Da
Olimpíada nazista à Copa dos EUA, a neutralidade do esporte volta a encobrir
violência
Acompanho
o futebol durante quase toda a minha vida. Não apenas como torcedor, mas também
como pesquisador. Em 1981, defendi no Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Social da UNICAMP a dissertação “Os Gaviões da Fiel e a Águia do Capitalismo ou
O Duelo”, considerada o primeiro mestrado acadêmico realizado no Brasil sobre
uma torcida organizada. Naquele trabalho, procurei compreender o futebol como
fenômeno social, cultural e político, muito além das quatro linhas do campo.
Naquela
época, o futebol e o esporte em geral ainda não eram considerados temas
“sérios” por boa parte da academia brasileira. Muitos viam essas manifestações
como assuntos menores, indignos da atenção das ciências sociais. A consolidação
da sociologia e da antropologia do esporte no Brasil só ocorreria anos mais
tarde, graças ao trabalho de diversos pesquisadores que demonstraram como o
futebol expressa conflitos sociais, identidades coletivas, disputas políticas,
interesses econômicos e visões de mundo. Hoje isso parece evidente. Há quarenta
e cinco anos, não era.
Talvez
por isso seja impossível assistir aos acontecimentos que cercam a Copa do Mundo
de 2026 sem uma profunda sensação de desconforto. Ao longo de décadas estudando
política e sociedade, aprendi que o futebol nunca esteve isolado das disputas
de poder. Governos, interesses econômicos, conflitos internacionais e projetos
ideológicos sempre encontraram no esporte um espaço privilegiado de projeção e
influência. O que muda são as circunstâncias históricas e o grau de
visibilidade dessas interferências.
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Futebol, poder e política
A
história do esporte internacional oferece inúmeros exemplos dessa relação entre
competição esportiva e poder político. As grandes competições foram
frequentemente utilizadas como instrumentos de projeção de prestígio nacional,
afirmação ideológica e disputa simbólica entre Estados. As Olimpíadas de
Berlim, em 1936, realizadas sob o regime nazista, permanecem como um dos
exemplos mais conhecidos dessa instrumentalização política do esporte. Décadas
depois, os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, ofereceriam outro exemplo
dramático e doloroso da profunda imbricação entre esporte e política.
O
sequestro e assassinato de onze atletas israelenses por integrantes da
organização palestina Setembro Negro chocou o mundo e transformou uma
celebração esportiva em palco de uma tragédia geopolítica de repercussão
global. O episódio demonstrou de forma brutal que os conflitos internacionais
não ficam necessariamente do lado de fora dos estádios e das vilas olímpicas.
Eles podem atravessar seus portões e ocupar o centro da cena mundial.
Essa
relação é ainda mais intensa no futebol. Nenhuma outra modalidade mobiliza
simultaneamente tantos sentimentos, tantas identidades coletivas, tantos
recursos econômicos e tantos interesses políticos. O futebol movimenta bilhões
de espectadores e bilhões de dólares em todos os continentes. Chefes de Estado,
governos, corporações globais, organismos internacionais e grupos econômicos
disputam permanentemeseleçnte sua influência sobre esse gigantesco espetáculo
planetário.
Justamente
por isso, exige das entidades esportivas, dos governos e das organizações
internacionais um compromisso ainda maior com critérios transparentes,
universais e coerentes. O peso político do futebol pode explicar muitas
decisões. Não pode justificá-las quando são marcadas pela discricionariedade.
Tampouco pode servir de desculpa para a omissão de governos democráticos e de
federações nacionais que, diante de situações semelhantes, adotam posições
radicalmente diferentes conforme os interesses estratégicos dos atores
envolvidos.
Por
essa razão, a Copa de 2026 corre o risco de entrar para a história como a Copa
da Vergonha.
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O Irã diante das portas fechadas
Realizada
conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México, a competição acontece sob a
sombra da escalada militar no Oriente Médio. Os Estados Unidos participaram de
ações militares contra o Irã e continuam oferecendo apoio político, diplomático
e militar às operações de Israel em Gaza e no Líbano. Nesse contexto, uma das
seleções classificadas para o Mundial passou a enfrentar obstáculos impostos
justamente por um dos países-sede da competição.
Os
fatos são conhecidos. Integrantes da delegação iraniana tiveram dificuldades
para obter autorização de entrada nos Estados Unidos. Dirigentes da Federação
Iraniana de Futebol foram impedidos de ingressar no país e precisaram retornar
ao Irã, desfalcando a estrutura administrativa e técnica da seleção. As
autoridades norte-americanas também impuseram restrições especiais à
permanência da delegação iraniana em território estadunidense.
Não se
trata de uma questão burocrática qualquer. Trata-se de uma situação que
compromete o princípio da igualdade de condições entre os participantes de uma
competição internacional.
Outras
delegações também foram atingidas por procedimentos incomuns. O atacante
iraquiano Aymen Hussein foi submetido a cerca de sete horas de interrogatório
ao desembarcar nos Estados Unidos para participar do torneio. Um fotógrafo da
delegação iraquiana teve sua entrada negada após longo período de
questionamentos. Episódios como esses demonstram que a política externa e as
tensões geopolíticas estão interferindo diretamente no ambiente esportivo da
competição.
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O silêncio da FIFA
Até
agora, a FIFA não apresentou uma resposta pública compatível com a gravidade
desses acontecimentos. A entidade que frequentemente se apresenta como guardiã
da universalidade do futebol parece aceitar passivamente situações que afetam o
tratamento isonômico das seleções participantes.
O
silêncio da FIFA torna inevitável uma comparação com o tratamento dispensado à
Rússia após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. Naquele momento, FIFA e
UEFA suspenderam rapidamente as seleções e os clubes russos de suas
competições. A Rússia foi excluída da Copa do Mundo do Catar e de diversos
torneios internacionais. O Comitê Olímpico Internacional recomendou o
afastamento de atletas e dirigentes russos das competições esportivas
internacionais, desencadeando uma ampla rede de sanções esportivas.
As
justificativas eram conhecidas: a defesa dos valores do esporte, da paz
internacional e dos direitos humanos.
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Dois pesos e duas medidas
A
questão que se coloca hoje não é a defesa da Rússia nem a reivindicação de
novas punições. A questão é a coerência.
Se a
comunidade esportiva internacional considera legítimo adotar sanções em
determinados conflitos, por que critérios semelhantes não são sequer discutidos
quando os Estados Unidos e Israel estão envolvidos em ações militares que
provocam milhares de mortes, destruição de cidades inteiras e forte condenação
por parte de organismos internacionais e de amplos setores da opinião pública
mundial?
A
resposta parece desconfortável. Há agressões que despertam imediata indignação
internacional. E há massacres — alguns deles denunciados por amplos setores da
comunidade internacional como práticas genocidas — que continuam sendo tratados
com complacência, silêncio ou justificativas diplomáticas.
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A omissão das democracias
O
problema não está apenas nas decisões das entidades esportivas. Está também no
silêncio dos governos e das federações nacionais. Até o momento, nenhum
movimento relevante de boicote foi organizado. Nenhuma pressão significativa
foi exercida sobre a FIFA. Nenhuma mobilização coletiva surgiu para questionar
as restrições impostas à seleção iraniana.
A
história do esporte oferece exemplos distintos. Durante décadas, o regime do
apartheid na África do Sul foi alvo de isolamento esportivo internacional.
Naquele caso, compreendeu-se que a neutralidade era impossível diante de uma
injustiça tão evidente.
Hoje,
porém, a neutralidade parece ter sido substituída pela seletividade.
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Uma questão moral
A Copa
segue seu curso. Os patrocinadores continuam seus negócios. As transmissões
alcançam bilhões de espectadores. Os dirigentes fazem discursos sobre
integração entre os povos. Mas a realidade insiste em invadir os gramados.
Por
isso, esta pode ser chamada de Copa da Vergonha.
Vergonha
pela normalização da guerra.
Vergonha
pelo silêncio das instituições esportivas.
Vergonha
pela aplicação desigual dos critérios políticos.
Vergonha
pela omissão dos governos democráticos diante de situações que, em outros
contextos, seriam objeto de indignação e sanções.
Vergonha
pela ausência de solidariedade internacional.
Vergonha
porque uma seleção participante enfrenta restrições impostas por um país-sede
sem que isso provoque uma reação à altura por parte das autoridades do futebol
mundial.
O
futebol continua sendo uma das mais importantes expressões culturais do
planeta. Justamente por isso, não pode servir de cortina para ocultar
injustiças nem para naturalizar práticas que seriam condenadas em outras
circunstâncias. Quando a política invade os gramados para restringir direitos
de alguns e preservar privilégios de outros, a questão deixa de ser apenas
esportiva.
Passa a
ser moral.
Fonte:
Por Benedito Tadeu Cesar, na Rede Estação Democracia

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