O
Brasil ainda é "a pátria em chuteiras"?
Até
hoje, o jornalista Marcelo Duarte, de 61 anos, não sabe dizer se o primeiro
álbum de figurinhas que colecionou era dele ou do pai. A dúvida procede:
afinal, quem comprava os envelopes, colava as figurinhas e folheava o álbum da
Copa de 1970 era Seu Dermeval. "Ele tinha medo de que eu rasgasse as
figurinhas, colasse torto ou amassasse as páginas", explica o autor do
livro O Álbum dos Álbuns de Figurinhas das Copas (Panda Books), à época com
cinco anos.
Desde
então, Marcelo passou a colecionar figurinhas de futebol. Entre as Copas de
2014 e 2022, chegou a ter dois álbuns: o de brochura e o de capa dura. Este
ano, por causa dos preços exorbitantes, é um só. "Herdei essa paixão do
meu pai. E meus filhos herdaram essa paixão de mim. Quando a gente se reúne aos
domingos, abrir envelope de figurinha faz parte do cardápio. É uma
curtição", festeja o pai de Rodrigo, Beatriz e Antônio, de 34, 31 e 20
anos.
No caso
do supervisor de projetos Celso Mendes, de 48 anos, a curtição é outra:
enfeitar a rua onde mora, a Pereira Nunes, entre os bairros da Tijuca e Vila
Isabel, no Rio de Janeiro. Desde 1994, ele convoca a vizinhança para pintar o
asfalto, decorar os muros e pendurar as bandeirinhas. "Quero tirar a
criançada da frente do celular", ambiciona o pai das adolescentes Ana
Beatriz, de 15 anos, e Ana Rosa, de 11. "Ensinar para elas que a rua é do
povo!"
Além de
instalar telões, Celso pretende organizar de troca de figurinha a campeonato de
pet. "Não é só futebol, é confraternização também", afirma. Como o
número de ruas decoradas para a Copa vem caindo, a prefeitura do Rio instituiu
prêmios em dinheiro para as mais bonitas. "De quatro em quatro anos,
vestimos a camisa verde e amarela da seleção para mostrar ao mundo o que o
brasileiro tem de melhor: alegria e diversão", gaba-se.
Coincidência
ou não, os dois deram sorte à seleção. Em 1970, quando Marcelo Duarte começou a
colecionar figurinhas de futebol, o Brasil tornou-se tricampeão no México.
Vinte e quatro anos depois, quando Celso Mendes enfeitou pela primeira vez a
Pereira Nunes, fomos tetra nos Estados Unidos. Este ano, pela sexta vez,
tentaremos ser hexa. Será que, como diria o cronista Nelson Rodrigues, ainda
somos "a pátria em chuteiras"? Há controvérsias.
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Na marca do pênalti
Uns,
como o historiador Ademir Takara, dizem que sim. "Ainda somos o país do
futebol", orgulha-se o bibliotecário do Museu do Futebol. Isso não o
impede de demonstrar preocupação com as decisões tomadas por alguns cartolas de
reduzir o espaço reservado aos campeonatos estaduais no calendário nacional.
"O futebol se tornou popular no Brasil pelo sentimento de pertencimento
inerente aos times locais e às disputas regionais", diz.
Outros,
como o jornalista Marcos Guterman, rebatem que não. Para ele, o brasileiro não
depende mais da seleção para se posicionar em relação ao resto do mundo.
"Há muito, a seleção não é ‘brasileira'. Muitos jogadores deixaram o país
muito cedo e se desenvolveram no exterior", explica o autor do livro O
Futebol Explica o Brasil (Contexto). "Sem essa identidade, fica difícil
entender a seleção como uma expressão da pátria", argumenta.
Dos 26
atletas convocados pelo técnico Carlo Ancelotti, apenas sete jogam no Brasil.
Em compensação, o clube que mais cedeu jogadores para a seleção é brasileiro:
Flamengo. Dos sete convocados, quatro são rubro-negros: Alex Sandro, Danilo,
Léo Pereira e Lucas Paquetá. Os demais são do Botafogo (Danilo Santos), Grêmio
(Weverton) e Santos (Neymar). Os clubes ingleses Manchester United e Arsenal e
o russo Zenit cederam dois cada um.
Outros,
ainda, como o professor de Educação Física Sérgio Giglio, fazem ressalvas.
"Continua a ser, mas não como antes", pondera um dos editores-chefes
do site Ludopédio. Para ser a "pátria em chuteiras", os brasileiros
precisam jogar bola, dar dribles e marcar gols. Nas grandes cidades, os campos
de futebol estão desaparecendo sem deixar vestígios. "Onde havia um campo
agora há um prédio. E tem sido assim há algum tempo", lamenta.
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Bola fora
Para
piorar, dois fantasmas parecem assombrar os brasileiros: a goleada de 7 a 1
para a Alemanha na Copa de 2014 e a apropriação da camisa da seleção por
movimentos de direita. "A história de um país não se escreve nos gramados.
Mas, ao levar quatro gols em apenas seis minutos numa semifinal disputada em
casa, o orgulho nacional se transformou em vergonha", afirma o historiador
Fábio Luís dos Santos, autor de Saudades do que Nunca Fomos (Elefante).
Na
ditadura, o regime militar procurou transformar o amor à seleção em adesão ao
autoritarismo. Enquanto isso, boa parte da sociedade civil aproveitava a Copa
para discutir cidadania. "A camisa da seleção é um símbolo. Sempre que a
democracia é ameaçada, esse símbolo se torna objeto de disputa política. Mas,
como bem comum, pertence a todos e a ninguém", garante a historiadora
Diana Machado, coautora de O Brasil e as Copas do Mundo (Zagodoni).
Com o
bolsonarismo, a história se repetiu. A camisa da seleção deixou de representar
apenas futebol e passou a sinalizar posicionamento político para parte da
população. "Muitos passaram a sentir desconforto em vestir um dos símbolos
do país", acrescenta o professor de Educação Física Marco Antônio Bettine
de Almeida, vice-coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre
Futebol e Modalidades Lúdicas (LUDENS), da USP.
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O país do futebol?
Por
essas e outras, 46% dos brasileiros admitem que estão desanimados com a Copa do
Mundo de 2026, 42% afirmam que só pretendem assistir aos jogos da seleção e 49%
acreditam que o Brasil tem poucas chances de ser campeão. Para 33% deles, o
Brasil só chega às quartas de final. É o que diz o estudo Copa do Mundo,
realizado pelos institutos Ipsos e Ipec, entre os dias 8 e 12 de abril, com 2
mil brasileiros, acima dos 16 anos, em 130 municípios.
Outro
estudo revela que, no Mapa das Paixões Brasileiras, a Copa do Mundo ocupa a
quarta colocação, com 8,2% dos votos. Está atrás de séries (10,9%), músicas
(10,7%) e religiões (9%). "A relação do brasileiro com a seleção mudou.
Hoje em dia, o futebol divide espaço com outras formas de lazer, como série e
música, e de pertencimento, como religião", analisa Andréa Barbosa,
diretora de Entendimento de Marca da Ipsos no Brasil.
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À espera do hexa
Um dado
que chamou a atenção de Andréa é que as novas gerações ainda não viram o Brasil
levantar a taça de campeão do mundo. Em 2002, quando a seleção brasileira
conquistou o pentacampeonato de futebol na Coreia do Sul e no Japão, muitos
torcedores ainda não tinham sequer nascido. Por essa razão, alguns preferem
torcer por clubes europeus, como Real Madrid e Paris Saint-Germain, a times
brasileiros, como Flamengo e Corinthians.
É o
caso de João e Benício, de 18 e 11 anos. Eles são filhos do casal Péricles e
Andréa Mecenas. "Até tenho, como todo brasileiro, as minhas superstições.
O problema é que, desde 2006, elas não estão funcionando muito bem",
diverte-se o publicitário Péricles Mecenas, de 51 anos. "Copa do Mundo é
uma das primeiras memórias afetivas do brasileiro. Vai muito além do esporte.
Durante a Copa, o país inteiro torce pelo mesmo time", observa.
Na Copa
de 2022, no Catar, Peck criou a fan fest Energia para Torcer, em Niterói, com
shows de Zeca Pagodinho, Os Paralamas do Sucesso e Xande de Pilares, entre
outros. Este ano, o torcedor assiste aos jogos do Brasil e, depois do apito
final, ainda curte os shows de Ludmilla, Thiaguinho e Ferrugem. "A ideia é
reproduzir aquela catarse que você sente ao assistir a um jogo da arquibancada.
São milhares de pessoas vivendo a mesma emoção."
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Gol de placa
A
expressão "pátria em chuteiras", cunhada pelo dramaturgo e cronista
Nelson Rodrigues, aparece, entre outras crônicas, em O Divino Delinquente, de
18 de novembro de 1963. "Não me venham dizer que o escrete é apenas um
time. Não. Se uma equipe entra em campo com o nome do Brasil e tendo por fundo
musical o hino pátrio – é como se fosse a pátria em calções e chuteiras".
E em A Pátria em Chuteiras, de 2 de junho de 1976. "O escrete representa
os nossos defeitos e as nossas virtudes".
"Como
um observador do ser humano, Nelson Rodrigues nos brindaria com novos
personagens: como aquele torcedor mais preocupado com as postagens do Instagram
do que com os lances da partida", afirma a socióloga Fátima Antunes,
autora do livro Com Brasileiro, Não Há Quem Possa! (Unesp). "Se para
Nelson, ‘o videoteipe era burro', o que ele diria do VAR? E o que acharia da
seleção ter um técnico italiano? Será que isso pode dar certo?"
Mas, o
que o autor de frases imortais como "Qualquer paralelepípedo sabe que
nenhum futebol se compara ao nosso" ou "O sujeito que diz que o
futebol brasileiro passou é o Narciso às avessas" acharia da seleção de
Carlo Ancelotti? Estaria esbanjando otimismo ou transpirando desconfiança? Com
a palavra, sua neta, Crica Rodrigues, idealizadora do box As Copas de Nelson
Rodrigues (Nova Fronteira), que reúne 150 crônicas, de 1958 a 1970.
"Quando
meu avô morreu, em 1980, eu tinha um ano e meio. Mas a minha paixão pelo
futebol está no sangue. Costumo dizer que eu já torcia pelo Fluminense em vidas
passadas", brinca a atriz e produtora cultural Crica Rodrigues, de 47
anos. "Quanto à seleção brasileira, os tempos são outros... Não sei se o
Velho se empolgaria muito com a atual seleção. Mas, acho que, no fim das
contas, ele apostaria no escrete."
Fonte:
Por André Bernardo, em DW Brasil

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