quinta-feira, 11 de junho de 2026


 

Pastoras ajudam mulheres a enfrentar violência doméstica

Semanas após viralizar nas redes sociais ao afirmar que mulheres vítimas de violência doméstica não deveriam apenas "orar pelo agressor", mas buscar proteção para si, a pastora Helena Raquel reacendeu um debate que há anos mobiliza grupos de mulheres evangélicas: o papel das igrejas no acolhimento de vítimas de violência doméstica e relações abusivas, e no incentivo à denúncia. Em muitas comunidades religiosas, mulheres ainda são orientadas a preservar o casamento, apostar no perdão ou evitar recorrer à polícia.

O tema ganha relevância diante dos números da violência de gênero no país. Segundo o estudo Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Datafolha, publicado em março de 2025, quatro em cada dez (42,7%) mulheres evangélicas relataram ter sofrido violência praticada por parceiro íntimo ou ex-parceiro ao longo da vida, ante 35,1% entre católicas. Destas, quase metade (47,4%) não fez nada após o episódio mais grave de violência, e só 6% buscaram ajuda na igreja.

Segundo Lauana A. Flor, membro do Conselho de Ética e da Comissão de Espiritualidade e Liturgia da Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG), a repercussão da fala de Helena Raquel reflete um debate que vem sendo ampliado por mulheres religiosas, coletivos feministas cristãos e políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência doméstica. "Há tempos outras pastoras, teólogas e lideranças religiosas vêm abrindo espaço para essa discussão", afirma Flor, que também é teóloga pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. 

Fundado em 2015, o EIG atua no acolhimento de mulheres vítimas de violência e na formação de lideranças religiosas. Para integrantes do grupo e pesquisadoras que estudam o tema, parte desse trabalho passa por enfrentar interpretações religiosas que ainda associam a mulher à submissão e à manutenção do casamento a qualquer custo. Segundo elas, esses discursos podem dificultar denúncias e a busca por ajuda formal.

<><> Dificuldade e resistência dentro das igrejas

Apesar do avanço de grupos religiosos voltados ao acolhimento de mulheres vítimas de violência, teólogas e pastoras afirmam que ainda há resistência dentro de parte das igrejas quando a decisão é denunciar o agressor ou romper o casamento. Em muitos casos, dizem, a preservação da família e da imagem da instituição continua sendo colocada acima da segurança da mulher.

"Muitas mulheres, antes mesmo de encontrarem acolhimento, encontram julgamento, silêncio ou tentativas de preservar a instituição familiar acima da vida e da dignidade da mulher", afirma Valéria Cristina Vilhena, teóloga e pastora. Segundo ela, ainda são frequentes relatos de mulheres orientadas a suportar agressões "em nome da fé, do casamento ou da vontade de Deus". "A denúncia da violência é um ato de proteção da vida, não um pecado", diz.

Para Vilhena, a dificuldade de romper relações abusivas passa por diferentes fatores, como dependência econômica, medo de novas agressões, pressão da comunidade religiosa e culpa. "Muitas mulheres foram ensinadas a acreditar que uma 'boa esposa' suporta tudo em silêncio. Outras acreditam que denunciar significa fracassar espiritualmente", afirma. Ela também diz que ainda é comum a ideia de que a oração, sozinha, resolverá a situação de violência. "Nenhuma mulher deve permanecer em risco acreditando que apenas sua oração transformará um agressor violento."

A pastora Eliade Dias dos Santos, da Igreja Metodista, afirma que mulheres separadas ou divorciadas ainda enfrentam estigmas em parte das comunidades religiosas. "Na igreja, o casamento também representa status. Quando esse padrão se rompe, muitas vezes a primeira pergunta não é o que ele fez, mas o que aconteceu para ela", diz. 

Ela relata ter acompanhado casos em que episódios de violência doméstica e abuso sexual foram tratados internamente, sem acionamento da polícia. "Ainda se tenta resolver muita coisa com oração, conversa e preservação da imagem da igreja", afirma. Em um dos relatos, a líder religiosa diz que um pastor denunciado por violência sexual acabou transferido para outra cidade e promovido dentro da instituição religiosa. 

Ao longo da trajetória pastoral, Santos afirma ter orientado mulheres a procurar ajuda formal e denunciar os agressores. Também realizou cultos em casas-abrigo para vítimas de violência doméstica que não podiam retornar às igrejas por questões de segurança. "Muitas chegavam acreditando que tinham falhado espiritualmente ou que não tinham orado o suficiente para mudar a situação", relata. 

<><> Lideranças femininas e acolhimento

Apesar do crescimento de coletivos e redes de apoio lideradas por mulheres, teólogas ouvidas pela DW avaliam que as correntes progressistas ainda são minoria no campo evangélico brasileiro. E, segundo Vilhena, suas lideranças são alvos frequentes de tentativas de deslegitimação. "São marginalizadas, mal vistas, sofrem perseguições, banimentos e processos de invisibilização dentro das igrejas", afirma.

Mesmo em comunidades consideradas mais abertas ao debate, Vilhena diz que mulheres que questionam estruturas de poder e defendem mudanças têm dificuldades em ser reconhecidas como interlocutoras legítimas.

Avaliação semelhante faz a pastora Sue'Hellen Monteiro de Matos, que também é doutora em Ciências da Religião. Ela destaca que, embora o número de mulheres em posições de liderança tenha aumentado, muitas denominações ainda restringem ou sequer permitem a ordenação feminina. "As pastoras progressistas ainda estão à margem dentro das igrejas evangélicas", afirma.

Para Flor, do EIG, a presença de mulheres em posições de liderança tem contribuído para ampliar o debate sobre violência doméstica e criar espaços de escuta dentro das comunidades religiosas. "Todas as pessoas ganham, seja pelo desenvolvimento do senso crítico, da construção de espaços mais humanizados e de práticas de fé voltadas ao bem-viver", afirma.

Na prática, essas iniciativas combinam acolhimento, formação e articulação com a rede de proteção às mulheres. Matos cita o trabalho desenvolvido pela EIG, que promove cultos e encontros voltados à discussão de interpretações bíblicas frequentemente utilizadas para justificar a submissão feminina, além de formações sobre direitos humanos, violência de gênero e serviços de apoio às vítimas.

Quando uma mulher procura ajuda, explica Matos, o primeiro passo é a escuta e o acolhimento. A partir daí, integrantes da organização acompanham a vítima e fazem encaminhamentos para serviços especializados. Vilhena acrescenta que o trabalho também passa pela formação continuada de lideranças religiosas, pela construção de novas leituras da Bíblia e pela participação em conselhos e fóruns voltados ao enfrentamento da violência contra as mulheres.

Segundo Vilhena, o machismo religioso ainda influencia a forma como muitas vítimas interpretam a própria situação. "Algumas acreditam que questionar o marido ou denunciar abusos seria desobedecer a Deus", diz. Por Para ela, lideranças femininas conseguem identificar aspectos da violência que historicamente passaram despercebidos. "Mulheres pastoras frequentemente percebem nuances da violência espiritual, emocional e doméstica que durante muito tempo foram invisibilizadas."

<><> Culpa e silêncio

Para Dagmar Santos, 46 anos, o acolhimento dentro da igreja veio de forma parcial. Após romper um casamento marcado por agressões físicas e controle, ela encontrou apoio do pastor da congregação que frequentava, mas afirma ter sido julgada por outras mulheres da comunidade religiosa. "Eu terminei sendo mais hostilizada por mulheres do que pelos homens", diz. Segundo ela, mensagens sobre como "a mulher sábia edifica a casa" passaram a chegar depois que o ex-marido comunicou à igreja que o casal estava se separando. 

A trajetória de Damaris Germana Roberta, 66 anos, também foi marcada pela relação entre abusos e silêncio religioso. Criada em uma família presbiteriana, ela afirma ter sofrido violência psicológica e patrimonial durante o casamento. Após a separação, buscou apoio no grupo de mulheres e na assistência social da igreja. "Fui colocada como uma mulher que errou porque não soube conservar o casamento", afirma. "Não me senti acolhida. Me senti com mais agressão psicológica vinda de dentro do meu espaço de fé."

As duas relatam que a culpa e o medo da denúncia ainda são reforçados em parte das comunidades religiosas. Para Dagmar, muitas igrejas discutem o tema publicamente, mas ainda reproduzem discursos que dificultam o enfrentamento da violência. "Existe um terreno fértil para a propagação dessas violências", afirma. Já Damaris avalia que a preocupação em preservar a imagem das instituições leva muitas mulheres a serem orientadas a insistir no casamento. "Ficam mandando as irmãs orarem para recuperar aquilo que não tem recuperação", diz.

<><> Crescimento evangélico e discurso conservador

Não há um levantamento nacional sobre o número de mulheres que atuam como pastoras no Brasil. Mas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país já tem mais de 47 milhões de evangélicos, a maioria (26,2 milhões) mulheres. O crescimento desse grupo religioso acontece ao mesmo tempo em que aumenta o debate sobre o papel das igrejas em temas ligados à violência doméstica, gênero e estrutura familiar.

Professora do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Jaci de Fátima Souza Candiotto diz que o crescimento evangélico está ligado a fatores sociais, econômicos e comunitários. "Muitas igrejas oferecem pertencimento, escuta, ajuda material e respostas rápidas para situações de sofrimento", afirma. Segundo ela, a presença forte nas periferias urbanas, as redes de apoio e a linguagem acessível ajudam a explicar a expansão das igrejas evangélicas, especialmente em territórios marcados por vulnerabilidade social e baixa presença do Estado.

A pesquisadora afirma, porém, que parte dessas comunidades religiosas ainda reproduz interpretações bíblicas que associam mulheres à submissão, ao silêncio e à preservação da família "a qualquer custo". "Isso pode ser muito perigoso quando a mulher vive violência doméstica", diz a professora, que também é mestre e doutora em teologia.

O historiador Leandro Seawright, professor da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o crescimento evangélico no Brasil também está ligado à ocupação do espaço público e político pelas igrejas ao longo das últimas décadas. Segundo ele, diferentes denominações passaram a transformar valores religiosos em pautas políticas, especialmente em torno da defesa da chamada "família tradicional". "A denúncia da violência doméstica muitas vezes é vista como ameaça a esse modelo familiar", observa.

Para Seawright, muitas mulheres buscam as igrejas em momentos de vulnerabilidade, procurando apoio para problemas familiares, violência doméstica e crises financeiras, mas encontram respostas contraditórias. "A igreja pode ser um lugar paradoxal. É onde elas buscam proteção, mas também onde muitas vezes encontram a proposta de permanecer em silêncio", diz.

Santos concorda. "A igreja é condescendente com a violência, porque ela não fala dessa violência. Quantas igrejas tem 180 lá pregado no mural da igreja? Quantas tem o endereço da próxima delegacia da mulher? Quantas têm folhetos distribuídos pras mulheres que são vítimas de violência?", indaga.

<><> Como as igrejas podem combater a violência 

Para lideranças religiosas que atuam no acolhimento de mulheres vítimas de violência, o enfrentamento do problema dentro das instituições passa por mudanças na formação pastoral e pela criação de espaços permanentes de discussão sobre gênero, abuso e violência doméstica.

Santos afirma que cursos de teologia ainda abordam pouco temas como violência sexual, racismo, homofobia e Lei Maria da Penha. "Fala-se sobre casamento, luto e aconselhamento pastoral, mas não sobre violência doméstica", afirma a pastora.

Segundo a líder religiosa, a resistência aumenta quando debates sobre gênero começam a provocar mudanças práticas dentro das comunidades religiosas. Ela relata que, durante encontros com mulheres em uma igreja na zona sul de São Paulo, passou a discutir violência psicológica e relações abusivas a partir de leituras bíblicas. Com o tempo, alguns homens passaram a reclamar das reuniões. "Eles diziam que as mulheres estavam respondendo mais e questionando comportamentos", afirma. 

Entre as medidas que poderiam ser adotadas pelas instituições religiosas, Santos defende a divulgação de canais de denúncia e da rede pública de proteção às mulheres dentro dos próprios espaços de fé. "As igrejas deveriam divulgar o 180, explicar como funciona a delegacia da mulher e ter informações de apoio nos banheiros femininos", afirma. Segundo ela, isso também ajudaria vítimas de violência sexual e abuso religioso dentro das próprias comunidades.

Matos afirma que o primeiro passo para enfrentar a violência é nomeá-la. "É preciso criar espaços de formação e escuta dentro das igrejas", diz. Para ela, sermões isolados não são suficientes para lidar com o tema. Ela defende ainda rodas de conversa, formação de lideranças e divulgação da rede de atendimento às vítimas, além do debate sobre masculinidade dentro das comunidades religiosas.

 

Fonte: Por Priscila Carvalho, em DW Brasil


Nenhum comentário: