Copa
do Mundo e a influência das bets no mercado nacional
Apostar
dinheiro em jogos de azar muitas vezes pode ser um caminho sem volta. Com a era
tecnológica, os cassinos inspirados em Las Vegas deixaram de ser ilícitos e
dominaram as propagandas ofertadas no horário nobre televisivo, em sites e nas
redes sociais. Atualmente, é comum ver um parente viciado no
"Tigrinho" ou um amigo que se frustra quando perde, mas continua
jogando para alimentar sua sede de apostas — e no fim vê seu dinheiro ser
engolido pelo tigre. O vício nesses jogos pode causar danos financeiros
irreversíveis, sendo causas de endividamento e depressão.
Segundo
dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC),
de janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência do consumidor causada pelas
bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. As casas de apostas têm
aumentado as desigualdades sociais ao sugar muito dinheiro de seus apostadores,
algo que impossibilita inclusive a compra de insumos básicos em muitas
famílias. A influência dessas bets no futebol, diante de uma Copa do Mundo, é
uma consequência que pode aumentar esse consumo excessivo de apostas, afundando
torcedores em dívidas muito maiores.
Em
entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU via e-mail, o sociólogo
Marcelo Pereira de Mello afirma que durante a Copa do Mundo, mediante a
fomentação de jogadores e influenciadores, os efeitos "serão os piores em
termos dos exemplos que esses meios disseminam entre os jovens. Influencers são
mobilizados para a publicidade porque se conectam com eles na linguagem das
redes sociais. Não são movidos por ideais de educação ou urbanidade. Querem
ganhar dinheiro, assumem isso explicitamente, e vendem a ilusão de que todos
poderão ganhar também se seguirem seus conselhos".
Além
disso, Mello comenta que "o governo ficou seduzido pelas possibilidades
arrecadatórias das bets e se juntou ao lobby das empresas de apostas e aos
partidos e políticos do 'centrão' para aprovarem uma legislação bem flexível e
liberal para as apostas. Vale tudo no universo das bets, no Brasil".
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Confira a entrevista.
• Como o governo explica a permissão para
que casas de apostas patrocinem jogadores em grandes eventos esportivos, como
copas do mundo?
Marcelo
Pereira de Mello – Não creio que o governo esteja preocupado em dar explicações
deste tipo. A Copa do Mundo é um evento privado e a CBF é uma instituição
privada também. O governo ficou seduzido pelas possibilidades arrecadatórias
das bets e se juntou ao lobby das empresas de apostas e aos partidos e
políticos do "centrão" para aprovarem uma legislação bem flexível e
liberal para as apostas. Vale tudo no universo das bets, no Brasil.
Quem,
na realidade, deve legislar sobre as apostas, proibir ou permitir é o
Congresso. Não acredito que esse Congresso negocial que temos hoje, dominado
pela centro-direita, por um lado, e um governo em busca de financiamento para
suas despesas, por outro, vão querer alterar isso.
• De que forma este tipo de ação em uma
Copa do Mundo fomenta o consumo dessas bets, impulsionando o vício das pessoas?
Marcelo
Pereira de Mello – É fácil prever os efeitos da mistura explosiva dos seguintes
ingredientes no Brasil: futebol, falta de educação escolar e financeira,
legislação permissiva e propaganda massiva. Saldo previsto: endividamento das
famílias, restrição de consumo por endividamento, violência familiar. É
conhecida a paixão do brasileiro pelo futebol e a sua convicção pessoal de que
conhece tecnicamente o futebol. Neste pacote, a aposta é encarada como
investimento seguro. Vai dar ruim.
• Se as bets são os "cassinos"
da modernidade, por que esses tipos de apostas não são proibidas?
Marcelo
Pereira de Mello – Ao fim e ao cabo, a legalização das bets foi resultado de um
intenso lobby que reuniu os políticos corruptos de sempre do chamado
"centrão" e da direita. Basta recuperar pela imprensa as viagens de
deputados patrocinadas por empresários das apostas e até comissões de
representantes políticos brasileiros em viagens patrocinadas à cidade de Las
Vegas e outros centros de apostas na Europa, especialmente na Espanha. O
governo e os partidos que lhes dão suporte viram na legalização mais uma
possibilidade de arrecadação. Os evangélicos encenaram alguma reação, mas não
brigaram muito, afinal, eles estão nos partidos do "centrão", que
lideraram os esforços da legalização. Os representantes do agro e a bancada da
bala também aderiram. Não houve discussões com a sociedade. Inclusive, não
queriam isso por causa da histórica desconfiança dos brasileiros com a
jogatina.
• Como as casas de apostas se tornaram
patrocinadoras dominantes do futebol em tão pouco tempo?
Marcelo
Pereira de Mello – Quando se tem o Congresso nas mãos, no Brasil, tudo é
possível. Para as empresas de apostas o investimento em futebol é estratégia
vital para o marketing do negócio. Como diz a máxima, a propaganda é a alma do
negócio. No Brasil, o negócio das bets está diretamente associado ao futebol. O
patrocínio de jogadores e clubes é parte do negócio.
• Qual é o impacto da presença massiva das
bets no futebol sobre crianças e adolescentes que acompanham o esporte?
Marcelo
Pereira de Mello – Estamos criando condições para o incremento do vício e da
dependência desses jovens na idade adulta. Até pouco atrás, a verificação da
idade do apostador não era nem sequer relevante para apostar nas plataformas, e
continua não sendo. Não há restrições à publicidade das bets na televisão,
jornais e revistas, que bombardeiam os jovens de manhã, à tarde e à noite,
misturando a imagem dos seus ídolos e dos seus clubes esportivos à prática de
apostas. É urgente proibir a livre publicidade das bets, como já fizemos com
cigarros e bebidas. Os riscos são os mesmos.
• Como a divulgação de bets por
influencers e jogadores influencia o comportamento dos torcedores e jovens em
meio a uma Copa do Mundo?
Marcelo
Pereira de Mello – Previsivelmente, os efeitos serão os piores em termos dos
exemplos que esses meios disseminam entre os jovens. Influencers são
mobilizados para a publicidade porque se conectam com eles na linguagem das
redes sociais. Não são movidos por ideais de educação ou urbanidade. Querem
ganhar dinheiro, assumem isso explicitamente, e vendem a ilusão de que todos
poderão ganhar também se seguirem seus conselhos. Estamos preparando toda uma
geração de adultos endividados e vulneráveis, social e psicologicamente.
Tragédia anunciada.
• Quais os impactos sociais do crescimento
das apostas online no Brasil?
Marcelo
Pereira de Mello – Os impactos já estão aí, visíveis. Associações do comércio
varejista, como a Confederação Nacional do Comércio (CNC), já identificaram a
queda do consumo de bens duráveis em função da perda de capacidade de compra
por causa do dinheiro desviado para as apostas. O endividamento das famílias
aumentou exponencialmente, segundo o Banco Central, após a legalização das
apostas. Problemas pessoais e familiares se tornam problemas da sociedade com o
incremento da violência e das ações desesperadas provocadas pelo endividamento
de apostadores que deixam de honrar seus compromissos.
• O futebol brasileiro conseguiria manter
o mesmo nível financeiro sem o dinheiro das bets?
Marcelo
Pereira de Mello – Provavelmente, não. Mas o cálculo político e social a ser
feito é se queremos times fortes, com jogadores e empresários milionários, ou
se preferimos uma sociedade livre do vício e da dependência das apostas por um
número não desprezível de pessoas.
• Como esse tipo de publicidade fomenta a
desigualdade social, tendo em vista que muita gente perde muito dinheiro,
inclusive parte do seu patrimônio para essas casas de apostas?
Marcelo
Pereira de Mello – Esse ponto é muito importante. Os empresários das apostas
alardeiam que os seus negócios geram empregos e, já que todos jogam na
ilegalidade, é melhor legalizar as apostas, arrecadar impostos e gerar renda.
Mentira. Os jogos eletrônicos e digitais podem ser controlados de qualquer
parte do mundo por meia dúzia de pessoas. Com a Inteligência Artificial,
dispensam trabalhadores.
Também
introduzem um efeito perverso na economia: pegam o dinheiro miúdo e as
economias de milhões de apostadores e as concentram nas mãos destes
empresários. A falta de dinheiro nas famílias reduz o consumo de bens duráveis
e até da alimentação. Deprecia e distorce, assim, os fluxos regulares da
produção e do comércio ao concentrar a renda nas mãos de poucos.
• É possível mudar essa situação e banir
as bets do país e do esporte?
Marcelo
Pereira de Mello – Sim. Sempre se pode mudar. As eleições estão chegando e os
eleitores deveriam estar atentos aos políticos de sua região: o que pensam
sobre a exploração comercial dos jogos de apostas? Numa democracia, como a que
vivemos, a política é fundamental para as mudanças.
• A Copa do Mundo de Trump já foi um
fracasso: preços altos, torcedores preferem Canadá e México aos EUA. Por
Massimo Basile
A Copa
do Mundo está começando, mas já sabemos quem perdeu: os Estados Unidos. As
reservas de hotéis no Canadá e no México estão superando as de quase todas as
cidades americanas. Torcedores do mundo todo estão relutantes em viajar para os
EUA, temendo os custos, as restrições de visto impostas pelo governo e a
mensagem geral do país, que passou a ser percebida como hostil a estrangeiros
desde que Donald Trump retornou à Casa Branca.
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As cidades mais populares
Vancouver,
no Canadá, e Guadalajara, no México, registraram taxas de ocupação hoteleira de
48%, segundo o site CoStar, que monitora o turismo online e analisou as
tendências nas dezesseis cidades-sede da Copa do Mundo. Toronto, Cidade do
México e Monterrey também ultrapassaram os 40%. São Francisco foi a única
cidade a manter uma taxa estável, com 44% dos quartos reservados. Os custos
também desempenharam um papel importante, de acordo com a pesquisa, sendo mais
acessíveis no México e no Canadá do que nas cidades americanas. Este é um fator
relevante, considerando que os ingressos para os jogos atingiram preços
exorbitantes: milhares de dólares são necessários para assentos fora da
primeira fila, enquanto ingressos para a final estão sendo revendidos online
por mais de US$ 20.000.
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Os motivos do fracasso
A
tendência decepcionante nos hotéis americanos representa um duro golpe para a
economia dos Estados Unidos, depois que Trump, em dezembro, previu para o país
um "sucesso sem precedentes na história da Copa do Mundo". Cidades
americanas investiram milhões de dólares para se apresentarem da melhor forma
possível. Mas, no fim, muitos turistas optaram pelos dois países vizinhos. Isso
se deve também ao fato de que, no México, é possível gastar US$ 100 por noite,
enquanto em Kansas City, Boston e Miami, são necessários pelo menos US$ 300. Em
Toronto, que sediará seis jogos, o estádio da Copa do Mundo está localizado no
centro da cidade e é facilmente acessível a partir dos hotéis. Em Nova York, no
entanto, onde serão disputadas oito partidas da primeira fase e a final, a
situação se mostra bem mais complicada: para chegar ao MetLife Stadium, em Nova
Jersey, um estádio monumental construído em uma área remota, é preciso recorrer
aos ônibus, cujos preços foram reduzidos, mas que inicialmente chegavam a US$
150.
As
vagas para os traslados já estão esgotadas. E, de qualquer forma, seja de
traslado ou ônibus, a viagem é lenta e caótica. No dia do jogo, percorrer os 30
quilômetros do Terminal Rodoviário Port Authority, em Manhattan, até o MetLife
Stadium pode levar até duas horas. Esse foi o tempo que os ônibus levaram no
ano passado para a final do Mundial de Clubes, realizada no estádio de Nova
Jersey. Os custos em Nova York também dispararam: um quarto de hotel pode
custar de US$ 400 a US$ 500. Portanto, não é surpresa que a porcentagem de
quartos reservados tenha caído para menos de 40%. No fim das contas, entre a
possibilidade de ser enganado e o risco de ser parado no aeroporto, muitos
decidiram que a Copa do Mundo pode ser assistida em frente à TV, talvez na praia
com uma cerveja gelada na mão, mas não nos Estados Unidos.
Fonte:
Entrevista com Marcelo Pereira de Mello, para IHU/La Repubblica

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