Combater
o cristofascismo é uma necessidade civilizatória
Na
década de 70, a teóloga alemã Dorothee Solle criou o conceito cristofascismo
para definir a fusão do fundamentalismo cristão com práticas autoritárias e de
extrema direita. Falecida em 2003, Dorothee se mostrou visionária em relação ao
que aconteceria décadas depois.
Se
ainda estivesse entre nós, a estudiosa certamente se exasperaria com a
utilização em larga escala da fé religiosa como instrumento de proselitismo e
ação política por parte dos fascistas. A intelectual adotaria também como
objeto de estudo o processo que levou expressivos contingentes da população a
abraçar teses de um obscurantismo medieval.
Não sou
sociólogo e tampouco tenho formação em teologia, apenas um cidadão atento ao
seu tempo. Por isso, de forma
preliminar, acho fundamental fazer uma distinção entre os evangélicos
tradicionais, como batistas, luteranos, metodistas e presbiterianos, e os
neopetencostais que tomaram conta das favelas e bairros populares das
periferias dos grandes centros urbanos brasileiros.
Os
evangélicos oriundos da reforma protestante são, em geral, conservadores nos
costumes, mas se dividem quanto ao alinhamento político-ideológico., embora a
maior parte deles se incline à direita.
Já as
denominações neopetencostais têm sua doutrina baseada no dinheiro, professando
a tal "teologia da prosperidade, uma excrescência em si, já que Cristo
nasceu e morreu pobre e dedicou sua vida à redenção dos desvalidos.
Igrejas
como a Assembleia de Deus e Universal do Reino de Deus, dentre outras, possuem
projetos de poder político e priorizam a ocupação de espaços nos poderes da
República. Com esse propósito, marcam presença notável nos meios de
comunicação.
Sem
cometer o erro infantil da generalização, mas o fato é que a grande maioria de
seus bispos e pastores enchem as burras de dinheiro por meio da exploração da
fé alheia, em geral gente humilde que tem seus parcos recursos sugados pelos
mercadores da fé, na forma de pagamento de dízimos.
Contudo,
virou moda nos setores progressistas a disseminação de uma espécie de
sentimento de culpa pela relação com os evangélicos. Isso se expressa no
discurso segundo o qual a responsabilidade pela forte rejeição da esquerda no
segmento evangélico deve-se a preconceitos e erros de abordagem dos próprios
militantes e lideranças da esquerda brasileira.
Pode
ser que haja pouca paciência para aturar a visão de mundo retrógada e
reacionária dos evangélicos, além de sua submissão a políticos da mais baixa
extração.
Mas
esse não é o cerne da questão.
Ora, se
o neopetencostalismo não é solidário ao sofrimento dos pobres e miseráveis; se
nega o vergonhoso racismo estrutural; se não se revolta com as injustiças, os
preconceitos e as violências sofridas pelas mulheres; se menospreza a luta dos
povos originários pela sobrevivência; se nenhuma luta coletiva dos
trabalhadores por melhores salários e condições de trabalho lhe diz diz
respeito; se desrespeita a liberdade religiosa, atacando as religiões de matriz
africana; se é tolerante e conivente com os crimes praticados pela extrema
direita; se rejeita a população LGBTQIA+ e se considera que criança estuprada
não tem o direito de interromper a gravidez, qual seria o tipo de diálogo
possível com quem professa uma crença contrária aos direitos humanos mais elementares?
Claro
que não se deve fechar as portas para a conversa, mas chamo a atenção para a
complexidade do problema, que não será resolvido com uma mera decisão da
esquerda de se aproximar e tentar dialogar.
Esses
brasileiros pobres em sua imensa maioria precisam dos programas sociais, de
saúde e educação de qualidade, além de políticas de geração de emprego e renda,
para que tenham uma vida digna. É gente trabalhadora e que cuida da família.
Mas não
pode haver condescendência no que se refere às causas que defendem, que merecem
ser combatidas com vigor em nome das conquistas civilizatórias da humanidade.
De
resto, só um longo processo educacional de qualidade, e ao alcance de todos,
que desperte o senso crítico em um número maior de pessoas, será capaz de
reverter o quadro atual em que dezenas de milhões de brasileiros são levados
por questões de fé religiosa a assumirem posições políticas que só pioram suas
vidas.
Fonte:
Por Bepe Damasco, em Brasil 247

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