A
HISTÓRIA DA IGREJA BATISTA DO PINHEIRO: Quando uma comunidade escolhe ser porta
aberta
No
Evangelho de João, Jesus diz: “Eu sou a porta das ovelhas”. A imagem pode
parecer simples, mas carrega uma tensão profunda. Na tradição religiosa do
templo, muitas ovelhas entravam para não mais sair: eram levadas ao sacrifício.
Quando Jesus se apresenta como porta, ele desloca essa lógica. A porta não
existe para aprisionar, controlar ou conduzir à morte. Existe para permitir
entrada e saída, passagem, proteção e encontro com pastagens.
Ser
porta, portanto, não é apenas acolher quem chega. É assumir o risco de não
transformar a fé em cerco. É sustentar uma comunidade onde as pessoas possam
respirar, permanecer, partir, voltar, discernir caminhos e viver sem que seus
corpos, afetos e histórias sejam oferecidos em sacrifício diante de sistemas
religiosos que confundem cuidado com controle.
Desde
2016, a Igreja Batista do Pinheiro, em Maceió, compreende esse chamado como
parte de sua prática pastoral. Naquele ano, depois de um longo processo
comunitário de estudo, oração, debate e amadurecimento, a igreja tornou pública
sua decisão de acolher, batizar e receber pessoas homossexuais como membros de
sua comunidade de fé. A decisão resultou em sua exclusão da Convenção Batista
Brasileira. Para muitos, o gesto apareceu como escândalo. Para a comunidade,
foi consequência de uma caminhada espiritual, bíblica e democrática que já
vinha sendo construída havia anos. Mas talvez só agora, quase uma década
depois, seja possível enxergar alguns dos frutos mais bonitos dessa escolha.
Em
maio, nasceu Martina, filha de Tuane e Érica, casal de mulheres cuja história
se entrelaça profundamente com a trajetória da Igreja Batista do Pinheiro. Em
2021, as duas se casaram em uma cerimônia celebrada pela Igreja, dentro de uma
comunidade que já havia decidido não tratar seus afetos como ameaça ou
divergência à fé. A imagem daquele altar, uma mulher pastora diante de duas
mulheres que se uniam em casamento, circulou pelo país, provocou admiração,
ataques, leituras apressadas e reações violentas.
Houve
ameaça, exposição e medo. Houve também uma comunidade que se colocou como
escudo. Mas a história não terminou naquela imagem.
Ela
continuou no cotidiano silencioso e persistente de uma igreja que acompanhou o
desejo de maternidade de duas mulheres, orou com elas, celebrou a gravidez,
organizou bênçãos, participou do chá de bebê e preparou suas crianças para
receber Martina ao lado de outros bebês que também chegavam à comunidade. O que
em 2021 foi visto por muitos como provocação, hoje se revela como uma
experiência de família, cuidado e vida comunitária.
Esse
deslocamento importa. Porque, muitas vezes, as histórias de comunidades
religiosas que rompem com estruturas de exclusão são contadas apenas pela chave
da ruptura, da polêmica ou da violência. A Igreja Batista do Pinheiro também
conhece essas dimensões. Foi atacada, julgada, expulsa e ameaçada. Contudo, sua
história não pode ser reduzida ao sofrimento que enfrentou. Há nela uma beleza
concreta que precisa ser nomeada: uma comunidade cristã, majoritariamente
formada por famílias heterossexuais, aprendeu a reconhecer uma família composta
por duas mulheres e uma criança não como concessão, mas como parte da vida que
brota quando a fé decide não sacrificar.
Esse é
o ponto fundamental. A Igreja Batista do Pinheiro não nasceu como uma igreja
LGBTQIAPN+. Não se trata de uma comunidade formada apenas por pessoas iguais
entre si ou por quem já chegou pronto a uma mesma compreensão. Sua experiência
é mais complexa e, por isso mesmo, mais reveladora. Ela mostra que comunidades
de fé podem mudar. Podem estudar, discordar, amadurecer, votar, cuidar de quem
chega antes e de quem chega depois, sem abandonar ninguém no caminho. Podem
atravessar conflitos internos sem transformar a diferença em expulsão.
Em
tempos nos quais a religião é frequentemente mobilizada para produzir medo,
exclusão e controle sobre corpos e famílias, essa experiência nos obriga a
fazer uma distinção importante. O problema não é a fé. O problema é um sistema
religioso patriarcal, misógino e LGBTfóbico que se apresenta como se fosse a
totalidade da religião. Um sistema que fala em nome de Deus, mas muitas vezes
opera como o ladrão da parábola, presente no evangelho de João: mata, rouba e
destrói possibilidades de vida, pertencimento e dignidade.
Esse
sistema religioso se alimenta da ideia de que algumas existências precisam ser
corrigidas, silenciadas ou sacrificadas para que a comunidade permaneça pura.
Sob essa lógica, mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, crianças, famílias dissidentes e
corpos que escapam à norma são tratados como risco. A fé deixa de ser linguagem
de cuidado e passa a funcionar como dispositivo de vigilância. No entanto, essa
não é a única forma de viver a religião.
Há
comunidades que leem a Bíblia não para fechar portas, mas para abri-las. Há
experiências pastorais que entendem que proteger a vida não é preservar uma
moldura abstrata de família, mas sustentar concretamente as condições para que
pessoas possam amar, cuidar, gestar, criar filhos, envelhecer, conviver e
existir com dignidade. Há igrejas que descobrem, no próprio caminho de fé, que
incluir não basta. É preciso celebrar.
Essa
passagem da inclusão à celebração talvez seja uma das dimensões mais potentes
da experiência da Igreja Batista do Pinheiro. Em um primeiro momento,
comunidades que rompem com práticas de exclusão costumam dizer: “essas pessoas
também podem estar aqui”. É um passo importante. Mas ainda carrega a marca de
quem concede lugar a alguém que parecia estar fora. Celebrar é diferente.
Celebrar é reconhecer que aquela presença transforma a comunidade para melhor.
É admitir que a diferença não empobrece a fé; amplia sua capacidade de produzir
vida.
Martina
chegou a uma comunidade que já havia feito esse percurso. Antes mesmo de
nascer, sua vida foi celebrada por mulheres evangélicas que oraram pelo desejo
de maternidade de Tuane e Érica. Quando a gravidez aconteceu, foi à comunidade
que as duas recorreram para agradecer. As crianças da igreja também
participaram dessa espera. Em sua escola bíblica, colocaram Martina junto aos
outros bebês que chegavam, aprendendo, com simplicidade, que família não
precisa caber em uma única forma para ser reconhecida como lugar de amor.
Há algo
profundamente pedagógico nessa cena. Crianças aprendendo a ver família não pela
falta, pela ameaça ou pela exceção, mas pela presença, pelo cuidado e pela
alegria. Mulheres crentes abençoando a gestação de duas mulheres. Uma
comunidade acolhendo uma criança não apesar de sua família, mas com sua
família. A teologia, aqui, não aparece como abstração. Ela se torna gesto,
corpo, oração, alimento, festa, escuta e pertencimento.
Por
isso, a história de Martina não é apenas uma história privada. Tampouco deve
ser capturada como curiosidade pública. Ela é sinal de algo maior: quando uma
comunidade de fé decide ser porta, outras possibilidades de vida se tornam
imagináveis.
A
imagem tem força política. Em 2021, a fotografia do casamento de Tuane e Érica
perturbou o imaginário conservador e fundamentalista porque rompia, em um único
enquadramento, várias hierarquias: uma mulher ocupava o altar como pastora;
duas mulheres afirmavam publicamente seu amor; uma igreja batista celebrava uma
união homoafetiva. Aquela imagem desorganizou uma moldura religiosa construída
sobre autoridade masculina, heteronormatividade e controle dos corpos.
Agora,
a chegada de Martina produz outra imagem. Não mais apenas a do altar tensionado
pela cerimônia, mas a de uma família acompanhada por sua comunidade. Uma
família feliz, cuidada, esperada, abençoada. Uma família que não destrói a
ideia de família, mas a amplia, fortalece, renova e pluraliza.
É
preciso insistir nisso porque uma das estratégias mais recorrentes dos
discursos religiosos conservadores é afirmar que o reconhecimento da
diversidade ameaça a família. A experiência da Igreja Batista do Pinheiro
mostra o contrário. A ameaça à família não vem da existência de duas mães, de
uma pastora mulher ou de uma comunidade que celebra a diferença. A ameaça vem
do abandono, da violência, da solidão, da expulsão, da vergonha, do medo, da
recusa em reconhecer vínculos reais de cuidado.
Famílias
são ameaçadas quando pessoas são obrigadas a escolher entre sua fé e sua
dignidade. Quando jovens LGBTQIAPN+ acreditam que Deus os rejeita. Quando
mulheres são ensinadas a suportar violências em silêncio. Quando comunidades
preferem preservar reputações a proteger vidas. Quando a religião se torna mais
comprometida com a manutenção da ordem do que com a libertação de quem sofre.
A
história da Igreja Batista do Pinheiro também fala, portanto, sobre democracia.
Não apenas a democracia das instituições políticas, mas a democracia difícil e
cotidiana das comunidades. A decisão de 2016 não nasceu de um gesto individual
de uma liderança isolada. Ela foi construída em assembleia, em processos
internos, em estudo bíblico-teológico, em escuta e em disputa. Pastores e
pastoras podem chegar antes a determinadas convicções, mas uma comunidade só se
transforma quando encontra formas de caminhar coletivamente, sem abandonar
aqueles que precisam de mais tempo para compreender.
Em um
país marcado pela captura religiosa de debates públicos, por
instrumentalizações eleitorais da fé e pela fabricação permanente de inimigos
morais, essa experiência é especialmente relevante. Ela mostra que religião não
precisa ser sinônimo de fechamento autoritário. Pode ser espaço de elaboração
coletiva, de conflito honesto, de mudança e de responsabilidade.
Ser
porta, nesse sentido, tem custo. Portas abertas incomodam quem lucra com muros.
Comunidades que se recusam a sacrificar pessoas desafiam sistemas inteiros
organizados para decidir quem pode pertencer. A Igreja Batista do Pinheiro
pagou e segue pagando esse preço. Mas também descobriu que a fidelidade ao
Evangelho pode produzir frutos que nenhuma exclusão institucional consegue
apagar.
Talvez
seja essa a imagem que precisamos sustentar neste tempo: uma comunidade à
margem, em Maceió, insistindo em permanecer viva, cambaleante às vezes, ferida
muitas vezes, mas ainda capaz de celebrar. Uma comunidade que não nega a dor,
mas se recusa a fazer da dor sua única narrativa. Uma comunidade que escolhe
contar histórias bonitas não para suavizar a violência, mas para mostrar que a
violência não venceu.
Martina
nasceu dentro dessa história. E sua chegada nos permite olhar novamente para
2016 e 2021 não apenas como episódios de conflito, mas como partes de uma
travessia. O que parecia escândalo era, talvez, uma porta sendo aberta. O que
foi tratado como ameaça era, na verdade, a possibilidade de uma família
florescer. O que muitos quiseram transformar em sacrifício tornou-se pastagem.
Quando
uma comunidade escolhe ser porta, ela não controla todos os caminhos que se
abrirão depois. Apenas decide que a fé não será usada para impedir a vida de
passar.
E, às
vezes, do outro lado dessa porta, nasce uma criança.
Fonte:
Por Andréa Laís e Odja Barros, no Le Monde

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