Precisamos
entender o que torna o capitalismo “especial”
Aqueles
que buscam compreender a história do capitalismo se deparam imediatamente com
um desafio formidável. A complexidade e a abrangência histórica do tema parecem
exigir uma abordagem em obras volumosas, sejam elas clássicas ou recentes, que
demandam um considerável empenho do leitor. Aqueles que se aventuram por esses
trabalhos colossais talvez desejassem uma análise mais concisa do fenômeno
econômico mais importante que molda o nosso mundo atual.
De
forma revigorante, o novo livro de Trevor Jackson, que detalha a história do
capitalismo, The insatiable machine: How capitalism conquered the world, é
surpreendentemente conciso, com menos de 250 páginas de texto. Jackson,
historiador econômico da Universidade da Califórnia, Berkeley, procurou criar
uma obra sintética que traduzisse as descobertas recentes de economistas
acadêmicos em uma narrativa histórica acessível a não especialistas. Seu
tratamento criterioso das controvérsias na história econômica é um dos pontos
altos da obra.
Jackson
busca explicar como o capitalismo se tornou a força econômica global dominante
no final do longo século XIX. Ele argumenta que a dominação capitalista não foi
planejada intencionalmente de forma antecipada por ninguém, mas sim o resultado
imprevisto de uma série de decisões tomadas ao longo de séculos por agentes
econômicos em busca de seus próprios interesses particulares. Sua proliferação
trouxe consigo não apenas o aumento dos padrões de vida, mas também grande
sofrimento e catástrofes ambientais. Mesmo que essas não sejam observações
particularmente originais, são componentes fundamentais de qualquer história
competente do capitalismo.
Ao
contrário de muitos que lançam um olhar crítico sobre o capitalismo, Jackson
não escreve como marxista ou, na verdade, como adepto de qualquer outra
linhagem ideológica facilmente identificável. Ele reconhece, porém, que sua
narrativa é amplamente compatível tanto com as tradições marxistas quanto com
as mais convencionais da história econômica. A única perspectiva da qual
Jackson se distancia claramente — e com razão — é a posição inspirada por Adam
Smith de que o capitalismo é uma expressão lógica da natureza humana.
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Capitalismo: de Lutero a Lênin
Jackson
emoldura e divide sua obra com três breves capítulos sobre personalidades
históricas: Martinho Lutero, Isaac Newton e Vladimir Lênin. Esses capítulos são
menos biografias dessas figuras do que marcos para contemplar a forma em
evolução do capitalismo que existia (ou não existia) na época em que cada um
deles viveu. O capitalismo se desenvolveu tão rapidamente, em um período
histórico tão curto, que a forma que Lênin encontrou no início do século XX,
afirma Jackson, teria sido “irreconhecível” para Newton duzentos anos antes,
quanto mais para o mundo de Lutero no início do século XVI.
O cerne
do livro é elaborado em capítulos temáticos dedicados a eras históricas
sequenciais e sobrepostas: Dinheiro (1415–1650), Finanças (1650–1720), Terra e
trabalho (1640–1800), Indústria (1710–1830) e Império (1840–1914).
Talvez
o capítulo mais chocante para aqueles que veem as origens do capitalismo como
emergindo da luta de classes seja o primeiro, sobre dinheiro. Jackson considera
a inundação de metais preciosos que saturou o mundo após as conquistas do Novo
Mundo não apenas como um episódio inflacionário, mas sim como uma condição
necessária para o nascimento do capitalismo. A chamada Revolução dos Preços
uniu o mundo em um único sistema monetário baseado na prata espanhola por volta
de 1650. Ao fazer isso, monetizou as trocas, expandindo enormemente o alcance
dos mercados e fornecendo incentivos para que os produtores produzissem para a
troca em vez de para o próprio consumo. “A prata do Novo Mundo e a Revolução
dos Preços não criaram o capitalismo sozinhas”, escreve Jackson, “mas o
capitalismo não poderia ter surgido sem as condições que elas produziram.”
O
capítulo seguinte narra a criação das instituições financeiras, em grande parte
examinando as experiências inglesa e holandesa. Muitas dessas invenções
financeiras, como bancos públicos e burocracias fiscais profissionais, surgiram
principalmente para fins político-militares, e não estritamente econômicos. De
fato, embora a chamada revolução financeira tenha criado diversas instituições,
seu impacto no desenvolvimento imediato do capitalismo é um tanto ambíguo. “Um
dos grandes enigmas da história financeira”, observa Jackson após uma análise
aprofundada desses mecanismos financeiros, “é por que os bancos contribuíram
tão pouco para a Revolução Industrial.”
Após um
breve encontro com Newton, Jackson narra a história de como a terra e o
trabalho foram mercantilizados nos séculos XVII e XVIII. Variando de região
para região, essas transformações podiam assumir diferentes formas:
“cercamento, conquista, colonialismo, escravidão e servidão por contrato”. O
desenvolvimento trabalhista mais significativo nesse período, contudo, foi a
criação de uma força de trabalho capitalista — ou seja, uma massa de
trabalhadores dependentes de salários para sua subsistência.
O
quarto capítulo narra a Revolução Industrial, que inaugurou o capitalismo como
a “forma dominante de vida econômica no planeta”. Os dissidentes, como os
ludistas e os participantes da Revolta de Swing, foram incapazes de deter a
expansão da indústria, com todas as suas consequências fatais. Jackson destaca
particularmente os impactos ambientais da industrialização, que incluíram o
desmatamento, o escurecimento do céu pela poeira do carvão e a caça às baleias
quase até a extinção. O capítulo final detalha como as potências imperiais
disseminaram o capitalismo à força pelo resto do mundo.
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Saque e lucro
Em
linhas gerais, a história da ascensão e disseminação do capitalismo será
familiar para muitos. O que distingue a narrativa de Jackson é a maneira hábil
como aborda diversas controvérsias da história econômica, cuja natureza e
importância seguem sendo fontes de debate até hoje.
Uma
questão diz respeito ao papel da pilhagem na ascensão do capitalismo. Alguns
historiadores do capitalismo sugeriram, de uma forma ou de outra, que a
pilhagem histórica do Sul Global foi necessária e suficiente para a
prosperidade do Norte Global. Jackson rejeita essa ideia, observando que,
embora a história da pilhagem remonte à antiguidade, a existência do
capitalismo requer um conjunto de instituições (Jackson enfatiza instituições
financeiras como bancos, sociedades anônimas, dividendos e títulos do governo)
que nenhuma quantidade de pilhagem é capaz de criar. A história da busca pelo
lucro é repleta de ganhos e perdas, e a capacidade do capital de se renovar e
se reproduzir só é possível em condições capitalistas. Em outras palavras, “a
pilhagem não é nada comparada ao lucro”.
Jackson
também aborda o “tema mais debatido no campo da história econômica”, ou seja, a
controvérsia iniciada por Eric Williams sobre a relação entre a escravidão e a
Revolução Industrial. Embora poucos concordem com a versão mais contundente do
argumento de Williams de que o comércio de escravos causou a industrialização
britânica, quase todos aceitam que a escravidão contribuiu de alguma forma para
o enriquecimento da Grã-Bretanha. Além desse ponto em comum, há muita
discordância sobre os detalhes, e a discussão de Jackson oferece uma visão
geral útil dessa área controversa da história econômica. Jackson, por sua vez,
se mostra cético em relação a afirmações mais ambiciosas, já que “o tamanho
agregado da economia açucareira e seus lucros simplesmente não eram tão
grandes”.
Jackson
também lança luz sobre a natureza do imperialismo do século XIX. Ao contrário
das discussões sobre o tema que partem do pressuposto de que os próprios
Estados tinham poder de subordinação dos mais fracos, Jackson identifica
capitalistas específicos nos países centrais como os principais motores da
dinâmica imperial:
Falamos
de imperialismo “britânico” ou “europeu”, mas a violência imperial era muitas
vezes uma questão de iniciativa privada e local, quase empreendedora em seu
caráter, e a intervenção do Estado surgia como uma espécie de resgate quando os
atores privados se metiam em problemas, socializando os custos e privatizando
os ganhos.
Os
críticos socialistas contemporâneos do capitalismo fin de siècle, como Lênin,
frequentemente supunham que os lucros obtidos com a exploração imperialista de
áreas não capitalistas do mundo sustentavam crucialmente as economias do Norte
Global. Jackson observa que, então como agora, o peso esmagador do investimento
se concentrava entre as economias do Norte Global, e que o investimento
imperial do século XIX não era particularmente grande ou lucrativo. Mas Lênin e
seus camaradas estavam, no entanto, corretos quanto ao efeito corrosivo que o
imperialismo exercia sobre o internacionalismo da classe trabalhadora e às
consequências devastadoras da violência imperial. “Embora os socialistas da
época estivessem errados sobre os lucros e os padrões de investimento”, escreve
Jackson, “eles parecem ter acertado em cheio quanto à política.”
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Contra a “Nova História do Capitalismo”
Ao
contrário de alguns autores contemporâneos que escrevem sobre capitalismo,
Jackson não adere à abordagem da “Nova História do Capitalismo” (NHOC, na sigla
em inglês), associada a estudiosos como Sven Beckert, Walter Johnson e Edward
Baptist. Ele permeia seu livro com diversas críticas à NHOC, argumentando que
sua notória resistência em definir o que é capitalismo tem dificultado a
capacidade dos estudiosos de acumular conhecimento sobre um tema consensual.
Além disso, a expansão do capitalismo para abranger potencialmente todas as
coisas em todos os tempos tornou mais difícil delimitar uma história
pré-capitalista ou imaginar um futuro pós-capitalista.
Jackson
dedica várias páginas a uma definição de capitalismo. Embora comece de maneira
semelhante à de um economista tradicional, afirmando que o capitalismo é um
sistema econômico constituído por mercados de fatores de produção — a saber,
terra, trabalho e capital —, ele acaba por localizar a especificidade do
capitalismo na dependência do mercado: “A característica fundamental do
capitalismo é que […] hoje quase todos dependem dos mercados para viver”.
Os
estudiosos da NHOC frequentemente tentam demonstrar que “a escravidão não só
era capitalismo, como, de várias maneiras, representava a essência do
capitalismo”. Jackson resiste a essa perspectiva por diversos motivos. A visão
da NHOC ignora a diferença fundamental que o trabalho livre, em oposição ao
trabalho escravo, confere a uma economia. Uma sociedade de plantation
escravista, como a de Barbados no século XVII, portanto, na opinião de Jackson,
não deveria ser considerada uma sociedade capitalista.
Além
disso, o capitalismo conseguiu expandir-se e prosperar após a abolição da
escravatura. No caso dos EUA, o “sistema colonial pobre, subcapitalizado e
extrativista” do Sul pré-guerra foi suplantado por um sistema capaz de aumentar
enormemente a produção de sua principal exportação, o algodão. A produção de
algodão no Sul, em todo caso, era menos importante para a economia
estadunidense do que produtos agrícolas como feno ou trigo.
Em
contraposição ao NHOC, Jackson considera “mais preciso” consagrar a corporação
de capital intensivo, em vez da plantation escravista, como a forma definitiva
do capitalismo estadunidense. Ele também menciona a imigração contínua em larga
escala da Europa e a expansão para o oeste, em direção ao interior do
continente, como fatores que deveriam ser mais relevantes do que a escravidão
nas plantações para explicar a trajetória do desenvolvimento econômico dos
Estados Unidos. “Podemos debater a hipótese de que a Revolução Industrial e o
capitalismo moderno poderiam ter surgido sem a escravidão no Sul”, afirma
Jackson. “Mas parece incontestável que isso não teria acontecido se os nativos
americanos tivessem mantido seu próprio sistema de direitos de propriedade em
todo o território da América do Norte e do Sul.”
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A máquina se torna tão odiosa
Otom de
Jackson costuma ser imparcial e técnico, mas ele abandona essa postura sóbria
ao explicar os riscos de lidar com o capitalismo. “O mundo em que vivo será
destruído durante a minha vida”, escreve ele. “A questão de que tipo de mundo
virá depois disso é inteiramente uma questão de se conseguiremos matar o
capitalismo ou se ele nos matará primeiro.” A rápida degradação dos
ecossistemas da Terra causada por essa máquina insaciável parece ser a
principal motivação de Jackson ao nos instar a mudar drasticamente de rumo e
tentar construir um novo tipo de sistema econômico.
A
situação, embora grave, não é desesperadora, acredita Jackson. Ele defende o
envolvimento com a história para que as pessoas percebam coletivamente que seus
interesses comuns apontam para uma confrontação do capital. “A luta do povo
contra o capital é […] imortal”, escreve ele, e “comunidade, solidariedade e
significado começam com o reconhecimento de condições e lutas compartilhadas”.
Talvez seja apropriado que Lênin seja a figura que encerra o livro; nas páginas
finais, parece que Jackson tenta evocar parte da urgência dos escritos de
Lênin.
O apelo
de Jackson para desviar a trajetória calamitosa para a qual o capitalismo está
conduzindo a humanidade retoma a essência das críticas marxistas ao
capitalismo, ainda que sua análise dê mais ênfase a questões monetárias e
financeiras. Independentemente disso, Jackson produziu uma narrativa útil sobre
o desenvolvimento do capitalismo que evita as armadilhas analíticas que
prejudicaram muitas abordagens concorrentes.
Fonte:
Por Daniel Colligan - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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