O
que a história revela sobre as seleções que já conquistaram a Copa do Mundo
As
tentativas de prever o resultado da Copa do Mundo evoluíram muito ao longo do
tempo. Hoje, supercomputadores disputam espaço com casas de apostas, torcedores
bem informados e até supostos videntes na tarefa de apontar a futura campeã.
Mas até
mesmo o analista financeiro alemão Joachim Klement, que ficou conhecido por
acertar as vencedoras das últimas três edições do Mundial, acredita que, entre
as principais seleções, muito depende do acaso.
Segundo
ele, fatores como o desempenho de uma equipe em um determinado dia, uma decisão
da arbitragem ou a sorte de uma bola entrar em vez de bater na trave "são
completamente imprevisíveis", afirmou à BBC Sport.
Ainda
assim, se a história servir de referência, há alguns fatores que as seleções
que sonham com o título talvez devam levar em consideração — e alguns deles são
bastante surpreendentes.
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Um seleto grupo de campeãs
Das 84
seleções que já disputaram a maior competição do futebol mundial, apenas oito
conseguiram erguer a taça: Alemanha, Argentina, Brasil, Espanha, França,
Inglaterra, Itália e Uruguai.
Somente
13 países chegaram a uma final de Copa do Mundo — e alguns deles com grande
frequência. A Alemanha disputou oito finais, seguida pelo Brasil, com sete, e
por Argentina e Itália, com seis cada.
Entrar
para esse seleto grupo não é tarefa fácil. A integrante mais recente da lista é
a Espanha, que conquistou seu primeiro título em 2010.
E vale
uma menção especial à Holanda, que chegou a três finais, mas nunca venceu a
competição — embora, segundo o analista financeiro Joachim Klement, seja uma
das favoritas para finalmente levantar a taça em 2026.
Outro
dado curioso é que, em toda a história da Copa do Mundo, apenas duas seleções
da África ou da Ásia alcançaram as semifinais: a Coreia do Sul, em 2002, e
Marrocos, em 2022.
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A geografia faz diferença
Desde a
primeira Copa do Mundo da Fifa, disputada no Uruguai em 1930, até a edição mais
recente, realizada no Catar em 2022, foi relativamente raro uma seleção
conquistar o título fora do seu próprio continente.
Isso
aconteceu apenas seis vezes em 22 edições do torneio — com o Brasil (1958, 1994
e 2002), a Espanha (2010), a Alemanha (2014) e a Argentina (2022).
Considerando
apenas as Copas realizadas na Europa ou na América do Sul, essa "regra
geográfica" foi quebrada somente duas vezes em 19 torneios.
Há
várias explicações possíveis para esse fenômeno. As seleções podem ter melhor
desempenho em seu próprio continente por estarem mais adaptadas ao clima,
sofrerem menos com o desgaste das viagens e contarem com uma presença maior de
torcedores. Não por acaso, seis Copas do Mundo foram vencidas pelo país
anfitrião.
Essa
tendência também costuma aparecer nas fases anteriores da competição.
Na Copa
de 2014, no Brasil, por exemplo, sete seleções latino-americanas chegaram às
oitavas de final, contra seis europeias — isso apesar de a Europa, como de
costume, ter classificado mais equipes para o torneio do que qualquer outro
continente.
Quatro
anos depois, na Rússia, as seleções europeias conquistaram 10 das 16 vagas nas
oitavas de final, enquanto a América Latina teve apenas cinco representantes.
Além disso, os quatro semifinalistas daquela edição eram europeus.
A Copa
do Mundo de 2026, no entanto, promete inaugurar um novo cenário. Será a
primeira organizada por três países — Estados Unidos, Canadá e México — e
contará com 48 seleções, em vez das tradicionais 32.
Quatro
equipes também farão sua estreia no torneio: Curaçao, Cabo Verde, Jordânia e
Uzbequistão. Talvez a competição seja capaz de desafiar as tendências
históricas.
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O ranking da Fifa dá azar?
Seria
razoável esperar que a seleção com melhor desempenho recente fosse também uma
das favoritas ao título da Copa do Mundo, mas esse está longe de ser um
indicador infalível de sucesso.
Criado
em 1992, o ranking da Fifa é usado para definir os cabeças de chave e evitar
confrontos precoces entre as principais favoritas do campeonato.
A
classificação leva em conta os resultados de partidas reconhecidas pela
entidade, incluindo amistosos, e funciona como um indicador do desempenho das
seleções, de forma semelhante ao que ocorre em esportes como o tênis.
Os
campeões mundiais quase sempre estão entre as 10 ou 15 melhores equipes do
ranking. No entanto, há uma curiosidade histórica: nenhuma seleção que ocupava
o primeiro lugar no ranking da Fifa no início de uma Copa do Mundo jamais
conquistou o título.
Às
vésperas do Mundial de 2026, essa estatística pode representar um mau presságio
para a Argentina, atual líder do ranking.
A
classificação oficial será atualizada em 11 de junho, dia da abertura da Copa
do Mundo de 2026, após a disputa de uma série de amistosos preparatórios pelas
seleções.
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Defender o título é uma missão difícil
Há
seleções com múltiplos títulos mundiais — Brasil, Alemanha, Itália e Argentina
somam, juntas, 16 conquistas. Mas defender a taça é uma tarefa difícil.
Em toda
a história da Copa do Mundo, apenas dois países conseguiram ser campeões em
edições consecutivas: a Itália, em 1934 e 1938, e o Brasil, em 1958 e 1962.
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Depois da glória, o tropeço
Na
verdade, nas últimas décadas, a Copa do Mundo tem sido especialmente cruel com
as seleções que chegam ao campeonato como atuais campeãs.
Desde
2002, quatro dos seis detentores do título sequer conseguiram passar da fase de
grupos. As exceções foram o Brasil, campeão em 2002 e eliminado nas quartas de
final em 2006, e a França, vencedora em 2018 e vice-campeã em 2022.
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Técnicos estrangeiros até hoje não deram certo
Contratar
técnicos estrangeiros não é uma novidade na Copa do Mundo, embora o número de
seleções que recorrem a profissionais de outros países tenha aumentado nas
últimas três décadas.
Em
2026, isso será um recorde: 27 das 48 equipes participantes serão comandadas
por treinadores estrangeiros.
Entre
elas estão duas campeãs mundiais. O Brasil será dirigido pelo italiano Carlo
Ancelotti, enquanto a Inglaterra terá no comando o alemão Thomas Tuchel.
O
problema é que, até hoje, nenhuma seleção treinada por um técnico estrangeiro
conseguiu conquistar a Copa do Mundo.
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O curioso fator Bayern de Munique–Inter de Milão
Esta
talvez seja uma das estatísticas mais curiosas da história da Copa do Mundo:
nas últimas 11 edições do torneio, pelo menos uma das seleções finalistas
contou com algum jogador do Bayern de Munique, da Inter de Milão ou jogadores
de ambos os clubes.
Desde
1982, apenas em duas ocasiões (1986 e 2010) uma seleção sem nenhum
representante de um desses dois times conseguiu conquistar o título mundial.
De
acordo com as listas oficiais de jogadores divulgadas pela Fifa, 15 das 48
seleções que disputarão a Copa do Mundo de 2026 terão pelo menos um atleta do
Bayern de Munique ou da Inter de Milão — ou dos dois.
Entre
elas estão potências como Alemanha, França, Inglaterra e a atual campeã,
Argentina.
• O caminho de Ancelotti para tentar
'conquistar o Brasil'
Carlo
Ancelotti entrou em território desconhecido.
Ao
longo da sua carreira de treinador, ele já havia trabalhado com 43 jogadores
brasileiros. Mas o técnico italiano só havia estado uma vez na América do Sul,
no início dos anos 2000, como caça-talentos para a Juventus de Turim.
Quando,
após muitos encontros e desencontros, Ancelotti chegou a um acordo para ser o
primeiro técnico estrangeiro da seleção brasileira em uma Copa do Mundo, ele
sabia que precisava começar com o pé direito.
E foi o
que ele fez.
Em uma
das das suas primeiras reuniões no Rio de Janeiro, Ancelotti observou muitos
funcionários brasileiros da CBF tentando conversar com ele em espanhol e até em
italiano.
"Não,
não", reagiu ele com um sorriso no rosto. "Sou eu que preciso me
esforçar para falar português aqui."
O
técnico de 66 anos sabia que os torcedores brasileiros têm orgulho da sua
seleção e sempre se consideraram autossuficientes quando o assunto é futebol.
E, para poder conquistá-los, fez o que precisava fazer.
Sua
dedicação para aprender português foi tão grande que ele contratou um professor
e se comprometeu a ter quatro aulas por semana.
"Fiquei
surpreso com o seu esforço", comentou Roberto Piantino, que vem cuidando
do português de Ancelotti.
"Lembro
que, uma vez, terminamos uma aula na sexta-feira e, como de costume, perguntei
quando ele queria ter a próxima", contou ele à BBC Sport.
"Ele
respondeu: 'Amanhã.' Era sábado, mas eu disse: 'Claro, sem problemas.' Seria às
nove horas da manhã em Vancouver", no Canadá, onde o técnico mora com a
esposa.
"Isso
aconteceu mais de uma vez. E me mostrou como ele levava o aprendizado a
sério."
A
goleada de 6x2 sobre o Panamá, no domingo (31/5), foi o penúltimo jogo da
seleção antes da Copa do Mundo. E representou um grande incentivo.
Rayan
marcou seu primeiro gol pela seleção nacional e Igor Thiago converteu um
pênalti. Vinícius Jr., Casemiro, Lucas Paquetá e Danilo também deixaram sua
marca.
Ancelotti
precisará de todas as armas possíveis, incluindo o idioma português,
considerando o tamanho do desafio que ele tem pela frente: evitar que a seleção
brasileira estabeleça um recorde indesejado.
O
Brasil ganhou a Copa do Mundo pela última vez em 2002 e, até hoje, nunca ficou
seis edições do torneio sem erguer o troféu.
Existem
fortes razões para que o ex-técnico do Chelsea e do Real Madrid seja
considerado o homem certo para o cargo.
"Uma
das coisas de que o Brasil mais precisava era de um técnico maior que os seus
jogadores", defende o ex-jogador e comentarista esportivo Walter
Casagrande. E Ancelotti preenche este requisito.
Seu
recorde de cinco títulos da Champions League e suas conquistas em todas as
cinco principais ligas nacionais europeias trazem um peso considerável, mesmo
em um vestiário que conta com a presença de Neymar, Vinicius Jr., Raphinha e
companhia.
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O 'campeão mundial' da adaptação
A
contratação de Ancelotti fez com que o Brasil confrontasse um dos maiores tabus
da sua história futebolística: ver a seleção nacional liderada por um técnico
estrangeiro.
E nem o
currículo do técnico italiano evitou que, no início, houvesse resistência.
"Somos
o único país que venceu a Copa do Mundo cinco vezes. Não é que nenhum
estrangeiro nunca deva treinar a seleção, mas eu teria escolhido um técnico
brasileiro", declarou Cafu, campeão em 1994 e 2002.
Durante
o 2° Fórum Brasileiro dos Treinadores de Futebol, em novembro passado, foi
impossível ignorar a tensão. Quando Ancelotti foi ao palco para ser
homenageado, colegas locais criticaram a presença de técnicos estrangeiros no
Brasil.
"Eu
sempre disse que não gosto de treinadores estrangeiros no meu país e nós,
treinadores, somos culpados por esta invasão", afirmou Émerson Leão,
técnico e ex-goleiro, campeão mundial de 1970 como jogador.
O
desconforto fez com que o filho e auxiliar técnico de Ancelotti, Davide,
deixasse o evento logo em seguida.
Mas o
tempo mostrou que aquele foi basicamente um episódio isolado durante o primeiro
ano do técnico italiano no cargo.
Mesmo
com resultados irregulares (seis vitórias, dois empates e três derrotas, nos
seus 11 jogos iniciais), uma pesquisa recente do instituto de pesquisa Quaest
concluiu que a maioria dos brasileiros confia no seu treinador.
Segundo
a pesquisa, 41% aprovam e 29% desaprovam o trabalho de Ancelotti. E, com este
apoio, a CBF agiu rapidamente e renovou seu contrato até 2030, antes mesmo que
ele dirigisse o Brasil durante a Copa do Mundo.
Mas a
decisão também foi um reflexo do que se pode considerar como a maior força de
Ancelotti: sua capacidade de conseguir pessoas que o apoiem.
Fontes
contaram à BBC Sport que o técnico recebeu a primeira versão do contrato no
início de abril, mas esperou cerca de um mês para assinar. Isso porque ele
queria que outros três funcionários da CBF — que, segundo ele, o ajudaram a se
adaptar ao Brasil — também tivessem seus contratos renovados até 2030.
"Ele
é um camaleão", afirma Leonardo, campeão do mundo em 1994. Ele trabalhou
com Ancelotti no Milan e no Paris Saint Germain, como jogador e como dirigente.
"Aonde
vai, ele se adapta às pessoas, à equipe, aos jogadores. Ele é campeão mundial
neste aspecto. Se algum dia eu comprasse uma equipe, meu técnico seria Carlo.
Não tenho outra opção."
"Ele
entra em simbiose com o ambiente e isso já aconteceu aqui [no Brasil]. As
pessoas gostam dele", afirma Leonardo.
Foram
quatro anos caóticos. O presidente da CBF foi destituído do cargo por ordem
judicial, a seleção teve quatro técnicos diferentes e o Brasil fez sua pior
campanha na história das eliminatórias da Copa do Mundo.
Mas
Ancelotti ainda acredita que pode trazer para a Copa do Mundo para o Brasil
pela sexta vez.
"Temos
dois dos cinco melhores jogadores do mundo", repete o treinador, nos
corredores da sede da CBF. Ele se refere a Vinicius Jr., do Real Madri, e
Raphinha, do Barcelona.
Mas
aqui vem a parte mais difícil: fazer com que eles tenham na seleção o mesmo
desempenho dos seus clubes. E, no ousado sistema tático 4-2-4 de Ancelotti,
isso ainda não aconteceu.
A
vitória de domingo no Maracanã foi apenas a terceira vez em que o técnico
italiano contou com os dois jogando juntos.
As
outras duas vezes foram em junho de 2025 (vitória de 1x0 sobre o Paraguai, nas
eliminatórias) e em março deste ano (derrota para a França em jogo amistoso,
por 2x1), quando Raphinha saiu no intervalo.
Com
Rodrygo e Estêvão Willian machucados, será ainda mais importante fazer
funcionar a parceria entre Raphinha e Vinicius Jr.
O
entrosamento entre os dois pode estar ainda sendo trabalhado, mas Ancelotti já
atingiu outro objetivo: ser ouvido pelos jogadores no vestiário.
"No
jogo contra o Paraguai [em junho de 2025], nós precisávamos ganhar para ir para
a Copa", conta Casemiro, do Manchester United, em entrevista ao
ex-defensor inglês Rio Ferdinand.
"No
intervalo, muitas pessoas estavam falando, falando, falando. Então, ele disse:
'Pessoal, esperem. Vou fumar um cigarro, volto em cinco minutos e, depois,
vocês podem falar.'"
"Depois,
ele voltou, falou e todos perceberam: 'OK. Este cara é diferente.'",
conclui Casemiro.
Aquele
foi um momento clássico de Ancelotti: calmo, simples e humano. Até suas aulas
de português parecem refletir isso.
"Eu
havia preparado uma lição sobre verbos no imperativo", relembra Piantino.
Ele trabalha como professor de outros jogadores e técnicos de futebol, no
Brasil e no exterior.
"O
material estava pronto, com uma apresentação explicando como funciona o
imperativo em português. Mas, assim que comecei, ele indicou: 'Não, não, não,
eu não me comunico desta forma. Eu não uso imperativos. Não é meu estilo dar
ordens assim.'"
Ancelotti
estava no banco da Itália, como auxiliar técnico, quando o Brasil venceu a
final da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos.
Agora,
ele retorna ao lado do Brasil, esperando levar a seleção de volta ao topo — do
seu jeito.
Fonte:
BBC Sport

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