O
campeão do terror
O
terrorismo é mal definido porque consiste em expediente guerreiro e guerra não
pode ser percebida com objetividade certeira: desperta, de forma absoluta,
instintos, pulsões e tendências reprimidas; desencadeia violência cega, difícil
de ser contida.
Protagonizada
por alguns, a guerra envolve a todos, sendo vaga a distinção entre atividade
“civil” e atividade “militar”. Corriqueira, é sempre espetacular. Repugna e
fascina, alegra e entristece, bestifica e glorifica. Justificada em nome de
princípios supremos, ignora valores consagrados, constrói e destrói sociedades.
Oferece patrimônio simbólico sacrossanto, legitima o poder político e,
enganosamente, nutre esperança de futuro melhor.
Escapando
da complexidade do fenômeno, muitos repetem levianamente Clausewitz: a guerra
seria a “continuação da política por outros meios”. A distinção arbitrária
entre guerra e política lhes permite o conforto de pensar que o objetivo da
guerra é a paz, não o exercício do domínio ou a conquista da liberdade.
Clausewitz
não foi tão raso. Definiu a guerra como “ato de violência destinado a forçar o
adversário a executar nossa vontade”. A vontade dos que guerreiam transcende o
que pode ser admitido como objetivo político. A guerra antecede a política.
Humanos sempre se mataram ao perceber sua reprodução ameaçada.
Mas, a
matança em grande escala ocorre na construção e preservação de impérios. O
domínio sobre muitas comunidades é efetivado com terror intensivo,
transformando um instinto primal, o medo, em pavor coletivo. O terrorista visa
enfraquecer ou anular a reação de sua vítima. Essa prática é universal e
atemporal.
O
terror é usualmente combinado com a demonização do “inimigo”, a negação de
comida e água, pilhagens, saques, suplícios, execuções sumárias, estupros,
genocídios, humilhações, diásporas, profanações de símbolos sagrados,
escravização, servidão, enfim, com a brutalidade absoluta. O genocídio em Gaza
e a destruição de uma escola de crianças em Teerã não foram eventos
extraordinários, mas a manutenção de rotina histórica que iguala “primitivos” e
“civilizados”.
Nenhum
império, regime ditatorial ou força libertária dispensa a prática do terror e
sua posterior glamourização, porque o exercício do mando demanda mais que
brutalidade física. Impérios requisitam os melhores talentos para exaltar
pretensas vantagens oferecidas aos dominados e obter o seu consentimento.
Houvesse
ranking dos maiores terroristas segundo a capacidade de disseminar pavor e
pânico, a Casa Branca seria imbatível, não porque detenha meios para extinguir
a humanidade, mas por ser capaz de impor padrões de beleza, justiça e bondade,
estabelecer leis extraterritoriais, decidir unilateralmente condições de
intercâmbios globais e deixar à míngua os que não se submetem aos seus
desígnios.
A
capacidade de abalar economias, assassinar, derrubar ou sequestrar governantes,
desencadear guerras por procuração, impor dependência em armas e equipamentos
militares, dominar a comunicação planetária, interferir na vontade de países
formalmente soberanos desconcertaria terroristas famosos como Ciro, Alexandre,
César, Gengis Khan, Napoleão, a rainha Vitória, Hitler…
A
modestíssima capacidade de autodeterminação do Brasil será testada nas eleições
de outubro. Decidiremos pela servidão ou pela honra nacional. Ao incluir
organizações criminosas como “terroristas”, a Casa Branca avisou que mandará
bala em nosso espaço quando lhe aprouver. Mostrando coerência, estabelece cerco
ao nosso território por meio de aliados sul-americanos.
Muitos
aplaudem a interferência da Casa Branca na Segurança Pública brasileira. Alguns
generais torcem a cara, mas não ao ponto de sugerir a quebra de laços longevos.
O
Senado aceita candidamente a permanência em seus quadros do sujeito que foi a
Washington oferecer o país de bandeja e incentivar seu terrorismo.
Grandes
empresários parecem ser unânimes em buscar acomodação com o campeão do terror.
Reformistas
sociais se contentam com defesas retóricas da soberania brasileira. Por
desaviso ou sei lá o quê, deixaram a bandidagem surrupiar as cores de nossa
bandeira.
O
quadro geral angustia, mas há esperança. A campanha eleitoral pode mobilizar o
sentimento coletivo mais poderoso conhecido na história, o amor à pátria. Para
efeito, esse sentimento arrebatador precisa ser tipificado objetivamente como
defesa de nosso patrimônio.
O grito
de dignidade do Brasil deve ser bem forte, ao ponto de desmascarar os traidores
da pátria e conter Trump, o vencedor do campeonato mundial do terror.
Fonte:
Por Manuel Domingos Neto, em Outras Palavras

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