Mulheres
indígenas são alvos da violência e omissão
Em
novembro de 2020, repercutiu no país o assassinato por violência sexual da
menina indígena Ana Beatriz Rayol de Souza, de 5 anos, dentro de seu próprio
território, na Terra Indígena Andirá Marau, do povo Sateré-Mawé, localizada nos
municípios de Barreirinha e Maués, no Amazonas. A exposição cotidiana de
mulheres e meninas indígenas aos casos de estupros, abusos, agressões e
feminicídios faz parte de uma realidade que atravessa os territórios em
diferentes regiões brasileiras, com atenção alarmante para o Norte: a violência
continua crescendo, muitas vezes sob a ótica da omissão.
Naquele
mesmo ano, mas em dezembro, Myriwekwde Karajá, do povo Iny Karajá, foi vítima
de violência física no estado do Tocantins. Aos 36 anos, ela foi espancada pelo
marido, também indígena, sofrendo politraumatismo e hemorragia interna. Após
passar por internações em dois hospitais de cidades diferentes, Myriwekwde
morreu, em janeiro de 2021, vítima de feminicídio.
Em
2023, o assassinato da adolescente Maria Clara Batista, de 15 anos, do povo
Karipuna, também repercutiu. Ela foi vítima fatal de violência sexual por um
pescador não-indígena, no município de Oiapoque, município do extremo norte do
Amapá.
No ano
seguinte, veio o alerta: a taxa de homicídios entre indígenas no Brasil foi de
24,6 por 100 mil habitantes, 22% superior à média nacional, segundo dados do
Atlas da Violência 2026. Ao mesmo tempo, os registros de violência sexual
contra mulheres e meninas indígenas cresceram de forma expressiva e acelerada
na última década, evidênciamdo que os assassinatos delas não são casos
isolados.
Entre
2014 e 2024, as notificações desse tipo de violência passaram de 115 para 669
em todo o país, um crescimento de 481% em apenas 11 anos, segundo o
levantamento elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e
pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Já a
violência física, uma das formas mais recorrentes de agressão contra mulheres
indígenas, saltou de 359 casos registrados em 2014 para 1.330 em 2024, um
aumento de cerca de 270%.
Cleocimara
Reis Gomes, ativista do povo Piratapuia e coordenadora geral do Departamento de
Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN), vinculado à Federação das Organizações
Indígenas do Rio Negro (Foirn), explica que a recorrente vitimização de
mulheres indígenas encontra solo fértil na persistência de processos coloniais
que as tornam vulneráveis em seus próprios territórios.
Invasões
de terras, exploração predatória de recursos naturais e a presença do crime
organizado em áreas remotas que carecem de proteção estatal estão entre os
fatores que impulsionam o aumento da violência na Amazônia Legal, que inclui os
estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
Além da
violência doméstica, mulheres e meninas indígenas convivem com a entrada de
garimpeiros, madeireiros, pescadores e caçadores ilegais nos territórios, o que
amplia as violações contra seus corpos e vidas, especialmente em regiões
transfronteiriças.
“É um
impacto forte dentro do território para a população indígena e principalmente
para as mulheres, que sofrem mais. O garimpo impacta, o narcotráfico impacta
com certeza. É preocupante, por causa do assédio e da violência sexual. Também
existe a preocupação do uso do mercúrio no garimpo e outras ferramentas que são
utilizadas para poluir o meio ambiente”, declarou Cleocimara à Amazônia Real.
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Realidade brutal
Segundo
Marinete Tukano, liderança indígena e atual Coordenadora-Geral da União das
Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMIAB), a precariedade na educação e
na saúde, somada às dificuldades econômicas das comunidades e à falta de
fortalecimento da autonomia financeira das mulheres, amplia ainda mais a
vulnerabilidade e o avanço da violência nos territórios.
“Tem um
ponto chave no aumento da violência contra as mulheres indígenas dentro do
território, que tem muito a ver com a questão financeira e com a questão da
saúde e da educação. Acaba tendo essa fragilidade da educação não qualificada,
da saúde também não qualificada [nas comunidades]. E com isso cresce a
violência dentro dos territórios indígenas”, avaliou
Há seis
anos, as mulheres do movimento indígena já haviam alertado para o aumento das
violências contra as indígenas na região amazônica. O Projeto Mulheres
Indígenas, Gênero e Violência no Rio Negro, elaborado em 2020 pelo DMIRN,
indicou como no Amazonas a violência avançou nos municípios de Barcelos, Santa
Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira, na região do Alto Rio Negro, no
Amazonas. Na área vivem indígenas de 23 povos.
Em um
episódio mais recente, em janeiro de 2025, o assassinato da indígena Rosimar
Santos de Oliveira, do povo Baré, comoveu o município de Barcelos, também no
Amazonas, onde está localizado parte da Terra Indígena Yanomami. Rosimar foi
vítima fatal de um estupro coletivo cometido por homens indígenas do povo
Yanomami. Foi a primeira vez que houve registro de crime de estupro coletivo
entre povos indígenas, assim como também foi inédito o registro de violência de
gênero por parte de indígenas Yanomami em contexto urbano ou dentro dos
territórios.
Apesar
da mudança brusca nos dados de violência sexual, que, segundo os pesquisadores
do Atlas da Violência 2026, pode indicar tanto a ampliação dos casos quanto uma
melhora na capacidade de registro e denúncia, a pesquisa indica que os mais de
600 casos de estupro registrados em 2024 apontam para um agravamento
qualitativo da violência, com maior incidência de formas mais graves e
invasivas de agressão.
A
violência sexual contra contra uma adolescente indígena do povo Kulina, de 12
anos, chocou as mulheres do movimento indígena do Amazonas em novembro de 2025.
Ela foi vítima de estupro coletivo na comunidade Mapiranga no município de
Juruá, interior do Amazonas. Segundo a Polícia Civil, ao menos oito
adolescentes, todos do mesmo povo, já foram identificados como suspeitos de
envolvimento no caso.
Antes,
em janeiro de 2024, Raimundo Nonato Oliveira, tuxaua do povo Mura da aldeia
Muratuba, na região do Lago do Acará, em Autazes, interior do Amazonas, foi
preso pelo crime de estupro de
vulnerável recorrente contra quatro mulheres Mura, inclusive uma criança de
oito anos. As vítimas pediram proteção, alegando correrem risco de vida na
comunidade.
No
mesmo mês daquele ano, a Secretaria Municipal de Segurança Pública de Benjamin
Constant, na região da tríplice fronteira – Brasil, Colômbia e Peru no Alto
Solimões, no Amazonas, localizou os corpos de uma mãe, de 28 anos, e do filho,
de 4 anos, ambos indígenas do povo Tikuna de nacionalidade colombiana. A mulher
tinha marcas de tiros no corpo e a criança teve o pescoço degolado.
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Crimes subnotificados
Com
base em registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan),
do Ministério da Saúde, o Atlas da Violência 2026 aponta o crescimento contínuo
da violência contra mulheres indígenas ao longo da série histórica, com
oscilações entre 2020 e 2021, possivelmente associadas aos impactos da pandemia
de Covid-19, à intensificação da vulnerabilidade das vítimas e às dificuldades
de notificação dos crimes naquele período. Nos anos seguintes, os registros
voltaram a crescer de forma acelerada.
Nesse
sentido, a violência contra as mulheres e meninas indígenas não se limita à
dimensão física, porque envolve ainda múltiplas formas de violação, entre elas
a negligência e a violência psicológica. Embora os números absolutos de
negligência e violência psicológica sejam menores, a pesquisa indicou
crescimento dos registros entre 2014 e 2024.
A
negligência, causada pela falta ou ausência de cuidados com meninas e mulheres,
passou de 21 para 168 casos, enquanto a violência psicológica cresceu de 23
para 155. Esses tipos de violência são historicamente subnotificados, o que
sugere que seu aumento pode refletir, além de maior ocorrência, uma expansão
das categorias de reconhecimento institucional da violência.
Denunciar
casos de violência continua sendo uma das principais barreiras enfrentadas por
mulheres indígenas na Amazônia brasileira. Distâncias geográficas, acesso
limitado aos serviços públicos e a ausência de estruturas preparadas para
atender as especificidades dos povos indígenas contribuem para que muitos casos
permaneçam invisíveis aos sistemas oficiais de proteção e justiça.
A
liderança Marinete Tukano também chama atenção para situações em que a vítima é
retirada de sua comunidade para garantir sua segurança, enquanto o autor da
violência permanece circulando livremente na aldeia ou no município. Na
avaliação da coordenadora da UMIAB, essa dinâmica acaba penalizando as mulheres
e se repete não apenas entre indígenas, mas também entre ribeirinhas,
quilombolas e mulheres periféricas da Amazônia.
“Tem
comunidades e aldeias que não tem nem acesso nem pelo rio e nem por via
terrestre, somente por via aérea. Temos também um sistema de segurança pública
ainda inapto e falho para os povos indígenas, justamente porque não tem essa
sensibilidade cultural e linguística que possa atender essas vítimas das
violências”, explicou.
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Desprotegidas
Diante
da escalada da violência e da falta de proteção por parte do Estado, as
mulheres do Alto Rio Negro se mobilizam para ocupar espaços de incidência
política do movimento indígena, participando de eventos centrais como o
Acampamento Terra Livre (ATL) e a Marcha das Mulheres Indígenas, organizada
pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade
(ANMIGA). O objetivo é conseguir apoio para que as mulheres rionegrinas tenham
condições de acolhimento e proteção em seus territórios.
“Em
2024 entregamos uma carta aos Ministérios reivindicando a construção de uma
casa de acolhimento para a mulher indígena dentro do rio Negro. São sonhos e
reivindicações que continuamos defendendo, porque o Departamento de Mulheres
recebe mulheres em situação de vulnerabilidade”, explicou Cleocimara Reis.
Segundo
a liderança, o departamento busca ajudar as mulheres indígenas vítimas de
violência melhor forma possível, mas ainda enfrenta limitações estruturais.
“Não temos um lugar próprio, um espaço adequado para receber ou dar assistência
a essas mulheres dentro da Foirn. Então, tentamos fazer esse diálogo com CRAS
[Centro de Referência de Assistência Social], delegacia e outros órgãos”.
As
lideranças indígenas têm discutido também mecanismos de proteção para garantir
a segurança das mulheres indígenas tanto nos territórios demarcados quanto nas
áreas urbanas da Amazônia. Uma dessas reivindicações é a criação de delegacias
e estruturas especializadas para atender mulheres indígenas vítimas de
violência.
“Não se
trata de favoritismo, mas de um atendimento específico que respeite a cultura e
a oralidade de cada povo, garantindo sensibilidade desde o momento em que a
denúncia é acolhida nas delegacias. Nós precisamos de delegacias nos municípios
que sejam qualificadas, com equipes técnicas sensibilizadas para as realidades
indígenas, além da contratação de intérpretes indígenas, especialmente
mulheres, para auxiliar no atendimento e no registro das denúncias”,
complementou Marinete Tukano.
Para
tentar frear o avanço da violência contra as mulheres no Alto Rio Negro, o
DMIRN lançou, em novembro de 2024, o livreto “Cuidados e prevenção no
enfrentamento à violência contra mulheres no Rio Negro”, material informativo
construído a partir de diálogos e reflexões sobre gênero e violências ocorridas
entre as mulheres rionegrinas dos vários povos da região.
A
publicação foi organizada pelo DMIRN em parceria com o Programa Rio Negro do
Instituto Socioambiental (ISA) e a Faculdade de Saúde Pública da Universidade
de São Paulo (USP), e traz uma caracterização das violências contra as mulheres
a nível local, em seus territórios.
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Resposta estatal
Para
Marinete Tukano, o enfrentamento à violência contra mulheres indígenas passa
pela atuação conjunta da sociedade civil e do Estado, com a criação de
protocolos de proteção adaptados às realidades de cada povo e território e
oficinas de sensibilização de homens. Isso inclui os Planos de Gestão
Territorial e Ambiental (PGTAs), além de políticas públicas voltadas para as
mulheres indígenas que vivem em contextos urbanos.
“Tem
que trabalhar uma segurança pública diferenciada para as mulheres que moram
dentro dos territórios demarcados, inclusive com atenção máxima para as
mulheres que são de territórios transfronteiriços e territórios que estão sendo
invadidos diariamente. Isso tudo para poder combater o narcotráfico, combater o
tráfico humano, combater o alcoolismo e diversos fatores que estão prejudicando
as crianças, os anciãos, as mulheres e os homens nesse processo todo”,
ressaltou.
Em
abril deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou três
leis que ampliam a proteção às mulheres e reforçam o combate à violência
doméstica e familiar, com medidas específicas voltadas às mulheres indígenas.
O
pacote inclui a obrigatoriedade de monitoramento eletrônico de agressores, a
tipificação do homicídio vicário como crime hediondo e a criação do Dia
Nacional de Proteção e Combate à Violência contra Mulheres e Meninas Indígenas,
a partir do Projeto de Lei nº 102/2023, de autoria da deputada federal indígena
Célia Xakriabá (PSOL/MG).
Agora
celebrado anualmente em 5 de setembro, data que já marca o Dia Internacional da
Mulher Indígena, o Dia Nacional de Proteção e Combate à Violência contra
Mulheres e Meninas Indígenas busca incentivar a criação de políticas públicas
específicas, fortalecer mecanismos de proteção e ampliar a visibilidade das
pautas indígenas na promoção e garantia de direitos.
“Nós
sabemos que as mulheres indígenas sofrem violência desde 1500. Quando mata uma
mulher indígena, é mais do que feminicídio, é etnocídio, por conta das nossas
identidades. Quem mata mulher indígena, mata a terra”, afirmou a deputada na
ocasião.
Outra
iniciativa voltada à proteção estatal das mulheres indígenas são as Casas da
Mulher Indígena (CAMIs), projeto do Ministério das Mulheres, firmado em 2023,
para oferecer serviço especializado da rede de atendimento às mulheres em
situação de violência, de acordo com as peculiaridades dos territórios
indígenas e das diversas formas de violência que as atingem.
As
novas leis e as CAMIs estão alinhadas ao Pacto Brasil contra o Feminicídio
(Decreto nº 12.839/2026), que reúne os Três Poderes da República – Executivo,
Legislativo e Judiciário – para a adoção de ações de enfrentamento do
feminicídio e para a garantia da vida de mulheres e meninas brasileiras.
Fonte:
Por Nicoly Ambrosio, da Amazônia Real

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