quinta-feira, 11 de junho de 2026

Número de guerras envolvendo governos é o maior desde 1945

O ano de 2025 teve 65 conflitos envolvendo ao menos um Estado ao redor do mundo, o maior número já registrado desde o fim da Segunda Guerra Mundial, segundo estudo do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo (PRIO) publicado nesta terça-feira (09/06).

"Durante décadas, as guerras civis dominaram os conflitos globais. Agora, estamos testemunhando um ressurgimento perigoso de confrontos diretos entre Estados, impulsionados por rivalidades geopolíticas, disputas de fronteiras e escaladas regionais, particularmente no Oriente Médio", alertou Siri Aas Rustad, principal autora do relatório Conflict Trends.

No total, 153 mil pessoas morreram em razão destes conflitos. Foi o quarto maior índice já registrado desde o fim da Guerra Fria, quando começou a série histórica do PRIO, tendo sido superado somente em 2024, 2022 e 2021. Os últimos cinco anos já registraram mais mortes relacionadas a combates do que as duas décadas anteriores.

A estimativa é conservadora, uma vez que não inclui mortes indiretamente provocadas por conflitos – por exemplo, pessoas que morrem depois, em decorrência de seus ferimentos – nem as vidas perdidas como resultado da falta de infraestrutura, cuidados de saúde ou insegurança alimentar.

<><> Violência cada vez mais concentrada

As altas são puxadas pelos conflitos entre Estados, que atingiram um novo pico para os últimos 80 anos, dobrando de 2024 para oito em 2025.

Entre eles, estão a guerra da Rússia contra a Ucrânia, o recrudescimento da violência entre Índia e Paquistão, o agravamento das tensões entre Afeganistão e Paquistão, os confrontos entre Tailândia e Camboja e o conflito regional em expansão envolvendo Israel, Irã, Iêmen e os Estados Unidos.

"O que aconteceu nos últimos cinco ou seis anos é que temos vários grandes conflitos ocorrendo ao mesmo tempo, e eles parecem se substituir uns aos outros. O mundo não tem nenhum intervalo”, acrescentou Rustad. "Isso é diferente do que víamos antes — esse nível continuamente alto de intensidade dos conflitos em escala global."

Trinta e cinco países estiveram envolvidos em todos os conflitos com ao menos um Estado do ano passado. Segundo o PRIO, a concentração geográfica da violência vem aumentando ao longo da última década, à medida que mais países travam diferentes conflitos simultaneamente.

Foi o caso de 19 países em 2025. Dentre eles, destaca-se Israel, que esteve envolvido nas guerras em Gaza, na Síria, no Líbano, no Irã e contra rebeldes houthis no Iêmen. Também Mianmar se envolveu em cinco conflitos, todos eles contra partes civis.

Já Moçambique, Índia, Síria, Iêmen, Afeganistão, Camarões, Mali, Nigéria e Paquistão tiveram três ou quatro conflitos concomitantes. "Essa tendência aponta para uma complexidade crescente na dinâmica dos conflitos, com mais atores envolvidos", afirma o relatório.

<><> África e Américas, epicentro de grupos armados

Enquanto a África foi o continente mais afetado por conflitos envolvendo Estados – foram 29 conflitos em 17 países –, as Américas registram dois conflitos, em Colômbia e Haiti.

No país caribenho, as mortes em combate aumentaram de 200 em 2024 para 1,2 mil em 2025, em razão do "quase colapso da autoridade estatal, um prolongado vácuo político, uma crise humanitária e uma resposta de segurança internacional atrasada," de acordo com o relatório.

Mas, no ranking de continentes mais afetados por conflitos entre grupos armados organizados – isto é, sem a presença dos Estados –, as Américas saltam para o segundo lugar. Foram 32 conflitos no ano passado, sobretudo no Brasil, na Colômbia e no México.

Já em toda a África, foram 34. Juntos, os dois continentes concentraram 91% de todos os conflitos não estatais do mundo

Quando as mortes dos conflitos envolvendo ao menos um Estado se somam àquelas provocadas pelos conflitos não estatais e aos episódios de violência contra civis – quando grupos armados ou Estados usam a força contra populações –, as mortes globais de 2025 saltam para 245 mil.

Foi o terceiro ano mais letal desde o fim da Guerra Fria, sendo apenas superado por 1994, quando houve o genocídio de Ruanda, e 2021, em meio a uma sangrenta guerra civil na Etiópia.

•        As missões de paz ainda têm futuro?

2025 não foi um bom ano para as missões internacionais de paz. De acordo com um novo relatório do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri), o número de forças internacionais mobilizadas foi o menor em aproximadamente 25 anos, embora o número total de missões tenha diminuído apenas ligeiramente.

No final de dezembro, incluindo soldados, policiais e funcionários civis, eram pouco menos de 79 mil pessoas. De acordo com o relatório, esse número caiu quase pela metade somente nos últimos dez anos. O ano de 2025 também registrou o declínio anual mais acentuado da última década, de 17%.

Existem várias razões para isso, afirmou a pesquisadora do Sipri Claudia Pfeifer Cruz, em entrevista à emissora pública alemã ARD.

"Basicamente, os Estados estão simplesmente menos dispostos a investir em missões de paz – tanto financeira quanto politicamente", destacou.

E as negociações nos órgãos que decidem sobre o envio ou a prorrogação de mandatos estão se tornando mais difíceis. Segundo Pfeifer Cruz, isso se deve principalmente ao aumento das tensões geopolíticas, especialmente desde a invasão russa da Ucrânia.

<><> ONU está ficando sem dinheiro

No Conselho de Segurança da ONU, as potências com direito de veto bloqueiam-se cada vez mais mutuamente; em organizações regionais como a União Africana, há problemas semelhantes. Um exemplo foi a exigência dos EUA pelo fim da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), apesar das repetidas violações do cessar-fogo entre Israel e o Líbano.

Além disso, organizações internacionais como as Nações Unidas estão ficando sem dinheiro – em alguns momentos de 2025, seu orçamento apresentou um déficit de mais de dois bilhões de dólares.

"A crise de liquidez da ONU também foi causada pela falta de pagamento das contribuições acordadas dos EUA para as missões de paz", explicou a pesquisadora. Para ela, esse é um problema grave, pois a contribuição dos EUA representa mais de um quarto de todo o orçamento das missões de paz.

<><> Os conflitos são deixados à própria sorte

Outros grandes países doadores, como a China, também não pagaram as contribuições acordadas ou o fizeram com atraso. Como resultado, todas as missões da ONU tiveram que reduzir suas operações e diminuir o número de funcionários.

"Isso já tem consequências", disse Pfeifer Cruz. "E se missões inteiras tiverem que ser encerradas, alguns conflitos simplesmente serão deixados para se agravar." Se isso acontecer, provavelmente haverá ainda mais conflitos – "e especialmente aqueles com consequências mais graves para a população civil."

Ela explica que os atores regionais e as operações bilaterais de paz entre Estados vizinhos não têm capacidade de substituir as missões coordenadas da ONU, nem o uso de empresas militares privadas.

"Constatamos que essas operações não são muito eficazes", enfatizou.

E o que a preocupa ainda mais são as "terríveis consequências para a população civil”. Elas carecem da estrutura das operações multilaterais de paz – "ou seja, respeito pelos direitos humanos, pelo direito internacional humanitário, e assim por diante”.

<><> "A melhor opção que temos"

Ainda assim, Pfeifer Cruz crê no futuro das missões internacionais de manutenção da paz.

"Acredito que elas continuarão, talvez em uma escala um pouco menor e de uma maneira um pouco diferente. Mas continuo convencida de que são a melhor opção que temos atualmente para a gestão de conflitos".

O Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI) publica diversos relatórios anualmente, incluindo sobre gastos militares e a indústria armamentista. A organização independente é financiada em grande parte pelo governo sueco.

Para a coleta de dados do levantamento atual, o Sipri considerou missões multilaterais de manutenção da paz, tanto aquelas com mandato da ONU quanto aquelas sem. No ano passado, 18 missões foram implantadas na África Subsaariana e 18 na Europa, 14 no Oriente Médio e Norte da África (em conjunto), cinco nas Américas e três na Ásia e Oceania. Um total de 70% das forças estavam estacionadas na África Subsaariana.

 

Fonte: DW Brasil

 

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