quinta-feira, 11 de junho de 2026

Copa do Mundo e a influência das bets no mercado nacional

Apostar dinheiro em jogos de azar muitas vezes pode ser um caminho sem volta. Com a era tecnológica, os cassinos inspirados em Las Vegas deixaram de ser ilícitos e dominaram as propagandas ofertadas no horário nobre televisivo, em sites e nas redes sociais. Atualmente, é comum ver um parente viciado no "Tigrinho" ou um amigo que se frustra quando perde, mas continua jogando para alimentar sua sede de apostas — e no fim vê seu dinheiro ser engolido pelo tigre. O vício nesses jogos pode causar danos financeiros irreversíveis, sendo causas de endividamento e depressão.

Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), de janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência do consumidor causada pelas bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. As casas de apostas têm aumentado as desigualdades sociais ao sugar muito dinheiro de seus apostadores, algo que impossibilita inclusive a compra de insumos básicos em muitas famílias. A influência dessas bets no futebol, diante de uma Copa do Mundo, é uma consequência que pode aumentar esse consumo excessivo de apostas, afundando torcedores em dívidas muito maiores.

Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU via e-mail, o sociólogo Marcelo Pereira de Mello afirma que durante a Copa do Mundo, mediante a fomentação de jogadores e influenciadores, os efeitos "serão os piores em termos dos exemplos que esses meios disseminam entre os jovens. Influencers são mobilizados para a publicidade porque se conectam com eles na linguagem das redes sociais. Não são movidos por ideais de educação ou urbanidade. Querem ganhar dinheiro, assumem isso explicitamente, e vendem a ilusão de que todos poderão ganhar também se seguirem seus conselhos".

Além disso, Mello comenta que "o governo ficou seduzido pelas possibilidades arrecadatórias das bets e se juntou ao lobby das empresas de apostas e aos partidos e políticos do 'centrão' para aprovarem uma legislação bem flexível e liberal para as apostas. Vale tudo no universo das bets, no Brasil".

>>>> Confira a entrevista.

•        Como o governo explica a permissão para que casas de apostas patrocinem jogadores em grandes eventos esportivos, como copas do mundo?

Marcelo Pereira de Mello – Não creio que o governo esteja preocupado em dar explicações deste tipo. A Copa do Mundo é um evento privado e a CBF é uma instituição privada também. O governo ficou seduzido pelas possibilidades arrecadatórias das bets e se juntou ao lobby das empresas de apostas e aos partidos e políticos do "centrão" para aprovarem uma legislação bem flexível e liberal para as apostas. Vale tudo no universo das bets, no Brasil.

Quem, na realidade, deve legislar sobre as apostas, proibir ou permitir é o Congresso. Não acredito que esse Congresso negocial que temos hoje, dominado pela centro-direita, por um lado, e um governo em busca de financiamento para suas despesas, por outro, vão querer alterar isso.

•        De que forma este tipo de ação em uma Copa do Mundo fomenta o consumo dessas bets, impulsionando o vício das pessoas?

Marcelo Pereira de Mello – É fácil prever os efeitos da mistura explosiva dos seguintes ingredientes no Brasil: futebol, falta de educação escolar e financeira, legislação permissiva e propaganda massiva. Saldo previsto: endividamento das famílias, restrição de consumo por endividamento, violência familiar. É conhecida a paixão do brasileiro pelo futebol e a sua convicção pessoal de que conhece tecnicamente o futebol. Neste pacote, a aposta é encarada como investimento seguro. Vai dar ruim.

•        Se as bets são os "cassinos" da modernidade, por que esses tipos de apostas não são proibidas?

Marcelo Pereira de Mello – Ao fim e ao cabo, a legalização das bets foi resultado de um intenso lobby que reuniu os políticos corruptos de sempre do chamado "centrão" e da direita. Basta recuperar pela imprensa as viagens de deputados patrocinadas por empresários das apostas e até comissões de representantes políticos brasileiros em viagens patrocinadas à cidade de Las Vegas e outros centros de apostas na Europa, especialmente na Espanha. O governo e os partidos que lhes dão suporte viram na legalização mais uma possibilidade de arrecadação. Os evangélicos encenaram alguma reação, mas não brigaram muito, afinal, eles estão nos partidos do "centrão", que lideraram os esforços da legalização. Os representantes do agro e a bancada da bala também aderiram. Não houve discussões com a sociedade. Inclusive, não queriam isso por causa da histórica desconfiança dos brasileiros com a jogatina.

•        Como as casas de apostas se tornaram patrocinadoras dominantes do futebol em tão pouco tempo?

Marcelo Pereira de Mello – Quando se tem o Congresso nas mãos, no Brasil, tudo é possível. Para as empresas de apostas o investimento em futebol é estratégia vital para o marketing do negócio. Como diz a máxima, a propaganda é a alma do negócio. No Brasil, o negócio das bets está diretamente associado ao futebol. O patrocínio de jogadores e clubes é parte do negócio.

•        Qual é o impacto da presença massiva das bets no futebol sobre crianças e adolescentes que acompanham o esporte?

Marcelo Pereira de Mello – Estamos criando condições para o incremento do vício e da dependência desses jovens na idade adulta. Até pouco atrás, a verificação da idade do apostador não era nem sequer relevante para apostar nas plataformas, e continua não sendo. Não há restrições à publicidade das bets na televisão, jornais e revistas, que bombardeiam os jovens de manhã, à tarde e à noite, misturando a imagem dos seus ídolos e dos seus clubes esportivos à prática de apostas. É urgente proibir a livre publicidade das bets, como já fizemos com cigarros e bebidas. Os riscos são os mesmos.

•        Como a divulgação de bets por influencers e jogadores influencia o comportamento dos torcedores e jovens em meio a uma Copa do Mundo?

Marcelo Pereira de Mello – Previsivelmente, os efeitos serão os piores em termos dos exemplos que esses meios disseminam entre os jovens. Influencers são mobilizados para a publicidade porque se conectam com eles na linguagem das redes sociais. Não são movidos por ideais de educação ou urbanidade. Querem ganhar dinheiro, assumem isso explicitamente, e vendem a ilusão de que todos poderão ganhar também se seguirem seus conselhos. Estamos preparando toda uma geração de adultos endividados e vulneráveis, social e psicologicamente. Tragédia anunciada.

•        Quais os impactos sociais do crescimento das apostas online no Brasil?

Marcelo Pereira de Mello – Os impactos já estão aí, visíveis. Associações do comércio varejista, como a Confederação Nacional do Comércio (CNC), já identificaram a queda do consumo de bens duráveis em função da perda de capacidade de compra por causa do dinheiro desviado para as apostas. O endividamento das famílias aumentou exponencialmente, segundo o Banco Central, após a legalização das apostas. Problemas pessoais e familiares se tornam problemas da sociedade com o incremento da violência e das ações desesperadas provocadas pelo endividamento de apostadores que deixam de honrar seus compromissos.

•        O futebol brasileiro conseguiria manter o mesmo nível financeiro sem o dinheiro das bets?

Marcelo Pereira de Mello – Provavelmente, não. Mas o cálculo político e social a ser feito é se queremos times fortes, com jogadores e empresários milionários, ou se preferimos uma sociedade livre do vício e da dependência das apostas por um número não desprezível de pessoas.

•        Como esse tipo de publicidade fomenta a desigualdade social, tendo em vista que muita gente perde muito dinheiro, inclusive parte do seu patrimônio para essas casas de apostas?

Marcelo Pereira de Mello – Esse ponto é muito importante. Os empresários das apostas alardeiam que os seus negócios geram empregos e, já que todos jogam na ilegalidade, é melhor legalizar as apostas, arrecadar impostos e gerar renda. Mentira. Os jogos eletrônicos e digitais podem ser controlados de qualquer parte do mundo por meia dúzia de pessoas. Com a Inteligência Artificial, dispensam trabalhadores.

Também introduzem um efeito perverso na economia: pegam o dinheiro miúdo e as economias de milhões de apostadores e as concentram nas mãos destes empresários. A falta de dinheiro nas famílias reduz o consumo de bens duráveis e até da alimentação. Deprecia e distorce, assim, os fluxos regulares da produção e do comércio ao concentrar a renda nas mãos de poucos.

•        É possível mudar essa situação e banir as bets do país e do esporte?

Marcelo Pereira de Mello – Sim. Sempre se pode mudar. As eleições estão chegando e os eleitores deveriam estar atentos aos políticos de sua região: o que pensam sobre a exploração comercial dos jogos de apostas? Numa democracia, como a que vivemos, a política é fundamental para as mudanças.

•        A Copa do Mundo de Trump já foi um fracasso: preços altos, torcedores preferem Canadá e México aos EUA. Por Massimo Basile

A Copa do Mundo está começando, mas já sabemos quem perdeu: os Estados Unidos. As reservas de hotéis no Canadá e no México estão superando as de quase todas as cidades americanas. Torcedores do mundo todo estão relutantes em viajar para os EUA, temendo os custos, as restrições de visto impostas pelo governo e a mensagem geral do país, que passou a ser percebida como hostil a estrangeiros desde que Donald Trump retornou à Casa Branca.

<><> As cidades mais populares

Vancouver, no Canadá, e Guadalajara, no México, registraram taxas de ocupação hoteleira de 48%, segundo o site CoStar, que monitora o turismo online e analisou as tendências nas dezesseis cidades-sede da Copa do Mundo. Toronto, Cidade do México e Monterrey também ultrapassaram os 40%. São Francisco foi a única cidade a manter uma taxa estável, com 44% dos quartos reservados. Os custos também desempenharam um papel importante, de acordo com a pesquisa, sendo mais acessíveis no México e no Canadá do que nas cidades americanas. Este é um fator relevante, considerando que os ingressos para os jogos atingiram preços exorbitantes: milhares de dólares são necessários para assentos fora da primeira fila, enquanto ingressos para a final estão sendo revendidos online por mais de US$ 20.000.

<><> Os motivos do fracasso

A tendência decepcionante nos hotéis americanos representa um duro golpe para a economia dos Estados Unidos, depois que Trump, em dezembro, previu para o país um "sucesso sem precedentes na história da Copa do Mundo". Cidades americanas investiram milhões de dólares para se apresentarem da melhor forma possível. Mas, no fim, muitos turistas optaram pelos dois países vizinhos. Isso se deve também ao fato de que, no México, é possível gastar US$ 100 por noite, enquanto em Kansas City, Boston e Miami, são necessários pelo menos US$ 300. Em Toronto, que sediará seis jogos, o estádio da Copa do Mundo está localizado no centro da cidade e é facilmente acessível a partir dos hotéis. Em Nova York, no entanto, onde serão disputadas oito partidas da primeira fase e a final, a situação se mostra bem mais complicada: para chegar ao MetLife Stadium, em Nova Jersey, um estádio monumental construído em uma área remota, é preciso recorrer aos ônibus, cujos preços foram reduzidos, mas que inicialmente chegavam a US$ 150.

As vagas para os traslados já estão esgotadas. E, de qualquer forma, seja de traslado ou ônibus, a viagem é lenta e caótica. No dia do jogo, percorrer os 30 quilômetros do Terminal Rodoviário Port Authority, em Manhattan, até o MetLife Stadium pode levar até duas horas. Esse foi o tempo que os ônibus levaram no ano passado para a final do Mundial de Clubes, realizada no estádio de Nova Jersey. Os custos em Nova York também dispararam: um quarto de hotel pode custar de US$ 400 a US$ 500. Portanto, não é surpresa que a porcentagem de quartos reservados tenha caído para menos de 40%. No fim das contas, entre a possibilidade de ser enganado e o risco de ser parado no aeroporto, muitos decidiram que a Copa do Mundo pode ser assistida em frente à TV, talvez na praia com uma cerveja gelada na mão, mas não nos Estados Unidos.

 

Fonte: Entrevista com Marcelo Pereira de Mello, para IHU/La Repubblica

 

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