Trump
e Netanyahu queriam remodelar o Oriente Médio – agora correm o risco de uma
crise permanente
O
presidente americano, Donald Trump, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin
Netanyahu, acreditam que uma vitória sobre o Irã transformaria o Oriente Médio.
A
região está, de fato, sendo transformada. Mas não da maneira que eles
esperavam. A República Islâmica do Irã não foi derrotada pelos Estados Unidos e
por Israel. O risco agora é o de uma crise permanente e desgastante, marcada
por períodos alternados de tensão e confrontos abertos.
O
regime iraniano se mostrou muito mais resistente do que Trump e Netanyahu
imaginavam. A avaliação dos dois estava errada, e eles perderam o controle
sobre as consequências do conflito.
A mais
recente delas foi a derrubada de um helicóptero Apache dos EUA pelo Irã. O
episódio é mais um lembrete de que os líderes iranianos ainda conseguem atingir
os americanos e não pretendem recuar em sua determinação de sair da guerra
fortalecidos.
Para
eles, vencer significa sobreviver e ampliar o poder de dissuasão, sobretudo por
meio do reconhecimento de seu controle sobre o estreito de Ormuz, uma das rotas
marítimas mais estratégicas do mundo.
O
presidente dos EUA e os seus generais tentarão calibrar a sua resposta à perda
do helicóptero, para demonstrar, de forma igualmente contundente, que não
aceitarão intimidação. Ao mesmo tempo, buscam preservar o processo diplomático,
lento e até agora improdutivo. A tripulação do Apache sobreviveu. Caso tivesse
morrido, a reação provavelmente teria sido muito mais dura.
Trump
apostava em um acordo com o Irã para reabrir o estreito de Ormuz e definir os
termos de negociações de longo prazo sobre temas centrais, começando pelo
estoque de urânio enriquecido no Irã e seus planos nucleares.
A
guerra é impopular nos EUA, e Trump quer uma saída que possa apresentar como
uma vitória. No entanto, a tarefa tem se provado um desafio difícil.
Trump e
Netanyahu estão aprendendo uma velha lição.
Desde
que a humanidade descobriu a arte e a maldição da guerra, líderes percebem que
é mais fácil começar uma guerra do que terminá-la com uma vitória clara.
Quando
decidiram levar seus países à guerra contra o Irã no último dia de fevereiro
(28/02), os dois divulgaram pronunciamentos em vídeo escolhendo palavras que
refletiam a expectativa de um momento de transformação histórica. O regime que
governa o Irã desde a queda do xá, em 1979, parecia estar chegando ao fim.
Nas
primeiras horas da manhã, em Mar-a-Lago, seu resort na Flórida, Trump retomou a
promessa que havia feito em janeiro a opositores do regime iraniano de que
"a ajuda está a caminho".
"Ao
grande e orgulhoso povo do Irã, digo nesta noite que a hora de sua liberdade
está próxima. Permaneçam abrigados. Não saiam de casa. Lá fora é muito
perigoso. Bombas cairão por toda parte. Quando terminarmos, assumam o controle
do governo. Ele será seu. Esta será provavelmente a única chance que vocês
terão por gerações."
Na
manhã seguinte, Netanyahu estava de pé sob a luz do sol no terraço da Kyria, o
complexo do Ministério da Defesa de Israel, no centro de Tel Aviv, para gravar
seu pronunciamento. Assim como Trump, falou como se a vitória fosse certa.
"Essa
coalizão de forças nos permite fazer aquilo que desejo há 40 anos: aniquilar o
regime terrorista de forma implacável. Foi isso que prometi e é isso que
faremos."
Ao
longo de sua trajetória política, Netanyahu sustentou que a verdadeira ameaça a
Israel vinha do Irã, e não dos palestinos ou dos vizinhos árabes do país. Ele
tentou, sem sucesso, convencer outros presidentes americanos a participar de um
ataque contra o Irã. Trump foi diferente.
Por
mais de dois anos, desde o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023,
Netanyahu disse aos israelenses que o poder militar do país, apoiado pelos EUA,
derrotaria seus inimigos e abriria caminho para um futuro mais próspero e
seguro. A resposta estaria na força, não na diplomacia.
Netanyahu
parecia um homem convencido de que estava prestes a alcançar seu objetivo. Em
contraste, quando encarou as câmeras após Trump lhe ordenar que cancelasse seus
planos de atacar Beirute na segunda-feira (08/06), o renomado colunista
israelense Ben Caspit disse que ele parecia "um balão murcho".
Caspit
é um dos críticos mais ferozes de Netanyahu. Mas é evidente que a estratégia de
Netanyahu de usar a força para moldar a região à sua vontade fracassou.
Trump
esperava uma vitória rápida. Ele assistiu com satisfação à operação militar dos
EUA que capturou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua mulher, Cilia
Flores, enviou os dois para uma prisão em Nova York, nos EUA, e instalou uma
sucessora alinhada aos interesses americanos em Caracas. Na visão dele, era um
caso clássico de mudança de regime, muito mais eficiente do que as guerras
prolongadas travadas por seus antecessores no Iraque e no Afeganistão. O Irã
seria o próximo da lista.
Agora,
os dois líderes devem estar se perguntando o que deu errado. Os EUA têm as
Forças Armadas mais poderosas do mundo. Israel é a principal potência militar
do Oriente Médio.
Trump e
Netanyahu enxergavam um regime em Teerã (capital iraniana) abalado por uma
crise econômica provocada por sanções, má gestão e corrupção. Israel havia
desferido golpes severos contra aliados iranianos, como o Hamas, na Faixa de
Gaza, e o Hezbollah, no Líbano. Outro aliado importante de Teerã, Bashar
al-Assad, havia sido deposto da presidência da Síria e fugido para Moscou, na
Rússia. Em janeiro, o regime iraniano reprimiu grandes manifestações contrárias
ao governo, matando milhares de cidadãos.
Eles
subestimaram a capacidade de resistência, a dureza e a habilidade política do
regime islâmico. Acreditavam que a morte do líder supremo e de seus principais
auxiliares provocaria o colapso do sistema por dentro.
Também
superestimaram a eficácia do poder militar contra um regime que convive com
ameaças há quase 50 anos, que se estruturou para sobreviver a um ataque e que
desenvolveu uma concepção própria de segurança nacional, sustentada por
convicções religiosas e ideológicas.
Os
países do Golfo produtores de petróleo, aliados dos EUA e, no caso dos Emirados
Árabes Unidos e do Bahrain, também de Israel, sofreram fortes impactos. Não se
trata apenas da perda de receitas do setor petroquímico e de derivados, como
fertilizantes. Esses países construíram seus projetos de futuro em torno da
ideia de um Golfo estável, transformado em centro bilionário de negócios.
Agora, investidores e turistas veem a guerra transformar essa visão em uma
miragem.
O
regime iraniano acredita que a sua sobrevivência e a facilidade com que
conseguiu pressionar a economia mundial ao fechar o estreito de Ormuz e atacar
vizinhos árabes do Golfo podem ser convertidas em capacidade de dissuasão de
longo prazo contra os EUA e Israel.
Os
homens que substituíram a antiga geração de líderes iranianos mortos por Israel
e pelos EUA são tão ideológicos quanto seus antecessores, mas demonstram
disposição ainda maior para assumir riscos no que consideram uma luta
existencial. Eles acreditam que palavras, sozinhas, não impedirão novos ataques
americanos ou israelenses no futuro. Por isso, querem mostrar que qualquer nova
ofensiva contra o Irã terá consequências dolorosas.
Parte
central dessa estratégia é ligar a guerra no Líbano ao conflito no Golfo. A
mensagem do regime para Trump é que não haverá possibilidade de acordo enquanto
Israel continuar bombardeando o Líbano e tentando destruir o Hezbollah,
movimento político e milícia apoiado por Teerã desde os anos 1980 como linha
avançada de defesa contra Israel.
Ao
frear os planos de Israel de atacar Beirute sob o argumento de que um acordo
estava próximo, algo que já afirmou antes, sem que se concretizasse, Trump
demonstrou implicitamente aceitar a ligação entre o que acontece no Líbano e o
que ocorre no Golfo.
Na
segunda-feira (08/06), Netanyahu afirmou que não aceita essa relação. Segundo
ele, ela é "intolerável e completamente inaceitável". O problema para
Netanyahu é que Trump colocará seus próprios interesses e seu desejo de
encerrar a guerra acima da determinação do primeiro-ministro israelense de
prolongar o conflito até poder declarar que o regime islâmico em Teerã foi
enfraquecido.
Netanyahu
cancelou um ataque planejado contra Beirute, mas, desde então, as Forças de
Defesa de Israel continuam bombardeando com intensidade o sul do Líbano.
Quando
o estreito de Ormuz foi fechado em março, surgiram alertas sobre as
consequências para a economia mundial caso a rota continuasse bloqueada até
junho.
Não
apenas a passagem estratégica, que permaneceu aberta até os ataques de EUA e
Israel contra o Irã, segue fechada. Sem avanços diplomáticos significativos, é
difícil imaginar que ela volte a ser reaberta tão cedo.
• Missão permanente do Irã em Viena chamou
de absurdo o projeto de resolução dos EUA na AIEA
A
missão permanente do Irã junto às organizações internacionais em Viena
considerou absurdo o projeto de resolução dos EUA sobre o seu programa nuclear
apresentado ao Conselho de Governadores da AIEA.
"É
absurdo que os EUA, um país agressor, apresentem ao Conselho de Governadores um
projeto de resolução sobre as atividades nucleares pacíficas do Irã. Eles
derramam lágrimas de crocodilo por causa dos problemas que eles mesmos criaram,
e acusam o Irã de não conformidade quando sua agressão tornou, de fato,
impossível, em termos lógicos e legais, a aplicação das salvaguardas da AIEA
sobre os chamados 'locais destruídos'", aponta um comunicado publicado na
conta oficial da missão permanente do Irã na rede social X.
Os
representantes iranianos na entidade diplomática enfatizaram que a
"agressão e as ameaças contínuas", que levaram às atuais
"circunstâncias excepcionais", não haviam cessado.
"Na
verdade, mais recentemente, em 7 de junho de 2026, no mesmo dia em que o
projeto de resolução foi distribuído informalmente em Viena, o presidente dos
EUA ameaçou publicamente atacar novamente as instalações nucleares do
Irã", acrescentou a missão permanente do Irã.
• Estados Unidos voltam a atacar Irã após
queda de helicóptero no estreito de Ormuz
As
forças do Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM), unidade responsável por
ações na região do Oriente Médio, afirmaram no início da noite desta
terça-feira (9) que voltaram a atacar o Irã.
Conforme
publicado pela CENTCOM nas redes sociais, a medida é uma resposta à queda do
helicóptero Apache, das tropas norte-americanas, na madrugada. Segundo
Washington, Teerã é responsável pela ação que culminou no acidente.
"A
missão é uma resposta proporcional à agressão injustificada do Irã."
Cerca
de três horas depois, também por meio das redes sociais, a CENTCOM declarou que
havia finalizado os ataques em resposta à queda do Apache.
"As
forças do CENTCOM atacaram sistemas de defesa aérea iranianos, estações de
controle terrestre e radares de vigilância próximos ao estreito de Ormuz com
munições de precisão disparadas por caças da Força Aérea e da Marinha dos EUA.
A operação foi uma resposta proporcional aos recentes ataques contra forças
americanas e navios mercantes internacionais que transitavam pelas águas da
região."
O
Quartel-General Central do Khatam al-Anbiya iraniano afirmou que o exército do
irã atacou diversas bases americanas na região em retaliação aos ataques dos
EUA, informou a Press TV nesta quarta-feira (10, horário local). O comando
teria acrescentado que, caso a agressão americana continue, ataques mais
abrangentes serão realizados contra alvos selecionados na região.
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Ameaças dos dois lados
No
início da tarde, antes da retomada dos ataques, o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, declarou que o país responderia à queda do Apache, que
contava com dois pilotos a bordo, resgatados sem ferimentos.
"Os
Estados Unidos devem, por necessidade, responder a esse ataque", escreveu.
Após a
publicação de Trump, o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher
Ghalibaf, escreveu em sua conta no X que o Irã "prefere a linguagem da
diplomacia", mas "falamos outras línguas com muito mais
fluência".
"Quebre
seus compromissos, e nós mudaremos para o que falamos melhor. Você cavalga o
cavalo que selou!"
Fonte:
Por Jeremy Bowen, editor internacional da BBC News/Sputnik Brasil

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