Paulo
Artaxo: Emergência climática exigirá que Brasil repense sua estratégia
econômica, incluindo o agronegócio
No dia
5 de junho foi celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente. Institucionalizada
pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1972, a data nasceu para que nações
e sociedades reflitam sobre a preservação ambiental e a realidade do planeta.
Para o físico Paulo Artaxo, essa reflexão, mesmo incentivada por mais de 50
anos, segue insuficiente. Um dos principais nomes que encabeçam estudos acerca
da emergência climática atual, Artaxo afirma que a preservação ambiental ainda
não é uma preocupação de governos, e o Brasil não está preparado para o aumento
na intensidade de eventos climáticos extremos.
“Com as
atuais taxas de emissões de gás de efeito estufa, o que nós observamos é que
estamos levando o planeta para um aquecimento médio global de 2,8°C. No caso do
Brasil, por conta da sua posição tropical e por suas dimensões continentais,
esse aumento de temperatura deve ser da ordem de 3,5°C a 4°C. Então, nós
podemos imaginar o impacto que isso vai ter na população de cidades como
Teresina, Palmas, Cuiabá, Manaus, Belém e toda a região Nordeste, a região
central brasileira. Além de gerar impactos econômicos muito grandes, em
particular sobre a produtividade do agronegócio brasileiro e, com isso, levar o
País a ter que repensar toda a sua estratégia econômica já nas próximas
décadas, ressalta.
Físico,
professor titular do Departamento de Física Aplicada da Universidade de São
Paulo (USP) e ex-vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência (SBPC), Artaxo é também parte do IPCC (Painel Intergovernamental sobre
Mudanças Climáticas da ONU) no Brasil. Os seus estudos e análises sobre o
cenário global vêm ganhando destaque nos últimos anos. Em 2026, o pesquisador
foi agraciado com o Planet Earth Award 2026, premiação da Aliança Global de
Cientistas (AWS – Alliance of World Scientists, da sigla original em inglês)
que reconhece lideranças científicas cuja trajetória combina excelência
acadêmica, engajamento público e contribuição efetiva para o enfrentamento da
crise ambiental global. Neste mesmo ano, Artaxo também recebeu Menção de Louvor
pelos seus trabalhos na Câmara dos Deputados.
Apesar
do reconhecimento, Artaxo gostaria que os estudos originassem mais políticas.
No caso específico do Brasil, o especialista defende duas medidas urgentes: o
fim do desmatamento na Amazônia – o que o País se comprometeu a realizar até
2030 –, e o fim da exploração de combustíveis fósseis. “Estamos observando
várias iniciativas para desenhar o mapa do caminho de como podemos
descarbonizar toda a economia do planeta, para que a gente possa livrar a
população do risco enorme que é o aquecimento global a um nível que pode se
tornar insuportável para a nossa população”, complementa.
O
Brasil é um dos países que vêm ganhando protagonismo nos debates ambientais
globais. Um exemplo desse protagonismo foi ter sediado a 30ª Conferência das
Partes sobre as Mudanças Climáticas em 2025, a COP30. Na época, a comunidade
científica destacou como positivo o fato de o evento transformar a Amazônia em
sede dos debates sobre políticas ambientais. Entretanto, a COP30 encerrou
excluindo temas importantes de seus relatórios finais, como o fim do uso de
combustíveis fósseis, o que mostrou que os diagnósticos científicos seguem
sendo excluídos pelas nações.
Artaxo,
à época, apontou que um dos problemas é que a gestão da ONU é conduzida por
consensos, e não por ampla maioria. Ou seja, basta um país ser contra uma
decisão, que ela é excluída dos debates globais, um cenário grave que segue até
os dias atuais.
“Não há
dúvida hoje de que temos sérios problemas de governança global, não só na
COP30, não só no Acordo de Paris, mas na verdade isso extrapola com o
enfraquecimento das Organização das Nações Unidas como um todo, em todos os
seus organismos. Por exemplo, isso está em curso hoje na Unesco (Organização
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) por conta das grandes
potências. Isso é um problema enorme, porque sem uma atuação conjunta de todos
os 196 países signatários do Protocolo de Kyoto, dificilmente será possível
costurar uma solução para a questão das mudanças climáticas. Isso ficou muito
claro na COP30 e, além dessa questão, temos também o forte lobby da indústria
do petróleo, que basicamente impede os governantes de vários países de tomarem
decisões em favor da sua população.”
No meio
da tensão política, a ONU segue pressionando os países para que eles se
comprometam com os efeitos das mudanças climáticas. No dia 20 de maio, a
Assembleia Geral da ONU declarou, em resolução, que os Estados têm o dever de
combater a crise climática. Segundo Artaxo, tal determinação acompanha
diagnósticos do Fórum Econômico Mundial, de painéis de cientistas, e de
articulações de centenas de organizações governamentais, que defendem que a
questão das mudanças climáticas tem que ser prioridade dos governos.
“É
fundamental essa decisão da Corte Internacional de Justiça, do qual o Brasil é
um dos signatários. Portanto, eu espero que isso seja mais um passo para que o
governo brasileiro, em todos os níveis – federal, estadual e municipal –
implemente medidas, não só para combater as mudanças climáticas, mas também
para se adaptar ao novo clima, já que todas as nossas cidades e a nossa
economia precisam se adaptar ao clima que já mudou e vai continuar mudando no
futuro.”
O
alerta de Artaxo não é em vão. Além da ausência de políticas, algumas regiões
tomam decisões contrárias aos apontamentos científicos e colocam a população
mais em risco. Um dos casos é a cidade de São Paulo, onde a substituição da
vegetação por materiais como asfalto, concreto e alvenaria vem agravando o
aquecimento. Como resultado, a temperatura do município aumenta mais do que a
média global.
Como
apontou um debate realizado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de São Paulo), enquanto a temperatura média global subiu aproximadamente
1,2°C desde 1900, e a da superfície terrestre, 2°C, conforme dados do IPCC, em
São Paulo a máxima diária, que ocorre em torno das 13h, já cresceu 2,4°C, e a
temperatura mínima diária, registrada normalmente às 6h, teve um aumento de
2,8°C.
Essa
realidade se agrava ao pensar em possíveis tragédias que podem vir num futuro
próximo. Para pesquisadores da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados
Unidos (NOAA), existe 90% de chance de o planeta receber um novo El Niño no
segundo semestre deste ano, o que deve afetar as temperaturas e o clima no
Brasil.
“É
possível que ele seja um super El Niño, como se tem noticiado, ou que seja um
El Niño, digamos assim, forte ou típico. Isso não sabemos ainda, só vamos ter
conhecimento dessa questão perto de julho ou agosto. Mas isso não importa, o
que importa é que o Brasil tem que se preparar muito melhor para a ocorrência
de eventos climáticos extremos que estão aumentando de intensidade e estão
aumentando de frequência”, alerta Artaxo.
O
pesquisador complementa que este novo El Niño está sendo intensificado por uma
temperatura da superfície dos oceanos muito mais alta do que tínhamos há 40, 50
ou 100 anos atrás, o que pode gerar mais impactos no Brasil.
“Podemos
ter novamente grandes enchentes no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.
Podemos ter secas importantes na Amazônia com o aumento da incidência de
queimadas. Podemos intensificar o processo de seca e de desertificação do
Nordeste brasileiro e termos mais ondas de calor na região Sudeste do Brasil.
Portanto, o País tem que se preparar, preparar suas defesas civis para proteger
a sua população desse El Niño que pode vir a ser muito forte, mas independente
disso, temos que reforçar a resiliência da população aos eventos climáticos
extremos.”
Artaxo
complementa que o Brasil é um dos países onde a questão do aquecimento global e
da proteção do meio ambiente encontra um consenso muito forte, em geral com
mais de 80, 85% da população brasileira favorável à questão em pesquisas. “O
que nos falta é um sistema de governança que possa fazer com que esse
sentimento de urgência climática se transforme em políticas públicas”, pontua.
O
cenário político e seu descompasso com a Ciência, inclusive, é uma das
preocupações de Artaxo. Segundo dados da organização Ranking dos Políticos,
para cada R$ 1 investido em pesquisa científica, o Estado brasileiro repassa
outros R$ 3,05 para o sistema partidário. Ou seja, um fomento do dinheiro
público três vezes maior e que, ainda, carece de olhar às necessidades da
população.
“É
muito importante que nas próximas eleições possamos efetivamente eleger
representantes do povo no Congresso Nacional que se preocupem com o bem-estar
da nossa população e não somente com o lucro de alguns setores que eles estão
representando. Portanto, a gente precisa, o mais urgente possível, não que a
gente tenha somente a bancada do agronegócio, a bancada da bala, a bancada do
petróleo, mas também a bancada do povo, ou seja, representantes no Congresso
Nacional que efetivamente possam defender os interesses da população
brasileira, o que certamente não está ocorrendo atualmente”, conclui.
• Super-ricos causam dano desproporcional
ao clima, diz estudo
Um
grupo reduzido de super-ricos provoca um dano climático desproporcional,
impulsionado por propriedades e investimentos altamente poluentes, somados a
estilos de vida intensivos em carbono. É o que diz um relatório do Greenpeace
publicado nesta semana, que retrata a crise climática como "cada vez mais
também uma crise de concentração extrema de riqueza".
O
estudo estima que, em 2022, o 1% mais rico do mundo foi responsável por 41% de
todas as emissões associadas à propriedade de ativos, ou seja, aquelas geradas
pelas empresas e investimentos que possuem. Em comparação, o mesmo grupo foi
responsável por cerca de 16,5% das emissões baseadas no consumo.
"Quando
falamos de responsabilidade climática, também falamos de possíveis fontes de
financiamento público e de como os custos relacionados à mudança climática são
distribuídos", afirmou Clara Thompson, responsável por campanhas de
justiça climática e fiscal do Greenpeace, a jornalistas.
Em
2022, o custo dos danos climáticos associados aos investimentos dos 0,01% mais
ricos do mundo foi de 992 bilhões de dólares, no cálculo da organização. Já o
seu consumo teria causado danos estimados em 405 bilhões de dólares.
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Correlação já estabelecida
Outras
organizações e pesquisadores já identificaram a correlação entre concentração
de riqueza e impacto climático. No ano passado, a Oxfam reportou que uma pessoa
do 0,1% mais rico do mundo produz, em média, maior poluição em carbono por dia
(800 quilos diários) do que uma pessoa dos 50% mais pobres ao longo de um ano
todo (dois quilos diários).
Para
manter o aquecimento global dentro do limite de 1,5°C em relação aos níveis
pré-industriais, conforme prevê o Acordo de Paris, o 1% mais rico do mundo
precisaria cortar as emissões per capita em 99% até 2030, segundo a
organização.
Já
pesquisadores do Instituto Internacional para Análises de Sistemas Aplicados,
na Áustria, calcularam que os 10% mais ricos do mundo provocaram dois terços do
aquecimento global de 1990 a 2025.
Diante
de um crescente debate sobre a necessidade de financiamento para proteger o
clima, o Greenpeace sugere que taxar os danos climáticos associados às emissões
derivadas da propriedade de ativos dos 0,01% mais ricos poderia contribuir
"significativamente" para cobrir as necessidades dos países em
desenvolvimento, estimadas em pelo menos 1 trilhão de dólares anuais.
Fonte:
Por Rafael Revadam, no Jornal da Ciência/DW Brasil

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