Pedagogia
da condescendência
Um
contingente considerável das(os) educadoras(es) formados em pedagogia (ainda
bem que há exceções) terminam tratando as(os) estudantes filhas(os) da classe
trabalhadora –mais precisamente dos segmentos subalternos e populares, dado que
também há estratificação dentro desta classe de acordo com as posições ocupadas
dentro da divisão social-técnica-hierárquica do trabalho – como vítimas, além
da própria vitimização feita pelos(as) próprios(as) estudantes, subestimando
seu potencial humano de criar as condições objetivas (procedimentos, métodos de
estudo, disciplina psicofísica) e subjetivas (esforço, trabalho intelectual
sistemático, persistência, paciência, etc.) para lidar e alargar seus limites
atuais a partir do momento que tomam consciência e reconhecem, via ensino e
aprendizagem, o que é historicamente necessário fazer para explorar e
desenvolver seu potencial cognitivo, intelectual, propiciando um posicionamento
político-social de qualidade infinitamente mais elevada perante a realidade.
Não se
trata, por outro lado, de superestimar, mas sim de ter ciência de que mesmo que
as(os) filhas(os) da classe trabalhadora provenientes das camadas subalternas e
populares precisem enfrentar, cotidianamente, condições, situações e
circunstâncias adversas, como: questões domésticas, maternidade/paternidade
precoce, jornadas de trabalho exaustivas e em condições precárias,
deslocamentos em rede de transporte precário, etc., isto não permite
justificativas para a falta de compromisso, rigor, método, radicalidade e
seriedade com a sua formação e maturação cognitiva/intelectual e, por
conseguinte, espiritual, já que tanto os sentimentos quanto as emoções têm base
existencial/material.
Utilizar
das dificuldades relativas às condições de vida e trabalho das(os) filhas(os)
da classe trabalhadora como forma de rebaixar as exigências imanentes e
inerentes ao trabalho intelectual rigoroso, metódico, sistemático, radical,
capaz de construir uma análise histórico-social-dialética (pensar “por”
contradição) de conjunto (totalidade) da realidade, estabelecendo as mediações
(e não representações/interpretações) entre os fenômenos e fatos microssociais
e macrossociais e vice-versa, conforme às necessidades postas e respostas
exigidas, é completamente nocivo à sua formação e humanização, pois
conserva-as(os) no mesmo nível em que efetivamente estão, como defendido por
Antonio Gramsci, adaptando a educação às limitações impostas pela própria forma
de organização social.
Por
isso mesmo que Antonio Gramsci entendia que aos(as) filhos(as) da classe
trabalhadora devem ser pressupostas, e não apenas garantidas, as condições
materiais para seu estudo e jamais facilitações burocrático-culturais. Estas
últimas correspondem, por exemplo, à simplificação dos conteúdos escolares, à
flexibilização indefinida de critérios de avaliação, à transformação das
dificuldades relacionadas às condições de vida e trabalho em justificativas
permanentes para o esvaziamento das exigências imanentes ao trabalho
intelectual. Isto culmina com a reprodução da desigualdade que se afirma
pretender combater. A elevação cultural-moral (Gramsci) das(os) estudantes não
se efetiva, confirmando-as(os) à posição social em que já se encontram.
Como
diz o educador/pesquisador Dermeval Saviani, os(as) filhos(as) da classe
trabalhadora precisam dominar aquilo que os dominantes dominam. Dominar o que
os dominantes dominam é condição para a sua emancipação. Caso contrário,
acaba-se produzindo uma pedagogia da condescendência, onde as determinações
econômicas, sociais, culturais dos(as) estudantes aparecem como absolutas,
quando, na verdade, são historicamente determinadas e não absolutamente
determinantes. Partir da realidade dos(as) estudantes não significa ficar
aprisionado nela. Ademais, o conhecimento do educando em sua concreticidade
“não se limita, para o caso da atividade educativa, ao conhecimento do que ele
é, mas também ao conhecimento do que pode vir-a-ser”, o que “implica um
posicionamento em favor de algumas das possibilidades desse vir-a-ser e,
consequentemente, contra outras” (Duarte, 2007, p. 39).
Essas
premissas expõem o fato de que muitos(as) educadores(as) falham miseravelmente
quando “passam a mão na cabeça” das(os) estudantes das camadas subalternas e
populares, deixando de cumprir a sua tarefa, que é ensinar, de modo
sistemático, metódico, científico, histórico, rigoroso, o que foi produzido e
acumulado pela humanidade, possibilitando que o indivíduo social se torne
humano e se humanize ao se apropriar do que foi fixado e transmitido
(comunicado) (Leontiev) nessas produções.
Isto
nos leva a uma outra questão, que vem acontecendo no ensino universitário nos
últimos tempos, em maior intensidade nas faculdades de educação, onde se formam
as(os) pedagogas(os)/educadoras(es). As juventudes que compõem o seguimento
estudantil dessa faculdade em específico e perfazem as camadas subalternas e
populares são a expressão manifesta e sintomática do contágio do modus operandi
da extrema-direita nos seus modos de posicionamento político, principalmente
aquela parcela engajada em algum dos “novos” movimentos sociais. As análises se
fundamentam no campo das narrativas, interpretações e representações e não no
campo das mediações e contradições que perpassam os fatos e fenômenos sociais,
inseridos em um contexto histórico-social mais amplo, macrossocial, que também
precisa ser considerado.
A
universidade, espaço educativo e cultural por excelência, que tem na
ontoepistemologia (Duarte, 2006, p. 14) sua essência e centralidade, lugar do
diverso – pensado razoável e concretamente (concreto pensado) –, vem tendo essa
sua atividade descaracterizada e atacada através de ações de intimidação de
estudantes, invariavelmente ligados a algum tipo de organização social
(movimentos, partidos, coletivos, etc.), a docentes que tem a coragem de se
posicionar histórica e cientificamente nas discussões, reflexões,
problematizações efetuadas nos espaços e atividades acadêmicos, portanto, um
posicionamento objetivo, factual, sistemático, rigoroso e metódico, como é
exigido da produção científica, histórica, social e dialética, colocando-se ao
lado daqueles que apresentam a apreensão cognitiva mais elevada possível, cujo
critério é beneficiar o gênero humano, ou seja, toda a humanidade, e não esta
ou aquela classe, este ou aquele grupo, mas todos, para além das classes e de
todos os marcadores sociais.
Hoje o
medo e o temor em relação as ações dos(as) estudantes (reclamações na
coordenação e ouvidoria – parece um colégio –, processos administrativos, etc.)
espreita os docentes universitários, que acabam “passando pano” para atitudes e
comportamentos que deveriam ser refletidos e repensados pela comunidade
acadêmica, terminando em permissividade, gerando impunidade e,
inconscientemente, a sensação de que os estudantes podem tudo, pois foram
oprimidos e impedidos de se expressar e falar por tanto tempo, então é
necessário compreender e “dar a outra face”, eles são o elo mais fraco da
corrente.
Enquanto
isso, o que vai sendo naturalizado e normalizado na academia é a autovigilância
permanente dos docentes e o silenciamento para não “polemizar”, não “entrar em
atrito”, evitar “conflitos”, manter a “paz” e a “paz de espírito” e assim por
diante. A qualquer momento, a depender de uma fala descontextualizada, de uma
frase tergiversada, ou qualquer outra coisa semelhante, alguém pode ser
levianamente acusado de racista, misógino, homofóbico, machista, etc..
Hoje,
basta uma palavra mal colocada, ou mal interpretada, para fazer cessar uma
conversa ou qualquer possibilidade de diálogo. O outro, por mais próximo que
esteja no campo das ideias, torna-se um inimigo a ser destruído. (…) Hoje,
vários ataques partem de certa esquerda moralista e identitária. (…) os ataques
são direcionados a pessoas que deveriam figurar como aliados nas lutas contra
todas as formas de opressão. (…) Mesmo em ambientes acadêmicos, instaura-se um
regime de terror voltado ao pensamento. Algo muito semelhante ao
anti-intelectualismo que marca os regimes autoritários de direita
(nazifascistas, neoliberais). Mínimas contradições ou frases
descontextualizadas são percebidas como microagressões. Em vários ambientes, o
direito de falar passou a exigir autorização segundo o gênero, a cor da pele ou
a classe da pessoa. Distorce-se, com frequência, a ideia de “lugar de fala”
para fazer dela uma justificativa à interdição do debate e à intimidação
inclusive de professores. (…) busca-se propagar tanta culpa quanto possível e,
quase sempre, “essencializar” as pessoas. A complexidade de cada indivíduo
desaparece para que ele possa ser rotulado de inimigo das causas progressistas
por um único ato. (…) (Proliferam) posturas identitárias que têm como principal
efeito político a fragmentação do campo dos oprimidos. Hoje, as mentalidades
inquisitoriais, tanto à direita como à esquerda, recorrem a manuais de
comportamento que estabelecem as condutas esperadas dos “militantes perfeitos”
e as penas cruéis a serem impostas aos “impuros”. Se as regras do manual não
são rigorosamente seguidas, dá-se a demonização do “infrator”. (…) Ao seguir
estes “manuais da militância” as pessoas tornam-se acríticas e perdem a
potência criativa. Impossível construir coletivamente algo comum, se inexiste
autonomia. Quem quiser mudar a sociedade precisa abandonar esses discursos
padronizados que só fazem sucesso entre os iniciados no ativismo e na
militância (Casara, 2024, p. 148, 149, 152 e 153).
Os(as)
estudantes “engajados”, ao invés de politizar as situações geradoras de
desentendimentos e conflitos, buscar investigar e construir todas as mediações
necessárias para compreender os fatos e seus desdobramentos, tendem a utilizar
as mesmas táticas da extrema-direita: espetacularizar a situação; produzir
frases de efeito para conseguir adesão dos demais estudantes, produzindo o
“efeito rebanho”; caluniar e difamar; incitar “cancelamentos”; fazer
provocações e assim sucessivamente. Com isso, gera-se uma guerra entre aqueles
que estão do mesmo lado e são, no final das contas, aliados, não inimigos.
Porém,
transformados em inimigos(as), alimenta-se o ódio em relação a eles(as),
produzindo e disseminando uma imagem deturpada daquele(a) que foi
transformado(a) em réu(ré). Guerra entre nós, paz aos senhores! Reina a
dissonância cognitiva.
Não
podemos tolerar entre nós, estudiosos(as), pesquisadores(as), educadores(as) e
estudantes, atitudes semelhantes às da extrema-direita. No campo intelectual,
educativo e cultural o ponto de partida é o dissenso, as divergências, afinal,
como esclarece Saviani (2007), o objetivo da educação é convencer e não vencer.
Para isso é necessário se apropriar do e sistematizar o conhecimento da
realidade, histórica, científica e filosoficamente, para poder argumentar com
conhecimento de suas causas, que são variadas.
Ainda
que se discorde do outro, é preciso ter a coragem de ouvi-lo, prestando atenção
e buscando compreender sua argumentação a fim de identificar sua concepção e
posicionamento de mundo, pois só então será possível uma réplica, ou mesmo
refutação, razoavelmente adequada.
O
espaço universitário é o local de pensamentos divergentes, e não do pensamento
único. Consensos não são pressupostos, nem ponto de partida, mas construtos das
reflexões radicais, rigorosas e de totalidade da realidade. Nesse sentido,
muitas são as divergências de concepções e posicionamentos de mundo, que devem
ser fundamentadas histórica, científica e filosoficamente para que possa haver
convergências. O critério para averiguar a razoabilidade das ideias são os
fatos histórico-sociais, condicionados espaço-temporalmente, daí a necessidade
de sua apropriação adequada.
A
postura e atitude daqueles(as) que buscam um conhecimento científico, rigoroso
e radical (ir até a raiz das coisas) da realidade deve ser outro perante os
debates, diálogos, reflexões, problematizações e demais atividades educativas.
A guerra deve ser declarada e realizada entre os senhores, e não entre nós.
Caso contrário, estaremos fortalecendo nossos verdadeiros inimigos.
As
mutações econômicas do sistema capital dos últimos quarenta anos produziram,
por correspondência, mutações na conformação das subjetividades (Sennett,
2012), que incorporaram a “razão cínica” (Safatle, 2008) no seu modo de ser,
pensar, sentir. Robson Ribeiro, em matéria publicada no Instituto Humanitas
Unisinos, “Quando o discurso do sucesso despreza a formação”, é totalmente
assertivo quando diz que vivemos hoje uma “deformação antropológica que afeta
diretamente a maneira como compreendemos educação, trabalho e autoridade”.
Frente
a essas contradições, nós, educadores(as), professores(as) não podemos
legitimar uma pedagogia da condescendência e naturalizar ações e comportamentos
moralistas-identitários. O enfraquecimento da formação intelectual
tendencialmente acarreta a substituição da análise/reflexão estrutural por
reações morais imediatas. É preciso que os(as) professores(as)/educadores(as)
tenham coragem para desenvolver e cumprir sua tarefa de transmissão-assimilação
de conhecimento, entendidas como exigindo ato ativo, e não passivo, do educando
e compromisso, por parte deste último, com o rigor e a sistematização metódica
de sua formação e elevação intelectual-moral.
Por
fim, deve-se lembrar a toda a comunidade acadêmica que este espaço é o lugar da
análise, da discussão, da reflexão, do debate, da problematização, da
dialogicidade, desde que estejam, sempre, mediados pela historicidade dos fatos
histórico-sociais, pela racionalidade que busca a verdade objetiva do real, que
não é neutra nem imparcial, ainda mais em sociabilidades erigidas sob
desigualdades sociais estruturais que possibilitam a dominação, exploração e
variadas formas de opressão de um ser humano por outro.
Enfim,
conflui-se com Robson Ribeiro: “sociedades intelectualmente frágeis são
particularmente vulneráveis à manipulação, ao superficialismo e à erosão de
qualquer compromisso sério com a verdade, com o trabalho e com a formação
humana”.
Fonte:
Por Iael de Souza, em A Terra é Redonda

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