quinta-feira, 11 de junho de 2026

Custos, inchaço e Trump: as muitas polêmicas da Copa de 2026

Mundial da Fifa é alvo de críticas antes mesmo do pontapé inicial. Polêmicas envolvem ações do governo americano contra time do Irã, preços recordes, comercialização excessiva e expansão para 48 times.

>>>> 1. A Fifa não deveria ser politicamente neutra?

Nos meses que antecederam a Copa do Mundo de 2026, houve muitas críticas pelo fato de a Federação Internacional de Futebol (Fifa), sob a presidência de Gianni Infantino, demonstrar proximidade incomum com Donald Trump. Infantino apareceu diversas vezes ao lado do presidente dos EUA.

Entre outros episódios, ele participou do lançamento do Conselho de Paz de Trump usando um boné vermelho e agindo como um fã do ex-presidente no palco, além de ter entregado a Trump o Prêmio da Paz da Fifa durante o sorteio da Copa. A premiação, criada especialmente para a ocasião, foi vista como uma espécie de compensação pelo fato de Trump não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz – reconhecimento para o qual ele próprio se considerava o candidato mais adequado.

Segundo os próprios estatutos da entidade, a Fifa deveria ser politicamente neutra. No entanto, Infantino vem interpretando seu papel de forma cada vez mais política, dando a impressão de conectar deliberadamente a política esportiva internacional aos interesses estatais.

As tensões aumentam ainda mais pelo fato de os Estados Unidos estarem em conflito com o Irã. Até hoje, nunca houve um país-sede de Copa do Mundo envolvido em um conflito militar com uma das seleções participantes.

>>>> 2. Todos os torcedores não deveriam poder ver sua seleção jogar?

As regras de entrada nos Estados Unidos também geram fortes críticas: devido ao endurecimento das regras de visto, torcedores de vários países participantes ficaram, na prática, excluídos do torneio. Para Irã e Haiti, há proibição total de entrada para espectadores – apenas os times e as comissões técnicas podem entrar no país.

Torcedores do Senegal e da Costa do Marfim também têm pouquíssimas chances de conseguir entrar, já que os vistos de turismo para esses países foram amplamente suspensos, entre outros motivos porque muitos viajantes desses locais permaneceram nos EUA além do período permitido.

Por algum tempo, o governo americano chegou a exigir um depósito de até 15 mil dólares de visitantes de determinados países, valor que seria devolvido apenas após a saída do país. Embora essa medida tenha sido retirada para muitos portadores de ingresso pouco antes do início do torneio, ela mostra claramente como políticas de segurança e imigração influenciam esta Copa.

Além disso, a política migratória agressiva dos EUA e possíveis ações da agência de imigração ICE geram insegurança. O governo americano não quis descartar previamente a possibilidade de controles ou detenções também nos arredores dos jogos. Organizações de direitos humanos alertam, por isso, para um "efeito intimidador", especialmente para torcedores de nacionalidades que formam grandes comunidades de imigrantes nos EUA – muitos deles já disseram preferir não viajar para a Copa por medo.

>>>> 3. Um ingresso deveria realmente poder custar 690 mil dólares?

A venda de ingressos para a Copa de 2026 é considerada extremamente comercializada. Já no lançamento oficial, os preços eram muito altos: para muitos lugares, foram cobrados vários milhares de dólares, enquanto ingressos premium para a final custavam originalmente cerca de 11 mil dólares (R$ 57 mil).

No entanto, a Fifa introduziu pela primeira vez o chamado "preço dinâmico" ("dynamic pricing"), o que faz com que os preços variem fortemente de acordo com a demanda. Assim, mesmo dentro da mesma fase de vendas, torcedores pagam valores diferentes por lugares idênticos.

Também surgiram relatos de compradores que selecionaram uma determinada categoria ou posição no estádio, mas acabaram recebendo assentos em setores piores. Organizações de torcedores e entidades de defesa do consumidor acusam a Fifa de praticar preços abusivos, falta de transparência e vendas injustas – chegando inclusive a apresentar reclamações à União Europeia. As procuradorias-gerais de Nova Jersey e Nova York anunciaram investigações sobre a venda de ingressos da Fifa.

Mesmo poucas semanas antes do início do torneio, a maioria dos jogos ainda não estava esgotada. Em 28 de maio, o ingresso mais barato para a final custava, no site da Fifa, 8.625 dólares (R$ 44,7 mil). Quem precisasse de um lugar acessível para cadeirantes teria de pagar pelo menos 10.350 dólares (R$ 53,7 mil). O último assento disponível na primeira fila de um bloco de canto, próximo à bandeirinha de escanteio, chegou a ser anunciado por 690 mil dólares (R$ 3,6 milhões).

Além da venda oficial, a Fifa também opera sua própria plataforma de revenda, lucrando com 30% de cada transação. Críticos afirmam que os interesses financeiros estão claramente em primeiro plano e que muitos torcedores acabam excluídos da Copa devido aos preços elevados.

>>>> 4. Não deveriam jogar na Copa apenas as melhores seleções?

Pela primeira vez, a Copa do Mundo de 2026 contará com 48 seleções em vez de 32. Com isso, o número de partidas sobe de 64 para 104. Especialistas e muitos torcedores criticam a expansão, argumentando que ela pode prejudicar a qualidade técnica do torneio, já que mais equipes de nível inferior participarão.

Ao mesmo tempo, ficou mais fácil alcançar a fase eliminatória, pois não apenas os dois primeiros colocados dos 12 grupos avançam, mas também os oito melhores terceiros colocados.

Como agora 32 equipes – em vez de 16 – passarão da fase de grupos, haverá pela primeira vez uma fase de 16 avos de final. Isso aumenta a carga física dos jogadores e também os custos para os torcedores. Ao mesmo tempo, a expansão oferece à Fifa novas oportunidades de gerar ainda mais receita.

Alguns observadores consideram a reforma uma decisão politicamente motivada: quem mais se beneficia das vagas adicionais são federações menores, cujos votos têm grande peso dentro da estrutura da Fifa. Isso levanta dúvidas sobre se os critérios esportivos realmente foram prioritários ou se o presidente da Fifa, Gianni Infantino, impulsionou a ampliação do torneio principalmente para fortalecer sua base de poder dentro da entidade.

>>>> 5. Torneio não deveria ser climaticamente sustentável?

Embora a Fifa afirma defender sustentabilidade e proteção climática, a Copa de 2026 vem sendo fortemente criticada por seus impactos ambientais. Estudos estimam que o torneio poderá gerar mais de nove milhões de toneladas de CO₂, principalmente devido às grandes distâncias entre as cidades-sede e ao elevado número de voos.

Isso corresponde praticamente à quantidade de CO₂ emitida em um ano inteiro pela ilha mediterrânea de Chipre, que possui cerca de 1,25 milhão de habitantes e mais de 4 milhões de turistas anuais. Organizações ambientais já falam na possivelmente "Copa mais prejudicial ao clima" da história.

O problema continua também no local: muitos estádios ficam fora dos centros urbanos e têm pouca conexão com o transporte público. Onde há transporte disponível, os preços chegaram a disparar. Para um curto trajeto de trem até o MetLife Stadium, próximo de Nova York, chegou-se a cobrar até 150 dólares (R$ 778), em vez dos cerca de 13 dólares (R$ 67,4) normalmente cobrados.

Após intensos protestos de torcedores, os organizadores recuaram parcialmente e definiram uma taxa "mais razoável" de 98 dólares (R$ 508,3). O ônibus que leva ao estádio agora deverá custar 20 dólares (R$ 103,7) em vez dos 80 dólares (R$ 415) previstos anteriormente.

Quem vai de carro também enfrenta altos custos: estacionamentos custam entre 75 e 300 dólares (R$ 389 a R$ 1,5 mil), dependendo do jogo. Pelo menos na maioria dos estádios há alguma alternativa pública mais barata, com exceção de Boston.

Críticos enxergam nisso uma contradição: apesar das promessas climáticas, a estrutura do torneio obriga muitos torcedores a viagens poluentes e ainda torna essas viagens mais caras.

>>> 6. Por que o Irã teve de mudar sua base para o México?

Em meio às tensões geradas pela guerra pelos EUA e Israel contra o Irã, o governo dos EUA protelou a concessão de vistos de entrada aos jogadores e à comissão técnica da seleção iraniana, que disputará os três jogos da fase de grupos no território americano.

Em março, Trump tentou desencorajar os iranianos de participarem da Copa, dizendo que não achava "apropriada" a presença do país na competição e levantando preocupações sobre a "vida e a segurança" dos jogadores. A seleção do Irã reagiu, afirmando que ninguém poderia excluí-la da competição, após ter se classificado em 1º lugar em seu grupo nas eliminatórias asiáticas.

Em abril, segundo reportagem do jornal Financial Times, um alto enviado de Trump teria pedido à Fifa que substituísse o Irã pela Itália na Copa do Mundo. A seleção italiana não conseguiu, pela terceira vez seguida, se classificar para o Mundial. O pedido, no entanto, não foi atendido pela entidade.

A Federação de Futebol do Irã continuou a insistir que todos os jogadores e membros da comissão técnica recebessem vistos, incluindo aqueles que serviram no Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica.

Diante da demora, o Irã negociou, de última hora, a mudança da base da equipe do Arizona para Tijuana, no México. Também tentou negociar a transferência dos jogos, sem sucesso.

Após a confirmação dos vistos para os jogadores, a federação iraniana afirmou que 14 membros da comissão tiveram o visto de entrada negado pelos EUA. A entidade afirma que a não emissão dos vistos "efetivamente negou à seleção iraniana a oportunidade de disputar em condições de igualdade e uma competição livre de discriminação."

O Irã jogará suas duas primeiras partidas em Inglewood, na Califórnia, contra a Nova Zelândia e a Bélgica e, em seguida, seguirá para Seattle para enfrentar o Egito.

As seleções do Irã e dos EUA podem se encontrar na fase eliminatória da Copa se ambas as equipes terminarem em segundo lugar em seus grupos.

•        A Copa da Vergonha. Por Benedito Tadeu César

Acompanho o futebol há toda a minha vida. Não apenas como torcedor, mas também como pesquisador. Em 1981, defendi no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UNICAMP a dissertação "Os Gaviões da Fiel e a Águia do Capitalismo ou O Duelo", considerada o primeiro mestrado acadêmico realizado no Brasil sobre uma torcida organizada. Naquele trabalho, procurei compreender o futebol como fenômeno social, cultural e político, muito além das quatro linhas do campo.

Naquela época, o futebol e o esporte em geral ainda não eram considerados temas "sérios" por boa parte da academia brasileira. Muitos viam essas manifestações como assuntos menores, indignos da atenção das ciências sociais. A consolidação da sociologia e da antropologia do esporte no Brasil só ocorreria anos mais tarde, graças ao trabalho de diversos pesquisadores que demonstraram como o futebol expressa conflitos sociais, identidades coletivas, disputas políticas, interesses econômicos e visões de mundo. Hoje isso parece evidente. Há quarenta e cinco anos, não era.

Talvez por isso seja impossível assistir aos acontecimentos que cercam a Copa do Mundo de 2026 sem uma profunda sensação de desconforto. Ao longo de décadas estudando política e sociedade, aprendi que o futebol nunca esteve isolado das disputas de poder. Governos, interesses econômicos, conflitos internacionais e projetos ideológicos sempre encontraram no esporte um espaço privilegiado de projeção e influência. O que muda são as circunstâncias históricas e o grau de visibilidade dessas interferências.

<><> Futebol, poder e política

A história do esporte internacional oferece inúmeros exemplos dessa relação entre competição esportiva e poder político. As grandes competições foram frequentemente utilizadas como instrumentos de projeção de prestígio nacional, afirmação ideológica e disputa simbólica entre Estados. As Olimpíadas de Berlim, em 1936, realizadas sob o regime nazista, permanecem como um dos exemplos mais conhecidos dessa instrumentalização política do esporte. Décadas depois, os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, ofereceriam outro exemplo dramático e doloroso da profunda imbricação entre esporte e política. O sequestro e assassinato de onze atletas israelenses por integrantes da organização palestina Setembro Negro chocou o mundo e transformou uma celebração esportiva em palco de uma tragédia geopolítica de repercussão global. O episódio demonstrou de forma brutal que os conflitos internacionais não ficam necessariamente do lado de fora dos estádios e das vilas olímpicas. Eles podem atravessar seus portões e ocupar o centro da cena mundial.

Essa relação é ainda mais intensa no futebol. Nenhuma outra modalidade mobiliza simultaneamente tantos sentimentos, tantas identidades coletivas, tantos recursos econômicos e tantos interesses políticos. O futebol movimenta bilhões de espectadores e bilhões de dólares em todos os continentes. Chefes de Estado, governos, corporações globais, organismos internacionais e grupos econômicos disputam permanentemente sua influência sobre esse gigantesco espetáculo planetário. Justamente por isso, exige das entidades esportivas, dos governos e das organizações internacionais um compromisso ainda maior com critérios transparentes, universais e coerentes. O peso político do futebol pode explicar muitas decisões. Não pode justificá-las quando são marcadas pela discricionariedade. Tampouco pode servir de desculpa para a omissão de governos democráticos e de federações nacionais que, diante de situações semelhantes, adotam posições radicalmente diferentes conforme os interesses estratégicos dos atores envolvidos.

Por essa razão, a Copa de 2026 corre o risco de entrar para a história como a Copa da Vergonha.

<><> O Irã diante das portas fechadas

Realizada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México, a competição acontece sob a sombra da escalada militar no Oriente Médio. Os Estados Unidos participaram de ações militares contra o Irã e continuam oferecendo apoio político, diplomático e militar às operações de Israel em Gaza e no Líbano. Nesse contexto, uma das seleções classificadas para o Mundial passou a enfrentar obstáculos impostos justamente por um dos países-sede da competição.

Os fatos são conhecidos. Integrantes da delegação iraniana tiveram dificuldades para obter autorização de entrada nos Estados Unidos. Dirigentes da Federação Iraniana de Futebol foram impedidos de ingressar no país e precisaram retornar ao Irã, desfalcando a estrutura administrativa e técnica da seleção. As autoridades norte-americanas também impuseram restrições especiais à permanência da delegação iraniana em território estadunidense.

Não se trata de uma questão burocrática qualquer. Trata-se de uma situação que compromete o princípio da igualdade de condições entre os participantes de uma competição internacional.

Outras delegações também foram atingidas por procedimentos incomuns. O atacante iraquiano Aymen Hussein foi submetido a cerca de sete horas de interrogatório ao desembarcar nos Estados Unidos para participar do torneio. Um fotógrafo da delegação iraquiana teve sua entrada negada após longo período de questionamentos. Episódios como esses demonstram que a política externa e as tensões geopolíticas estão interferindo diretamente no ambiente esportivo da competição.

<><> O silêncio da FIFA

Até agora, a FIFA não apresentou uma resposta pública compatível com a gravidade desses acontecimentos. A entidade que frequentemente se apresenta como guardiã da universalidade do futebol parece aceitar passivamente situações que afetam o tratamento isonômico das seleções participantes.

O silêncio da FIFA torna inevitável uma comparação com o tratamento dispensado à Rússia após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. Naquele momento, FIFA e UEFA suspenderam rapidamente as seleções e os clubes russos de suas competições. A Rússia foi excluída da Copa do Mundo do Catar e de diversos torneios internacionais. O Comitê Olímpico Internacional recomendou o afastamento de atletas e dirigentes russos das competições esportivas internacionais, desencadeando uma ampla rede de sanções esportivas.

As justificativas eram conhecidas: a defesa dos valores do esporte, da paz internacional e dos direitos humanos.

<><> Dois pesos e duas medidas

A questão que se coloca hoje não é a defesa da Rússia nem a reivindicação de novas punições. A questão é a coerência.

Se a comunidade esportiva internacional considera legítimo adotar sanções em determinados conflitos, por que critérios semelhantes não são sequer discutidos quando os Estados Unidos e Israel estão envolvidos em ações militares que provocam milhares de mortes, destruição de cidades inteiras e forte condenação por parte de organismos internacionais e de amplos setores da opinião pública mundial?

A resposta parece desconfortável. Há agressões que despertam imediata indignação internacional. E há massacres — alguns deles denunciados por amplos setores da comunidade internacional como práticas genocidas — que continuam sendo tratados com complacência, silêncio ou justificativas diplomáticas.

<><> A omissão das democracias

O problema não está apenas nas decisões das entidades esportivas. Está também no silêncio dos governos e das federações nacionais. Até o momento, nenhum movimento relevante de boicote foi organizado. Nenhuma pressão significativa foi exercida sobre a FIFA. Nenhuma mobilização coletiva surgiu para questionar as restrições impostas à seleção iraniana.

A história do esporte oferece exemplos distintos. Durante décadas, o regime do apartheid na África do Sul foi alvo de isolamento esportivo internacional. Naquele caso, compreendeu-se que a neutralidade era impossível diante de uma injustiça tão evidente.

Hoje, porém, a neutralidade parece ter sido substituída pela seletividade.

<><> Uma questão moral

A Copa segue seu curso. Os patrocinadores continuam seus negócios. As transmissões alcançam bilhões de espectadores. Os dirigentes fazem discursos sobre integração entre os povos. Mas a realidade insiste em invadir os gramados.

Por isso, esta pode ser chamada de Copa da Vergonha.

Vergonha pela normalização da guerra. Vergonha pelo silêncio das instituições esportivas. Vergonha pela aplicação desigual dos critérios políticos. Vergonha pela omissão dos governos democráticos diante de situações que, em outros contextos, seriam objeto de indignação e sanções. Vergonha pela ausência de solidariedade internacional. Vergonha porque uma seleção participante enfrenta restrições impostas por um país-sede sem que isso provoque uma reação à altura por parte das autoridades do futebol mundial.

O futebol continua sendo uma das mais importantes expressões culturais do planeta. Justamente por isso, não pode servir de cortina para ocultar injustiças nem para naturalizar práticas que seriam condenadas em outras circunstâncias. Quando a política invade os gramados para restringir direitos de alguns e preservar privilégios de outros, a questão deixa de ser apenas esportiva.

Passa a ser moral.

 

Fonte: DW Brasil/Brasil 247

 

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