quinta-feira, 11 de junho de 2026

Palestina: a fragmentação como efeito do colonialismo

A fragmentação, no contexto da Palestina, não é um desvio ocasional de uma suposta unidade original nem simples expressão de divergências internas. Trata-se do efeito contínuo de uma engenharia colonial que atua simultaneamente sobre o território, as instituições e os regimes de verdade que definem o que pode ser dito, visto e legitimado como político. Como demonstra Edward Said em Orientalismo, não está em jogo apenas a dominação material, mas a própria inteligibilidade do mundo: quem pode aparecer como sujeito político e quem é reduzido à condição de problema.

Nesse cenário, a fragmentação se consolida também como construção narrativa. A repetição da ideia de que o campo palestino é intrinsecamente dividido ou incapaz de unidade desloca o olhar das condições históricas que produziram essas fissuras. Aquilo que surge como falha interna muitas vezes encobre uma longa trajetória de intervenções, cercos e limitações sistemáticas do possível. Ainda assim, atribuí-la exclusivamente a fatores externos simplifica o problema. No interior da sociedade palestina — e entre seus apoiadores — há disputas intensas que organizam o campo político: quem representa a causa, quais estratégias são consideradas legítimas, que alianças podem ser sustentadas. São essas disputas que desenham os contornos da ação política.

No entanto, como alerta Nahla Abdo, a exigência de unidade palestina frequentemente silencia vozes internas: mulheres, refugiados, trabalhadores precarizados, sob o lema da ‘causa única’. A fragmentação produz sofrimento, mas sua simples superação sem democracia interna produz novas exclusões.

A fragmentação imposta pelo colonizador não anula a existência de projetos políticos divergentes (classe, geração, geografia, ideologia). O erro seria tomar essas divergências como prova de incapacidade; mas o erro oposto seria romantizá-las como se fossem imunes à engenharia colonial.

Elas tampouco emergem no vazio. São atravessadas por décadas de ocupação, deslocamento forçado, vigilância e violência, que comprimem o espaço político e tornam cada escolha carregada de consequências existenciais. Quando os horizontes de ação são sistematicamente reduzidos, a divergência passa a operar como disputa por sobrevivência política. Como observa Frantz Fanon em Os condenados da Terra, o colonialismo estreita radicalmente o campo do possível, intensificando conflitos internos que, em outras condições, poderiam assumir outras formas.

A isso se soma a regulação externa da legitimidade. Não são apenas os atores locais que disputam representação: instâncias internacionais, jurídicas e midiáticas definem quais sujeitos e estratégias são reconhecidos como aceitáveis. Judith Butler contribui para essa análise ao mostrar que nem todas as vidas — nem todas as formas de luta — são reconhecidas como legítimas ou dignas de luto. Esse enquadramento diferencial produz um campo em que os próprios atores precisam disputar não apenas seus objetivos, mas o direito de existir politicamente.

Essa regulação da legitimidade produz um efeito prático: quando ocorre violência contra palestinos, o luto público é temporizado, condicionado ou silenciado; quando ocorre contra israelenses, o luto é imediato e incondicional. A fragmentação, aqui, não separa apenas territórios, mas hierarquiza dores.

A fragmentação atinge também a própria produção de saber: o palestino é estudado por “especialistas em conflito”, “analistas de segurança”, “observadores humanitários”; raramente é visto como teórico de sua própria condição. A academia ocidental tende a isolar “questão de Gaza”, “questão da Cisjordânia”, “questão dos refugiados”, raramente as articulando como sistema único de fragmentação.

A fragmentação não é falha; é efeito de formas específicas de governar. A partir de Michel Foucault, é possível compreendê-la como resultado de uma governamentalidade que opera pela gestão diferencial das populações: administra-se a diferença, distribuem-se privilégios e restrições, produzem-se assimetrias internas. A divisão, nesse sentido, não é acidente — é um método.

Nesses termos, a questão central se desloca: a quem interessa a fragmentação? Ela dificulta a emergência de um ator político unificado, capaz de sustentar posições consistentes de negociação ou enfrentamento; legítima intervenções externas ao reforçar a imagem de um campo caótico ou incapaz de autogoverno, como já foi indicado por Said; e, sobretudo, desloca a responsabilidade pela violência estrutural, obscurecida por conflitos internos aparentes.

É nesse contexto que o fratricídio precisa ser relido. O próprio termo “fratricídio” é delicado: a imprensa ocidental o usou para descrever conflitos entre Fatah e Hamas, sem jamais mencionar cercos, assassinatos seletivos ou colonatos. Por isso, quando o empregamos, é para imediatamente deslocá-lo. Longe de constituir apenas falha moral ou desvio individual, ele pode ser entendido como sintoma político de um campo radicalmente restringido.

Achille Mbembe, ao desenvolver o conceito de necropolítica, mostra como certos regimes organizam a vida a partir da gestão da morte e da precariedade. Quando a existência política é reduzida à sobrevivência, alianças tornam-se instáveis, a competição se intensifica e o outro próximo pode emergir como obstáculo.

Assim, a fragmentação divide; reorganiza vínculos, desestabiliza alianças e reconfigura o próprio campo do possível. A unidade, longe de ser um dado natural ou uma exigência moral abstrata, é uma construção política frágil, dependente de condições que, nesses contextos, são sistematicamente corroídas. Perguntar “por que não há unidade?” reforça o enquadramento que produz a divisão. A questão mais incisiva é outra: sob quais condições a unidade se torna insustentável — e a quem interessa que ela permaneça assim.

Se para Fanon, especialmente em Os condenados da Terra, a violência aparece como elemento constitutivo da situação colonial — não apenas como instrumento de dominação, mas como força que reorganiza o campo social e subjetivo —, é em Samah Jabr que essa intuição ganha espessura clínica e cotidiana. Fanon já indicava que, quando os canais de ação política são bloqueados, a violência tende a circular no interior da própria comunidade colonizada, podendo voltar-se contra aqueles que compartilham a mesma condição. No entanto, sua formulação permanece, em certa medida, no plano político-existencial.

Jabr radicaliza essa leitura ao mostrar que essa circulação da violência não é apenas um fenômeno social, mas uma dinâmica psíquica incorporada. Sob condições prolongadas de ocupação, a humilhação crônica, a impotência e a restrição da agência não apenas produzem revolta, mas desorganizam os modos de simbolização. Quando a violência não encontra vias de elaboração ou endereçamento, ela se desloca, infiltra-se nos vínculos e emerge nos espaços mais íntimos. O que Fanon descreve como reversão possível da violência para dentro, Jabr evidencia como experiência clínica: conflitos entre próximos, tensões familiares, agressividade difusa. Nesse cruzamento, o fratricídio passa a ser compreendido como efeito de uma economia psíquica saturada.

É nesse ponto que a contribuição de Mbembe introduz uma inflexão decisiva. Vai além do governo da vida e implica estruturar a morte, a exposição à morte e a precariedade como condições constitutivas da existência. Em contextos como o palestino, a vida política é progressivamente reduzida à sobrevivência, e o campo do possível é delimitado por regimes que distribuem desigualmente quem pode viver, como pode viver e sob quais condições pode morrer.

Quando essas três perspectivas se articulam, a fragmentação já não aparece como falha — interna ou externa —, sendo compreendida como resultado de um campo saturado por violência estrutural, restrição política e precarização da vida. Com Fanon, entendemos que o colonialismo comprime o espaço político e intensifica conflitos internos. Com Jabr, vemos como essa compressão se inscreve na subjetividade, produzindo deslocamentos da violência e desorganização dos vínculos. Com Mbembe, reconhecemos que tudo isso ocorre em um regime em que a própria vida é governada pela exposição à morte, tornando a sobrevivência o horizonte dominante.

Nesse entrelaçamento, o fratricídio surge como expressão-limite de um campo em que a disputa pela existência ocorre sob condições radicalmente desiguais e restritas. O “irmão” emerge também como concorrente em um espaço onde reconhecimento, legitimidade e sobrevivência se tornam escassos e permanentemente disputados.

Essa leitura muda o foco do problema: em vez de perguntar por que há divisão ou por que a violência se volta para dentro, importa compreender como certos regimes políticos, coloniais e necropolíticos produzem condições em que a unidade se torna quase inviável — e em que a própria possibilidade de existência em comum vai sendo, pouco a pouco, corroída.

E para nós, leitores situados fora da Palestina (acadêmicos, ativistas, observadores), a fragmentação também nos interpela. Não perguntar ‘por que eles não se unem?’ é apenas o primeiro passo. O segundo é perguntar: como nossas próprias formas de solidariedade, financiamento, produção de conhecimento e advocacy, muitas vezes sem querer, reproduzem essa fragmentação ao hierarquizar causas, ao buscar um “interlocutor legítimo único”, ao exigir coerência onde o que existe é sobrevivência em cacos?

¨      Palestina e o cálice envenenado do reconhecimento. Por Ilan Pappé

No passado, eu era bastante cético quanto ao reconhecimento da Palestina, pois parecia que os participantes da conversa se referiam apenas a partes da Cisjordânia e da Faixa de Gaza como o Estado da Palestina, e ao autogoverno por uma organização como a Autoridade Palestina, sem soberania adequada: uma Palestina bantustânica. Tal reconhecimento poderia ter dado a impressão equivocada de que o suposto conflito na Palestina havia sido resolvido com sucesso.

Muitos dos chefes de governo e seus ministros das Relações Exteriores que falam sobre reconhecimento hoje ainda se referem a esse tipo de Palestina. Então, deveríamos apoiar mais essa medida agora? Sugiro que a questão seja abordada com mais nuances neste momento histórico específico, em que o genocídio continua.

Não é de surpreender que essa declaração não tenha inspirado esperança, inspiração ou satisfação em ninguém em Gaza. Somente em Ramallah e entre certos setores do movimento de solidariedade ela foi celebrada como uma grande conquista.

Os governos que reconheceram a Palestina a associam diretamente à obsoleta e morta solução de dois Estados, uma fórmula impraticável, imoral e baseada na injustiça desde o momento em que foi concebida como uma "solução".

No entanto, há dinâmicas potencialmente mais positivas que poderiam ser desencadeadas por esse atual reconhecimento global da Palestina. Embora não devamos considerá-lo um "momento histórico" ou um "ponto de virada", ele tem o potencial de ajudar os palestinos a caminharem em direção a um futuro diferente.

Tem um significado simbólico como contraponto à atual estratégia israelense de apagar a Palestina como povo, como nação, como país e como entidade histórica. Qualquer referência, mesmo simbólica, à Palestina como entidade existente neste momento é uma bênção. Em um nível muito insatisfatório, mas minimamente necessário, impede que a Palestina desapareça do diálogo global e regional.

Em segundo lugar, faz parte de uma reação global insuficiente, embora um pouco mais encorajadora, vinda de cima, contra o genocídio em curso. Não se trata de sanções — que são muito mais importantes do que o espetáculo que testemunhamos na ONU — nem de uma medida que ponha fim ao comércio militar ocidental com Israel, o que teria sido muito mais eficaz, neste momento, contra o genocídio do que reconhecer a Palestina. No entanto, transmite uma certa disposição por parte dos governos ocidentais de confrontar não apenas Israel, mas também os Estados Unidos, sobre o futuro da Palestina.

O próprio reconhecimento gerou, talvez inadvertidamente, duas consequências importantes. Primeiro, os territórios ocupados agora constituem o Estado ocupado da Palestina: todo o Estado da Palestina. Isso nem sequer se compara à ocupação parcial de duas províncias da Ucrânia pela Rússia; é a ocupação total de um Estado. Pelo menos à primeira vista, seria muito mais difícil de ignorar de uma perspectiva jurídica internacional.

Em segundo lugar, está muito claro qual será a reação israelense: impor oficialmente a lei israelense primeiro em partes da Cisjordânia, depois na região como um todo e talvez mais tarde na Faixa de Gaza.

Nossos políticos atuais, especialmente no Norte Global, não poderão alegar que fizeram todo o possível ao reconhecer a Palestina se ela estiver totalmente ocupada por Israel e completamente anexada. Mesmo para esses políticos, de quem tão pouco se espera, tal inação exporá um novo ponto crítico de covardia moral e colocará o último prego no caixão do direito internacional.

Como ativistas, estamos cientes do perigo de nos desviarmos, mesmo que por um segundo, da missão de impedir o genocídio. O reconhecimento não impedirá o genocídio, portanto, o que estamos fazendo e o que planejamos fazer para salvar Gaza não será afetado pelos discursos e declarações na ONU em 22-09-2025. Nossa manifestação em Londres em outubro — que esperamos atrair um milhão de pessoas — é tão importante, se não mais. A greve geral italiana em apoio à flotilha Sumud é tão importante, se não mais.

Mas também nos lembra de estarmos atentos e muito desconfiados quando a França e seus aliados falam sobre o "dia seguinte". Há uma sensação de déjà vu que remonta ao histrionismo que acompanhou a assinatura dos Acordos de Oslo há exatamente 32 anos. Isso pode perigosamente se transformar em mais uma farsa de paz que substitui uma forma de colonialismo por outra, mais aceitável para o Ocidente.

Tudo isso ficou claro no discurso do presidente francês Emmanuel Macron. A primeira parte reiterou o compromisso da França com Israel e sua aversão ao Hamas. A segunda parte alertou os palestinos de que somente a Autoridade Palestina os representaria e que o Estado palestino seria desmilitarizado. Ele não fez menção a genocídio ou sanções contra Israel, o que não é surpreendente.

Macron é um político egocêntrico, sem coragem moral, mas sabe que 70% do seu povo está insatisfeito com sua política em relação à Palestina. Afirmar que um bantustão da Autoridade Palestina é o que as pessoas querem — seja na França, na Palestina ou em qualquer outro lugar — demonstra mais uma vez o distanciamento de tantos políticos europeus da realidade.

Portanto, não é aí que reside a importância do reconhecimento. É uma faca de dois gumes. Na minha opinião, a melhor estratégia para nós, no movimento de solidariedade, é argumentar e insistir — por meio do ativismo e da pesquisa — que a Palestina é o país que se estende do rio ao mar, e que os palestinos são todos aqueles que vivem na Palestina histórica e aqueles que foram expulsos dela. São eles que decidirão o futuro de sua pátria.

E, mais importante, devemos insistir que, enquanto o sionismo dominar ideologicamente a realidade da Palestina histórica, não haverá autodeterminação, liberdade ou libertação palestina.

 

Fonte: Por Rima Awada e Tiago Guilherme Faria, no Blog da Boitempo/Ctxt

 

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