Paulo
Kliass: Bancos públicos, cabeça de mercado
O
processo de privatização da economia brasileira tem início na sequência da
transição democrática para superar o período da ditadura militar que se
instalou no país depois do golpe de 1º de abril de 1964. Infelizmente, aquele
que deveria ser um processo para abrir uma nova etapa de desenvolvimento social
e econômico foi marcado por um grave retrocesso em termos de política econômica
e de orientação de um novo projeto de Nação. Sob a hegemonia dos fundamentos do
neoliberalismo e dos preceitos do chamado “Consenso de Washington”, a sociedade
brasileira acabou por ser engolida por ideias e por políticas públicas voltadas
ao atendimento dos interesses do capital financeiro internacional.
Alguns
dos principais setores onde o Estado se fazia presente sob a forma de empresas
estatais foram desestruturados e entregues à iniciativa privada. Esse processo
envolveu a siderurgia, as telecomunicações, a energia elétrica, a petroquímica,
os fertilizantes, os portos, as ferrovias, o minério de ferro, os resseguros e
os bancos estaduais. Combinado a essa transferência de patrimônio e de
responsabilidade do setor público para o setor privado, tem início também uma
política rigorosa de austeridade fiscal. Apesar desse perverso processo de
redução da dimensão do Estado, alguns setores ainda permaneceram em mãos do
governo federal. Esse é o caso, entre outros, dos Correios, da cadeia do
petróleo, de empresas isoladas da geração e transmissão de energia elétrica, de
empresas localizadas de transportes e dos bancos oficiais federais.
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Bancos públicos deveriam ser públicos
Assim,
o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Banco do
Brasil (BB), a Caixa Econômica Federal (CEF), o Banco do Nordeste do Brasil
(BNB) e o Banco da Amazônia (BASA) foram retirados dos intentos privatizantes e
permaneceram sob o controle do governo federal. Na condição de agentes
financeiros públicos, essas empresas poderiam desempenhar um papel relevante
nos processos de retomada de um projeto de desenvolvimento nacional.
O BNDES
chegou a se tornar o maior banco de desenvolvimento do planeta ao longo da
década de 2010, superando inclusive a capacidade de empréstimo e financiamento
do próprio Banco Mundial em alguns exercícios naquele período. Mas, depois do
golpeachment contra Dilma Rousseff, o governo Temer optou por reduzir a
importância do banco no cenário econômico e obrigou o BNDES a devolver ao
Tesouro Nacional os recursos que havia recebido a título de capitalização para
fomentar sua capacidade de empréstimo e financiamento. A intenção era
claramente impedir o banco de atuar como financiador de programas de
desenvolvimento de médio e longo prazos com taxas de juros subsidiados.
Por
outro lado, os bancos estatais comerciais mantiveram um comportamento no
mercado bancário e financeiro de competir com os oligopólios privados do setor.
Ao invés de atuarem como bancos públicos cumprindo com sua função pública, eles
foram orientados pelas sucessivas gestões do Ministério da Fazenda a mimetizar
a banca privada, buscando alta rentabilidade e lucros extraordinários. Assim,
BB, CEF, BNB e BASA continuaram atuando como seus concorrentes privados,
cobrando spreads elevadíssimos em suas operações de crédito e empréstimo, além
da imposição junto à clientela de tarifas igualmente elevadas.
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A breve tentativa de Dilma em 2012
Houve
apenas um breve período em que os bancos estatais foram estimulados a operarem
segundo sua função pública. Em 2012, a presidenta Dilma orientou sua equipe
econômica a promover uma ação efetiva contra a cobrança de spreads extorsivos
por parte da banca. Assim, os bancos federais passaram a reduzir suas margens
de ganhos nas operações financeiras, de modo a tornar mais atrativas as opções
por novos investimentos na economia real e produtiva. Essa estratégia foi
precedida por um movimento de baixa na taxa referencial de juros. O Comitê de
Política Monetária (COPOM) havia reduzido a SELIC de 12,5% para 7,25% ao longo
de um ano e este cenário permitia a redução significativa dos custos
financeiros de maneira generalizada.
No
entanto, esse movimento foi fortemente combatido pelos representantes dos
interesses do financismo privado. A forte chantagem efetuada contra o governo
provocou um recuo de Dilma e, a partir de 2013, tudo voltou a ser como antes. A
SELIC retomou sua trajetória altista e os bancos estatais restabeleceram seu
comportamento pautado pelos concorrentes privados. Isso significou que o
governo optou por abrir mão de um importante instrumento para aliviar o peso
dos encargos financeiros no cotidiano da vida de pessoas e empresas.
A
conjuntura experimentada depois do início do terceiro mandato de Lula tampouco
foi alterada no que se refere à vontade de promover alterações na orientação da
atividade dos bancos estatais federais. Todos eles seguem desenvolvendo suas
atividades no mercado financeiro segundo as regras de conduta da banca privada.
Desta forma, permanece o cenário de SELIC na estratosfera e o governo continua
impondo a si mesmo obstáculos à redução dos spreads praticados pelo conjunto
das instituições financeiras em nosso país.
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Bancos públicos para reduzir os spreads
Enquanto
os bancos estatais federais não passarem a atuar como bancos públicos de
verdade, a realidade das taxas de juros praticadas na ponta por tomadores de
crédito não será alterada efetivamente. É verdade que tal quadro seria ainda
mais positivo se o governo orientasse o Conselho Monetário Nacional (CMN) a
adotar uma meta de inflação mais realista. Essa medida, aparentemente tão
singela, retiraria os argumentos do COPOM para manter a SELIC em níveis tão
elevados. Além disso, o movimento seria ainda mais interessante para as
atividades do setor real da economia se o BC incorporasse, ao menos uma vez,
sua missão de órgão regulador e fiscalizador do mercado bancário e financeiro,
exigindo uma redução dos spreads praticados pelas empresas sob sua supervisão.
Bancos
públicos não devem ter por meta auferir lucros bilionários em seus balancetes,
assim como fazem os seus similares da Febraban e da Faria Lima. Pelo contrário,
os bancos estatais federais devem atuar em defesa dos interesses da maioria da
população, sempre espoliada pela barbárie financista. Mas para que tal projeto
se transforme em realidade, é necessário que o governo se convença de sua
importância. Caso contrário, seguiremos reféns da sanha da banca privada.
• Política fixada e cultura global da
imagem. Por Tales Ab’Saber
Parece
evidente que o tempo é de controle estrito da vida política que importa, com a
primazia policial e jurídico/corrupta de múltiplos setores empresariais sobre a
gestão parlamentar e a fatura das leis, com avanços reais e permanentes do
grupo sobre o orçamento de Estado e legitimação ideológica geral. O controle
estrito de classes dominantes dos governos e do Estado, sem plano de nação
social, é um real político que já não pode ser negado.
Esta
efetiva tomada de posse da democracia liberal, arruinada por seus próprios
atores e donos, em um processo de voracidade total, tem grande ascendência
sobre os governos finais da centro esquerda, grupos ambíguos e desorgânicos
capturados e paralisados no mesmo quadro – governos que representam o último
biombo frágil de manutenção das conquistas sociais do passado.
No caso
do Brasil, após a gigantesca, espetacular e efetiva manipulação ética de massas
dos anos 2014 a 2018, do absoluto vale tudo contra a esquerda racional e
gerencial no poder, a penetração e a possessão do Estado pela direita
corrupta-empresarial dos últimos dez anos é um acelerador concreto da crise
social mais ampla.
No
plano da vida da política com sociedade, desde 2016 vive-se uma somatória
permanente de crises, provocada também pela voracidade dos interesses privados
– de empresários, do agro, das indústrias ou da bala, de pastores ou de
neofascistas “securitários” – que se imprime sobre a real impossibilidade e
incapacidade crítica da esquerda institucional adaptada ao jogo do Estado dos
interesses. A contribuição da esquerda ao esgarçamento da vida é sua
impossibilidade de formular e de sustentar socialmente alguma diferença
significativa a favor dos pobres no Brasil, que ultrapasse a manutenção do
Estado geral de exploração e desagregação.
Se, em
termos de política social de fundo, política de opinião pública e de Estado, se
insiste de forma redundante que temos 81,2 milhões de pobres endividados e
inadimplentes no Brasil, além dos cronicamente desempregados e todos os
precarizados, é porque os critérios políticos existentes foram deslocados para
a percepção da cidadania como estrito acesso ao consumo, e não outra estrutura
de direitos políticos e de vida digna.
Como
observado anteriormente, este amplo processo biopolítico brasileiro, que
subsumiu direitos e imaginação política aos mercados – os do mundo da vida
local e os da imagem mundial – se produziu continuamente e desde o primeiro
período lulo-petista, o de 2003 a 2010. Hoje, com a explosão técnica dos
dispositivos de cultura e ideologia conformadas diretamente ao desejo
individual, o grande movimento conservador geral do que dissocia chegou ao seu
paroxismo máximo.
A
situação, em que pesa a tomada de choque totalizante da política por
modalidades atuais de interesses do capital, tem reduzido as ações populares
pela vida à fragmentação generalizada, ao ressentimento político
individualizado e difuso e à autoalienação defensiva e programática, em busca
de alguma segurança particular qualquer.
É a
vigência regressiva do grupo e do indivíduo em um mundo político, até segunda
ordem, perdido para a força geral do trabalho. A precarização real da vida do
trabalho, liquidação de garantias e de direitos, a evidente derrota política
universal dos pobres, se confirma na precarização interessada e produtiva da
consciência coletiva.
O
processo da perda de acesso ao Estado dominado mergulhou a vida política nas
intensidades imediatas das identificações grupais, que tendem à fragmentação
narcísica das pequenas diferenças, simultaneamente articuladas à gestão
imediata da vida pela cultura total da imagem, que move tantos dos seus
agentes. A política real travada dos senhores da vida alheia, do Estado, se
multiplica como biopolítica do mesmo mundo, ordenando as consciências para o
desejo de mercado e de imagens mercadorias em lugar de formas de justiça social
e igualdade material mais amplas.
Cidadania
como acesso ao consumo, resultando em cidadãos barrados agora por dívidas, e
não como direito de luta política pela vida, é uma ordenação duplicada e
confirmada na ocupação da cultura pelos mecanismos técnicos de multiplicação
infinita da imagem. Tais mecanismos só fazem afirmar o estatuto mundial da
mercadoria, como ela deseja ser. Isto se dá tanto na vida popular quanto na das
elites, que, por essa perspectiva, tem esse único ponto das coisas em comum.
A
cultura política da técnica cotidiana funciona pela fragmentação ativa da
realidade, pela multiplicação dos fragmentos fílmicos, gotas de excitação e
graça em um mundo aplainado. Esta é a verdadeira terra plana, a da cultura. O
mundo está unificado no psiquismo plano para o plano infinito da imagem
circulando e repetindo, bolhas de baixa intensidade, cujo sentido é manter o
espectador exatamente aí.
Pode-se
passar horas do dia do trabalho podre sobre esse regime superficial da imagem
que, de forma homóloga ao Capital contabilizando ganhos, acontece apenas entre
o presente e o futuro próximo e imediato. O imediato é a natureza produtiva da
cultura industrial globalmente unificada.
Não há
memória utilizada ou registrada no fim do dia da presença mundial das imagens
infinitas ocupantes da vida. Também não é possível nenhum espaço social
concreto para qualquer coisa assemelhada à velha fruição do tempo de algum
livro, daqueles narradores de todas as épocas, de Walter Benjamin, de histórias
e de filosofias. Não há sujeito de compromisso com nenhum dado do passado. Tudo
que é sólido desmancha no ar de modo matematicamente elevado: só o gozo agora e
por vir em seguida, de fato existem.
Essa
multiplicação unificada do eu no nada da imagem infinita, sujeito aplainado da
terra plana da imagerie mundial, permite que a ideia da realidade, de sua
estrutura imaginária mais profunda e minimamente permanente, seja constituída
como sistema delirante, deslocado de qualquer evidência histórica.
Enquanto
se vive na excitação interessada – duplo do sistema mundial dos mercados, da
experiência que tudo está à venda – que ocupa de fato todo o tempo disponível
da vida, se entende história e política como um fato ficcional qualquer, como
funciona todo o resto no circuito infinito das imagens.
Sem
lastro com nenhum passado, sem compromisso com a história e a consciência da
própria opressão, os precarizados totais deste mundo podem responder à política
com uma estrutura paranoica arcaica, resto básico do humano – projeção do
ataque e da agressividade, posição esquizo-paranoide, diziam os psicanalistas
Freud, Melanie Klein e Wilfred Bion – de forma a ficcionalizar o sentido como
projeção e incorporar a própria excitação como política.
Os
neofascistas, que dominam as suas redes de massa de propaganda fascista na
internet, trabalham com essa política: da superfície do agora sem passado, do
excesso de gozo ficcional, na chave do sadismo primitivo como realidade sem
história.
Se a
vida unificada na política do comum e do compromisso, história e consciência de
classes, foi anulada na vida técnica do “produssumo” universal da nova
barbárie, os milhões de filmes diários de segundos, ocupando a performance da
vida do Tik tok mundial, que se renovam a cada minuto; o cinema das massas é
esta história do vínculo fragmentado com a consciência mundial, que integra a
todos nessa prática.
Esvaziamento
da dimensão histórica da consciência política, vida no aqui e agora plano da
próxima imagem, fragmentação da unidade da experiência pelo múltiplo espetáculo
de baixa intensidade, total, e integração mundial de hiper-massas, que tudo que
sabem é que todos os demais vivem da mesma forma. São as condições culturais
técnicas de fundo e de base de todo neofascismo, a ficção política paranoica e
violenta que pode se articular, de forma imanente, ao regime universal da
superfície multiplicada e rápida da imagem.
Fonte:
Outras Palavras/A Terra é Redonda

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