Maria
Luiza Falcão: Trump entre a Guerra e a Paz - o bombeiro que chega com cheiro de
gasolina
As
imagens voltaram a ocupar os noticiários do mundo inteiro. Mísseis cruzando os
céus do Oriente Médio, explosões em cidades iranianas, ameaças de retaliação e
o temor crescente de uma guerra regional capaz de afetar toda a economia
mundial recolocaram a região no centro das atenções internacionais.
À
primeira vista, pode parecer apenas mais um capítulo da rivalidade entre Israel
e Irã. Mas essa interpretação simplifica excessivamente uma história longa,
complexa e cheia de paradoxos. O conflito atual não nasceu ontem. É resultado
de quase meio século de transformações políticas, guerras indiretas, disputas
geopolíticas e intervenções externas.
No
centro desse cenário aparece uma figura particularmente controversa: Donald
Trump. O presidente norte-americano tenta apresentar-se como mediador e
defensor da paz. No entanto, a trajetória recente da região sugere uma pergunta
inevitável: até que ponto ele está apagando um incêndio ou simplesmente
tentando controlar um incêndio que ajudou a provocar?
Para
responder a essa questão, é preciso voltar no tempo.
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Quando Israel e Irã eram aliados
Uma das
maiores surpresas para quem acompanha o conflito apenas pelos noticiários
atuais é descobrir que Israel e Irã já foram aliados estratégicos.
Durante
o reinado do xá Mohammad Reza Pahlavi, entre as décadas de 1950 e 1970, o Irã
era um dos principais pilares da presença americana no Oriente Médio. Governado
por uma monarquia fortemente alinhada a Washington, desempenhava papel central
na contenção da influência soviética durante a Guerra Fria.
Israel,
por sua vez, buscava romper o isolamento imposto pelos países árabes que
rejeitavam sua existência. Nesse contexto, encontrou no Irã um parceiro
valioso.
A
cooperação era ampla. O petróleo iraniano abastecia Israel. Havia comércio,
intercâmbio tecnológico, cooperação agrícola e coordenação política. Milhares
de técnicos israelenses participaram de projetos de irrigação e desenvolvimento
em território iraniano.
Mas a
colaboração mais sensível ocorria na área de inteligência.
O
Mossad, serviço secreto israelense, mantinha estreita colaboração com a Savak,
a poderosa polícia política do xá. Criada com apoio dos Estados Unidos e de
Israel, a Savak monitorava opositores internos e protegia o regime. Agentes dos
dois países trocavam informações, realizavam treinamentos conjuntos e
cooperavam em operações de segurança.
É
difícil imaginar contraste maior com a realidade atual. Os países que hoje
trocam mísseis e ameaças eram, há poucas décadas, aliados estratégicos.
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A Revolução Islâmica e a ruptura
Tudo
mudou em 1979.
A
Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini derrubou o xá e
transformou completamente a posição internacional do Irã.
Para os
revolucionários, o antigo regime simbolizava dependência externa, submissão aos
interesses americanos e abandono da soberania nacional. O novo governo
construiu sua legitimidade política justamente em oposição a essa ordem.
Israel
passou a ser visto como símbolo da influência ocidental na região.
A
embaixada israelense em Teerã foi fechada e entregue à Organização para a
Libertação da Palestina. O apoio à causa palestina transformou-se em um dos
pilares da política externa iraniana.
Nascia
uma rivalidade que marcaria as décadas seguintes.
Mas a
história ainda reservaria ironias.
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A guerra em que inimigos cooperaram
Durante
a Guerra Irã-Iraque, travada entre 1980 e 1988, Israel forneceu armas ao
próprio Irã.
A
explicação era simples: para os estrategistas israelenses da época, Saddam
Hussein representava uma ameaça mais imediata e perigosa do que a
recém-instalada República Islâmica.
O
episódio ficou associado ao escândalo Irã-Contras, que abalou a administração
Reagan.
Esse
fato ajuda a compreender uma característica fundamental do Oriente Médio:
alianças e rivalidades raramente são permanentes. Interesses estratégicos
costumam prevalecer sobre discursos ideológicos.
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A longa guerra invisível
A
partir dos anos 1990, Israel e Irã passaram a travar uma guerra indireta.
O Irã
fortaleceu o Hezbollah no Líbano, ampliou seu apoio a grupos palestinos e
expandiu sua influência na Síria e no Iraque.
Israel
respondeu por meio de operações de inteligência, sabotagens, assassinatos
seletivos e ataques contra forças alinhadas a Teerã.
Era uma
guerra sem declaração formal. Uma guerra travada nas sombras.
Essa
dinâmica permitiu que ambos os lados elevassem continuamente a tensão sem
assumir os riscos de uma confrontação direta.
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O fantasma nuclear
A
partir dos anos 2000, o programa nuclear iraniano tornou-se o principal foco de
tensão. Israel passou a considerar inaceitável a possibilidade de um Irã dotado
de capacidade nuclear. O governo iraniano insistia que seu programa possuía
fins pacíficos e acusava o Ocidente de utilizar a questão como instrumento de
pressão política.
O
resultado foi uma sucessão de sanções econômicas, ataques cibernéticos,
assassinatos de cientistas e operações clandestinas.
A
desconfiança transformou-se em elemento permanente das relações entre os dois
países.
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Gaza mudou o equilíbrio regional
Os
acontecimentos iniciados em outubro de 2023 alteraram profundamente a dinâmica
do Oriente Médio.
A
guerra em Gaza deixou de ser apenas um conflito entre israelenses e palestinos.
O
Hezbollah ampliou sua atuação no Líbano.
Os
houthis passaram a atacar embarcações no Mar Vermelho.
Milícias
alinhadas ao Irã intensificaram operações no Iraque e na Síria.
Conflitos
antes separados passaram a integrar uma mesma crise regional.
As
fronteiras entre guerra local e guerra regional tornaram-se cada vez mais
tênues.
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A contradição chamada Donald Trump
É nesse
contexto que surge a figura do presidente estadunidense Donald Trump.
Durante
anos, seu governo adotou uma política de máxima pressão contra o Irã. Sanções
foram ampliadas. O isolamento diplomático foi aprofundado. A retórica tornou-se
cada vez mais agressiva.
Em
diversos momentos, integrantes de sua administração chegaram a sugerir que uma
mudança de regime em Teerã seria desejável.
A
mensagem era clara: o problema não era apenas a política externa iraniana. O
problema era a própria existência do regime surgido da Revolução Islâmica.
Hoje,
entretanto, Trump fala em moderação. Defende negociações. Pede cessar-fogo.
Apresenta-se como mediador.
A
mudança de tom chama atenção, mas não elimina a memória dos acontecimentos que
contribuíram para trazer a região até aqui.
Talvez
o objetivo não seja propriamente a paz. Talvez seja evitar que a crise
ultrapasse determinados limites capazes de prejudicar interesses estratégicos
americanos.
O
aumento do preço do petróleo, os impactos sobre a economia mundial, o risco de
envolvimento militar mais profundo dos Estados Unidos e os custos políticos
internos de uma nova guerra ajudam a explicar a súbita valorização da
diplomacia.
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O bombeiro que chega com cheiro de gasolina
A
política externa americana tem uma longa história de intervenções realizadas em
nome da estabilidade que terminaram produzindo novas instabilidades.
Iraque,
Afeganistão, Líbia e Síria são exemplos eloquentes.
Em
todos esses casos, a promessa era reorganizar a região, fortalecer a segurança
ou promover a democracia.
Os
resultados foram muito mais ambíguos.
A crise
atual carrega elementos semelhantes.
Washington
procura ocupar o papel de árbitro, mas continua sendo um dos principais atores
do conflito. Apoia Israel militarmente, mantém forte pressão econômica sobre o
Irã e, simultaneamente, reivindica para si a posição de mediador.
A
contradição é evidente.
Não se
trata de negar a importância de negociações ou de um cessar-fogo. Trata-se de
reconhecer que a paz dificilmente será construída enquanto persistir uma lógica
baseada na pressão permanente, no isolamento e na ameaça constante de uso da
força.
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Muito além de Israel e Irã
Outro
erro frequente é imaginar que a crise envolve apenas dois países.
Na
realidade, estamos diante de uma disputa entre projetos distintos de
organização regional.
De um
lado encontra-se Israel, apoiado pelos Estados Unidos e por uma rede de
alianças construída ao longo de décadas.
Do
outro está o chamado Eixo da Resistência liderado pelo Irã, envolvendo
Hezbollah, grupos aliados no Iraque, forças presentes na Síria e os houthis no
Iêmen.
Por
trás desse confronto encontram-se petróleo, rotas marítimas, influência
estratégica e o equilíbrio de poder em uma das regiões mais importantes do
planeta.
China,
Rússia, Índia e Europa acompanham os acontecimentos com preocupação porque
sabem que as consequências ultrapassam em muito as fronteiras do Oriente Médio.
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Uma lição para o século XXI
A
história de Israel e Irã demonstra como alianças podem transformar-se em
rivalidades e como conflitos indiretos podem evoluir para confrontações
abertas.
Também
revela os limites do poder militar como instrumento de construção da paz.
É
relativamente fácil destruir pontes diplomáticas, impor sanções ou ampliar
operações militares. Muito mais difícil é reconstruir confiança.
Talvez
essa seja a principal tragédia da conjuntura atual.
Depois
de décadas de hostilidade, os instrumentos militares tornaram-se cada vez mais
sofisticados, enquanto os canais políticos tornaram-se cada vez mais estreitos.
Nesse ambiente, cada novo ataque aumenta o risco de erro de cálculo.
Grandes
guerras raramente começam porque alguém as deseja explicitamente. Muitas vezes
elas surgem porque sucessivas escaladas tornam impossível o retorno ao ponto de
partida.
Donald
Trump simboliza essa contradição melhor do que qualquer outro líder
contemporâneo. Apresenta-se como homem da paz, mas continua associado a
políticas que contribuíram para aprofundar a confrontação.
Quando
fala em paz, portanto, a pergunta não é apenas se a paz virá. A pergunta é em
quais condições ela virá e a quem ela servirá.
A
experiência histórica recomenda cautela.
O
Oriente Médio chegou a este ponto não por excesso de diplomacia, mas por sua
escassez. E dificilmente sairá dele enquanto a lógica da força continuar
ocupando o lugar que deveria pertencer à política.
¨ Acusações de
espionagem expõem tensão entre EUA e Israel
Informações
internas dos Estados Unidos teriam sido vazadas por uma fonte anônima da
Agência de Inteligência de Defesa (Dia, na sigla em inglês). Os relatos, que
circularam em vários veículos da imprensa americana, são de que o Pentágono
elevou Israel à categoria
máxima de ameaça de espionagem após detectar uma forte expansão das
atividades de inteligência contra os Estados Unidos. Washington nega, e
Jerusalém chamou as notícias de "completamente falsas".
Ainda
assim, a história repercutiu nos EUA, já que Israel é considerado um de seus
aliados mais próximos. Ao mesmo tempo, evidencia um problema antigo: a
desconfiança mútua que os dois lados nutrem em relação às suas atividades
de inteligência.
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Espionagem entre aliados: sempre foi assim?
Na
Alemanha, o episódio faz lembrar de uma declaração da então chanceler
federal Angela Merkel em 2013, depois que veio à tona que o serviço de
inteligência externo dos EUA, a NSA, havia monitorado seu telefone celular: "Espionar
entre amigos, isso não se faz." Pouco depois, entretanto, também se soube
que o serviço de inteligência externo alemão BND havia espionado, por décadas,
países aliados, governos e instituições.
O
especialista alemão em serviços secretos Erich Schmidt-Eenboom está convencido
de que até mesmo países aliados se espionam de forma praticamente rotineira —
incluindo, especialmente, os EUA e Israel: "Houve repetidamente operações
do Mossad nos Estados Unidos no âmbito do combate ao terrorismo internacional
que não foram coordenadas com o FBI. Por outro lado, Israel sempre foi um alvo
interessante para a inteligência eletrônica da Agência de Segurança Nacional
(NSA), sobretudo em todos os conflitos."
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Casos de espionagem israelense contra os EUA
O caso
mais notório até hoje de espionagem israelense nos EUA é o de Jonathan Pollard,
em 1987. O americano, que trabalhava na inteligência da Marinha dos EUA,
repassou informações a um serviço secreto israelense e, segundo o jornal The
Times of Israel, recebeu dezenas de milhares de dólares por isso.
Após
confessar, ele foi condenado à prisão perpétua nos EUA. Políticos israelenses
de alto escalão defenderam repetidamente sua libertação. Em 2015, ele
acabou sendo solto mediante determinadas condições. Quando Pollard foi
autorizado a se mudar para Israel em 2020, foi recebido pessoalmente pelo
primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no aeroporto. "Isso foi claramente
uma afronta para os americanos", avalia Schmidt-Eenboom.
Em
2004, veio a público que Lawrence Franklin, analista político do Departamento
de Defesa dos EUA, teria repassado informações confidenciais sobre a política
americana em relação ao Irã a Israel por meio do influente grupo de lobby
pró-Israel Aipac (Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel). Tanto o
Aipac quanto Israel negam as acusações. Franklin, contudo, foi condenado por
espionagem.
No
contexto das revelações de Edward Snowden em 2013, a
espionagem israelense nos EUA não foi um tema central. No entanto, o jornal
britânico The Guardian chegou a mencionar que, segundo um dos
documentos vazados pelo ex-funcionário da NSA, uma "avaliação nacional de
inteligência" já havia concluído, em 2008, que o serviço secreto
israelense era o "terceiro mais agressivo em relação aos EUA".
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Quais aliados já teriam sido espionados pelos EUA?
Snowden
se tornou conhecido por suas revelações sobre a vigilância em massa de milhões
de pessoas pela NSA e outros serviços secretos dos EUA. Os documentos também
mostraram o grau de cooperação entre a NSA e serviços secretos de países
aliados. Ao mesmo tempo, ficou claro que os EUA também espionaram aliados.
Entre os alvos estavam a então chanceler federal alemã, Angela Merkel, e os presidentes
franceses Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François
Hollande.
Em
2023, documentos vazados do Pentágono indicaram que serviços de inteligência
dos EUA teriam monitorado discussões internas do governo sul-coreano. Ambos os
lados negaram e afirmaram conjuntamente que os documentos eram, em grande
parte, falsificados — sem especificar detalhes.
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O que torna o caso atual tão delicado?
Há um
amplo consenso de que o episódio deve ser analisado no contexto da guerra
conjunta dos EUA e de Israel contra o Irã e da relação tensa entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu: enquanto o
presidente dos EUA aparentemente busca encerrar o conflito o mais rápido
possível, Netanyahu, na visão de Trump, faz pouco para estabilizar o frágil
cessar-fogo.
Segundo
diferentes avaliações, Israel pode ter cruzado uma linha vermelha ao monitorar
altos funcionários do governo envolvidos nas negociações dos EUA com o Irã —
entre eles o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, e vários funcionários do
Departamento de Defesa.
Nesse
caso, a elevação do nível de ameaça refletiria uma crise de confiança entre
Washington e Jerusalém. Permaneceria, porém, a questão de por que a informação
veio a público — aparentemente contra a vontade do governo dos EUA.
Independentemente
de a informação ser verdadeira ou não, isso é secundário para Erich
Schmidt-Eenboom. Ele acredita que a divulgação foi feita com o conhecimento do
governo americano. Trump estaria buscando formas de exercer pressão diplomática
sobre Israel.
"Diante
das eleições de meio de mandato em novembro, ele não pode se dar ao luxo de se
voltar contra o lobby israelense nos EUA, por exemplo cortando ajuda
militar", avalia. Mas isso seria bem mais fácil sob a impressão de que
Israel estaria violando gravemente interesses americanos por meio de
espionagem: "Agora o presidente americano tem a possibilidade de
pressionar Israel a interromper os bombardeios e retirar tropas do sul do
Líbano", afirma o especialista.
Fonte:
Brasil 247/DW Brasil

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