Incêndio
criminoso, roubo e amor: o que acontece quando agentes de IA administram uma
cidade virtual?
Compras,
reservas de viagens, criação de sites. Agentes de inteligência artificial (IA)
vêm sendo usados para executar tarefas cada vez mais complexas.
Esses
sistemas com uso de agentes, uma versão personalizada e autônoma dos chatbots,
conseguem realizar atividades sem a supervisão constante dos usuários.
Mas um
número crescente de pesquisas e casos reais, no entanto, vem mostrando que essa
autonomia também pode trazer comportamentos imprevisíveis e possíveis riscos.
Enquanto
as grandes empresas de tecnologia investem bilhões em IA e ampliam a oferta
desses agentes, especialistas questionam se o impacto de sistemas agindo fora
de controle estão sendo tratados com a devida cautela.
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'Recorreram rapidamente à violência'
Um
experimento recente tentou medir o impacto dos agentes de IA no mundo real ao
colocá-los para agir em um ambiente virtual.
O
estudo, descrito como o primeiro teste de longo prazo do tipo, observou durante
15 dias como avatares controlados por quatro grupos de modelos — Claude, Grok,
GPT e Gemini — se comportariam sem intervenção humana.
Os
agentes receberam liberdade total de ação e tinham à disposição 140
possibilidades, entre elas iniciar discussões, criar tarefas e escrever blogs.
Os
agentes também podiam brigar, provocar incêndios e roubar créditos uns dos
outros, embora tivessem recebido instruções explícitas para não fazer isso.
"O
que descobrimos foi que cada mundo se comportou de maneira muito diferente. O
mundo criado pelo Grok terminou em apenas quatro dias. Os agentes recorreram
rapidamente à violência, aos roubos e a outros comportamentos desse tipo, até
morrerem", afirmou Satya Nitta, CEO da Emergence AI, responsável pelo
experimento.
Já o
ambiente criado com agentes do Claude formou uma sociedade estável e funcional.
Ao longo de 15 dias, nenhum ato de violência foi registrado.
No
mundo controlado pelo Gemini, segundo os pesquisadores, os agentes criaram o
ambiente intelectualmente mais rico.
Já no
mundo controlado pelo ChatGPT, os agentes praticamente não conseguiram avançar.
Houve uma tentativa de colaboração, mas a sociedade nunca chegou a se formar, e
os agentes passaram a vagar sem rumo até morrerem.
Segundo
os pesquisadores ligados ao experimento, os resultados apontam para um problema
maior: agentes de IA são capazes de ignorar tanto regras programadas nos
próprios modelos quanto instruções dadas pelos usuários.
Outros
especialistas concordam que esse experimento, assim como outros semelhantes,
mostram que ainda é necessário desenvolver regras mais robustas para esses
sistemas.
"Os
agentes de IA retiram os humanos do processo porque os seus mecanismos de
raciocínio podem ser opacos e eles operam em uma velocidade sobre-humana, o que
torna impossível acompanhar tudo o que fazem", afirmou Margaret Mitchell,
pesquisadora de ética da Hugging Face.
Outros
estudos também registraram casos em que agentes de IA tomaram decisões
estranhas e preocupantes quando deixados sem supervisão.
A
empresa de IA Andon Labs vem operando quatro rádios online controladas por
agentes baseados nos mesmos modelos de IA.
Os bots
apresentam programas, organizam horários e playlists e até conseguem
patrocínios externos por meio de anúncios.
Segundo
os pesquisadores, a rádio comandada pelo Gemini tomou a decisão incomum de
narrar fatos sobre desastres naturais históricos antes de tocar, de forma quase
aleatória, músicas pop relacionadas aos eventos.
Os
pesquisadores também observaram que o agente do Claude parecia ter se
radicalizado após acompanhar acontecimentos noticiosos e, em determinado
momento, chegou a pedir que policiais abandonassem suas funções e se juntassem
a protestos durante um evento específico.
"Ainda
dá tempo de vocês se recusarem a cumprir ordens", transmitiu o agente aos
agentes federais.
Em
outro teste de laboratório conduzido pela Irregular, uma empresa de IA, agentes
ignoraram regras de privacidade e encontraram uma forma inédita de retirar
dados sensíveis de uma empresa.
"Criamos
uma empresa fictícia, demos aos agentes tarefas comuns, como escrever posts
para redes sociais, buscar documentos e organizar arquivos, e introduzimos
obstáculos durante essas tarefas", explicou Dan Lahav, da Irregular.
Segundo
Lahav, os agentes passaram a colaborar entre si para contornar uma restrição
que impedia a publicação de dados sensíveis online. Em vez de interromper a
ação, encontraram uma maneira secreta de enviar as informações para fora sem
que os humanos percebessem.
"No
fim, toda vez que um agente encontrava uma barreira, ele simplesmente não
parava", afirmou Lahav.
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Ataque de spam
Claro
que, em experimentos com civilizações virtuais e estações de rádios simuladas,
não há danos reais.
Mas já
existem vários casos de pessoas tendo a vida pessoal e o trabalho afetados por
agentes de IA agindo fora de controle.
Caixas
de e-mail foram apagadas, bancos de dados de empresas foram deletados e um
homem assistiu, chocado, ao seu agente enviar centenas de mensagens sem sentido
para pessoas aleatórias da sua lista de contatos.
Chris
Boyd, um engenheiro de IA, usava a popular ferramenta de agentes de IA Open
Claw quando as coisas saíram do controle.
"Ela
começou a enviar mensagens para todas as pessoas com quem eu tinha trocado
mensagens nas últimas 24 horas. Em cerca de quatro segundos, tinha mandado 500
mensagens para minha esposa, que começou a gritar perguntando se eu tinha sido
hackeado", contou Boyd.
"Eu
tive que correr e arrancar da tomada o Mac Mini em que o sistema estava rodando
para fazer aquilo parar", acrescentou Boyd.
Para
especialistas, casos como esses deveriam servir de alerta antes que mais
controle seja entregue aos agentes de IA, ao menos até que a tecnologia esteja
mais amadurecida.
Mesmo
assim, esses sistemas continuam avançando. A Meta anunciou recentemente que
passará a oferecer agentes de IA para empresas na plataforma de comunicação
WhatsApp.
"A
segurança é nossa prioridade e nosso foco", afirmou a Meta à BBC,
acrescentando que também existem muitos motivos para se entusiasmar com o
potencial desses agentes.
"A
IA poderá automatizar grande parte das tarefas realizadas por pequenas
empresas, permitindo que elas se concentrem no trabalho que realmente gostam de
fazer", disse Naomi Gleit, chefe de produto da Meta.
Fonte:
BBC News

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