quinta-feira, 11 de junho de 2026

Planilha e comprovante bancário mostram como Vorcaro enviou dinheiro aos EUA para financiar ‘Dark Horse’

Desde a publicação da primeira reportagem da série Vaza Flávio, um dos esforços de aliados do senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, tem sido convencer o público de que as revelações não se sustentam. Uma das vozes na tentativa de deslegitimar o nosso trabalho tem sido a do comentarista Paulo Figueiredo.

“Começaram com o Intercept dizendo que eram 134 milhões do Vorcaro pro filme. Caiu para 61 milhões no Metrópoles. Depois, 2 milhões no Globo. Já já vocês vão descobrir que NÃO TEM dinheiro do Vorcaro no filme”, escreveu o aliado da família Bolsonaro no X, em 13 de maio.

A tese de discrepância nos valores ganhou força a partir de postagens falsas compartilhadas por parlamentares e páginas bolsonaristas, alegando que o Intercept teria recuado das informações, “pedido desculpas” ou admitido não possuir provas de que Daniel Vorcaro financiou o filme “Dark Horse”, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Isso já foi amplamente refutado.

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A alegação é mentirosa por vários motivos, mas o mais importante deles é que a primeira reportagem da nossa série sempre distinguiu dois números importantes para entender a negociata: os 24 milhões de dólares (R$ 134 milhões, em valores convertidos pela cotação da época) negociados por Flávio Bolsonaro com Vorcaro para financiar o filme; e os 10,6 milhões de dólares (equivalentes, naquele período, a R$ 61 milhões) efetivamente pagos.

Uma semana depois, em 20 de maio, Figueiredo questionou se o trabalho do Intercept revelaria, de fato, “transações financeiras”. E acrescentou: “Se não vierem (como Flávio jura e como eu acredito, até o momento), a credibilidade voltará aos poucos”. Pois bem: a edição desta semana da newsletter Cartas Marcadas traz documentos inéditos que comprovam de maneira irrefutável que houve repasses financeiros.

<><> Planilha detalha fluxo de pagamentos

Além de mensagens, o Intercept teve acesso a planilhas, contratos, comprovantes bancários e registros financeiros que permitem reconstruir parte do caminho percorrido pelo dinheiro para bancar “Dark Horse”.

O primeiro documento é uma planilha intitulada “Funding Schedule”, apresentada nas conversas como o cronograma de financiamento do projeto. O arquivo registra uma operação de quase 24 milhões de dólares — o equivalente a R$ 134 milhões na cotação da época — e detalha tanto os aportes previstos quanto os valores efetivamente recebidos pelo fundo ligado à produção.

O cronograma previa 14 desembolsos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. As duas primeiras parcelas foram de 2 milhões de dólares cada, inicialmente previstas para 20 e 25 de janeiro de 2025, mas efetivamente pagas em 13 de fevereiro e em 24 de março, segundo a planilha.

As outras 12 foram fixadas em 1,66 milhão de dólares cada – a primeira delas também foi paga em 24 de março, outras duas em 25 de abril e mais uma em 29 de maio. Ao final do cronograma, o total recebido indica uma soma de 10,6 milhões de dólares.

Essa tabela sobre os pagamentos foi encaminhada em 7 de agosto de 2025 pelo empresário Thiago Miranda a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, acompanhada da observação: “Duas em atraso e está para vencer a terceira agora em agosto”. Miranda recebeu uma resposta curta de Vorcaro: “Segunda fazemos duas”.

A mensagem é relevante porque sugere que novos desembolsos estavam sendo discutidos naquele momento, o que pode significar que o valor efetivamente pago tenha ultrapassado os 10,6 milhões de dólares.

Um cronograma semelhante havia sido encaminhado pelo próprio Daniel Vorcaro ao pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro do banqueiro, meses antes, em 12 de março de 2025. Segundo mensagens obtidas pelo Intercept, Vorcaro enviou o documento e deu duas orientações: “precisa me ajudar controlae isso” e “tem que pagar a segunda e a terceira”.

Zettel respondeu logo em seguida: “Vou pra cima do Mineiro. Passei o fluxo pra ele. Achei que ele tava fazendo”. O “Mineiro” citado na troca de mensagens seria Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo ligado à Entre Investimentos e Participações, empresa que fez a transferência bancária.

Apesar das negativas oficiais, as mensagens indicam haver uma conexão entre Vorcaro e Freixo. Em fevereiro de 2025, segundo registros obtidos pelo Intercept, Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo após o banqueiro sugerir fazer a operação “via entre”. O telefone de Freixo foi salvo na agenda de contatos de Vorcaro como Mineiro.

<><> Comprovante bancário detalha operação

Outro documento que chama atenção é o comprovante da primeira transferência internacional da operação, emitido pelo sistema SWIFT, utilizado por instituições financeiras para operações entre diferentes países.

O registro é datado de 13 de fevereiro de 2025 e confirma a remessa de 2 milhões de dólares ao Havengate Development Fund LP, controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

Segundo o comprovante, a operação teve como remetente a Entre Investimentos e Participações Ltda. O pagamento foi processado por meio do Banco BS2 e destinado a uma conta do Havengate vinculada ao JPMorgan Chase Bank. O comprovante contém os códigos de identificação da transferência, os dados das instituições envolvidas, as referências da operação e os registros de liquidação exigidos pelo sistema financeiro internacional.

O extrato registra o que seria a primeira transferência internacional para financiar “Dark Horse” e demonstra o funcionamento na prática da operação descrita nas mensagens.

Esse comprovante, inclusive, consta em uma série de mensagens trocadas entre Zettel e Vorcaro sobre dificuldades para concluir a operação. Em 5 de fevereiro, Zettel informou ao banqueiro que o câmbio do Banco Master estava criando obstáculos para a transferência destinada ao filme.

Durante a conversa, os dois discutiram alternativas para viabilizar o envio dos recursos ao exterior e acabaram decidindo recorrer à estrutura da Entre Investimentos e Participações Ltda, empresa que aparece como remetente no comprovante de transferência bancária.

Embora a Entre Investimentos e Participações e Vorcaro neguem qualquer vínculo societário, de controle ou governança entre as partes, documentos obtidos pelo Intercept e reportagens publicadas por Metrópoles e Estadão sobre investigações em curso indicam haver uma uma conexão operacional e financeira entre o grupo e o banqueiro.

Menos de dez dias depois, em 14 de fevereiro, Zettel encaminhou a Vorcaro o comprovante emitido pela rede SWIFT acompanhado de uma única palavra: “Filme!”. A mensagem foi enviada um dia após a liquidação da operação de 2 milhões de dólares destinada ao Havengate Development Fund LP, exatamente a transferência cuja realização vinha sendo discutida nas conversas anteriores.

<><> Outro lado

O Intercept entrou em contato com Paulo Calixto, Thiago Miranda e  Antônio Carlos Freixo Júnior. Também procuramos as defesas de Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro, que estão presos. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

O Grupo Entre, em nota, informou que “realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro”. Também disse que a empresa tem “compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento” da lei e está “à disposição das autoridades competentes sempre que necessário”.

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Os documentos revelados nesta edição estão longe de encerrar a história. Pelo contrário. Eles ajudam a responder algumas das perguntas levantadas desde a publicação da primeira reportagem da série Vaza Flávio, mas também abrem novas frentes de investigação sobre a origem dos recursos, o papel desempenhado por cada personagem envolvido na operação e o destino final de parte do dinheiro movimentado.

A equipe do Intercept segue investigando e cruzando informações com documentos públicos, registros empresariais e novas fontes. Esse trabalho já permitiu localizar documentos inéditos que não faziam parte das primeiras reportagens e que lançam nova luz sobre as relações financeiras, empresariais e políticas reveladas pelo caso.

Como sempre, a apuração também depende da colaboração de leitores, fontes e denunciantes. Se você possui documentos, mensagens, contratos, gravações, planilhas ou qualquer informação relevante relacionada a esta investigação — ou a qualquer outro tema de interesse público —, entre em contato com o Intercept por meio dos canais disponíveis em nosso site.

•        BRB precisa de R$ 8,85 bilhões para lidar com crise pós-Banco Master

O Banco de Brasília (BRB) precisa de R$ 8,8 bilhões para absorver possíveis perdas decorrentes dos negócios realizados com o Banco Master e manter sua capacidade de funcionamento, segundo cálculos do presidente do banco, Nelson Antônio de Souza.

Em audiência realizada pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal, Souza explicou que a instituição analisou aproximadamente R$ 30 bilhões em operações e ativos relacionados ao Banco Master, e concluiu que parte desses ativos apresenta elevado risco de perda ou dificuldade de recuperação.

Dentro desse universo, pelo menos R$ 2,6 bilhões não possuem lastro identificado, ou seja, não existem garantias concretas capazes de assegurar o ressarcimento desses recursos.

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Além desse valor, a análise identificou outros ativos considerados frágeis ou de baixa qualidade, elevando o potencial de perdas para R$ 8,8 bilhões.

Embora isso não signifique que todo esse montante será efetivamente perdido, as regras prudenciais do sistema financeiro exigem que os bancos reconheçam previamente os riscos existentes e mantenham reservas suficientes para absorver eventuais prejuízos.

<><> Como o banco pretende levantar esses recursos?

O plano apresentado pela direção do BRB possui três frentes principais.

A primeira delas é um financiamento de até R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), entidade privada responsável por proteger depósitos e auxiliar na estabilidade do sistema financeiro.

A operação foi homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas ainda depende da aprovação de um projeto de lei pela Câmara Legislativa do Distrito Federal.

A segunda frente envolve a securitização de créditos do Governo do Distrito Federal (GDF). Nesse modelo, receitas futuras são transformadas em ativos financeiros negociáveis, permitindo antecipar recursos.

A primeira etapa da operação já garantiu R$ 1,17 bilhão ao banco. A expectativa é levantar pelo menos mais R$ 3 bilhões por meio desse mecanismo, com participação do BTG Pactual na estruturação financeira.

Segundo Nelson de Souza, após essas etapas ainda seria necessário completar aproximadamente R$ 2,2 bilhões para alcançar o volume total de R$ 8,8 bilhões considerado necessário para estabilizar a instituição.

<><> O BRB corre risco de quebrar?

A atual gestão afirma que não e, segundo Nelson de Souza, a adoção das medidas para reforçar o capital do banco permitirá que a instituição continue cumprindo todas as exigências regulatórias do Banco Central e mantenha suas operações normalmente.

Ainda assim, Souza reconheceu durante a audiência no Senado que o BRB enfrenta atualmente “o maior problema do sistema financeiro nacional”, em razão da dimensão dos ativos ligados ao Banco Master e da complexidade do processo de recuperação.

Hoje, o BRB administra cerca de R$ 30,6 bilhões em depósitos judiciais pertencentes a tribunais de justiça do Distrito Federal e de estados como Alagoas, Bahia, Maranhão e Paraíba.

Além disso, o banco possui papel relevante no financiamento imobiliário da capital federal, concentrando aproximadamente 64% desse mercado, com uma carteira próxima de R$ 15 bilhões.

<><> O que ainda gera dúvidas?

Apesar da apresentação do plano de recuperação, senadores de diferentes partidos questionaram a falta de divulgação do balanço de 2025, a suficiência dos recursos previstos e o impacto das garantias oferecidas pelo Governo do Distrito Federal.

Também existem dúvidas sobre a possibilidade de recuperação futura dos ativos adquiridos do Banco Master e sobre eventuais responsabilidades dos antigos administradores envolvidos nas operações investigadas. A atual gestão informou que pretende buscar ressarcimento judicial dos prejuízos e responsabilização civil dos ex-dirigentes que participaram das negociações.

 

Fonte: Por Paulo Motoryn, Eduardo Goulart, Leandro Becker e Mauricio Moraes, em The Intercept/Agencia Brasil

 

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