quinta-feira, 11 de junho de 2026

O que a história revela sobre as seleções que já conquistaram a Copa do Mundo

As tentativas de prever o resultado da Copa do Mundo evoluíram muito ao longo do tempo. Hoje, supercomputadores disputam espaço com casas de apostas, torcedores bem informados e até supostos videntes na tarefa de apontar a futura campeã.

Mas até mesmo o analista financeiro alemão Joachim Klement, que ficou conhecido por acertar as vencedoras das últimas três edições do Mundial, acredita que, entre as principais seleções, muito depende do acaso.

Segundo ele, fatores como o desempenho de uma equipe em um determinado dia, uma decisão da arbitragem ou a sorte de uma bola entrar em vez de bater na trave "são completamente imprevisíveis", afirmou à BBC Sport.

Ainda assim, se a história servir de referência, há alguns fatores que as seleções que sonham com o título talvez devam levar em consideração — e alguns deles são bastante surpreendentes.

<><> Um seleto grupo de campeãs

Das 84 seleções que já disputaram a maior competição do futebol mundial, apenas oito conseguiram erguer a taça: Alemanha, Argentina, Brasil, Espanha, França, Inglaterra, Itália e Uruguai.

Somente 13 países chegaram a uma final de Copa do Mundo — e alguns deles com grande frequência. A Alemanha disputou oito finais, seguida pelo Brasil, com sete, e por Argentina e Itália, com seis cada.

Entrar para esse seleto grupo não é tarefa fácil. A integrante mais recente da lista é a Espanha, que conquistou seu primeiro título em 2010.

E vale uma menção especial à Holanda, que chegou a três finais, mas nunca venceu a competição — embora, segundo o analista financeiro Joachim Klement, seja uma das favoritas para finalmente levantar a taça em 2026.

Outro dado curioso é que, em toda a história da Copa do Mundo, apenas duas seleções da África ou da Ásia alcançaram as semifinais: a Coreia do Sul, em 2002, e Marrocos, em 2022.

<><> A geografia faz diferença

Desde a primeira Copa do Mundo da Fifa, disputada no Uruguai em 1930, até a edição mais recente, realizada no Catar em 2022, foi relativamente raro uma seleção conquistar o título fora do seu próprio continente.

Isso aconteceu apenas seis vezes em 22 edições do torneio — com o Brasil (1958, 1994 e 2002), a Espanha (2010), a Alemanha (2014) e a Argentina (2022).

Considerando apenas as Copas realizadas na Europa ou na América do Sul, essa "regra geográfica" foi quebrada somente duas vezes em 19 torneios.

Há várias explicações possíveis para esse fenômeno. As seleções podem ter melhor desempenho em seu próprio continente por estarem mais adaptadas ao clima, sofrerem menos com o desgaste das viagens e contarem com uma presença maior de torcedores. Não por acaso, seis Copas do Mundo foram vencidas pelo país anfitrião.

Essa tendência também costuma aparecer nas fases anteriores da competição.

Na Copa de 2014, no Brasil, por exemplo, sete seleções latino-americanas chegaram às oitavas de final, contra seis europeias — isso apesar de a Europa, como de costume, ter classificado mais equipes para o torneio do que qualquer outro continente.

Quatro anos depois, na Rússia, as seleções europeias conquistaram 10 das 16 vagas nas oitavas de final, enquanto a América Latina teve apenas cinco representantes. Além disso, os quatro semifinalistas daquela edição eram europeus.

A Copa do Mundo de 2026, no entanto, promete inaugurar um novo cenário. Será a primeira organizada por três países — Estados Unidos, Canadá e México — e contará com 48 seleções, em vez das tradicionais 32.

Quatro equipes também farão sua estreia no torneio: Curaçao, Cabo Verde, Jordânia e Uzbequistão. Talvez a competição seja capaz de desafiar as tendências históricas.

<><> O ranking da Fifa dá azar?

Seria razoável esperar que a seleção com melhor desempenho recente fosse também uma das favoritas ao título da Copa do Mundo, mas esse está longe de ser um indicador infalível de sucesso.

Criado em 1992, o ranking da Fifa é usado para definir os cabeças de chave e evitar confrontos precoces entre as principais favoritas do campeonato.

A classificação leva em conta os resultados de partidas reconhecidas pela entidade, incluindo amistosos, e funciona como um indicador do desempenho das seleções, de forma semelhante ao que ocorre em esportes como o tênis.

Os campeões mundiais quase sempre estão entre as 10 ou 15 melhores equipes do ranking. No entanto, há uma curiosidade histórica: nenhuma seleção que ocupava o primeiro lugar no ranking da Fifa no início de uma Copa do Mundo jamais conquistou o título.

Às vésperas do Mundial de 2026, essa estatística pode representar um mau presságio para a Argentina, atual líder do ranking.

A classificação oficial será atualizada em 11 de junho, dia da abertura da Copa do Mundo de 2026, após a disputa de uma série de amistosos preparatórios pelas seleções.

<><> Defender o título é uma missão difícil

Há seleções com múltiplos títulos mundiais — Brasil, Alemanha, Itália e Argentina somam, juntas, 16 conquistas. Mas defender a taça é uma tarefa difícil.

Em toda a história da Copa do Mundo, apenas dois países conseguiram ser campeões em edições consecutivas: a Itália, em 1934 e 1938, e o Brasil, em 1958 e 1962.

<><> Depois da glória, o tropeço

Na verdade, nas últimas décadas, a Copa do Mundo tem sido especialmente cruel com as seleções que chegam ao campeonato como atuais campeãs.

Desde 2002, quatro dos seis detentores do título sequer conseguiram passar da fase de grupos. As exceções foram o Brasil, campeão em 2002 e eliminado nas quartas de final em 2006, e a França, vencedora em 2018 e vice-campeã em 2022.

<><> Técnicos estrangeiros até hoje não deram certo

Contratar técnicos estrangeiros não é uma novidade na Copa do Mundo, embora o número de seleções que recorrem a profissionais de outros países tenha aumentado nas últimas três décadas.

Em 2026, isso será um recorde: 27 das 48 equipes participantes serão comandadas por treinadores estrangeiros.

Entre elas estão duas campeãs mundiais. O Brasil será dirigido pelo italiano Carlo Ancelotti, enquanto a Inglaterra terá no comando o alemão Thomas Tuchel.

O problema é que, até hoje, nenhuma seleção treinada por um técnico estrangeiro conseguiu conquistar a Copa do Mundo.

<><> O curioso fator Bayern de Munique–Inter de Milão

Esta talvez seja uma das estatísticas mais curiosas da história da Copa do Mundo: nas últimas 11 edições do torneio, pelo menos uma das seleções finalistas contou com algum jogador do Bayern de Munique, da Inter de Milão ou jogadores de ambos os clubes.

Desde 1982, apenas em duas ocasiões (1986 e 2010) uma seleção sem nenhum representante de um desses dois times conseguiu conquistar o título mundial.

De acordo com as listas oficiais de jogadores divulgadas pela Fifa, 15 das 48 seleções que disputarão a Copa do Mundo de 2026 terão pelo menos um atleta do Bayern de Munique ou da Inter de Milão — ou dos dois.

Entre elas estão potências como Alemanha, França, Inglaterra e a atual campeã, Argentina.

•        O caminho de Ancelotti para tentar 'conquistar o Brasil'

Carlo Ancelotti entrou em território desconhecido.

Ao longo da sua carreira de treinador, ele já havia trabalhado com 43 jogadores brasileiros. Mas o técnico italiano só havia estado uma vez na América do Sul, no início dos anos 2000, como caça-talentos para a Juventus de Turim.

Quando, após muitos encontros e desencontros, Ancelotti chegou a um acordo para ser o primeiro técnico estrangeiro da seleção brasileira em uma Copa do Mundo, ele sabia que precisava começar com o pé direito.

E foi o que ele fez.

Em uma das das suas primeiras reuniões no Rio de Janeiro, Ancelotti observou muitos funcionários brasileiros da CBF tentando conversar com ele em espanhol e até em italiano.

"Não, não", reagiu ele com um sorriso no rosto. "Sou eu que preciso me esforçar para falar português aqui."

O técnico de 66 anos sabia que os torcedores brasileiros têm orgulho da sua seleção e sempre se consideraram autossuficientes quando o assunto é futebol. E, para poder conquistá-los, fez o que precisava fazer.

Sua dedicação para aprender português foi tão grande que ele contratou um professor e se comprometeu a ter quatro aulas por semana.

"Fiquei surpreso com o seu esforço", comentou Roberto Piantino, que vem cuidando do português de Ancelotti.

"Lembro que, uma vez, terminamos uma aula na sexta-feira e, como de costume, perguntei quando ele queria ter a próxima", contou ele à BBC Sport.

"Ele respondeu: 'Amanhã.' Era sábado, mas eu disse: 'Claro, sem problemas.' Seria às nove horas da manhã em Vancouver", no Canadá, onde o técnico mora com a esposa.

"Isso aconteceu mais de uma vez. E me mostrou como ele levava o aprendizado a sério."

A goleada de 6x2 sobre o Panamá, no domingo (31/5), foi o penúltimo jogo da seleção antes da Copa do Mundo. E representou um grande incentivo.

Rayan marcou seu primeiro gol pela seleção nacional e Igor Thiago converteu um pênalti. Vinícius Jr., Casemiro, Lucas Paquetá e Danilo também deixaram sua marca.

Ancelotti precisará de todas as armas possíveis, incluindo o idioma português, considerando o tamanho do desafio que ele tem pela frente: evitar que a seleção brasileira estabeleça um recorde indesejado.

O Brasil ganhou a Copa do Mundo pela última vez em 2002 e, até hoje, nunca ficou seis edições do torneio sem erguer o troféu.

Existem fortes razões para que o ex-técnico do Chelsea e do Real Madrid seja considerado o homem certo para o cargo.

"Uma das coisas de que o Brasil mais precisava era de um técnico maior que os seus jogadores", defende o ex-jogador e comentarista esportivo Walter Casagrande. E Ancelotti preenche este requisito.

Seu recorde de cinco títulos da Champions League e suas conquistas em todas as cinco principais ligas nacionais europeias trazem um peso considerável, mesmo em um vestiário que conta com a presença de Neymar, Vinicius Jr., Raphinha e companhia.

<><> O 'campeão mundial' da adaptação

A contratação de Ancelotti fez com que o Brasil confrontasse um dos maiores tabus da sua história futebolística: ver a seleção nacional liderada por um técnico estrangeiro.

E nem o currículo do técnico italiano evitou que, no início, houvesse resistência.

"Somos o único país que venceu a Copa do Mundo cinco vezes. Não é que nenhum estrangeiro nunca deva treinar a seleção, mas eu teria escolhido um técnico brasileiro", declarou Cafu, campeão em 1994 e 2002.

Durante o 2° Fórum Brasileiro dos Treinadores de Futebol, em novembro passado, foi impossível ignorar a tensão. Quando Ancelotti foi ao palco para ser homenageado, colegas locais criticaram a presença de técnicos estrangeiros no Brasil.

"Eu sempre disse que não gosto de treinadores estrangeiros no meu país e nós, treinadores, somos culpados por esta invasão", afirmou Émerson Leão, técnico e ex-goleiro, campeão mundial de 1970 como jogador.

O desconforto fez com que o filho e auxiliar técnico de Ancelotti, Davide, deixasse o evento logo em seguida.

Mas o tempo mostrou que aquele foi basicamente um episódio isolado durante o primeiro ano do técnico italiano no cargo.

Mesmo com resultados irregulares (seis vitórias, dois empates e três derrotas, nos seus 11 jogos iniciais), uma pesquisa recente do instituto de pesquisa Quaest concluiu que a maioria dos brasileiros confia no seu treinador.

Segundo a pesquisa, 41% aprovam e 29% desaprovam o trabalho de Ancelotti. E, com este apoio, a CBF agiu rapidamente e renovou seu contrato até 2030, antes mesmo que ele dirigisse o Brasil durante a Copa do Mundo.

Mas a decisão também foi um reflexo do que se pode considerar como a maior força de Ancelotti: sua capacidade de conseguir pessoas que o apoiem.

Fontes contaram à BBC Sport que o técnico recebeu a primeira versão do contrato no início de abril, mas esperou cerca de um mês para assinar. Isso porque ele queria que outros três funcionários da CBF — que, segundo ele, o ajudaram a se adaptar ao Brasil — também tivessem seus contratos renovados até 2030.

"Ele é um camaleão", afirma Leonardo, campeão do mundo em 1994. Ele trabalhou com Ancelotti no Milan e no Paris Saint Germain, como jogador e como dirigente.

"Aonde vai, ele se adapta às pessoas, à equipe, aos jogadores. Ele é campeão mundial neste aspecto. Se algum dia eu comprasse uma equipe, meu técnico seria Carlo. Não tenho outra opção."

"Ele entra em simbiose com o ambiente e isso já aconteceu aqui [no Brasil]. As pessoas gostam dele", afirma Leonardo.

Foram quatro anos caóticos. O presidente da CBF foi destituído do cargo por ordem judicial, a seleção teve quatro técnicos diferentes e o Brasil fez sua pior campanha na história das eliminatórias da Copa do Mundo.

Mas Ancelotti ainda acredita que pode trazer para a Copa do Mundo para o Brasil pela sexta vez.

"Temos dois dos cinco melhores jogadores do mundo", repete o treinador, nos corredores da sede da CBF. Ele se refere a Vinicius Jr., do Real Madri, e Raphinha, do Barcelona.

Mas aqui vem a parte mais difícil: fazer com que eles tenham na seleção o mesmo desempenho dos seus clubes. E, no ousado sistema tático 4-2-4 de Ancelotti, isso ainda não aconteceu.

A vitória de domingo no Maracanã foi apenas a terceira vez em que o técnico italiano contou com os dois jogando juntos.

As outras duas vezes foram em junho de 2025 (vitória de 1x0 sobre o Paraguai, nas eliminatórias) e em março deste ano (derrota para a França em jogo amistoso, por 2x1), quando Raphinha saiu no intervalo.

Com Rodrygo e Estêvão Willian machucados, será ainda mais importante fazer funcionar a parceria entre Raphinha e Vinicius Jr.

O entrosamento entre os dois pode estar ainda sendo trabalhado, mas Ancelotti já atingiu outro objetivo: ser ouvido pelos jogadores no vestiário.

"No jogo contra o Paraguai [em junho de 2025], nós precisávamos ganhar para ir para a Copa", conta Casemiro, do Manchester United, em entrevista ao ex-defensor inglês Rio Ferdinand.

"No intervalo, muitas pessoas estavam falando, falando, falando. Então, ele disse: 'Pessoal, esperem. Vou fumar um cigarro, volto em cinco minutos e, depois, vocês podem falar.'"

"Depois, ele voltou, falou e todos perceberam: 'OK. Este cara é diferente.'", conclui Casemiro.

Aquele foi um momento clássico de Ancelotti: calmo, simples e humano. Até suas aulas de português parecem refletir isso.

"Eu havia preparado uma lição sobre verbos no imperativo", relembra Piantino. Ele trabalha como professor de outros jogadores e técnicos de futebol, no Brasil e no exterior.

"O material estava pronto, com uma apresentação explicando como funciona o imperativo em português. Mas, assim que comecei, ele indicou: 'Não, não, não, eu não me comunico desta forma. Eu não uso imperativos. Não é meu estilo dar ordens assim.'"

Ancelotti estava no banco da Itália, como auxiliar técnico, quando o Brasil venceu a final da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos.

Agora, ele retorna ao lado do Brasil, esperando levar a seleção de volta ao topo — do seu jeito.

 

Fonte: BBC Sport

 

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