Guerras,
torcidas e monopólios da mídia
Faltando
pouco para o início da Copa do Mundo FIFA 2026, as expectativas da torcida
brasileira só aumentam. Se a confiança no título não anda lá essas coisas, de
modo que poucas ruas foram enfeitadas e a vergonha do fatídico 7 a 1, assim
como as recentes eliminações, ainda rondam o imaginário popular, o orgulho de
ser o único país pentacampeão faz a seleção canarinha ser respeitada em
qualquer lugar do planeta.
Nos
bastidores do torneio, muitas “bolas” já rolaram. No aspecto geopolítico, a
edição representa a reconfiguração do futebol mundial sob a hegemonia
norte-americana, em meio a diversas guerras e crises diplomáticas orquestradas
por Donald Trump. No âmbito esportivo, há mudanças no formato da competição,
nas regras das partidas, nas orientações aos árbitros, no uso de novas
tecnologias e na atuação do VAR. Fora das quatro linhas, outras questões se
impõem.
A fim
de contribuir com o debate, a equipe do Observatório das Transmissões de
Futebóis estará atenta às movimentações da mídia nesse período. Onde assistir e
como anda a disputa pelos direitos de imagem no Brasil? Quais países
acompanharão os jogos? Qual é a expectativa financeira da FIFA? São algumas das
perguntas que buscaremos responder.
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Novas regras e formatos da Copa do Mundo de 2026
Antes
de analisar as transmissões da competição, vale destacar algumas mudanças em
relação às edições anteriores. Em 2026, a Copa do Mundo será disputada, pela
primeira vez, em três países: Canadá, Estados Unidos e México. Também de forma
pioneira, 48 seleções disputarão o torneio, que volta ao período regular: o
final da temporada europeia. O número de grupos aumentou de oito para doze,
porém o formato da classificação (duas seleções por grupo) se mantém, havendo
uma inédita fase de 16 avos de final.
As
vagas das eliminatórias continentais foram definidas da seguinte forma: Europa
(16), África (9), Ásia (8), América do Sul (6), América do Norte, Central e
Caribe (6) e Oceania (1). Ao fim dessa etapa, algumas seleções disputaram
repescagens, uma nova chance de classificação em disputas diretas
(mata-a-mata). Todo esse ciclo foi um pouco mais curto que o habitual, por
conta da mudança de data na realização da Copa do Qatar no final de 2022,
deixando para a posterior um semestre a menos.
Além da
diferença no calendário e no formato, o futebol e a política andaram lado a
lado. Não foram poucos os momentos em que os diversos conflitos internacionais
ameaçaram a sua realização. As dúvidas e exigências sobre a participação do
Irã, atacado pelos EUA no início de 2026, se tornaram um exemplo marcante desse
processo.
Outrossim,
a exclusão da Rússia de competições promovidas pela FIFA e UEFA, incluindo a
Copa do Mundo, por conta da invasão à Ucrânia, suscitou comparações sobre a
legitimidade dos estadunidenses em sediar o mundial. A aproximação de Trump com
o presidente da FIFA, o suiço Gianni Infantino, apaziguou as tensões, gerando
inclusive um momento constrangedor na entrega ao presidente americano do
“Prêmio da Paz – O Futebol Une o Mundo”, durante o sorteio dos grupos.
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As transmissões da Copa do Mundo FIFA no Brasil
Segundo
dados da organização MindMiners, estima-se que 83% da população brasileira
acompanhe a Copa de 2026, o que significa aproximadamente 175 milhões de
telespectadores. O levantamento mostrou que uma parte da população (40%)
acompanha o mundial de seleções mais do que qualquer competição, sendo que 20%
assistem apenas a esse evento esportivo. É inegável o poder de movimentação do
mercado midiático e das paixões da torcida nesse período.
A Copa
envolve um ritual que passou a fazer parte da cultura popular deste que é o
verdadeiro país do futebol. Ainda segundo a pesquisa supracitada, a maioria dos
brasileiros (57%) prefere acompanhar os jogos com amigos ou familiares. Outra
parte pretende assisti-los em bares/restaurantes (22%) ou sozinhos (37%). Em
relação ao acesso, a TV aberta permanece como prioridade para 77% dos
torcedores. Junto aos canais de TV por assinatura, a televisão (87%) é o
veículo com maior audiência. Na sequência, aparecem canais de streaming,
preferência dos mais jovens e acessados por meio do celular, utilizado como
segunda tela (45%) para exibição dos jogos.
No
Brasil, o Mundial terá transmissões mais pulverizadas, seguindo a tendência dos
últimos anos: o público poderá acompanhar as partidas via TV aberta, na Globo e
no SBT; via TV fechada, com o SporTV e a NSports; e via streaming, no YouTube e
na Amazon Prime Video. Em um contexto de convergência tecnológica e intensa
disputa pelos direitos de imagem, a GETV, canal da Globo no Youtube, terá um
espaço específico na Globoplay, plataforma própria do grupo; no caso da
CazéTV/LiveMode, a hospedagem será feita no YouTube, na Amazon Prime Video e em
canais fast dos aparelhos de televisão.
As
exibições da Copa envolvem ainda disputas comerciais, patrocínios, programações
especiais, contratações de narradores e comentaristas, entre outras variáveis
que influenciam o produto final que chega às telas. Somente Globo e Cazé TV,
que são as principais detentoras dos direitos de imagem da Copa de 2026,
esperam arrecadar cerca de 2 bilhões de reais cada, principalmente com
publicidade.
Será o
primeiro mundial de seleções masculino em que o Grupo Globo não transmitirá
todas as partidas, restrito a 55 dos 104 confrontos. Além disso, a “voz do
Brasil”, Galvão Bueno, migrou para o SBT e a NSports, que transmitirão em
conjunto 32 jogos. Apenas a CazéTV poderá exibir, via YouTube e Amazon Prime
Video, todas as 104 partidas da competição.
Esses
elementos inéditos provocam alterações no histórico domínio da Globo, com seu
acervo que deriva de 1982 – primeira edição exibida com exclusividade pelo
conglomerado de mídia da família Marinho. Não à toa o grupo passou a apostar na
transmissão sem delay, via sinal de TV digital, como marketing institucional,
semanas antes da Copa. Há uma disputa narrativa, que também é política e
econômica, em relação às exibições por plataformas digitais, como a CazéTV,
cujo sinal de internet em geral chega com atraso. Diante da plataformização e
pulverização das transmissões, a Globo busca retomar as vantagens do modelo que
garantiu o monopólio do futebol ao longo de décadas: a radiodifusão.
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As exibições do mundial de seleções pelo mundo
A Copa
do Mundo de 2026 passa por uma mudança de estratégia comercial da FIFA ao
abandonar a exclusividade dos direitos de transmissão. Até o mês de abril, os
acordos chegaram a 179 países, um pouco distante da meta de 225 países
alcançada no Catar, em 2022, a partir da diversificação da exibição entre TV
aberta, por assinatura e plataformas digitais.
Aqui
vale um adendo: apesar de mudar o jeito que vende os direitos de imagem,
ampliando o público global, a FIFA enfrenta barreiras para negociar em alguns
países relevantes, como é o caso de China e Índia, onde vivem cerca de 35% da
população mundial. Apesar dos torcedores locais possuírem interesse no futebol
mundial, suas seleções não se classificaram e os horários das partidas não
favorecem o acompanhamento dos jogos.
Esse
problema não se restringe a chineses ou indianos, mas também a paquistaneses e
tailandeses. Ambos vivem o mesmo cenário: os direitos foram oferecidos, mas os
contratos ficaram travados pela ausência de acordos comerciais com
confederações locais e transmissoras, o que levou a FIFA a aceitar um corte de
quase 80% no seu pedido inicial para que o torneio fosse exibido em território
chinês.
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Parcerias, concorrências e outros dilemas das transmissões
Mesmo
com diversos impasses políticos e comerciais, a SportsValue estima que o
mundial de 2026 renderá o maior faturamento da história da FIFA, ultrapassando
a marca dos 10 bilhões de dólares. Além de transmissores e patrocinadores, a
entidade máxima do futebol conta com muitos parceiros para a realização do
evento. Aramco, Adidas, Coca-Cola, Hyundai e Kia, Qatar Airways, Lenovo, Visa,
ADI Predictstreet, McDonalds, Budweiser, AirBnB, Betano, são algumas das
corporações que sustentam a competição, garantindo o seu sucesso financeiro.
Passando
por cima dos conflitos, o megaevento deve fortalecer a imagem de Gianni
Infantino, escolhido para substituir o ex-mandatário, Joseph Blatter,
justamente por sua capacidade de mediar poderes regionais divergentes. O suíço
enxerga na Copa do Mundo de 2026 a sua cartada final para a reeleição como
dirigente da FIFA.
No
Brasil, vivemos uma experiência inédita, com a CazéTV superando a Globo no
número de partidas exibidas. Se a empresa de Casimiro Miguel – um influenciador
que se tornou protagonista nas transmissões de futebol após a sociedade com a
agência de mídia e marketing esportivo LiveMode – alçou um novo patamar, após a
relevância nacional construída durante a Copa do Catar, em 2022, o Grupo Globo,
ostentando um antigo monopólio, deve seguir abocanhando a maior parte da
audiência, mesmo sem a exibição completa da Copa de 2026. Ademais, a volta do
SBT, exibindo o principal torneio esportivo do mundo após 28 anos, bem como a
estreia do canal NSports, também chamam a atenção.
Com
todas as contradições e divergências, que venha a Copa!
Fonte:
Por Alícia Soares, Amanda Trovó, Anderson David Gomes dos Santos e Iago Vernek
Fernandes, no Le Monde

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