Planilha
e comprovante bancário mostram como Vorcaro enviou dinheiro aos EUA para
financiar ‘Dark Horse’
Desde a
publicação da primeira reportagem da série Vaza Flávio, um dos esforços de
aliados do senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, tem sido
convencer o público de que as revelações não se sustentam. Uma das vozes na
tentativa de deslegitimar o nosso trabalho tem sido a do comentarista Paulo
Figueiredo.
“Começaram
com o Intercept dizendo que eram 134 milhões do Vorcaro pro filme. Caiu para 61
milhões no Metrópoles. Depois, 2 milhões no Globo. Já já vocês vão descobrir
que NÃO TEM dinheiro do Vorcaro no filme”, escreveu o aliado da família
Bolsonaro no X, em 13 de maio.
A tese
de discrepância nos valores ganhou força a partir de postagens falsas
compartilhadas por parlamentares e páginas bolsonaristas, alegando que o
Intercept teria recuado das informações, “pedido desculpas” ou admitido não
possuir provas de que Daniel Vorcaro financiou o filme “Dark Horse”, a
cinebiografia de Jair Bolsonaro. Isso já foi amplamente refutado.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
A
alegação é mentirosa por vários motivos, mas o mais importante deles é que a
primeira reportagem da nossa série sempre distinguiu dois números importantes
para entender a negociata: os 24 milhões de dólares (R$ 134 milhões, em valores
convertidos pela cotação da época) negociados por Flávio Bolsonaro com Vorcaro
para financiar o filme; e os 10,6 milhões de dólares (equivalentes, naquele
período, a R$ 61 milhões) efetivamente pagos.
Uma
semana depois, em 20 de maio, Figueiredo questionou se o trabalho do Intercept
revelaria, de fato, “transações financeiras”. E acrescentou: “Se não vierem
(como Flávio jura e como eu acredito, até o momento), a credibilidade voltará
aos poucos”. Pois bem: a edição desta semana da newsletter Cartas Marcadas traz
documentos inéditos que comprovam de maneira irrefutável que houve repasses
financeiros.
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Planilha detalha fluxo de pagamentos
Além de
mensagens, o Intercept teve acesso a planilhas, contratos, comprovantes
bancários e registros financeiros que permitem reconstruir parte do caminho
percorrido pelo dinheiro para bancar “Dark Horse”.
O
primeiro documento é uma planilha intitulada “Funding Schedule”, apresentada
nas conversas como o cronograma de financiamento do projeto. O arquivo registra
uma operação de quase 24 milhões de dólares — o equivalente a R$ 134 milhões na
cotação da época — e detalha tanto os aportes previstos quanto os valores
efetivamente recebidos pelo fundo ligado à produção.
O
cronograma previa 14 desembolsos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. As
duas primeiras parcelas foram de 2 milhões de dólares cada, inicialmente
previstas para 20 e 25 de janeiro de 2025, mas efetivamente pagas em 13 de
fevereiro e em 24 de março, segundo a planilha.
As
outras 12 foram fixadas em 1,66 milhão de dólares cada – a primeira delas
também foi paga em 24 de março, outras duas em 25 de abril e mais uma em 29 de
maio. Ao final do cronograma, o total recebido indica uma soma de 10,6 milhões
de dólares.
Essa
tabela sobre os pagamentos foi encaminhada em 7 de agosto de 2025 pelo
empresário Thiago Miranda a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, acompanhada
da observação: “Duas em atraso e está para vencer a terceira agora em agosto”.
Miranda recebeu uma resposta curta de Vorcaro: “Segunda fazemos duas”.
A
mensagem é relevante porque sugere que novos desembolsos estavam sendo
discutidos naquele momento, o que pode significar que o valor efetivamente pago
tenha ultrapassado os 10,6 milhões de dólares.
Um
cronograma semelhante havia sido encaminhado pelo próprio Daniel Vorcaro ao
pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro do banqueiro, meses antes,
em 12 de março de 2025. Segundo mensagens obtidas pelo Intercept, Vorcaro
enviou o documento e deu duas orientações: “precisa me ajudar controlae isso” e
“tem que pagar a segunda e a terceira”.
Zettel
respondeu logo em seguida: “Vou pra cima do Mineiro. Passei o fluxo pra ele.
Achei que ele tava fazendo”. O “Mineiro” citado na troca de mensagens seria
Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo ligado à Entre Investimentos e
Participações, empresa que fez a transferência bancária.
Apesar
das negativas oficiais, as mensagens indicam haver uma conexão entre Vorcaro e
Freixo. Em fevereiro de 2025, segundo registros obtidos pelo Intercept, Zettel
perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo após o banqueiro sugerir
fazer a operação “via entre”. O telefone de Freixo foi salvo na agenda de
contatos de Vorcaro como Mineiro.
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Comprovante bancário detalha operação
Outro
documento que chama atenção é o comprovante da primeira transferência
internacional da operação, emitido pelo sistema SWIFT, utilizado por
instituições financeiras para operações entre diferentes países.
O
registro é datado de 13 de fevereiro de 2025 e confirma a remessa de 2 milhões
de dólares ao Havengate Development Fund LP, controlado por Paulo Calixto,
advogado de Eduardo Bolsonaro.
Segundo
o comprovante, a operação teve como remetente a Entre Investimentos e
Participações Ltda. O pagamento foi processado por meio do Banco BS2 e
destinado a uma conta do Havengate vinculada ao JPMorgan Chase Bank. O
comprovante contém os códigos de identificação da transferência, os dados das
instituições envolvidas, as referências da operação e os registros de
liquidação exigidos pelo sistema financeiro internacional.
O
extrato registra o que seria a primeira transferência internacional para
financiar “Dark Horse” e demonstra o funcionamento na prática da operação
descrita nas mensagens.
Esse
comprovante, inclusive, consta em uma série de mensagens trocadas entre Zettel
e Vorcaro sobre dificuldades para concluir a operação. Em 5 de fevereiro,
Zettel informou ao banqueiro que o câmbio do Banco Master estava criando
obstáculos para a transferência destinada ao filme.
Durante
a conversa, os dois discutiram alternativas para viabilizar o envio dos
recursos ao exterior e acabaram decidindo recorrer à estrutura da Entre
Investimentos e Participações Ltda, empresa que aparece como remetente no
comprovante de transferência bancária.
Embora
a Entre Investimentos e Participações e Vorcaro neguem qualquer vínculo
societário, de controle ou governança entre as partes, documentos obtidos pelo
Intercept e reportagens publicadas por Metrópoles e Estadão sobre investigações
em curso indicam haver uma uma conexão operacional e financeira entre o grupo e
o banqueiro.
Menos
de dez dias depois, em 14 de fevereiro, Zettel encaminhou a Vorcaro o
comprovante emitido pela rede SWIFT acompanhado de uma única palavra: “Filme!”.
A mensagem foi enviada um dia após a liquidação da operação de 2 milhões de
dólares destinada ao Havengate Development Fund LP, exatamente a transferência
cuja realização vinha sendo discutida nas conversas anteriores.
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Outro lado
O
Intercept entrou em contato com Paulo Calixto, Thiago Miranda e Antônio Carlos Freixo Júnior. Também
procuramos as defesas de Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro, que estão presos. Não
houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
O Grupo
Entre, em nota, informou que “realiza suas operações em conformidade com as
normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro”. Também disse que a
empresa tem “compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento” da
lei e está “à disposição das autoridades competentes sempre que necessário”.
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Os
documentos revelados nesta edição estão longe de encerrar a história. Pelo
contrário. Eles ajudam a responder algumas das perguntas levantadas desde a
publicação da primeira reportagem da série Vaza Flávio, mas também abrem novas
frentes de investigação sobre a origem dos recursos, o papel desempenhado por
cada personagem envolvido na operação e o destino final de parte do dinheiro
movimentado.
A
equipe do Intercept segue investigando e cruzando informações com documentos
públicos, registros empresariais e novas fontes. Esse trabalho já permitiu
localizar documentos inéditos que não faziam parte das primeiras reportagens e
que lançam nova luz sobre as relações financeiras, empresariais e políticas
reveladas pelo caso.
Como
sempre, a apuração também depende da colaboração de leitores, fontes e
denunciantes. Se você possui documentos, mensagens, contratos, gravações,
planilhas ou qualquer informação relevante relacionada a esta investigação — ou
a qualquer outro tema de interesse público —, entre em contato com o Intercept
por meio dos canais disponíveis em nosso site.
• BRB precisa de R$ 8,85 bilhões para
lidar com crise pós-Banco Master
O Banco
de Brasília (BRB) precisa de R$ 8,8 bilhões para absorver possíveis perdas
decorrentes dos negócios realizados com o Banco Master e manter sua capacidade
de funcionamento, segundo cálculos do presidente do banco, Nelson Antônio de
Souza.
Em
audiência realizada pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado
Federal, Souza explicou que a instituição analisou aproximadamente R$ 30
bilhões em operações e ativos relacionados ao Banco Master, e concluiu que
parte desses ativos apresenta elevado risco de perda ou dificuldade de
recuperação.
Dentro
desse universo, pelo menos R$ 2,6 bilhões não possuem lastro identificado, ou
seja, não existem garantias concretas capazes de assegurar o ressarcimento
desses recursos.
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Além
desse valor, a análise identificou outros ativos considerados frágeis ou de
baixa qualidade, elevando o potencial de perdas para R$ 8,8 bilhões.
Embora
isso não signifique que todo esse montante será efetivamente perdido, as regras
prudenciais do sistema financeiro exigem que os bancos reconheçam previamente
os riscos existentes e mantenham reservas suficientes para absorver eventuais
prejuízos.
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Como o banco pretende levantar esses recursos?
O plano
apresentado pela direção do BRB possui três frentes principais.
A
primeira delas é um financiamento de até R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo
Garantidor de Créditos (FGC), entidade privada responsável por proteger
depósitos e auxiliar na estabilidade do sistema financeiro.
A
operação foi homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas ainda depende
da aprovação de um projeto de lei pela Câmara Legislativa do Distrito Federal.
A
segunda frente envolve a securitização de créditos do Governo do Distrito
Federal (GDF). Nesse modelo, receitas futuras são transformadas em ativos
financeiros negociáveis, permitindo antecipar recursos.
A
primeira etapa da operação já garantiu R$ 1,17 bilhão ao banco. A expectativa é
levantar pelo menos mais R$ 3 bilhões por meio desse mecanismo, com
participação do BTG Pactual na estruturação financeira.
Segundo
Nelson de Souza, após essas etapas ainda seria necessário completar
aproximadamente R$ 2,2 bilhões para alcançar o volume total de R$ 8,8 bilhões
considerado necessário para estabilizar a instituição.
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O BRB corre risco de quebrar?
A atual
gestão afirma que não e, segundo Nelson de Souza, a adoção das medidas para
reforçar o capital do banco permitirá que a instituição continue cumprindo
todas as exigências regulatórias do Banco Central e mantenha suas operações
normalmente.
Ainda
assim, Souza reconheceu durante a audiência no Senado que o BRB enfrenta
atualmente “o maior problema do sistema financeiro nacional”, em razão da
dimensão dos ativos ligados ao Banco Master e da complexidade do processo de
recuperação.
Hoje, o
BRB administra cerca de R$ 30,6 bilhões em depósitos judiciais pertencentes a
tribunais de justiça do Distrito Federal e de estados como Alagoas, Bahia,
Maranhão e Paraíba.
Além
disso, o banco possui papel relevante no financiamento imobiliário da capital
federal, concentrando aproximadamente 64% desse mercado, com uma carteira
próxima de R$ 15 bilhões.
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O que ainda gera dúvidas?
Apesar
da apresentação do plano de recuperação, senadores de diferentes partidos
questionaram a falta de divulgação do balanço de 2025, a suficiência dos
recursos previstos e o impacto das garantias oferecidas pelo Governo do
Distrito Federal.
Também
existem dúvidas sobre a possibilidade de recuperação futura dos ativos
adquiridos do Banco Master e sobre eventuais responsabilidades dos antigos
administradores envolvidos nas operações investigadas. A atual gestão informou
que pretende buscar ressarcimento judicial dos prejuízos e responsabilização
civil dos ex-dirigentes que participaram das negociações.
Fonte:
Por Paulo Motoryn, Eduardo Goulart, Leandro Becker e Mauricio Moraes, em The
Intercept/Agencia Brasil

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