A
desqualificação das universidades públicas
A
reunião realizada no Centro MariAntonia da USP (13/4/26) para elaboração do
Manifesto contou com dirigentes de entidades científicas (SBPC, ABC), o
Instituto Sivis e docentes de universidades públicas. Em um contexto no qual
fundos patrimoniais interferem diretamente na liberdade de cátedra e na
renúncia forçada da metade dos reitores da Ivy League, o governo de Donald
Trump dirige ataques abertos e violentos contra as universidades e uma rede de
think tanks atua no sentido de aninhar a guerra cultural no interior das
universidades, a chamada do Manifesto é oportuna. Também no Brasil o pluralismo
e a liberdade de cátedra foram sistematicamente afrontados no governo de Jair
Bolsonaro.
Contudo,
a análise do texto não apenas retira do foco os citados problemas que afetam e
ameaçam as universidades, como evidencia uma agenda que ganha magnitude a
partir de think tanks vinculados à extrema direita estadunidense. Para ler
adequadamente o Manifesto é preciso examinar também seus implícitos e
pressupostos que contradizem, expressamente, os objetivos expressos no título.
<><>Os
sujeitos e o quadro de intolerância apresentado
Um
grupo interdisciplinar de docentes e pesquisadores de diferentes partes do
Brasil se reuniu no centro Maria Antonia, na USP, no mês de abril, para
discutir o ambiente de exigência de conformidade ideológica, autocensura e
intolerância ao dissenso que prevalece hoje nas instituições públicas de ensino
superior no Brasil.
A
partir do diagnóstico devastador, encaminha a alternativa a ser seguida: a
garantia do pluralismo exige a neutralidade institucional, apresentada adiante.
Esse
grupo apresenta à comunidade acadêmica este manifesto pedindo iniciativas
concretas de promoção do pluralismo e da liberdade acadêmica para enfrentar a
crise de reputação que afeta nossas instituições.
O texto
afirma que a escalada da intolerância ao pluralismo decorre de uma suposta
polarização ideológica identificada por pesquisas de opinião (More in Common
com a Quaest, 2025, mencionada no Manifesto). Conforme esta pesquisa, a
sociedade brasileira compartilha a visão de que na universidade pública
prevalecem a hostilidade ao pluralismo, a autocensura e os ataques ideológicos.
Pesquisa
realizada pela More in Common com a Quaest, em 2025, mostra a abrangência das
repercussões desses conflitos na sociedade brasileira. Cresce a percepção de
que as universidades públicas deixaram de ser espaços de produção de ciência e
conhecimento e foram capturadas pela disputa ideológica: 59% dos brasileiros
confiam pouco ou não confiam na universidade pública; 51% consideram que as
universidades privadas são melhores do que as universidades públicas e 54%
acreditam que a universidade pública promove mais ideologia do que ensino de
qualidade.
A
leitura dos primeiros parágrafos do Manifesto evidencia contradições crescentes
com seu título. Os conflitos que supostamente impedem o pluralismo nas
universidades não foram demonstrados com referências que pudessem sustentar sua
premissa central. Assim, o recurso de validar suas premissas com a citada
pesquisa é o pilar de sustentação da nervura central do Manifesto; entretanto,
a pesquisa não corrobora a tese central do Manifesto.
Os
números da pesquisa de opinião não podem ser utilizados como critério de
verdade. Afirmar que as instituições privadas são melhores do que as públicas
beira ao terraplanismo. Os autores do Manifesto, coerentemente, concordam que a
percepção social pode não corresponder aos fatos objetivos, como no caso de que
as privadas são melhores. Entretanto, inusitadamente, concluem: “A percepção
capturada na pesquisa reflete, porém, um problema real: a dificuldade que as
universidades têm enfrentado em garantir o pluralismo (…) alimenta o
entendimento de que se dedicam mais à militância política do que ao ensino e à
pesquisa”.
A
causalidade entre os ditos acontecimentos de intolerância ideológica e a
percepção sobre a universidade aferida pela Quaest, é apenas uma analogia
desprovida de rigor e lógica. Da percepção aferida ao corolário o salto é
inacreditável. A pesquisa afere o senso comum sobre as universidades públicas a
partir de determinadas perguntas. Disposições de pensamento sobre a
universidade vêm sendo deliberadamente difundidas pelos meios de comunicação
tradicionais e pelo complexo movimento das redes, robôs e Inteligência
Artificial.
No caso
das públicas, a desqualificação é sobretudo uma obra da extrema direita e da
austeridade neoliberal. Como esquecer as buscas e apreensões de livros,
cartazes, computadores, a interrupção de aulas e debates por agentes do Estado
no contexto do segundo turno das eleições de 2018? Como esquecer a imagem de
balbúrdia difundida por um ex-ministro da Educação do governo Jair Bolsonaro?
Como esquecer os inúmeros editoriais criticando a relutância das universidades
públicas em se ajustarem aos valores e às demandas do mercado? As pesquisas de
opinião captam essas ideologias que atualmente alcançam um grande auditório.
Como
observado no diálogo com Marco Mondaini e Normando Rodrigues no podcast Trilhas
da Democracia dedicado ao tema, o diagnóstico não se coaduna com a realidade
das universidades públicas brasileiras. A intolerância ao pluralismo é uma
realidade nas instituições privadas-mercantis, organizadas como sociedades
anônimas, sob o comando de fundos de investimentos, e que ofertam cursos a
distância. A crescente padronização das aulas e das avaliações por meio de
plataformas de trabalho impostas pelas corporações educacionais caracterizam
cerceamento digital e afronta à liberdade de cátedra. Mas as organizações
responsáveis pela formação de 80% dos estudantes do ensino superior não são
abordadas no Manifesto.
<><>
Gênese da imagem da ausência de pluralismo
Após
2016, os conflitos aumentaram justo quando o pensamento da direita liberal foi
engolfado pela extrema-direita. Desde então, a maioria dos casos nada tem a ver
com o debate de ideias. Um dos casos mais citados foi o cancelamento de um
evento na UFPR com o ex-deputado, cassado em virtude de ser ficha suja, Delton
Dallagnol. O evento sequer havia sido agendado no local em que foi divulgado,
evidenciando o contexto de agit-prop dos apoiadores de Dallagnol. Decisão
judicial (liminar) sobre o tema não viu censura em virtude do fato de que o
docente supostamente responsável não confirmado sua realização. Mas os grandes
jornais e as redes da extrema-direita logo bradaram que foi censura.
Os
maiores jornais repercutiram fortemente o Manifesto em uma sequência
impressionante: O Estado de S. Paulo (8/5/26), O Globo (10/05/26), Folha de S.
Paulo (13/05/26), legitimando, assim, a tese de que os conflitos em virtude da
ausência de pluralismo predominam na universidade. As expressões “predomina”,
“escalada” “intolerância” e “violência” estão circulando especialmente em
outros meios, estranhamente não listados na página do Manifesto, como Gazeta do
Povo, MBL, Brasil Paralelo, entre outros vinculados às chamadas novas direitas.
O
jornal Gazeta do Povo dedicou quatro matérias coetâneas do período de
lançamento do Manifesto, denunciando um ambiente no qual supostamente prevalece
a ausência de pluralismo, entre as quais se destacam: em 13/09/2025, o
Editorial em tom alarmista denominado “Universidades sitiadas pela
intolerância” antecipa o teor do Manifesto. Em 9/5/26, o Manifesto foi
noticiado focalizando a intimidação que prevalece na universidade, abrindo
espaço para as considerações da representante do Sivis que reiterou que o ambiente
na universidade é de inquietação, medo e autocensura. Em 13 /5/26, o Editorial
foi em defesa dos termos do Manifesto.
<><>
Instituto Sivis e suas conexões com Think Tanks
O
Instituto Sivis compôs a mesa de debate do evento na Maria Antônia, sendo uma
das três entidades com direito a fala, ao lado das prestigiosas SBPC e ABC. Seu
estudo sobre a polarização, a liberdade e o pluralismo foi incorporado para
fundamentar uma das afirmações centrais do Manifesto, a autocensura:
Pesquisa
do Instituto Sivis, com amostra representativa dos estudantes brasileiros de
ensino superior, mostrou que 48% deles afirmam ter se autocensurado, evitando
debater assuntos controversos em sala de aula.
Nos
termos do Sivis, essa pesquisa busca investigar “a percepção dos estudantes das
principais universidades públicas do país sobre a liberdade de expressão no
ambiente acadêmico, sobretudo daqueles que possuem pensamentos heterodoxos”.
Sivis constituiu o Centro Voxius e se associou com a Foundation for Individual
Rights and Expression – FIRE, organização estadunidense que objetiva promover a
liberdade de expressão pelo mundo, com foco nas universidades, apoiada pela The
Edelman Family Foundation que atualmente
compõe o arco da extrema-direita, ao lado da CATO, Manhattan etc. Tanto o
Instituto Sivis, como FIRE são apoiadas pela Atlas Network, organizadora da
Conservative Political Action Conference (CPAC).
A Atlas
Network promoveu o reconhecimento do FIRE por meio do North America Liberty
Award (2023), por sua defesa da liberdade de expressão e, recentemente, do
Instituto Sivis com o prêmio “Smart Bets” 2027 da Atlas Network para a América
Latina, vinculado ao Fórum da Liberdade, premiando um de seus principais
organizadores, Jamil Assis. Localmente, o Sivis possui coluna de opinião no
jornal Gazeta do Povo.
FIRE é
uma das principais organizações que lideraram a cruzada em favor da
neutralidade institucional nos EUA, ao lado da Heterodox Academy, também
financiada pela The Edelman Family Foundation que prove recursos para o
Instituto Manhattan de Chris Rufo que se jacta de ter derrubado a reitora de
Harvard e é o principal organizador da ofensiva contra a chamada teoria crítica
da raça, atua ativamente contra as políticas de DEI e em defesa da neutralidade
institucional.
A
análise da fundamentação do Manifesto revela um aspecto muito preocupante: o
uso de tipificações, levantamentos, pesquisas de opinião de aparelhos privados
de hegemonia que possuem nexos com think tanks como Atlas Network, Fórum da
Liberdade, Heterodox Academy, Edelman, Instituto Manhattan, CATO etc. Os
diagnósticos e as ditas soluções destas organizações, desaguam na neutralidade
institucional. A rápida adesão das universidades à neutralidade decorre da
pressão dessas organizações. De fato, das 148 universidades nos EUA que
adotaram a referida neutralidade, 140 aprovaram sua adesão após 2024 no
contexto dos conflitos advindos dos acampamentos estudantis que levaram à queda
de reitoras das principais universidades estadunidenses.
Apesar
disso, Donald Trump balizado pela Agenda 47 e pelo Projeto 2025 seguiu
desenvolvendo a sua perspectiva de governo unitário, na qual nenhum órgão
governamental pode divergir da linha do governo central. Essa política
incorporou a DOGE e possibilitou chantagem econômica direta do governo sobre as
universidades. Frente a tal ofensiva a maioria das universidades permaneceu em
silêncio, afirmando coerência com a neutralidade.
Berkeley,
que adota a neutralidade institucional, elaborou e enviou ao governo um dossiê
com 160 docentes tidos como antissemitas e antiamericanos, a exemplo do
maccartismo. Essa posição expressamente hostil ao pluralismo decorre justamente
das pressões econômicas advindas dos cortes de recursos federais para a
instituição.
Com
efeito, se a instituição, em nome da impossível neutralidade institucional não
demarca fortemente seu compromisso com a democracia, os conflitos irão ganhar
ainda maior escala, na forma de embates entre indivíduos e de punições contra
os indivíduos que criticam o governo unitário, tudo isso sem que a instituição
universitária seja atuante para proteger sua autonomia.
As
ameaças ao pluralismo não devem ser buscadas na esquerda. Recentemente, a
universidade do Texas A&M que adota a neutralidade institucional exigiu
censura ao ensino de Platão. Essas ofensivas reacionárias não estão nos marcos
do conservadorismo. Umberto Eco, em O fascismo eterno alerta que a rejeição da
racionalidade e do pensamento crítico é a própria essência do fascismo. Tentar
dialogar com ele dentro das regras da democracia é um erro, pois o fascismo
utiliza o debate apenas como uma tática a ser explorada. O fascismo se alimenta
do medo e da frustração social e, por isso, seus adeptos empreendem ações
violentas contra os lampejos democráticos do Iluminismo.
<><>
O Manifesto desagua na neutralidade institucional
O ponto
de chegada do Manifesto é a neutralidade institucional. No contexto das lutas
contra o apartheid na África do Sul, estudantes e professores, entre os quais
os da universidade de Chicago, reivindicaram medidas de boicote ao governo
racista. Em 1967, esta instituição publicou um curto documento intitulado
“Relatório sobre o Papel da Universidade na Ação Política e Professores”,
presidido por Harry Kalven, reconhecido como fundante da neutralidade
institucional.
Harry
Kalven, contudo, defende que a universidade é uma instituição que gera
descontentamento com as estruturas sociais existentes e propõe novas e, por
isso, é perturbadora. As suas recomendações são muito mais generosas com o
pluralismo do que as concepções de hoje, pois objetivam proteger a
autodeterminação da universidade.
A
neutralidade institucional do Manifesto é congruente com a matriz
estadunidense. neste país, os ataques dos think tanks foram justificados como
consequência da politização das universidades como instituições. De fato, em
diversas universidades estadunidenses estudantes realizaram em 2024
acampamentos como forma de protesto contra o genocídio na palestina, demandando
a interrupção de investimentos dos fundos patrimoniais de suas instituições em
empresas associadas ao genocídio, a exemplo do que ocorreu nas lutas contra o
regime do apartheid.
A
extrema direita do partido republicano, os investidores dos fundos patrimoniais
e os lobbies sionistas exigiram a imediata desocupação dos acampamentos, sob
força policial. As pressões econômicas e políticas da extrema-direita e dos
lobbies foram bem-sucedidas e lograram forçar a renúncia da metade das reitoras
da citada liga (Columbia, Harvard, Pensilvânia e Cornell).
Entretanto,
essa ofensiva não decorreu do ativismo das universidades que, inclusive,
reprimiram as manifestações. O problema foi o que a extrema-direita qualificou
como hegemonia das ideias tidas como de esquerda. Tais organizações atuaram no
bojo de sua agenda estratégica de agit-prop da extrema direita. A simples
existência de estudos sobre imperialismo, sexualidade, racismo, mudanças
climáticas, vacinas etc. é suficiente para isso.
Preocupa
a defesa da concepção do Manifesto de que a universidade deve ser um agregado
de indivíduos isolados que disputam ideias e arcam com a responsabilidade
individual sobre elas. Assim, professores que defenderam a vacina da Covid em
detrimento da cloroquina e foram atacados por isso devem arcar com as
consequências políticas, econômicas e jurídicas de afirmar a ciência. De outra
parte, os adeptos ideológicos da cloroquina, responsáveis pela postergação da
vacina no Brasil que poderia ter evitado milhares de mortes, apenas teriam
feito uso da liberdade de expressão em uma suposta controvérsia (que nunca
existiu no campo científico).
“Para
manter o pluralismo, as universidades devem operar sob regras isonômicas,
mantendo suas portas abertas a todos. (…) Essa postura exige firmeza e
proatividade: a neutralidade institucional demanda que a universidade mantenha
um evento com um convidado polêmico mesmo diante de protestos. Cancelar um
evento devido ao posicionamento ideológico do palestrante é assumir uma posição
política, sinalizando que apenas certas ideias têm permissão para circular no
campus”.
Não há
como discordar que as universidades não podem ser confundidas com um partido.
As portas da instituição devem estar abertas ao debate verdadeiro entre
concepções teóricas, epistemológicas etc. Seria estimulante um debate sobre
liberalismo e marxismo com José Guilherme Merquior (1941-1991). O problema é
que a direita tradicional foi fagocitada pela extrema direita. Este é o busílis
da questão.
Quando
o fascismo estava alcançando vastos setores da sociedade na Itália, qual
deveria ter sido o posicionamento da universidade? O silêncio obsequioso para
assegurar a neutralidade institucional, a defesa da liberdade individual de
fascistas que desejavam a morte da universidade (e dos considerados
dissidentes) como instituição de conhecimento ou a defesa de sua autonomia?
Como uma universidade pode silenciar diante de Gaza? Pode a universidade
silenciar diante de um evento que prega o ódio racial em prol de diretrizes
supremacistas? Pode a universidade abstrair que a liberdade de cátedra exige a
luta pela democratização da sociedade?
O
Manifesto admite que o posicionamento da instituição é legitimo em casos de
ameaças à autonomia universitária, à liberdade acadêmica e ao provimento
orçamentário e financeiro politicamente motivados. Ora, como se depreende dos
casos verificados nas universidades estadunidenses e, também, nas brasileiras,
os casos ditos de intolerância ao pluralismo decorrem principalmente das
investidas de correntes políticas que objetivam alcançar essas três exceções.
Justo
por isso a neutralidade institucional não pode ser uma resposta para o
pluralismo. Caso a instituição não afirme sua autonomia e elabore
pronunciamentos dialogados, elaborados com base na busca processual da verdade
sobre temas que definem o porvir dos povos, a universidade seguirá sendo
fagocitada pelos particularismos de forças políticas que estão corroendo seu
ethos específico e, silenciosamente, acabará tendo que se curvar diante de uma
realidade que precisa ser interpelada e transformada.
Alternativamente,
é preciso retomar um conceito forte de autonomia universitária capaz de
assegurar os fundamentos das instituições – autonomia, autonormação,
autogoverno compartilhado, liberdade de cátedra, pluralismo teórico – assim
como a profunda conexão com a educação básica e com a garantia de financiamento
capaz de assegurar a manutenção e o desenvolvimento das universidades públicas.
A
melhoria de todos os indicadores de produção científica desde 1988, período de
suposta politização institucional, é indissociável da mudança no perfil dos
estudantes, possível pelas cotas, assim como das lutas democráticas e em defesa
do futuro das universidades públicas pelos sindicatos representativos das
categorias e do movimento estudantil. A correta incorporação da esfera política
nutre há mais de um milênio as instituições universitárias!
Fonte:
Por Roberto Leher, em A Terra é Redonda

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