sexta-feira, 12 de junho de 2026

Murilo Rocha Souto Maior: Capital, dívida e tempo

Recentemente, autores e militantes levantam questionamentos sobre a possibilidade da reeleição do Presidente Lula, para seu quarto turno, partindo de distintas análises sobre o balanço econômico do governo. Ao longo de muito tempo, nas ciências políticas, compreende-se a importância do fator inflação para disputas políticas institucionais de grande porte, principalmente, para chefes de Estado. Nos Estados Unidos, por exemplo, o impacto inflacionário pré-eleição, foi uma das, senão a principal causa para a rejeição ao Bideneconomics, favorecendo a eleição de Donald Trump. O salto de uma taxa de 1%, quando assumiu, para uma taxa de 3%, quando deixa o cargo, passando por taxas elevadíssimas para o padrão estadunidense, como de 9%, resultaram no recuo político de uma ampla parcela do eleitorado, para setores mais reacionários e fascistas. Ocasionado pela diminuição do poder de compra e da qualidade de vida, que se misturam em uma cultura baseada no consumo. O que fomentou a possibilidade de crédito político para setores da extrema direita no país, em razão da promessa de um dia como ficou no passado, o retorno a uma memória ainda fresca, que não se concretiza no presente, o Make America Great Again, principal slogan da campanha fascista de Trump, mobiliza sentimentos, esperanças e afetos, principalmente com as frações da população mais deslocadas e pauperizadas, que não conseguem sustentar a mesma dinâmica de consumo e de vida, como no passado.

Esse cenário não se restringe aos Estados Unidos, mas perpassa uma dinâmica política crescente em todo mundo, principalmente na periferia do capital, como em países latino-americano-caribenhos, cuja subserviência ao centro do capital, implica na coordenação de movimentos políticos fascistas em momentos similares, caso que aconteceu na Argentina e Chile recentemente, por exemplo. O que não justifica qualquer tipo de causalidade, de forma que a política esteja submetida ao movimento inflacionário, mas demonstra, que existe uma conexão direta, sendo um fator, extremamente, pertinente para pensar os rumos políticos. No caso brasileiro, ao contrário, as recentes pesquisas que apontam para perspectivas eleitorais na disputa de 2026, todavia, podem demonstrar que outros critérios estão começando a ganhar mais espaço na escolha política, do que o inflacionário.

O aspecto inflacionário foi alvo de comentários constantes debates ao longo de todo governo Lula III, setores mais à esquerda que o governo, colocavam em debate não a inflação total, que estava normalizada para os padrões do governo de Jair Bolsonaro, 4,56% (Jan/2025) em comparação à 10,54% (Jan/2022). Todavia, no mesmo período, observando apenas a inflação sobre os alimentos temos 7% (2025), contra 9,12% (2022), que demonstra uma menor diferença, significativa, entre os percentuais inflacionários entre os governos. Múltiplos fatores podem ser levados em consideração para compreender o que responde essa questão, a baixa do estoque de grãos, por exemplo, foi um fator determinante para o governo não agir para controlar o preço das commodities no mercado, o que foi esvaziado ao longo do Governo Bolsonaro, mas que, simultaneamente, não possui prioridade para o Governo Lula, para estar na pauta da ordem do dia. A explosão dos conflitos mundiais, em importadores desses alimentos e exportadores de petróleo, a eleição de Trump, com a implementação de tarifas econômicas para os produtos brasileiros, também dificultaram tanto a importação de maquinários, quanto a exportação e produção dessas mercadorias, afetando toda a cadeia produtiva. Apesar dessas diferentes explicações e do que foi ou deixou de ser feito pelo governo, importante dar atenção à avaliação da população, que recebe os reflexos da postura governamental. Nota-se, justamente, que o período inicial de 2025, quando a inflação do preço dos alimentos atinge seu auge, com relativa, estabilização do índice inflacionário, a avaliação do Governo atinge os níveis mais baixos desde sua reeleição, não apenas com baixa da aprovação, como com alta da reprovação.

O importante, neste momento, na realidade é observar que, mesmo mantendo índices econômicos – aparentes – estáveis, a percepção da população sobre o governo é negativa. A partir desse panorama de 2025, o governo passa a realizar medidas para reduzir a inflação dos alimentos, aumentando crédito agrícola e financiamentos para o setor agrário, ainda que questionáveis e problemáticos, o que diminui, significativamente, o índice inflacionário sobre os alimentos, que sai de 7,44% (Jul/2025) para 1,76% (Fev/2026). Sob a tentativa de reverter o índice de desaprovação, aumentando o índice de aprovação, algo que não aconteceu, no mesmo salto que a inflação sobre os alimentos, visto que a aprovação aumentou de 43% (Jul/2025) para 45% (Fev/2026), com uma maior diminuição da rejeição de 53% (Jul/2025) para 49% (Fev/2026). O que não chega, nem próximo, dos patamares do início do governo, em que a aprovação contava com 54% (Ago/2023) contra 42% de desaprovação (Ago/2023). Poder-se-ia afirmar que os efeitos inflacionários sobre os alimentos ainda não foram sentidos pela população, o que seria justo de ser compreender, todavia não se confirma pela alteração dos índices de aprovação do governo. O que se verifica é a diminuição substantiva da rejeição, mas esses não passam a aprovar o governo, ao contrário, mantém-se como “Não sabem”. Apesar do movimento contrário, como ocorrido no início de 2025, disparou, desproporcionalmente, o índice de reprovação sobre o de aprovação. Ou seja, o governo possui ampla facilidade em perder apoiadores, mas imensa dificuldade de recuperá-los.

Algumas hipóteses podem emergir, como a falta de comunicação do governo, seguindo a máxima: “a prática é o critério da verdade”. Caso, as ideias colocadas por essa hipótese se coloquem verdadeiras, deveria ter havido alguma mudança significativa, o movimento de mudança sobre a percepção sobre o governo teria sido outro no início deste ano, com o retorno dos apoiadores, visto que, desde o começo do impacto da baixa inflacionária sobre os alimentos, um dos setores com maior investimento do governo foi a comunicação. Fornecendo, inclusive, verbas adicionais às Big Techs, que apoiaram e agiram para a eleição de Trump, sobre outros sistemas de comunicação. Assim, se confirma, que a comunicação não é o fator central, nem o único fator que estrutura a dificuldade de o governo aumentar sua aprovação ao longo do tempo, a ideia não se concretiza na prática real. Partindo-se da ideia de que a comunicação não poderia ter efeito tão imenso sobre a realidade do governo, outra hipótese que surge sobre o fenômeno é que existe outro aspecto, ainda não muito observado que teria tamanho impacto sobre a avaliação do governo, quanto a inflação. Analisar a sociedade, a política e a realidade não é simples tarefa, ao contrário, como parte de qualquer pensamento, que se propõem ao debate, deve haver diálogo, disputa e desavenças.

A partir das hipóteses colocadas, pretendo dialogar com alguns autores para compreender o aspecto da dívida como algo fundamental de se compreender o tempo presente, ou melhor, o tempo passado e o tempo futuro. Compreender a centralidade do crédito e do endividamento no atual processo eleitoral é, ao final do dia, compreender a relevância do poder de compra e qualidade de vida na decisão do eleitorado no voto. Mas mais que a influência sobre o voto, a dívida e o poder de compra, também, modificam as formas de ser da realidade cotidiana. Robert Kurz, ao longo de sua obra, demonstra a forma como a dinâmica da expansão dos mercados e da privatização de espaços, modifica as múltiplas relações da vida cotidiana, a partir da comercialização, dentre outros atributos, do lazer, o que expressa, em outras palavras, a máxima marxiana, compreendida pelos processos de alienação e fetichização, que analisam a forma como a sociedade baseada na exploração de classes estrutura, não apenas uma forma de troca, como uma própria concepção de ser, uma própria razão-instrumental, nas palavras dos frankfurtianos.

Que a relação tempo-sujeito, na sociedade contemporânea, modificou isso é incontestável, ter 15, 20, 30, 40 anos hoje não é o mesmo, cultural e simbolicamente, que no século XIX-XX, por exemplo. Além disso, temos os maiores índices de ansiedade, que tendem a crescer cada vez mais, uma patologia psíquica que retraça uma dinâmica social-temporal distinta nos indivíduos. Uma dinâmica de conviver no presente, enquanto se analisa o futuro, partindo do passado, um amontoado de pensamentos e de questões colocadas que evocam a incerteza do tempo presente, baseada nas possibilidades, múltiplas, do tempo futuro. A sublimação da fração financeira do capital, a partir da expansão do crédito, as novas dinâmicas digitais e o avanço produtivo do capital financeiro agravam, ainda mais, esse movimento de destruição da temporalidade, construindo uma relação destrutiva com o tempo, de forma que a negação é sempre presente, se nega o tempo presente, em detrimento de pensar o futuro, a partir do passado, assim, o hoje se torna ontem em apenas algumas horas, e as dimensões das distâncias entre o ontem, hoje e amanhã são diluídas. A produtividade do capital financeiro empurra isso, a partir do momento, que a métrica avaliada de resultado é com garantia de rendimentos para o próximo período, não convenientemente, é comum que empresas de médio/grande porte, realizem previsões métricas de resultado palpável, de 3, 4, 5 e até 6 anos para frente. A produtividade, as métricas, o resultado, sempre almejam uma manutenção produtiva do futuro, ou seja, se pensa, de todo modo, no setor financeiro, os arranjos futuros sobre o presente, para que se concerte o passado.

O presente é deslocado de seu eixo transformativo, dando espaço para um futuro que ainda não aconteceu, sobre uma leitura mecânica de um passado que não é compreendido como força-motriz. O tempo, assim, é comprimido às mínimas frações possíveis para que se possa, de todo modo, garantir o resultado a prazo, seja em 1 mês, ou 10 anos. A percepção sobre a realidade temporal acaba sendo flagelada pela dinâmica de produtividade exacerbada no cotidiano do trabalho, que incitam uma condição de subjugação subjetiva do sujeito para com seu próprio trabalho, de forma tal que a condicionante da percepção sobre o tempo é colocada à mercê da produtividade. Em uma reunião de um grupo de estudos escutei que “2023, para o mercado, para a Faria Lima, foi ontem”, toda essa construção epistemológica gira em torno desse movimento analítico que compreende que a temporalidade foi dissolvida, a partir das relações de mercado, alicerçadas, dentre outros quesitos, pela expansão do crédito. Que, também, é fomentador da compressão do tempo, de forma que a preocupação do hoje é de conseguir realizar a liberação de uma dívida emitida para uma finalidade passada, se vive o presente em razão de um futuro que existe por conta do passado. Assim, o que vive sobre a dívida, nada mais está do que em um movimento de colapso-temporal, em que o hoje é submetido para o amanhã, em razão do ontem. A expansão do capital financeiro, como Robert Kurz coloca, incita uma nova relação dinâmica dos sujeitos com a própria sociedade, de forma que laços de socialização são remodelados e dinâmicas políticas são adaptadas para se estruturarem, a partir de outras formas, voltadas para a ampliação da reprodução e a expansão do próprio mercado. Com o avanço tecnológico, após os anos 1950/1960, a dinâmica de aceleração da produção alavancou, imensamente, seu ritmo.

O desenvolvimento tecnológico recente, ano após ano, acelera, ainda mais o ritmo da expansão produtiva do mercado, de forma tal que, como mesmo expressada na frase que motiva o presente texto, 2023 se torna um ontem, apesar de termos passado 3 anos de distância, os saltos tecnológicos, a expansão do mercado financeiro e as dinâmicas de crédito, acabam por comprimir o tecido temporal da sociedade, de forma que o lastro ano, mês, dia, hora, minuto, segundo, não possuem mais efeito suficiente para provocar qualquer tipo de afecção em nós no tempo presente. Muitos, ainda, se surpreendem ao compreender que o período pandêmico foi encerrado há 4 anos, em 2022, com o fim das medidas restritivas de isolamento social. Como Karl Marx desenvolve, ao longo do livro O capital, existe um imperativo que se coloca superior ao do capital, que é a dinâmica biofisiológica do ser humano, tal como a dinâmica biológica da própria natureza, o dia se encerra com o pôr do Sol e começa com o nascer do Sol. Dentro de um ciclo solar, nosso corpo, ao longo de todo processo evolutivo, se estruturou a descansar, por cerca de 8 horas diárias.

Apesar de parecer um devaneio distante da realidade concreta, o ponto central é que, a compressão temporal exigida pelo capital sobre a vida cotidiana vai além da possibilidade da realidade sensível da humanidade, de forma que ultrapassa barreiras fisiológicas da humanidade, algo que o capital já realiza desde os primórdios. Mas que neste momento, eclode a partir de diferentes fenômenos psicossociais, desde a explosão do número de pessoas ansiosas no Brasil, até a utilização, ampla, de medicamentos, em comparação com um número baixo de pessoas realizando acompanhamento psicológico.  Isso é um fator central, não apenas para o processo eleitoral, como para a realidade cotidiana, a expansão do capital financeiro estrutura uma dinâmica de sociabilidade baseada na compressão do tempo presente, a partir de distintos mecanismos, seja a produtividade do trabalho imposta, a expansão do mercado de crédito e a ampliação das tecnologias produtivas, o que resulta em um movimento de ampliação de patologias sociais, que, sem a estrutura de saúde necessária, com a pressão produtiva do trabalho, faz os sujeitos recorrerem à medicamentos, ao invés de acompanhamentos psicológicos. Esse fenômeno, como explicado ao início, não apenas se expressa na dinâmica psicossocial, como, e principalmente, política, a compressão do tempo presente, modifica a visão de um futuro distinto, se os esforços realizados pelo meu tempo presente se voltam para sanar uma dívida passada, no futuro, esse futuro, assim, significa apenas uma continuação, infernal, do presente, de forma que, também, a redução do esforço do presente para uma dívida passada, à ser quitada no futuro, também, introduz um sentimento de repulsa sobre o que se reproduz no presente, como se nada fizesse sentido, o trabalho não pode ser usufruído, porque o poder de compra foi reduzido, ao passo que toda a renda se desloca para a dívida.

E esse ciclo se repete, incessantemente, a facilitação de cartões de crédito, com outras modalidades de crédito rotativo, como o crédito por pix, acabam por facilitar a reprodução dessa dinâmica, se toda a dívida foi paga no futuro, não resta nada para conseguir assegurar que se consiga permanecer e sobreviver ao longo dos próximos dias, nessa dinâmica, se recorre, novamente, ao crédito, e esse ciclo se reproduz e continua. Ao final, esse ciclo se reproduz a partir da estruturação e fortificação do capital financeiro, uma ramificação das demais do capital, que se mobiliza a partir da expropriação e exploração do valor das demais frações do capital, a partir da mercantilização e privatização da vida cotidiana. Após tentar destruir a natureza e com a humanidade, o capital lança mão para destruir o próprio tempo.

¨      Os juros altos e a desculpa esfarrapada do 0,1%. Por Luiz Martins de Melo

A inflação que afeta o Brasil é impulsionada por turbulências geopolíticas, preços de energia em alta e cadeias de suprimentos frágeis, em vez de excesso de demanda. No entanto, os formuladores de políticas continuam a tratar isso como um problema monetário, confiando em uma ferramenta que não pode abordar as causas subjacentes. O Banco Central continua com a sua decisão de manter as taxas de juros elevadas como um exercício de prudência. Com a inflação voltando a subir, mesmo com o crescimento desacelerando, a autoridade monetária enfatiza a paciência e a “dependência dos dados” como o caminho responsável – uma abordagem moldada sobretudo por temores persistentes de repique inflacionário.

A pergunta que importa para a sociedade não é por quanto tempo os bancos centrais podem manter as taxas de juros elevadas ou o ritmo do aperto monetário. É se os formuladores de políticas conseguem manter a ficção de que taxas de juros mais altas são uma resposta eficaz, ou até neutra, às pressões inflacionárias que o Brasil enfrenta atualmente. As pressões inflacionárias de hoje não são alimentadas por mercados de trabalho superaquecidos ou demanda crescente dos consumidores. Elas refletem preços mais altos da energia, conflitos geopolíticos, perturbações relacionadas ao clima, cadeias de suprimentos frágeis e, cada vez mais, o poder de precificação das grandes corporações. Aumentar as taxas de juros pouco faz para atacar as causas subjacentes da inflação. Essas pressões de oferta provavelmente vão se intensificar. A recente decisão dos Emirados Árabes Unidos de sair da Organização dos Países Exportadores de Petróleo – OPEP sinaliza uma mudança estrutural mais profunda na economia política da energia, marcada por mudanças nas dinâmicas de poder nos mercados globais de petróleo e pelo enfraquecimento da capacidade das instituições existentes de gerenciar um recurso altamente financeirizado e geopoliticamente importante.

A saída dos Emirados Árabes Unidos mina o papel tradicional da OPEP na gestão do fornecimento. Com um de seus maiores e mais flexíveis produtores se separando, a coordenação se torna mais difícil de sustentar, aumentando a volatilidade do mercado. Os mercados de petróleo, por sua vez, estão cada vez mais fragmentados e respondendo menos à estratégia coletiva do que ao risco geopolítico e à tomada de decisão unilateral. Nessa situação, a concepção de política monetária que domina o Banco Central torna central o dilema de, no caso de manter as taxas de juros baixas por muito mais tempo, correr o risco de corroer sua credibilidade à medida que a inflação sobe gradualmente. Por outro lado, aumentar as taxas de forma muito agressiva pode aprofundar as pressões recessivas, agravar os encargos da dívida privada e pública e comprimir ainda mais famílias já afetadas pelo aumento dos custos de alimentos, moradia e energia e pelo endividamento dos juros bancários excessivos.

A verdade é que a distopia do Banco Central o faz pensar que está definindo livremente a taxa de juros entre outras opções de políticas que seriam populistas. Mas, ao contrário, ele opera dentro de restrições estruturais rígidas, impostas pelos mercados financeiros, fragilidade fiscal e pressões políticas, especialmente no que diz respeito à taxa de desemprego. Os mercados, por sua vez, antecipam cada vez mais aumentos de juros não porque resolvam a inflação, mas porque o Banco Central se sente compelido a agir, mesmo quando sua ferramenta é inadequada para a tarefa. As consequências distributivas desse reflexo político muitas vezes são negligenciadas. Taxas de juros mais altas atuam como um mecanismo disciplinar: protegem o valor dos ativos, recompensam credores e transferem o ônus do ajuste para trabalhadores, aumentam o endividamento, especialmente na compra de bens duráveis e habitação, aumenta o endividamento público e pressão para mais aperto monetário para controlar a demanda, quando o problema não é de demanda. Encarar a inflação como um problema do mercado de trabalho, mesmo que seja impulsionada por monopólios de energia, tensões geopolíticas e interrupções no fornecimento logístico, é uma escolha política, não uma necessidade econômica. Na realidade, taxas de juros mais altas não eliminam a inflação, mas redistribuem seus custos por meio de maior desemprego, aumento da dívida das famílias e redução fiscal. Isso não é um efeito colateral não intencional da política monetária, mas o mecanismo pelo qual a inflação é normalmente gerenciada. Isso causa um mal-estar na população, mesmo quando os números agregados podem ser positivos, mas o impacto na vida concreta é de formar expectativas negativas sobre o futuro da ascensão social e melhoria de vida.

A concepção hegemônica de política macroeconômica continua tratando a inflação como um problema monetário, e não estrutural e de distribuição de renda. O Banco Central, ao endurecer as condições financeiras com taxas de juros mais altas, não faz nada para reduzir os preços dos alimentos, que refletem o aumento dos custos de fertilizantes e energia. No entanto, eles aumentam o risco de perda de empregos, dificuldades com dívidas e pobreza estrutural. Se a inflação permanecer alta por anos, o problema se torna de exaustão social. As famílias não podem continuar absorvendo custos mais altos sem danos a longo prazo, desde o aumento do endividamento até a pior nutrição e o agravamento dos resultados de saúde. Nesse ponto, a inflação não é mais apenas uma questão econômica, mas uma fonte de instabilidade política, potencialmente levando a uma crise de legitimidade institucional. Essas dinâmicas ressaltam os limites da abordagem atual do Banco Central e da política monetária. À medida que a inflação se torna intimamente ligada a choques climáticos, guerra e ao controle estratégico de recursos essenciais, a política monetária sozinha não pode estabilizar preços sem impor sérios custos sociais e econômicos. Taxas de juros mais altas podem suprimir a demanda, mas não podem produzir petróleo e gás natural, desbloquear portos, reparar cadeias de suprimentos ou reduzir as margens corporativas.

Os formuladores de políticas estão usando um instrumento tecnocrático projetado para a gestão da demanda para conter aumentos de preços, impulsionados por forças estruturais e políticas. Até que essa contradição seja resolvida – por meio de política energética coordenada, investimento público, regulação de preços, estratégia industrial ou intervenção fiscal ativa –, as taxas de juros continuarão oscilando sem resolver o problema que deveriam resolver. O aperto monetário continuará sendo um gesto simbólico para transmitir controle, e não uma solução real. Essa é a distopia central da atual política macroeconômica. A dissonância cognitiva está relacionada diretamente com a política macroeconômica. Em grande parte, porque o relativo sucesso de Lula I e II foi tomado como base para a aplicação da mesma política em condições distintas. Assim, para evitar que a dissonância cognitiva aumente, temos que dar por encerrado o ciclo de políticas baseadas em altas taxas de juros, restrição fiscal e abertura das contas de capital. Voltar a pensar em uma política de inovação industrial direcionada para resolver os problemas da sociedade através dos serviços públicos de cidadania. Para isso ser efetivo, a prioridade do poder de compra do Estado tem que estar voltada para atender a demanda originada pela política de inovação industrial com prioridade para resolver os problemas da sociedade definidos em articulação com a participação popular. Essa é a base para a formação de empresas de capital nacional e a afirmação da soberania nacional pelo fortalecimento do processo democrático. O modelo que teve relativo sucesso no início dos anos 2000 –  macroeconomia liberal com transferência de renda social já esgotou a sua efetividade.

No seu cerne, a contínua dependência dos formuladores de políticas nas taxas de juros para gerenciar crises decorrentes da interação entre mercados de energia, poder corporativo e conflitos geopolíticos reflete a forma como a inflação é enquadrada. Tratar a inflação estrutural como um problema de gestão da demanda permite que os formuladores de políticas pareçam decisivos, evitando um confronto mais difícil com aqueles que definem preços, controlam recursos e extraem rendas. Essa também é uma escolha política, cujos custos sociais estão se tornando cada vez mais difíceis de ignorar. Finalmente, é preciso deixar de normalizar certos conceitos vazios de concretude histórica da mesma forma que a política macroeconômica dominante é uma abstração a histórica, resultado de uma dissonância cognitiva. Reindustrializar é um deles. Reindustrializar para manter a mesma estrutura industrial que vigora desde JK e que nos levou à situação atual? Redemocratizar? O Brasil já foi uma democracia? Portanto, sem alterar a política macroeconômica atual, as altas taxas de juros, a austeridade fiscal e a abertura da conta de capitais, não se terá uma política de inovação industrial para aumentar e melhorar os serviços públicos de cidadania e fortalecer a esperança na melhora da vida concreta e no processo democrático.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Terapia Política

 

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