Pastoras
ajudam mulheres a enfrentar violência doméstica
Semanas
após viralizar nas redes sociais ao afirmar que mulheres vítimas de violência
doméstica não deveriam apenas "orar pelo agressor", mas buscar
proteção para si, a pastora Helena Raquel reacendeu um debate que há anos
mobiliza grupos de mulheres evangélicas: o papel das igrejas no acolhimento de
vítimas de violência doméstica e relações abusivas, e no incentivo à denúncia.
Em muitas comunidades religiosas, mulheres ainda são orientadas a preservar o
casamento, apostar no perdão ou evitar recorrer à polícia.
O tema
ganha relevância diante dos números da violência de gênero no país. Segundo o
estudo Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil, do Fórum
Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Datafolha, publicado em março de
2025, quatro em cada dez (42,7%) mulheres evangélicas relataram ter sofrido
violência praticada por parceiro íntimo ou ex-parceiro ao longo da vida, ante
35,1% entre católicas. Destas, quase metade (47,4%) não fez nada após o
episódio mais grave de violência, e só 6% buscaram ajuda na igreja.
Segundo
Lauana A. Flor, membro do Conselho de Ética e da Comissão de Espiritualidade e
Liturgia da Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG), a repercussão da fala
de Helena Raquel reflete um debate que vem sendo ampliado por mulheres
religiosas, coletivos feministas cristãos e políticas públicas voltadas ao
enfrentamento da violência doméstica. "Há tempos outras pastoras, teólogas
e lideranças religiosas vêm abrindo espaço para essa discussão", afirma
Flor, que também é teóloga pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Fundado
em 2015, o EIG atua no acolhimento de mulheres vítimas de violência e na
formação de lideranças religiosas. Para integrantes do grupo e pesquisadoras
que estudam o tema, parte desse trabalho passa por enfrentar interpretações
religiosas que ainda associam a mulher à submissão e à manutenção do casamento
a qualquer custo. Segundo elas, esses discursos podem dificultar denúncias e a
busca por ajuda formal.
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Dificuldade e resistência dentro das igrejas
Apesar
do avanço de grupos religiosos voltados ao acolhimento de mulheres vítimas de
violência, teólogas e pastoras afirmam que ainda há resistência dentro de parte
das igrejas quando a decisão é denunciar o agressor ou romper o casamento. Em
muitos casos, dizem, a preservação da família e da imagem da instituição
continua sendo colocada acima da segurança da mulher.
"Muitas
mulheres, antes mesmo de encontrarem acolhimento, encontram julgamento,
silêncio ou tentativas de preservar a instituição familiar acima da vida e da
dignidade da mulher", afirma Valéria Cristina Vilhena, teóloga e pastora.
Segundo ela, ainda são frequentes relatos de mulheres orientadas a suportar
agressões "em nome da fé, do casamento ou da vontade de Deus".
"A denúncia da violência é um ato de proteção da vida, não um
pecado", diz.
Para
Vilhena, a dificuldade de romper relações abusivas passa por diferentes
fatores, como dependência econômica, medo de novas agressões, pressão da
comunidade religiosa e culpa. "Muitas mulheres foram ensinadas a acreditar
que uma 'boa esposa' suporta tudo em silêncio. Outras acreditam que denunciar
significa fracassar espiritualmente", afirma. Ela também diz que ainda é
comum a ideia de que a oração, sozinha, resolverá a situação de violência.
"Nenhuma mulher deve permanecer em risco acreditando que apenas sua oração
transformará um agressor violento."
A
pastora Eliade Dias dos Santos, da Igreja Metodista, afirma que mulheres
separadas ou divorciadas ainda enfrentam estigmas em parte das comunidades
religiosas. "Na igreja, o casamento também representa status. Quando esse
padrão se rompe, muitas vezes a primeira pergunta não é o que ele fez, mas o
que aconteceu para ela", diz.
Ela
relata ter acompanhado casos em que episódios de violência doméstica e abuso
sexual foram tratados internamente, sem acionamento da polícia. "Ainda se
tenta resolver muita coisa com oração, conversa e preservação da imagem da
igreja", afirma. Em um dos relatos, a líder religiosa diz que um pastor
denunciado por violência sexual acabou transferido para outra cidade e
promovido dentro da instituição religiosa.
Ao
longo da trajetória pastoral, Santos afirma ter orientado mulheres a procurar
ajuda formal e denunciar os agressores. Também realizou cultos em casas-abrigo
para vítimas de violência doméstica que não podiam retornar às igrejas por
questões de segurança. "Muitas chegavam acreditando que tinham falhado
espiritualmente ou que não tinham orado o suficiente para mudar a
situação", relata.
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Lideranças femininas e acolhimento
Apesar
do crescimento de coletivos e redes de apoio lideradas por mulheres, teólogas
ouvidas pela DW avaliam que as correntes progressistas ainda são minoria no
campo evangélico brasileiro. E, segundo Vilhena, suas lideranças são alvos
frequentes de tentativas de deslegitimação. "São marginalizadas, mal
vistas, sofrem perseguições, banimentos e processos de invisibilização dentro
das igrejas", afirma.
Mesmo
em comunidades consideradas mais abertas ao debate, Vilhena diz que mulheres
que questionam estruturas de poder e defendem mudanças têm dificuldades em ser
reconhecidas como interlocutoras legítimas.
Avaliação
semelhante faz a pastora Sue'Hellen Monteiro de Matos, que também é doutora em
Ciências da Religião. Ela destaca que, embora o número de mulheres em posições
de liderança tenha aumentado, muitas denominações ainda restringem ou sequer
permitem a ordenação feminina. "As pastoras progressistas ainda estão à
margem dentro das igrejas evangélicas", afirma.
Para
Flor, do EIG, a presença de mulheres em posições de liderança tem contribuído
para ampliar o debate sobre violência doméstica e criar espaços de escuta
dentro das comunidades religiosas. "Todas as pessoas ganham, seja pelo
desenvolvimento do senso crítico, da construção de espaços mais humanizados e
de práticas de fé voltadas ao bem-viver", afirma.
Na
prática, essas iniciativas combinam acolhimento, formação e articulação com a
rede de proteção às mulheres. Matos cita o trabalho desenvolvido pela EIG, que
promove cultos e encontros voltados à discussão de interpretações bíblicas
frequentemente utilizadas para justificar a submissão feminina, além de
formações sobre direitos humanos, violência de gênero e serviços de apoio às
vítimas.
Quando
uma mulher procura ajuda, explica Matos, o primeiro passo é a escuta e o
acolhimento. A partir daí, integrantes da organização acompanham a vítima e
fazem encaminhamentos para serviços especializados. Vilhena acrescenta que o
trabalho também passa pela formação continuada de lideranças religiosas, pela
construção de novas leituras da Bíblia e pela participação em conselhos e
fóruns voltados ao enfrentamento da violência contra as mulheres.
Segundo
Vilhena, o machismo religioso ainda influencia a forma como muitas vítimas
interpretam a própria situação. "Algumas acreditam que questionar o marido
ou denunciar abusos seria desobedecer a Deus", diz. Por Para ela,
lideranças femininas conseguem identificar aspectos da violência que
historicamente passaram despercebidos. "Mulheres pastoras frequentemente
percebem nuances da violência espiritual, emocional e doméstica que durante
muito tempo foram invisibilizadas."
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Culpa e silêncio
Para
Dagmar Santos, 46 anos, o acolhimento dentro da igreja veio de forma parcial.
Após romper um casamento marcado por agressões físicas e controle, ela
encontrou apoio do pastor da congregação que frequentava, mas afirma ter sido
julgada por outras mulheres da comunidade religiosa. "Eu terminei sendo
mais hostilizada por mulheres do que pelos homens", diz. Segundo ela,
mensagens sobre como "a mulher sábia edifica a casa" passaram a
chegar depois que o ex-marido comunicou à igreja que o casal estava se separando.
A
trajetória de Damaris Germana Roberta, 66 anos, também foi marcada pela relação
entre abusos e silêncio religioso. Criada em uma família presbiteriana, ela
afirma ter sofrido violência psicológica e patrimonial durante o casamento.
Após a separação, buscou apoio no grupo de mulheres e na assistência social da
igreja. "Fui colocada como uma mulher que errou porque não soube conservar
o casamento", afirma. "Não me senti acolhida. Me senti com mais
agressão psicológica vinda de dentro do meu espaço de fé."
As duas
relatam que a culpa e o medo da denúncia ainda são reforçados em parte das
comunidades religiosas. Para Dagmar, muitas igrejas discutem o tema
publicamente, mas ainda reproduzem discursos que dificultam o enfrentamento da
violência. "Existe um terreno fértil para a propagação dessas
violências", afirma. Já Damaris avalia que a preocupação em preservar a
imagem das instituições leva muitas mulheres a serem orientadas a insistir no
casamento. "Ficam mandando as irmãs orarem para recuperar aquilo que não
tem recuperação", diz.
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Crescimento evangélico e discurso conservador
Não há
um levantamento nacional sobre o número de mulheres que atuam como pastoras no
Brasil. Mas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
o país já tem mais de 47 milhões de evangélicos, a maioria (26,2 milhões)
mulheres. O crescimento desse grupo religioso acontece ao mesmo tempo em que
aumenta o debate sobre o papel das igrejas em temas ligados à violência
doméstica, gênero e estrutura familiar.
Professora
do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas da
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Jaci de Fátima Souza
Candiotto diz que o crescimento evangélico está ligado a fatores sociais,
econômicos e comunitários. "Muitas igrejas oferecem pertencimento, escuta,
ajuda material e respostas rápidas para situações de sofrimento", afirma.
Segundo ela, a presença forte nas periferias urbanas, as redes de apoio e a
linguagem acessível ajudam a explicar a expansão das igrejas evangélicas,
especialmente em territórios marcados por vulnerabilidade social e baixa
presença do Estado.
A
pesquisadora afirma, porém, que parte dessas comunidades religiosas ainda
reproduz interpretações bíblicas que associam mulheres à submissão, ao silêncio
e à preservação da família "a qualquer custo". "Isso pode ser
muito perigoso quando a mulher vive violência doméstica", diz a
professora, que também é mestre e doutora em teologia.
O
historiador Leandro Seawright, professor da Universidade de São Paulo (USP),
afirma que o crescimento evangélico no Brasil também está ligado à ocupação do
espaço público e político pelas igrejas ao longo das últimas décadas. Segundo
ele, diferentes denominações passaram a transformar valores religiosos em
pautas políticas, especialmente em torno da defesa da chamada "família
tradicional". "A denúncia da violência doméstica muitas vezes é vista
como ameaça a esse modelo familiar", observa.
Para
Seawright, muitas mulheres buscam as igrejas em momentos de vulnerabilidade,
procurando apoio para problemas familiares, violência doméstica e crises
financeiras, mas encontram respostas contraditórias. "A igreja pode ser um
lugar paradoxal. É onde elas buscam proteção, mas também onde muitas vezes
encontram a proposta de permanecer em silêncio", diz.
Santos
concorda. "A igreja é condescendente com a violência, porque ela não fala
dessa violência. Quantas igrejas tem 180 lá pregado no mural da igreja? Quantas
tem o endereço da próxima delegacia da mulher? Quantas têm folhetos
distribuídos pras mulheres que são vítimas de violência?", indaga.
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Como as igrejas podem combater a violência
Para
lideranças religiosas que atuam no acolhimento de mulheres vítimas de
violência, o enfrentamento do problema dentro das instituições passa por
mudanças na formação pastoral e pela criação de espaços permanentes de
discussão sobre gênero, abuso e violência doméstica.
Santos
afirma que cursos de teologia ainda abordam pouco temas como violência sexual,
racismo, homofobia e Lei Maria da Penha. "Fala-se sobre casamento, luto e
aconselhamento pastoral, mas não sobre violência doméstica", afirma a
pastora.
Segundo
a líder religiosa, a resistência aumenta quando debates sobre gênero começam a
provocar mudanças práticas dentro das comunidades religiosas. Ela relata que,
durante encontros com mulheres em uma igreja na zona sul de São Paulo, passou a
discutir violência psicológica e relações abusivas a partir de leituras
bíblicas. Com o tempo, alguns homens passaram a reclamar das reuniões.
"Eles diziam que as mulheres estavam respondendo mais e questionando
comportamentos", afirma.
Entre
as medidas que poderiam ser adotadas pelas instituições religiosas, Santos
defende a divulgação de canais de denúncia e da rede pública de proteção às
mulheres dentro dos próprios espaços de fé. "As igrejas deveriam divulgar
o 180, explicar como funciona a delegacia da mulher e ter informações de apoio
nos banheiros femininos", afirma. Segundo ela, isso também ajudaria
vítimas de violência sexual e abuso religioso dentro das próprias comunidades.
Matos
afirma que o primeiro passo para enfrentar a violência é nomeá-la. "É
preciso criar espaços de formação e escuta dentro das igrejas", diz. Para
ela, sermões isolados não são suficientes para lidar com o tema. Ela defende
ainda rodas de conversa, formação de lideranças e divulgação da rede de
atendimento às vítimas, além do debate sobre masculinidade dentro das
comunidades religiosas.
Fonte:
Por Priscila Carvalho, em DW Brasil

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