Em
jogos da seleção na Copa do Mundo, descarga de adrenalina pode impactar o
coração, aponta pesquisa
Um
levantamento realizado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da
USP, em 2014, indicou um aumento de até
16% nas internações por complicações cardíacas durante os jogos da Seleção
Brasileira de Futebol, com a emoção provocada por uma Copa do Mundo podendo
representar um risco real à saúde cardiovascular dos torcedores. O levantamento
considerou os mundiais de 1998 a 2010. Somente no mês da competição, as
internações de pacientes cardíacos crescem 9% nos hospitais do País. Janieire
Nunes, professora do Departamento de Cardiopneumologia da Faculdade de Medicina
da USP, explica como o corpo humano reage a situações de grande tensão
emocional, como uma disputa de pênaltis ou um gol nos minutos finais.
“A
gente tem alguns sistemas reflexos que fazem com que tenhamos essa emoção, um
desses sistemas é chamado de reflexo de luta e fuga, é a mesma sensação que a
gente tem quando andamos na rua e somos surpreendidos com um assalto. A reação
da gente pode ser lutar ou fugir, porque você tem uma descarga adrenérgica
intensa e central, que faz com que você aumente rapidamente essa base de
alimentação no músculo para que a gente dê uma ativação de mecanismos de
contração muscular que sejam eficientes para você ter uma resposta muscular
rápida de se defender ou de lutar. Nesse sentido, quando você está participando
ou assistindo a uma partida de futebol, envolve uma expectativa de você estar
lutando.”
“Essa
descarga adrenérgica em quem tem, por exemplo, um substrato cardíaco já doente
pode levar à arritmia cardíaca aguda, principalmente em idosos com fibrilação
atrial, que é quando o coração bate descompassado com bastante força e uma
frequência muito alta, que pode descompensar agudamente o coração, ou uma
arritmia ventricular, que daí tem um componente muito mais grave, pode ter
desmaio súbito, mal-estar súbito durante um processo de estresse agudo ou
desencadeado, por exemplo, em uma partida de futebol.”
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Sinais de alerta durante os jogos
Janieire
fala sobre sinais de alerta a serem observados, os quais podem indicar uma
complicação cardíaca durante os jogos. “O principal sinal de alerta é quando a
pessoa está vivenciando um processo emocional muito grande durante uma partida
de futebol e ela começa a ter palpitação no coração, ela sente que o coração
está batendo mais forte do que habitualmente. Outro alerta é se ela começa a
sentir uma pressão aumentada na cabeça, como uma dor na nuca, é um aumento da
pressão arterial ocasionado pela descarga adrenérgica. É importante atentar
também à dor e pressão no peito ou nas costas não habituais, sintomas
gastrointestinais, mal-estar, náusea ou angústia durante o processo de euforia
do futebol.”
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A importância do futebol na sociedade
Flávio
de Campos, professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador científico do Núcleo
Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens),
explica as razões para o futebol ocupar um lugar tão importante na sociedade.
“Todas as formações sociais, desde a pré-história, elaboraram jogos,
modalidades lúdicas e, a partir do século 19, você tem o aparecimento dos
esportes. Se você observar, cada sociedade tem um esporte que, de certa
maneira, se constitui como principal. Fazendo um contraponto ao Brasil, os
Estados Unidos têm o basquete, o beisebol e o futebol americano como
principais.”
“Essas
modalidades têm significados que representam determinados aspectos da cultura
de uma determinada formação social. O futebol é a modalidade esportiva mais
importante do planeta, um elemento fundamental da cultura em vários países. No
caso do Brasil, o futebol tem três aspectos de construção de identidade: o
primeiro é a identidade masculina, o futebol se construiu no Brasil como um
índice de masculinidade violenta e machista. O segundo índice de identidade é o
clubista e a fidelidade a um determinado clube de futebol; mais acentuada entre
meninos desde o nascimento, é prática recorrente de receber presentes do time,
fazendo uma espécie de batismo futebolístico. Com as meninas também, em menor
grau, devido à exclusão inicial por causa da identidade masculina. O terceiro
elemento é o pertencimento à nação. As seleções nacionais são representações,
elas não são símbolos nacionais, mas elas simbolizam a nação. Então o terceiro
nível de representação de identidade passa por essa representação internacional”,
explica Campos.
O
professor argumenta que a construção da identidade nacional brasileira teve o
futebol como um de seus pilares fundamentais. “Esses três níveis são
importantes para a gente identificar a importância que o futebol vai ter em
países como o Brasil, Argentina, Itália, França e outros. No caso do Brasil, o
futebol surge como uma prática esportiva da elite no final do século 19 e
início do século 20, mas ele é tomado pelos setores populares, de maneira que
você tem, de fato, uma disputa do ponto de vista da prática esportiva e do
tempo que tem passado desse futebol com o que acaba se constituindo numa
somatória identitária. No começo do século 20, o Brasil tinha uma população de
ex-escravizados e de imigrantes estrangeiros, uma população enorme de
analfabetos e pelo menos metade da população de mulheres, toda essa população
não tinha representação política e, portanto, a relação com o País era uma
relação muito distante. Nessa época, ocorre uma coisa interessante. O Brasil
venceu dois torneios importantes da época, que são os dois sul-americanos de
1919 e 1922. E, a partir disso, o futebol foi se constituindo como um certo
elemento de unidade, de representação simbólica.”
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As diferentes formas de torcer
Campos
explica que o ato de torcer é diferente para cada pessoa, às vezes mais ou
menos intenso. “O torcer não é único, mesmo o torcer por um clube é diferente.
Mesmo dentro das torcidas organizadas, há vários tipos de torcidas organizadas
que se diferenciam, há os torcedores não organizados, os de ocasião e outros.
Há também uma diferenciação no torcer pela seleção de formas diversas. Desde
aquele que acompanha as convocações e as discussões até aquela pessoa que gosta
mesmo é da festa, de reunir pessoas etc. Nessas diversas formas de torcer,
vemos alguns torcedores que têm uma vinculação muito maior com o seu clube e
não com a seleção brasileira ou vice-versa.”
“No
caso brasileiro, nestes últimos 20 anos, nós temos uma discussão política e
ideológica em torno da representação simbólica, existe um sequestro da seleção
brasileira por parte de grupos de extrema-direita. Isso é um processo iniciado
em 2013, com as Jornadas de Junho, que se acentuou a cada eleição e culminou no
impeachment da presidente Dilma e na eleição de Bolsonaro. A camiseta da
seleção brasileira cria um ruído que ela não criava tempos atrás, há uma
tensão. Olhar para as formas de torcer por isso, e olhar para as formas de
torcer pela seleção, é olhar, sobretudo, para a diferenciação”, explica o
professor.
Fonte:
Por Gabriel Albuquerque – Jornal da USP

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