Rússia
lança ofensiva econômica em Cuba e desafia estratégia de isolamento dos EUA
A
Rússia anunciou uma nova etapa de sua cooperação econômica com Cuba. Durante o Fórum Econômico
Internacional de São Petersburgo (SPIEF), realizado entre 3 e 6 de junho, o
vice-primeiro-ministro russo Dmitri Chernyshenko afirmou que
empresas russas estão prontas para investir em projetos de longo prazo na ilha,
ampliando sua presença em setores considerados estratégicos para a economia
cubana.
A
declaração foi feita durante o painel “Rússia-Cuba: cooperação em condições
turbulentas. Investimentos, turismo e tecnologias”, título que, por si só,
revela o contexto em que a aproximação ocorre: de um lado, Cuba enfrenta uma
das fases mais difíceis de sua crise econômica; de outro, Moscou busca
aprofundar relações com parceiros do Sul Global em meio ao prolongado confronto
geopolítico com o Ocidente.
Diferentemente
de anúncios genéricos frequentemente feitos em encontros diplomáticos, as
declarações apresentadas em São Petersburgo vieram acompanhadas de setores
prioritários, projetos em andamento e interesses empresariais já identificados.
Energia, alimentos, transporte, mineração, turismo, saúde, biofarmacêutica,
infraestrutura e tecnologia aparecem no centro da estratégia russo-cubana.
A
questão central não é se houve um anúncio. Houve. A pergunta relevante é outra:
até que ponto essa nova ofensiva econômica russa pode ajudar Cuba a enfrentar o
bloqueio econômico dos Estados Unidos e aliviar gargalos históricos da economia
da ilha?
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O que a Rússia anunciou concretamente
A
afirmação mais importante partiu do próprio Chernyshenko.
Segundo
a agência estatal russa RIA Novosti, o vice-primeiro-ministro
declarou que empresas russas continuam ampliando sua presença em Cuba e estão
dispostas a investir recursos em projetos de longo prazo, apesar do que chamou
de “pressão externa”. A informação foi reproduzida por veículos econômicos
russos e posteriormente repercutida pela imprensa cubana.
O
anúncio não veio acompanhado de um valor agregado de investimentos nem de uma
lista completa de contratos assinados. Ainda assim, as declarações foram além
da retórica diplomática.
As
autoridades russas identificaram áreas específicas para expansão dos negócios:
- energia e
combustíveis;
- agroindústria;
- mineração;
- infraestrutura;
- turismo;
- transporte;
- saúde;
- indústria
biofarmacêutica;
- tecnologia da
informação;
- cibersegurança;
- telemedicina;
- automação
empresarial.
O
governo cubano, por sua vez, respondeu oferecendo oportunidades de investimento
e incentivos para empresas russas interessadas em atuar nesses setores.
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Alimentos: 90 empresas russas querem entrar no mercado cubano
O setor
mais avançado das negociações parece ser justamente o mais sensível para
Havana: o abastecimento alimentar.
Segundo
informações divulgadas por veículos russos especializados e reproduzidas pela
imprensa cubana, cerca de 90 empresas russas manifestaram interesse em exportar
alimentos para Cuba.
A lista
inclui:
- carnes;
- produtos
lácteos;
- pescado;
- trigo;
- derivados
agrícolas.
Também
existem discussões envolvendo processamento de trigo, produção de farinha e
fabricação de rações para animais.
O tema
não é secundário.
Cuba
importa uma parcela significativa dos alimentos consumidos pela população e
sofre há anos com dificuldades para obter as divisas necessárias ao
financiamento de compras internacionais. O bloqueio econômico dos Estados
Unidos agrava o problema ao restringir operações bancárias, elevar custos de
transporte e dificultar transações financeiras.
Nesse
contexto, garantir fornecedores estáveis tornou-se uma questão de segurança
nacional.
Mais
importante ainda é que a proposta russa não se limita à venda de mercadorias.
Parte das discussões envolve a instalação de capacidades produtivas e de
processamento local, algo que poderia reduzir a dependência cubana das
importações no médio prazo.
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Energia: o setor capaz de produzir impacto imediato
Se a
questão alimentar é estratégica, a energética talvez seja a mais urgente.
Nos
últimos anos, Cuba enfrentou sucessivas crises elétricas, com apagões
prolongados afetando residências, hospitais, escolas e indústrias.
Por
isso, a energia aparece como prioridade absoluta nas conversas entre Havana e
Moscou.
Oscar Pérez-Oliva
Fraga,
vice-primeiro-ministro cubano e ministro do Comércio Exterior e Investimento
Estrangeiro, afirmou durante o encontro que Cuba está aberta a investimentos
russos em geração elétrica, distribuição de energia, eficiência energética e
fontes renováveis.
O
dirigente cubano também mencionou oportunidades relacionadas a refinarias e à
comercialização de combustíveis.
A
cooperação energética não começou agora.
Em
abril deste ano, durante reunião da Comissão Intergovernamental Rússia-Cuba, os
dois países já haviam discutido iniciativas voltadas à recuperação da produção
petrolífera em Boca de Jaruco, um dos principais campos de petróleo do país.
Na
mesma ocasião, autoridades cubanas destacaram a chegada de embarcações russas
transportando petróleo para a ilha, em um momento de forte escassez energética.
Caso os
projetos anunciados avancem, esse poderá ser o setor com maior capacidade de
produzir resultados concretos no curto prazo.
Menos
apagões significam maior produtividade industrial, funcionamento mais estável
dos serviços públicos e redução de um dos principais focos de insatisfação
social da população cubana.
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Transporte: Moskvich, KamAZ e o retorno da indústria automotiva russa
Outro
anúncio concreto envolve o setor de transportes.
Fontes
russas informaram que Moscou transferirá 50 automóveis Moskvich para a frota de
táxis de Havana. Além disso, autoridades russas citaram o fornecimento de
veículos das marcas GAZ, UAZ, KamAZ e Lada.
Embora
50 veículos estejam longe de resolver os problemas estruturais da mobilidade
cubana, o significado político e econômico da medida vai além dos números.
A
presença crescente de fabricantes russos indica a reabertura de canais
comerciais que haviam sido reduzidos após o colapso da União Soviética.
Mais
relevante ainda é a possibilidade de retomada da montagem local de veículos e
equipamentos, tema já discutido anteriormente pelas autoridades dos dois
países.
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Tecnologia, cibersegurança e soberania digital
Um dos
aspectos menos comentados dos anúncios feitos em São Petersburgo envolve
tecnologia.
Empresas
russas demonstraram interesse em fornecer soluções para:
- tecnologia da
informação;
- cibersegurança;
- telemedicina;
- automação
empresarial;
- digitalização de
processos.
Embora
esses temas recebam menos atenção do que energia ou alimentos, eles têm
importância crescente para países submetidos a sanções econômicas.
Nos
últimos anos, Washington transformou instrumentos financeiros, sistemas de
pagamento e plataformas tecnológicas em mecanismos de pressão geopolítica. Para
países como Cuba, reduzir a dependência dessas estruturas passou a ser uma
questão de soberania.
Nesse
sentido, a cooperação tecnológica com a Rússia busca criar alternativas ao
ecossistema dominado por empresas ocidentais.
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Mariel e a disputa pelas rotas comerciais
Outro
elemento relevante da aproximação envolve logística e comércio internacional.
Autoridades
ligadas à União Econômica Eurasiática confirmaram discussões sobre o uso
da Zona Especial de
Desenvolvimento de Mariel como plataforma para integração entre países do
bloco eurasiático, a América Latina e o Caribe.
Mariel
ocupa posição estratégica na costa norte de Cuba e há anos é visto pelo governo
cubano como peça-chave para atrair investimentos externos.
A ideia
é transformar o porto em um centro logístico capaz de conectar novos fluxos
comerciais fora da órbita tradicional dos Estados Unidos.
Embora
o projeto ainda enfrente obstáculos financeiros e operacionais, sua inclusão
nas negociações revela que Moscou não está pensando apenas em exportar produtos
para Cuba. O objetivo parece envolver a construção de corredores econômicos
mais amplos.
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Por que isso acontece agora
Os
anúncios russos não ocorreram em um vácuo político.
No
início de junho, o governo dos Estados Unidos ampliou sanções contra entidades
ligadas ao Estado cubano, incluindo organizações associadas aos setores militar
e de segurança.
Paralelamente,
instituições financeiras internacionais passaram a reduzir operações na ilha.
Empresas estrangeiras dos setores de hotelaria, transporte e serviços
financeiros também vêm diminuindo sua exposição ao mercado cubano por receio de
punições estadunidenses.
É nesse
espaço que a Rússia busca avançar.
Durante
o próprio fórum em São Petersburgo, representantes cubanos argumentaram que a
retirada de empresas ocidentais cria oportunidades para investidores russos
ocuparem setores anteriormente dominados por concorrentes europeus e
estadunidenses.
Em
outras palavras, aquilo que Washington apresenta como isolamento de Cuba está
sendo interpretado por Moscou como abertura de mercado.
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Entre o anúncio e a realidade
A
narrativa mais entusiasmada sobre o encontro fala em um “giro definitivo” para
a economia cubana.
Os
documentos e declarações disponíveis, contudo, não permitem chegar tão longe.
O que
está comprovado é a existência de um esforço coordenado para ampliar a presença
econômica russa em Cuba. Estão confirmados os interesses empresariais, as
negociações setoriais e alguns projetos concretos em áreas como energia,
transporte e alimentos.
O que
ainda não existe é um pacote fechado de investimentos com valores globais
definidos, cronogramas públicos detalhados e contratos amplamente divulgados.
A
diferença é importante.
A
história econômica latino-americana está repleta de anúncios grandiosos que
nunca saíram do papel. Também está cheia de projetos inicialmente modestos que
acabaram produzindo transformações profundas.
No caso
cubano, o impacto dependerá menos das declarações feitas em São Petersburgo e
mais da capacidade de converter intenções políticas em infraestrutura,
produção, abastecimento e geração de energia.
Ainda
assim, o significado geopolítico do movimento já é evidente.
Em um
momento em que Washington amplia sua pressão econômica sobre Havana, Moscou
anuncia justamente o contrário: mais investimentos, mais comércio e maior
presença estratégica na ilha.
O que
está em disputa não é apenas a recuperação de setores da economia cubana. O
avanço russo na ilha faz parte de uma disputa geopolítica mais ampla sobre quem
ocupará os espaços abertos pelo enfraquecimento da ordem internacional
unipolar. Nesse tabuleiro, Cuba volta a assumir um papel estratégico muito além
de seu tamanho econômico.
¨
Sob Trump, confiança de europeus nos EUA nunca foi tão
baixa
Desde a
volta de Donald Trump à Casa Branca,
a confiança da Europa nos Estados Unidos vem caindo
acentuadamente e, de acordo com uma nova pesquisa, atinge agora uma baixa
histórica. Apenas 11% dos europeus em 15 países enxergam no país um aliado,
mostram dados divulgados nesta quarta-feira (10/06) pelo Conselho Europeu de
Relações Exteriores (ECFR).
O mesmo
índice era de 16% há seis meses e, em novembro de 2024, quando o republicano
venceu a corrida presidencial americana pela segunda vez, de 22%.
O
levantamento do ECFR mostra que os europeus "abraçam a autossuficiência e
têm uma visão clara sobre Donald Trump", embora não esperem que a relação
desmorone completamente diante dos atuais desafios.
A
maioria dos entrevistados não acredita que os EUA defenderiam a Europa em caso
de ataque, mas prevê uma melhora das relações transatlânticas quando Trump
deixar o cargo.
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Tensões no segundo mandato
No
segundo mandato, Trump impôs tarifas a países europeus e ameaçou retirar os EUA
da Organização do Tratado do Atlântico
Norte (Otan),
por considerar insuficientes os seus gastos com defesa e o seu apoio à guerra contra o Irã.
O
republicano também repetidamente sinalizou a intenção de assumir o controle
da Groenlândia, que integra a
Dinamarca, membro da Otan e da União Europeia (UE).
No mês
passado, os EUA disseram que começariam
a retirar tropas estacionadas na Alemanha, em meio a uma disputa entre Trump
e Friedrich Merz. O chanceler federal
alemão havia declarado que os EUA
estavam sendo "humilhados" pelo Irã.
No
Fórum Econômico Mundial, em Davos, quando chegavam ao auge as ameaças de Trump
sobre a Groenlândia, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen,
associou o enfraquecimento dos laços com os EUA à "necessidade de
construir uma nova forma de independência europeia".
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Visões sobre a Ucrânia
O
presidente dos EUA também tem repetidamente atribuído à Ucrânia parte da
responsabilidade pela invasão russa e buscado relações mais próximas com o
presidente russo, Vladimir Putin.
A
pesquisa constatou ainda que a maioria dos europeus apoia a Ucrânia, mas
demonstra cautela quanto à sua eventual adesão à UE e ao envio de
tropas para participar da guerra contra a Rússia.
Já no
setor energético, a maior parte dos entrevistados reconhece que o continente
enfrenta uma crise, mas "permanece firmemente contrária às importações de
combustíveis fósseis russos", segundo o levantamento.
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Mais gastos com defesa
Em
comparação com o ano passado, os europeus estão 4% mais propensos a apoiar
o aumento dos gastos com defesa. Além disso, quase
metade (47%) dos entrevistados disse apoiar o endividamento coletivo da UE para
financiar projetos do setor.
Os
entrevistados apoiam majoritariamente também a redução da dependência europeia
de armamentos dos EUA em favor da indústria militar europeia.
A
pesquisa, realizada em maio de 2026, ouviu adultos na Áustria, Bulgária,
Dinamarca, Estônia, França, Alemanha, Hungria, Itália, Holanda, Polônia,
Portugal, Espanha, Suécia, Suíça e Reino Unido.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/DW Brasil

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