro lado, quando o acesso à moradia é garantido, os efeitos são visíveis,
ocorre a melhora na estabilidade, o sofrimento diminui, e as pessoas conseguem
reconstruir suas rotinas. Principalmente quando conseguem permanecer no
território onde já têm vínculos. Por isso, políticas habitacionais que garantam
moradia digna não estão relacionadas somente a políticas de urbanismo, mas
também à promoção da saúde e do bem viver.
Quando
o direito à moradia não é garantido, estamos falando de uma forma de violência
estrutural. O sofrimento psíquico, nesses casos, não pode ser tratado
individualmente, pois ele está diretamente ligado às condições de vida, às
relações de poder e às decisões políticas que moldam o território.
Enfrentar
os transtornos mentais nesses contextos não será suficiente somente com a
ampliação dos serviços de saúde. É de extrema necessidade que exista a garantia
de moradia digna. Segurança habitacional, prevenção de despejos e políticas
urbanas mais inclusivas fazem parte dessa resposta.
Fonte:
Por Rôney Rodrigues, em Outras Palavras

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