sexta-feira, 12 de junho de 2026

Maria Luiza Falcão: Trump entre a Guerra e a Paz - o bombeiro que chega com cheiro de gasolina

As imagens voltaram a ocupar os noticiários do mundo inteiro. Mísseis cruzando os céus do Oriente Médio, explosões em cidades iranianas, ameaças de retaliação e o temor crescente de uma guerra regional capaz de afetar toda a economia mundial recolocaram a região no centro das atenções internacionais.

À primeira vista, pode parecer apenas mais um capítulo da rivalidade entre Israel e Irã. Mas essa interpretação simplifica excessivamente uma história longa, complexa e cheia de paradoxos. O conflito atual não nasceu ontem. É resultado de quase meio século de transformações políticas, guerras indiretas, disputas geopolíticas e intervenções externas.

No centro desse cenário aparece uma figura particularmente controversa: Donald Trump. O presidente norte-americano tenta apresentar-se como mediador e defensor da paz. No entanto, a trajetória recente da região sugere uma pergunta inevitável: até que ponto ele está apagando um incêndio ou simplesmente tentando controlar um incêndio que ajudou a provocar?

Para responder a essa questão, é preciso voltar no tempo.

<><> Quando Israel e Irã eram aliados

Uma das maiores surpresas para quem acompanha o conflito apenas pelos noticiários atuais é descobrir que Israel e Irã já foram aliados estratégicos.

Durante o reinado do xá Mohammad Reza Pahlavi, entre as décadas de 1950 e 1970, o Irã era um dos principais pilares da presença americana no Oriente Médio. Governado por uma monarquia fortemente alinhada a Washington, desempenhava papel central na contenção da influência soviética durante a Guerra Fria.

Israel, por sua vez, buscava romper o isolamento imposto pelos países árabes que rejeitavam sua existência. Nesse contexto, encontrou no Irã um parceiro valioso.

A cooperação era ampla. O petróleo iraniano abastecia Israel. Havia comércio, intercâmbio tecnológico, cooperação agrícola e coordenação política. Milhares de técnicos israelenses participaram de projetos de irrigação e desenvolvimento em território iraniano.

Mas a colaboração mais sensível ocorria na área de inteligência.

O Mossad, serviço secreto israelense, mantinha estreita colaboração com a Savak, a poderosa polícia política do xá. Criada com apoio dos Estados Unidos e de Israel, a Savak monitorava opositores internos e protegia o regime. Agentes dos dois países trocavam informações, realizavam treinamentos conjuntos e cooperavam em operações de segurança.

É difícil imaginar contraste maior com a realidade atual. Os países que hoje trocam mísseis e ameaças eram, há poucas décadas, aliados estratégicos.

<><> A Revolução Islâmica e a ruptura

Tudo mudou em 1979.

A Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini derrubou o xá e transformou completamente a posição internacional do Irã.

Para os revolucionários, o antigo regime simbolizava dependência externa, submissão aos interesses americanos e abandono da soberania nacional. O novo governo construiu sua legitimidade política justamente em oposição a essa ordem.

Israel passou a ser visto como símbolo da influência ocidental na região.

A embaixada israelense em Teerã foi fechada e entregue à Organização para a Libertação da Palestina. O apoio à causa palestina transformou-se em um dos pilares da política externa iraniana.

Nascia uma rivalidade que marcaria as décadas seguintes.

Mas a história ainda reservaria ironias.

<><> A guerra em que inimigos cooperaram

Durante a Guerra Irã-Iraque, travada entre 1980 e 1988, Israel forneceu armas ao próprio Irã.

A explicação era simples: para os estrategistas israelenses da época, Saddam Hussein representava uma ameaça mais imediata e perigosa do que a recém-instalada República Islâmica.

O episódio ficou associado ao escândalo Irã-Contras, que abalou a administração Reagan.

Esse fato ajuda a compreender uma característica fundamental do Oriente Médio: alianças e rivalidades raramente são permanentes. Interesses estratégicos costumam prevalecer sobre discursos ideológicos.

<><> A longa guerra invisível

A partir dos anos 1990, Israel e Irã passaram a travar uma guerra indireta.

O Irã fortaleceu o Hezbollah no Líbano, ampliou seu apoio a grupos palestinos e expandiu sua influência na Síria e no Iraque.

Israel respondeu por meio de operações de inteligência, sabotagens, assassinatos seletivos e ataques contra forças alinhadas a Teerã.

Era uma guerra sem declaração formal. Uma guerra travada nas sombras.

Essa dinâmica permitiu que ambos os lados elevassem continuamente a tensão sem assumir os riscos de uma confrontação direta.

<><> O fantasma nuclear

A partir dos anos 2000, o programa nuclear iraniano tornou-se o principal foco de tensão. Israel passou a considerar inaceitável a possibilidade de um Irã dotado de capacidade nuclear. O governo iraniano insistia que seu programa possuía fins pacíficos e acusava o Ocidente de utilizar a questão como instrumento de pressão política.

O resultado foi uma sucessão de sanções econômicas, ataques cibernéticos, assassinatos de cientistas e operações clandestinas.

A desconfiança transformou-se em elemento permanente das relações entre os dois países.

<><> Gaza mudou o equilíbrio regional

Os acontecimentos iniciados em outubro de 2023 alteraram profundamente a dinâmica do Oriente Médio.

A guerra em Gaza deixou de ser apenas um conflito entre israelenses e palestinos.

O Hezbollah ampliou sua atuação no Líbano.

Os houthis passaram a atacar embarcações no Mar Vermelho.

Milícias alinhadas ao Irã intensificaram operações no Iraque e na Síria.

Conflitos antes separados passaram a integrar uma mesma crise regional.

As fronteiras entre guerra local e guerra regional tornaram-se cada vez mais tênues.

<><> A contradição chamada Donald Trump

É nesse contexto que surge a figura do presidente estadunidense Donald Trump.

Durante anos, seu governo adotou uma política de máxima pressão contra o Irã. Sanções foram ampliadas. O isolamento diplomático foi aprofundado. A retórica tornou-se cada vez mais agressiva.

Em diversos momentos, integrantes de sua administração chegaram a sugerir que uma mudança de regime em Teerã seria desejável.

A mensagem era clara: o problema não era apenas a política externa iraniana. O problema era a própria existência do regime surgido da Revolução Islâmica.

Hoje, entretanto, Trump fala em moderação. Defende negociações. Pede cessar-fogo. Apresenta-se como mediador.

A mudança de tom chama atenção, mas não elimina a memória dos acontecimentos que contribuíram para trazer a região até aqui.

Talvez o objetivo não seja propriamente a paz. Talvez seja evitar que a crise ultrapasse determinados limites capazes de prejudicar interesses estratégicos americanos.

O aumento do preço do petróleo, os impactos sobre a economia mundial, o risco de envolvimento militar mais profundo dos Estados Unidos e os custos políticos internos de uma nova guerra ajudam a explicar a súbita valorização da diplomacia.

<><> O bombeiro que chega com cheiro de gasolina

A política externa americana tem uma longa história de intervenções realizadas em nome da estabilidade que terminaram produzindo novas instabilidades.

Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria são exemplos eloquentes.

Em todos esses casos, a promessa era reorganizar a região, fortalecer a segurança ou promover a democracia.

Os resultados foram muito mais ambíguos.

A crise atual carrega elementos semelhantes.

Washington procura ocupar o papel de árbitro, mas continua sendo um dos principais atores do conflito. Apoia Israel militarmente, mantém forte pressão econômica sobre o Irã e, simultaneamente, reivindica para si a posição de mediador.

A contradição é evidente.

Não se trata de negar a importância de negociações ou de um cessar-fogo. Trata-se de reconhecer que a paz dificilmente será construída enquanto persistir uma lógica baseada na pressão permanente, no isolamento e na ameaça constante de uso da força.

<><> Muito além de Israel e Irã

Outro erro frequente é imaginar que a crise envolve apenas dois países.

Na realidade, estamos diante de uma disputa entre projetos distintos de organização regional.

De um lado encontra-se Israel, apoiado pelos Estados Unidos e por uma rede de alianças construída ao longo de décadas.

Do outro está o chamado Eixo da Resistência liderado pelo Irã, envolvendo Hezbollah, grupos aliados no Iraque, forças presentes na Síria e os houthis no Iêmen.

Por trás desse confronto encontram-se petróleo, rotas marítimas, influência estratégica e o equilíbrio de poder em uma das regiões mais importantes do planeta.

China, Rússia, Índia e Europa acompanham os acontecimentos com preocupação porque sabem que as consequências ultrapassam em muito as fronteiras do Oriente Médio.

<><> Uma lição para o século XXI

A história de Israel e Irã demonstra como alianças podem transformar-se em rivalidades e como conflitos indiretos podem evoluir para confrontações abertas.

Também revela os limites do poder militar como instrumento de construção da paz.

É relativamente fácil destruir pontes diplomáticas, impor sanções ou ampliar operações militares. Muito mais difícil é reconstruir confiança.

Talvez essa seja a principal tragédia da conjuntura atual.

Depois de décadas de hostilidade, os instrumentos militares tornaram-se cada vez mais sofisticados, enquanto os canais políticos tornaram-se cada vez mais estreitos. Nesse ambiente, cada novo ataque aumenta o risco de erro de cálculo.

Grandes guerras raramente começam porque alguém as deseja explicitamente. Muitas vezes elas surgem porque sucessivas escaladas tornam impossível o retorno ao ponto de partida.

Donald Trump simboliza essa contradição melhor do que qualquer outro líder contemporâneo. Apresenta-se como homem da paz, mas continua associado a políticas que contribuíram para aprofundar a confrontação.

Quando fala em paz, portanto, a pergunta não é apenas se a paz virá. A pergunta é em quais condições ela virá e a quem ela servirá.

A experiência histórica recomenda cautela.

O Oriente Médio chegou a este ponto não por excesso de diplomacia, mas por sua escassez. E dificilmente sairá dele enquanto a lógica da força continuar ocupando o lugar que deveria pertencer à política.

¨      Acusações de espionagem expõem tensão entre EUA e Israel

Informações internas dos Estados Unidos teriam sido vazadas por uma fonte anônima da Agência de Inteligência de Defesa (Dia, na sigla em inglês). Os relatos, que circularam em vários veículos da imprensa americana, são de que o Pentágono elevou Israel  à categoria máxima de ameaça de espionagem após detectar uma forte expansão das atividades de inteligência contra os Estados Unidos. Washington nega, e Jerusalém chamou as notícias de "completamente falsas".

Ainda assim, a história repercutiu nos EUA, já que Israel é considerado um de seus aliados mais próximos. Ao mesmo tempo, evidencia um problema antigo: a desconfiança mútua que os dois lados nutrem em relação às suas atividades de inteligência.

<><> Espionagem entre aliados: sempre foi assim?

Na Alemanha, o episódio faz lembrar de uma declaração da então chanceler federal Angela Merkel em 2013, depois que veio à tona que o serviço de inteligência externo dos EUA, a NSA, havia monitorado seu telefone celular: "Espionar entre amigos, isso não se faz." Pouco depois, entretanto, também se soube que o serviço de inteligência externo alemão BND havia espionado, por décadas, países aliados, governos e instituições.

O especialista alemão em serviços secretos Erich Schmidt-Eenboom está convencido de que até mesmo países aliados se espionam de forma praticamente rotineira — incluindo, especialmente, os EUA e Israel: "Houve repetidamente operações do Mossad nos Estados Unidos no âmbito do combate ao terrorismo internacional que não foram coordenadas com o FBI. Por outro lado, Israel sempre foi um alvo interessante para a inteligência eletrônica da Agência de Segurança Nacional (NSA), sobretudo em todos os conflitos."

<><> Casos de espionagem israelense contra os EUA

O caso mais notório até hoje de espionagem israelense nos EUA é o de Jonathan Pollard, em 1987. O americano, que trabalhava na inteligência da Marinha dos EUA, repassou informações a um serviço secreto israelense e, segundo o jornal The Times of Israel, recebeu dezenas de milhares de dólares por isso.

Após confessar, ele foi condenado à prisão perpétua nos EUA. Políticos israelenses de alto escalão defenderam repetidamente sua libertação. Em 2015, ele acabou sendo solto mediante determinadas condições. Quando Pollard foi autorizado a se mudar para Israel em 2020, foi recebido pessoalmente pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no aeroporto. "Isso foi claramente uma afronta para os americanos", avalia Schmidt-Eenboom.

Em 2004, veio a público que Lawrence Franklin, analista político do Departamento de Defesa dos EUA, teria repassado informações confidenciais sobre a política americana em relação ao Irã a Israel por meio do influente grupo de lobby pró-Israel Aipac (Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel). Tanto o Aipac quanto Israel negam as acusações. Franklin, contudo, foi condenado por espionagem.

No contexto das revelações de Edward Snowden em 2013, a espionagem israelense nos EUA não foi um tema central. No entanto, o jornal britânico The Guardian chegou a mencionar que, segundo um dos documentos vazados pelo ex-funcionário da NSA, uma "avaliação nacional de inteligência" já havia concluído, em 2008, que o serviço secreto israelense era o "terceiro mais agressivo em relação aos EUA".

<><> Quais aliados já teriam sido espionados pelos EUA?

Snowden se tornou conhecido por suas revelações sobre a vigilância em massa de milhões de pessoas pela NSA e outros serviços secretos dos EUA. Os documentos também mostraram o grau de cooperação entre a NSA e serviços secretos de países aliados. Ao mesmo tempo, ficou claro que os EUA também espionaram aliados. Entre os alvos estavam a então chanceler federal alemã, Angela Merkel, e os presidentes franceses Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François Hollande.

Em 2023, documentos vazados do Pentágono indicaram que serviços de inteligência dos EUA teriam monitorado discussões internas do governo sul-coreano. Ambos os lados negaram e afirmaram conjuntamente que os documentos eram, em grande parte, falsificados — sem especificar detalhes.

<><> O que torna o caso atual tão delicado?

Há um amplo consenso de que o episódio deve ser analisado no contexto da guerra conjunta dos EUA e de Israel contra o Irã e da relação tensa entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu: enquanto o presidente dos EUA aparentemente busca encerrar o conflito o mais rápido possível, Netanyahu, na visão de Trump, faz pouco para estabilizar o frágil cessar-fogo.

Segundo diferentes avaliações, Israel pode ter cruzado uma linha vermelha ao monitorar altos funcionários do governo envolvidos nas negociações dos EUA com o Irã — entre eles o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, e vários funcionários do Departamento de Defesa.

Nesse caso, a elevação do nível de ameaça refletiria uma crise de confiança entre Washington e Jerusalém. Permaneceria, porém, a questão de por que a informação veio a público — aparentemente contra a vontade do governo dos EUA.

Independentemente de a informação ser verdadeira ou não, isso é secundário para Erich Schmidt-Eenboom. Ele acredita que a divulgação foi feita com o conhecimento do governo americano. Trump estaria buscando formas de exercer pressão diplomática sobre Israel.

"Diante das eleições de meio de mandato em novembro, ele não pode se dar ao luxo de se voltar contra o lobby israelense nos EUA, por exemplo cortando ajuda militar", avalia. Mas isso seria bem mais fácil sob a impressão de que Israel estaria violando gravemente interesses americanos por meio de espionagem: "Agora o presidente americano tem a possibilidade de pressionar Israel a interromper os bombardeios e retirar tropas do sul do Líbano", afirma o especialista.

 

Fonte: Brasil 247/DW Brasil

 

Nenhum comentário: