Seria
a onda de direita consequência do lulismo?
Há um
ponto em que a leitura da moderação como matriz da extrema direita perde
contato com a história concreta. Esse ponto aparece quando se sai do plano
abstrato das categorias e se entra, enfim, no terreno das experiências efetivas
de governo. Se essa tese estivesse correta em seu núcleo mais forte, os
momentos de tensão entre governo e frações dominantes tenderiam a aparecer como
periféricos, episódicos ou residuais, e o lulismo atravessaria sua trajetória
sobretudo como forma dócil de administração do capitalismo brasileiro. A
história recente não confirma essa imagem. E o caso mais eloquente talvez seja
justamente o do governo Dilma.
A
experiência inaugurada a partir de 2011, com o que se convencionou chamar de
Nova Matriz Econômica, não cabe seriamente na ideia de simples continuidade
passiva da ordem. Houve ali, com todas as limitações e contradições do
processo, uma tentativa concreta de deslocar o eixo macroeconômico brasileiro
em direção a um horizonte de reindustrialização, ampliação do investimento e
reposicionamento do desenvolvimento nacional. Redução da taxa de juros,
desvalorização cambial programada, desonerações voltadas para a indústria,
expansão do crédito público, redução do custo da energia: tudo isso compôs um
movimento real de inflexão. Pode-se discutir a consistência interna do
programa, sua execução, seus limites, suas fragilidades e até sua ingenuidade
estratégica. O que a história não autoriza é tratar esse movimento como
repetição indiferente de uma governabilidade acomodada.
Esse
ponto reorganiza a própria narrativa sobre o que veio depois. Durante muito
tempo, consolidou-se a leitura segundo a qual a crise de 2015 e o colapso
político subsequente comprovariam a falência de um reformismo incapaz de
enfrentar a ordem. Só que essa interpretação embaralha a sequência efetiva dos
acontecimentos. O processo revela a reação ativa de frações empresariais,
midiáticas, parlamentares e judiciais contra um governo que, ainda que de modo
hesitante e contraditório, tentou deslocar a arquitetura econômica para além do
conforto habitual do rentismo e da financeirização. Em vez de uma simples
decomposição de moderação excessiva, o período expõe o custo político cobrado
de uma experiência que ensaiou uma inflexão e encontrou, diante de si, uma
contraofensiva organizada.
Esse
ponto foi percebido com mais clareza por leituras heterodoxas que se recusaram
a tratar o período como mera administração inercial da ordem. Em chave
nacional, Elias Jabbour ajudou a formular o sentido de uma disputa que envolvia
reindustrialização, soberania produtiva e reposicionamento do desenvolvimento
brasileiro. Em outra escala, Fernando Haddad, em Capitalismo Superindustrial,
reinscreve esse problema numa transformação mais ampla do capitalismo
contemporâneo, marcada pela reorganização tecnológica, produtiva e geopolítica
do sistema. Essa articulação importa politicamente porque desmonta uma
caricatura recorrente: a de que toda tentativa de pensar desenvolvimento,
indústria, tecnologia e Estado fora do receituário rentista já seria, por
definição, simples gestão moderada da ordem. Quando até Haddad pode ser tratado
como “direitista” por setores da extrema esquerda, o problema já não está
apenas no conteúdo do debate, mas no empobrecimento do próprio critério pelo
qual ele vem sendo travado.
Lidos
nesse registro, os impasses da Nova Matriz deixam de aparecer como prova de
inexistência de inflexão e passam a ser vistos como expressão de uma
experiência que não encontrou base material, política e empresarial capaz de
sustentá-la. As frações do capital que, em tese, se beneficiariam do
reposicionamento produtivo não responderam com o grau de investimento,
compromisso e horizonte estratégico que a experiência exigia. Receberam
incentivos, pressionaram por vantagens, demandaram proteção e, logo depois,
aderiram ao movimento de desestabilização do próprio governo que lhes havia
aberto essa janela. Aí está uma chave importante do período: uma experiência
que tentou infletir parcialmente a ordem acabou abandonada, sabotada ou
instrumentalizada justamente pelos setores que, em tese, deveriam sustentá-la.
Essa
reconstituição impede que a crise brasileira seja lida em termos morais ou
doutrinários. A pergunta decisiva não diz respeito ao grau de pureza do
governo, nem à sua maior ou menor proximidade com um horizonte socialista que
ele nunca reivindicou integralmente para si. O que importa é entender o que
ocorreu quando uma experiência de centro-esquerda tentou deslocar, ainda que
parcialmente, o eixo do desenvolvimento e da política econômica em direção a um
projeto menos subordinado ao rentismo. O que se abriu ali foi uma situação de
conflito. E é isso que a categoria de contraofensiva ajuda a iluminar.
Quando
esse ponto entra em cena, o debate muda de patamar. A derrota de Dilma e a
reorganização do período posterior mostram que a direita brasileira trabalhou
ativamente a construção de sua própria saída. Houve ação, articulação, cálculo,
reorganização de linguagem e de campo ideológico. Insatisfação econômica foi
convertida em guerra moral; disputa distributiva, em cruzada anticorrupção;
ressentimento de classe média, em energia política organizada. A extrema
direita não apareceu como simples desdobramento das insuficiências do
reformismo. Ela foi construída por agentes concretos, com interesses concretos,
em disputa concreta de poder.
É
justamente aí que a narrativa segundo a qual a moderação petista teria sido um
dos motores centrais do bolsonarismo começa a revelar sua insuficiência. Ela
tem a elegância da simetria conceitual: um reformismo que não resolve as
contradições abriria espaço para sua reaparição sob forma mais regressiva. O
problema é que a história concreta é menos simétrica e mais dura. Houve
tentativa de inflexão, reação coordenada, sabotagem, desestabilização,
deposição e reorganização ativa da direita. A passagem do lulismo ao
bolsonarismo não se deixa reduzir a uma linha reta. Ela se moveu como processo
de conflito.
Essa
observação recoloca também o problema da mediação em seus devidos termos. Parte
importante da crítica contemporânea ao lulismo trata qualquer mediação
institucional, econômica ou tática como prova suficiente de capitulação. A
experiência brasileira sugere algo mais difícil de admitir: mesmo deslocamentos
moderados, quando tocam interesses estruturais, podem desencadear respostas
violentas do bloco dominante. Isso não converte toda mediação em virtude, nem
toda conciliação em estratégia acertada. Apenas recoloca a política real no
terreno em que ela efetivamente existe: um campo intermediário, conflituoso,
instável, em que reformas parciais, inflexões limitadas e disputas incompletas
produzem efeitos históricos reais, inclusive reações regressivas intensas.
O
problema da crítica abstrata à moderação está em apagar justamente esse terreno
intermediário. A história se converte, então, em tribunal de coerência. Em vez
de investigar o que acontece quando determinadas frações do capital se veem
diante de um reposicionamento econômico relativamente adverso, retorna-se
sempre ao déficit originário do reformismo. Com isso, desaparece a própria
dinâmica da luta de classes em sua espessura concreta.
O
debate sobre a extrema direita exige mais do que esse enquadramento. Exige
compreender que a crise brasileira se deu num momento de reorganização mais
ampla do capitalismo mundial, de esgotamento de padrões clássicos de
crescimento periférico e de aprofundamento da vulnerabilidade estrutural de
economias dependentes. Nesse contexto, a margem para experiências
distributivas, desenvolvimentistas ou reformistas tornou-se mais estreita, e a
reação das classes dominantes, mais agressiva. A simultaneidade entre a
dificuldade crescente da centro-esquerda em oferecer respostas estáveis e a
expansão internacional de direitas radicais, discursos antipolíticos e formas
violentas de reorganização autoritária do consentimento não é casual. O Brasil
não inventou esse processo. Mas o viveu de maneira particularmente aguda.
É aí
que o debate econômico precisa voltar a ser levado a sério. Juros altos,
austeridade, autonomia do Banco Central e dependência financeira compõem, de
fato, a arquitetura concreta da ordem brasileira. Justamente por isso, sua
transformação exige algo mais do que palavra de ordem. Exige correlação de
forças, tempo político, base social, capacidade estatal e sustentação para
atravessar transições instáveis. A política não desaparece porque a estrutura é
dura; ela se torna mais difícil. E é nessa dificuldade que parte da crítica
contemporânea à esquerda perde densidade. Ao converter mediação em rendição,
produz um diagnóstico mais excitante do que útil.
Talvez
seja esse um dos pontos em que o debate brasileiro mais precise amadurecer. A
crítica estrutural do capitalismo segue necessária. O problema começa quando a
insuficiência de uma experiência passa a funcionar como prova de sua identidade
com o adversário, ou quando o fracasso de uma inflexão parcial passa a valer
como demonstração de sua irrelevância. Às vezes, a verdade histórica está em
outro lugar: justamente porque determinada experiência tocou, ainda que de
leve, em interesses importantes, desencadeou reações que ajudam a revelar onde
estavam os conflitos reais.
Nesse
sentido, a crise do período Dilma talvez ensine mais sobre a força da direita
do que sobre a suposta natureza intrinsecamente conciliadora do lulismo. Mesmo
sem ruptura sistêmica, mesmo sem radicalização aberta, mesmo dentro dos limites
estreitos de uma experiência institucional, a disputa por desenvolvimento,
indústria, emprego qualificado e soberania produtiva já bastava para acionar
mecanismos de defesa poderosos do bloco dominante. Isso deveria introduzir mais
cautela em explicações rápidas demais sobre a gênese da extrema direita.
Porque
a pergunta central não diz respeito apenas aos limites do lulismo. Ela diz
respeito, também, à violência da reação que se organizou quando uma experiência
de centro-esquerda tentou ir além do tolerável para as frações dominantes. Sem
enfrentar esse ponto, a crítica ao reformismo corre o risco de se tornar uma
forma elegante de subestimar a direita e de absolver, involuntariamente, os
sujeitos concretos da contraofensiva.
É por
isso que insisto: a ascensão da extrema direita não se explica adequadamente
quando reduzida aos limites do lulismo. Ela precisa ser lida como resultado de
uma derrota histórica mais ampla, produzida pela convergência entre crise
econômica, reorganização estrutural do capitalismo, ofensiva ativa das classes
dominantes e incapacidade geral da esquerda em formular resposta à altura do
período. O lulismo participa dessa história, claro. Mas participa como
experiência contraditória de transformação parcial que, ao esbarrar em seus
próprios limites e na violência das reações que provocou, acabou derrotada num
terreno muito mais amplo do que aquele que seus críticos mais apressados
costumam admitir.
Fonte:
Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário