Como
casas de britânicos estão sendo tomadas por criminosos e usadas por traficantes
Centenas,
talvez milhares, de casas são invadidas por criminosos todas as semanas
no Reino Unido, geralmente para
armazenamento e venda de drogas, disseram chefes de
polícia à BBC.
Os
responsáveis pelo chamado cuckooing (ocupação criminosa de
residências vulneráveis) frequentemente têm como alvo pessoas vulneráveis,
incluindo idosos e pessoas com deficiência, invadindo suas casas para realizar
atividades ilegais.
Em
alguns casos, usuários de drogas são explorados por gangues que passam a ocupar
os imóveis e se recusam a sair.
O cuckooing ainda
não é tipificado como crime específico no Reino Unido, o que limita os dados
disponíveis sobre a dimensão do problema.
No
entanto, os números compartilhados com exclusividade com a BBC mostram que
1.539 casos de cuckooing foram registrados pela polícia de
Londres entre maio de 2025 e abril de 2026. Desse total, 1.275 vítimas eram
homens.
O
Conselho Nacional de Chefes de Polícia do Reino Unido (NPCC, na sigla em
inglês) afirmou que "coisas horríveis" aconteceram às vítimas, que
muitas vezes ficavam presas em suas próprias casas.
"Já
tivemos casos em que as vítimas foram forçadas a comer fezes de cachorro ou
praticar atos sexuais. Essas situações eram gravadas e depois usadas como forma
de chantagem. Os criminosos diziam: 'se você não fizer o que eu mando, vamos
mostrar isso aos seus amigos e publicar nas redes sociais'", afirmou
Kirsten Dent, do NPCC, à BBC.
"É
algo escondido, que acontece dentro da casa das pessoas, e nem sempre é fácil
de detectar."
O cuckooing,
tem nome inspirado nos cucos, aves que frequentemente ocupam ninhos de outras
espécies para botar seus próprios ovos (prática conhecida em português pelo
nome "parasitismo de ninhada"), deve se tornar um crime específico
até o fim do ano no Reino Unido, com pena máxima de cinco anos de prisão.
A
medida faz parte da Lei de Crime e Policiamento de 2026, mas o governo ainda
precisa publicar orientações oficiais para as forças policiais antes que a
legislação possa entrar em vigor.
Antes
da implementação da nova lei, a BBC acompanhou policiais da Polícia
Metropolitana de Londres durante visitas a imóveis suspeitos de serem usados em
casos de cuckooing e encontrou sinais chocantes de
insalubridade.
A
reportagem da BBC também ouviu vítimas que disseram se sentir como prisioneiras
dentro de suas próprias casas e que tinham medo de procurar a polícia por medo
de represálias violentas.
Jamie,
de 34 anos, sofreu uma lesão cerebral depois de ser atingido na cabeça com uma
garrafa de vidro e, por causa disso, tem dificuldades para se movimentar e
falar adequadamente.
Dois
anos atrás, uma gangue criminosa se aproveitou de sua condição ao se aproximar
dele de forma amigável antes de ocupar sua casa sem o seu consentimento e usar
seu apartamento como ponto de venda de drogas.
"Essas
pessoas passaram de muito gentis e amigáveis comigo para simplesmente tirar
tudo o que podiam", disse Jamie.
"Roubaram
as minhas roupas", acrescentou. "Começaram a levar tudo o que tinha
algum valor na minha casa, roubando sem que percebesse. E, quando eu descobria
que eram eles, eles negavam."
Ele
contou que uma das situações mais humilhantes foi levar um tapa de um
adolescente muito mais novo do que ele. Jamie disse que, por causa de sua
condição, sentia ser impossível enfrentar a gangue.
"Eu
[tenho] lesão cerebral e um soco forte poderia me machucar seriamente. Não
consigo brigar nem discutir", disse Jamie.
No
início deste ano, ele disse ter conseguido deixar o apartamento e se mudar para
outra região do país para escapar da gangue.
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'Prisioneira dentro da própria casa'
O
Conselho Nacional de Chefes de Polícia do Reino Unido visitou 683 endereços com
suspeita de cuckooing no início de março deste ano como parte
de uma semana de operações voltadas ao combate das chamadas county lines,
prática de levar drogas de cidades grandes para áreas menores e rurais.
Segundo
policiais, operações de county lines e cuckooing estão
diretamente ligadas. Traficantes que transportam drogas frequentemente procuram
imóveis de onde possam atuar.
"Nós
suspeitamos que centenas, talvez milhares de imóveis estejam sendo usados em
casos de cuckooing em todo o Reino Unido todas as
semanas", afirmou Dent, do NPCC.
Uma
dessas vítimas foi Jackie, que contou à BBC ter sido usuária de heroína e
cocaína. O traficante que fornecia drogas para ela permitiu que acumulasse uma
dívida elevada. Quando Jackie não conseguiu pagar, ele acrescentou mais 2 mil
libras (cerca de R$ 14,5 mil) ao valor devido e disse que um traficante teria
de morar com ela até que a dívida fosse quitada.
Ela
disse ter sido vítima de cuckooing durante meses e disse ter
se tornado uma "prisioneira dentro da própria casa".
"Eu
pedi para ele ir embora muitas vezes, e ele respondia: 'Meu chefe disse que eu
tenho que ficar aqui'."
"Isso
significava que eu tinha que ficar em um único cômodo. Tentei entrar na sala e
na cozinha, mas ele dizia: 'não, você não vai entrar'. Eu tinha que ficar no
meu quarto. De vez em quando ele dizia algo como 'vou comprar frango com batata
frita para você', mas isso era muito raro", contou. Ela disse que usava
drogas para suportar a situação.
Depois
de vários meses ocupando o imóvel, o traficante finalmente foi embora. Jackie
disse acreditar que ele saiu por suspeitar que estava sendo monitorado pela
polícia.
Hoje,
ela não usa mais drogas após passar por reabilitação e trabalha com diferentes
grupos de apoio para conscientizar sobre o cuckooing e mostrar
que isso pode acontecer com qualquer pessoa.
"Não
se trata apenas de drogas. Pode envolver qualquer coisa. Pode ser parceiro [que
se recusa a sair de casa]. Pode ser um familiar. Pode ser qualquer pessoa que
se recuse a deixar sua propriedade. E isso pode ser usado para todo tipo de
exploração: dinheiro, produtos roubados, qualquer coisa que eles achem que
podem usar contra você", afirmou Jackie.
Quando
a BBC visitou imóveis em Londres com agentes da Polícia Metropolitana, os
policiais disseram que condições precárias e insalubres são comuns em
propriedades usadas em casos de cuckooing.
Embalagens
de comida estavam espalhadas pelo chão, portas haviam saído das dobradiças e um
forte cheiro de fezes tomava o ambiente.
A
equipe foi levada até uma cozinha onde havia frango cru abandonado na pia.
Havia manchas de sangue em um edredom, e uma mesa dobrável suja era usada como
cama. O vaso sanitário de um dos banheiros estava entupido. Todos os imóveis
tinham um cheiro repugnante.
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Vítimas repetidas
Autoridades
da Polícia Metropolitana, a maior força de segurança interna britânica,
afirmaram ter identificado um padrão daqueles que acabaram sendo explorados.
"O
que os dados nos mostram é que se você é um homem branco de 40 a 49 anos e
potencialmente um dependente de drogas, as chances são bastante altas de você
se tornar uma vítima desse crime [...] Nós também estamos vendo vítimas
repetidas, em que tristemente pessoas atingidas antes se mudaram ou
permaneceram em suas casas e acabaram se tornando vítimas de novo",
afirmou o inspetor Andrew Cameron.
Dados
obtidos pela BBC via leis de acesso à informação apontam 380 investigações no
ano fiscal de 2023/2024 nas quais esse crime de ocupação criminosa de
residências era mencionado como a principal preocupação em potencial. Os
números subiram para 1.078 em 2025/26.
A
Polícia Metropolitana afirmou que o aumento está principalmente ligado a uma
maior conscientização dentro da instituição sobre como se dá esse tipo de
crime, mas também está ligado a mais traficantes de drogas usando essa tática
em seus negócios. Além disso, a instituição disse ainda que a metodologia de
coleta de dados também mudou ao longo do tempo, o que também pode ajudar a
explicar o aumento de casos registrados.
Enquanto
o cuckooing não é tipificado como crime, policiais dizem
tentar enquadrar e prender suspeitos sob outras acusações, como posse de drogas
e práticas análogas à escravidão.
Fontes
ouvidas pela BBC em diversas forças policiais da Inglaterra afirmam que ordens
de fechamento ou interdição têm sido mais usadas para interromper práticas
de cuckooing.
Essas
medidas permitem aos policiais e autoridades locais fecharem temporariamente as
propriedades. Uma ordem de fechamento parcial, por exemplo, permite que o atual
morador continue na residência, mas outros visitantes ou pessoas são barradas
de entrar.
Algumas
vítimas, porém, criticam como essa medida tem sido adotada.
"Eu
não tenho fé na polícia. Eles são inúteis", afirmou uma das vítimas que
falou à BBC sob a condição de anonimato.
Elas
(as vítimas) acreditam que pessoas vulneráveis precisam de mais apoio e que
ainda faltam medidas para impedir esse tipo de exploração.
O
Conselho Nacional de Chefes de Polícia do Reino Unido afirmou que está
trabalhando para aumentar a confiança entre as vítimas e acredita que a mudança
da lei tipificando o cuckooing como crime vai ajudar nesse
sentido.
Amy
Loughery, pesquisadora da Universidade de Leeds, no Reino Unido, que trabalha
em torno do cuckooing e outras formas de exploração, afirma
que a polícia nem sempre reconhece quando pessoas vulneráveis estão sendo
exploradas.
"Vítimas
de cuckooing não são necessariamente vistas como vítimas
porque em geral elas já tiveram outras experiências ou interações com a
polícia."
Ainda
que a conscientização sobre o problema tenha melhorado nos últimos anos,
Loughery afirmou à BBC que "ainda há um longo caminho a ser
percorrido". Ela cobra mais orientações e políticas para ajudar a
identificar a exploração e aprimorar as respostas ao crime de cuckooing.
Um
porta-voz do Ministério do Interior do Reino Unido disse que os depoimentos
dados à BBC News foram "terríveis".
E
acrescentou: "Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para proteger as
comunidades do crime vil de cuckooing, incluindo o investimento de
mais de 34 milhões de libras [cerca de R$ 235 milhões] este ano no Programa
County Lines para combater gangues de tráfico de drogas e grupos do crime
organizado."
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O polêmico resort que filha de Trump quer construir em
ilha paradisíaca de país europeu
Há
dias, manifestantes estão protestando pelas ruas de Tirana, capital da Albânia,
atraindo milhares de pessoas às ruas para exigir o cancelamento de um
empreendimento turístico de luxo supostamente ligado a Ivanka Trump — filha do
presidente americano Donald Trump — e seu marido Jared Kushner.
Há
bandeiras albanesas e slogans anticorrupção, mas também muitas imagens da filha
de Trump e flamingos cor-de-rosa brilhantes, como parte de uma campanha que
pede a ela e ao marido, Kushner, que "voltem para casa".
Confrontos
entre a polícia e manifestantes na região têm sido frequentes, com pessoas
gritando "Cancelem o empreendimento" e segurando faixas com os
dizeres "A Albânia não está à venda".
O
resort de 1,4 bilhão de euros (R$ 8,3 bilhões) está projetado para ocupar uma
ilha e fica próximo a uma zona que abriga flamingos, focas e ninhos de
tartarugas marinhas.
O
primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, apoia o plano de 4 bilhões de euros (R$
24 bilhões) que, segundo ele, traria empregos e infraestrutura para a região.
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A ilha que chamou a atenção de Ivanka Trump
A ilha
desabitada de Sazan, de 5,7 quilômetros quadrados, está situada no mar
Adriático, na costa de Vlora, uma cidade no sudoeste da Albânia.
A ilha
serviu como base militar estratégica durante a Segunda Guerra Mundial, mais
tarde tornando-se parte da rede de defesa alinhada à União Soviética na década
de 1950, e permanecendo um posto altamente fortificado mesmo após a ruptura da
Albânia com a URSS.
Como
resultado, além de milhares de bunkers e túneis subterrâneos na ilha, grandes
quantidades de munições não detonadas permanecem espalhadas no fundo do mar e
ao longo de sua costa rochosa.
Em
entrevista a um podcast nos EUA, Ivanka Trump disse que ela e o marido
encontraram a ilha por acaso.
"Estávamos
no barco de um amigo e paramos para nadar", disse ela ao podcast de David
Senra.
"Identificamos
a oportunidade de ajudar a concretizar seu potencial e transformá-lo, mas com
muita moderação e cuidado, porque o lugar é muito bonito."
Isso
provocou comentários no vídeo, como "A Albânia não está à venda!" ou
"Tirem suas mãos", ao lado de emojis da bandeira albanesa.
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Por que moradores se opõem ao empreendimento?
Em
janeiro, 40 organizações ambientais pediram a suspensão dos planos para o
resort, citando ameaças de danos irreversíveis à biodiversidade local.
"Queremos
que a construção seja interrompida e que as máquinas pesadas saiam da área
protegida", disse Joni Vorpsi, ecologista da organização PPNEA-Birdlife
Albania, à Reuters.
"Isso
destruirá completamente essa região selvagem."
Os
protestos iniciais começaram no fim de maio deste ano, após a instalação de
arame farpado bloqueando o acesso à praia de Zvernec, uma faixa do litoral em
frente à ilha de Sazan que fica próxima a uma área protegida.
A
construção de hotéis e vilas de luxo nessa área, bem como na ilha de Sazan,
fazia parte dos planos anunciados pelo genro de Trump em 2024.
Vídeos
dos protestos mostram seguranças arrastando pessoas para fora do local, bem
como pessoas sofrendo ferimentos supostamente relacionados ao spray de pimenta.
Isso
levou as autoridades a revogar as licenças de duas empresas de segurança
privada e suspender vários policiais.
Mas nem
todos são céticos em relação ao empreendimento, como o morador local Brian
Negatorre, que trabalha com turismo.
"Todo
mundo vai conhecer a Albânia nos próximos anos. É algo com que todos nós
sonhamos."
Ele
conheceu Ivanka quando ela visitou a região de Vlora em janeiro, acompanhada de
arquitetos e investidores, e recebeu tanto ela quanto o primeiro-ministro Rama
no resort litorâneo de sua família.
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Quem está por trás do projeto?
No fim
de 2024, o governo concedeu o status de "investidor estratégico" à
Atlantic Incubation Partners, uma empresa ligada a Kushner.
Esse
status garante acesso a procedimentos administrativos acelerados e apoio de
ministérios, segundo um documento visto pela agência AFP.
Questionado
pela BBC, o sócio de Kushner, Asher Abehsera, disse que o projeto se concentra
em "gestão responsável" e na melhoria do ambiente, além de criação de
empregos e de valor para as comunidades locais.
A BBC
entrou em contato com a Trump Organization, mas não recebeu resposta.
O
primeiro-ministro Edi Rama defendeu o projeto e disse que não há "nenhuma
chance" de o empreendimento ser interrompido enquanto ele estiver no
poder.
Ele
afirmou estar aberto a dialogar com "qualquer pessoa que tenha
preocupações" e convidou os manifestantes a escolher uma delegação de
cerca de 20 pessoas para discutir possíveis soluções.
A
proposta foi rejeitada pelos organizadores dos protestos, que agora pedem a
renúncia do premiê.
A
agência estatal anticorrupção da Albânia confirmou ter aberto uma investigação
relacionada ao projeto, mas não divulgou detalhes.
Kushner
tem buscado projetos de desenvolvimento semelhantes nos Bálcãs. Um
empreendimento de luxo proposto na Sérvia tornou-se alvo de controvérsia sobre
o status patrimonial do local.
A
prisão de um ministro do governo por abuso de cargo em conexão com o projeto
acabou levando Kushner a se retirar da proposta no início deste ano.
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Terras em disputa
O
governo afirma que as terras destinadas ao projeto são de propriedade privada –
especialmente ao longo da costa de Zvernec – mas há processos questionando a
privatização, que é um tipo comum de disputa jurídica, segundo Vladimir Karay,
jornalista da Balkan Investigative Reporting Network.
"O
conflito de propriedade é um dos maiores conflitos no país. Há mais de 10 anos,
pelo menos um terço dos casos de homicídio na Albânia estava relacionado a
disputas de propriedade e ainda hoje há casos assim pelo menos uma ou duas
vezes por ano, todos os anos", afirma.
Após a
queda do regime comunista totalitário da Albânia – sob o qual toda propriedade
pertencia ao Estado – o país passou por uma transição caótica para a
propriedade privada de terras nos anos 1990, com algumas disputas gerando
violência.
"Desde
o início isso criou conflitos, até mesmo dentro de pequenos vilarejos, de
vilarejo em vilarejo, de casa em casa. As pessoas diziam que aquela era a terra
do pai delas e a tomavam. Isso não está certo."
Fonte:
BBC News Mundo

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