O
nó da escala 6×1: O que o desespero de Nikolas ensina à esquerda
A
aprovação da Pec pelo fim da escala 6×1 na Câmara dos Deputados não foi apenas
uma das poucas vitórias do terceiro mandato de Luís Inácio Lula da Silva sobre um legislativo
profundamente hostil. Se for também aprovada no Senado, esta será a primeira
reforma progressista de fato da legislação trabalhista desde a promulgação da
Constituição de 1988. Especialmente porque, além da regulação da escala, a
jornada será reduzida de 44 para 40 horas de trabalho semanal.
De lá
para cá, especialmente com a reforma trabalhista de 2017 no governo de Michel
Temer, os direitos sociais das trabalhadoras e dos trabalhadores foram
profundamente diminuídos ou mesmo eliminados.
A
votação esmagadora em favor do projeto e, mais ainda, o efeito aparentemente
desnorteador no campo bolsonarista oferecem lições importantes para uma
possível, e urgentemente necessária, mudança qualitativa da disputa ideológica
que tem caracterizado a cena política nos últimos anos. Isto é, sobre as formas
reais de enfrentamento da força social, sobretudo eleitoral, da extrema
direita.
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A virada pragmática e o racha no discurso bolsonarista
A
partir da aprovação do requerimento de urgência da Pec 6×1, em fevereiro deste
ano, é possível identificar algumas variações no discurso contra pautas progressistas por figuras
importantes do bolsonarismo e aliados.
Uma
delas foi a tentativa de “acomodação crítica”, vista nas intervenções de
líderes do bolsonarismo como Sóstenes Cavalcante, do PL do Rio de Janeiro, e
General Girão, do PL do Rio Grande do Norte. Em abril, Cavalcante atacou a Pec
afirmando que ela iria gerar “desemprego e caos econômico”. Em seu lugar,
propôs que a “solução moderna” seria o sistema de “hora trabalhada, hora
recebida”, sendo que a jornada de trabalho seria uma “escolha livre” dos
trabalhadores.
Girão,
por sua vez, disse reconhecer a importância do tema, pois o “trabalhador merece
dignidade, tempo com a família e saúde”, mas era contrário à forma como o
debate estava sendo feito, sem as compensações ou desoneração da folha de
pagamento das empresas.
Mais
próximo à votação, já em maio, Cavalcante se viu forçado a encontrar uma forma
de não recusar frontalmente a proposta. Alegou que “nós, da direita, e não da
extrema esquerda, como eles são” iriam tentar “despiorar” o texto, isto é,
propor uma mudança “com responsabilidade, com compensações, com desoneração de
folha de setores (…) para não gerar desemprego”.
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Nikolas Ferreira, Sóstenes Cavalcante e o cinismo da extrema direita
Posturas
frontalmente contrárias foram vocalizadas por parlamentares do Novo e do
Missão, partido do Movimento Brasil Livre, o MBL,mas nada perto do que foi
visto por discursos como os de Bibo Nunes, do PL do Rio Grande do Sul.
Em
março, ele chamou de “absurdo” o fim da escala 6 por 1, pois “Deus, quando fez
o mundo, trabalhou 6 dias e descansou 1 dia. As pessoas querem vencer na vida
sem trabalhar. O ideal para a esquerda é 0 por 7, tipo Bolsa Família”.
Indignado
contra aliados, que sinalizaram apoio à Pec por conta da eleição próxima,
afirmou “perco a eleição, mas não me queimo com o Brasil”. Conclui dizendo que
“Elon Musk, o homem mais rico do mundo, já disse: ‘Quem trabalhar menos de 60
horas por semana tende a ser um fracasso’. Vamos trabalhar. Isso engrandece”.
Em
abril, voltou ao tema, novamente aludindo ao exemplo de Musk: “Lá na Califórnia, no Vale do Silício, as
pessoas trabalham na escala 6 por 1. É uma potência a Califórnia. (…) Trabalham
das 9 horas da manhã às 9 horas da noite. São 12 horas por dia! E não caiu
pedaço nenhum de ninguém! Quer moleza? Vá empurrar bêbado na lomba, sente no
pudim, vá trabalhar!”.
Mas o
tema também ensejou, em sentido oposto, certo destaque a parlamentares desse
campo que ainda apresentam certa autonomia em relação ao núcleo bolsonarista.
No Senado, a voz mais contundente é a de Cleitinho Azevedo, do Republicanos de
Minas Gerais, já conhecido por tentar
dissociar a pauta mais radical de direita do campo bolsonarista de certas
questões relativas a direitos sociais.
Outros
parlamentares, como Otoni de Paula, do PSD do Rio de Janeiro, pastor evangélico
há algum tempo rompido com o campo bolsonarista, seguiram o mesmo caminho. São
os casos de certas figuras regionais que surfaram na onda da extrema direita
nos últimos anos, mas que, em certas pautas econômicas, sinalizam certa
resistência à adesão integral à pauta bolsonarista.
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As lições da escala 6×1 para a disputa ideológica da esquerda
Como se
viu na votação de 27 de maio, ante o apelo popular sobre o tema, as falas
contrárias mais radicais ficaram politicamente isoladas. De forma desesperada,
o núcleo do bolsonarismo resolveu dobrar a aposta, sugerindo apoio a uma
mudança ainda maior da legislação, a escala 4 por 3 ou, como disse Nikolas
Ferreira, do PL de Minas Gerais, iriam “jogar o jogo” no intuito de fazer com
que o “caos econômico” viesse mais rápido, antes das eleições.
Pouco
antes, em abril, Nikolas postou
conteúdos frontalmente opostos à proposta. O argumento central era de que a Pec
iria gerar perda de renda ao trabalhador e aumento do desemprego.
Nas
redes ou no plenário, o parlamentar mobilizou comparações estapafúrdias
sobre os efeitos negativos da proposta,
chegando a comparar a limitação da escala com furtos de celular. Mesmo para o
padrão conhecido de Nikolas, o tom agitado e a falta de nexo lógico dos
argumentos chamaram a atenção.
Ao
apelar cinicamente para a proposta de escala 4 por 3, Nikolas, Sóstenes e
outros bolsonaristas explicitaram, sem qualquer pudor, o desprezo por parte de sua própria base.
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Mais resistência no Senado
Nesta
semana, a pauta entra no Senado, e há sinais de que deverá sofrer maior
resistência. Rogério Marinho, do PL do Rio Grande do Norte, um dos maiores
articulistas da reforma trabalhista de
2017 e integrante do núcleo bolsonarista, já apresentou proposta alternativa no
dia seguinte que a matéria foi aprovada na Câmara.
A
estratégia não é diretamente barrar o fim da escala 6×1 na CLT, mas criar um
regime alternativo, mais “flexível”, no qual vigore, como já sinalizado por
Sóstenes na Câmara, o sistema acordado pelas partes de “hora trabalhada, hora
recebida”. Enfim, uma nova tentativa, mesmo nesse contexto, de acabar com os
direitos trabalhistas.
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Poder ideológico do bolsonarismo
Mesmo
se for aprovada no Senado, é difícil estimar os efeitos eleitorais dessa
vitória do governo. Até aqui, aliás, o pouco que pode ser visto como vitórias
do Lula 3 ou da “democracia”, como a prisão de Bolsonaro e a isenção do imposto
de renda para grupos abaixo dos cinco salários mínimos, não foram capazes de
alterar a resiliência eleitoral do bolsonarismo. A candidatura de Flávio
Bolsonaro seguiu em franca ascensão até a divulgação dos áudios de Flávio
pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, divulgados pelo Intercept.
A combinação da vitória de uma pauta
progressista do governo somada às denúncias contra Flávio Bolsonaro parece
afetar o poder ideológico do bolsonarismo em disputar, com o mesmo conforto, a
hegemonia em pautas econômicas e sobre corrupção.
Não à
toa, foi forçado a encontrar saídas “externas” mesmo no que se refere à pauta
sobre a segurança pública. É aí que se situa a suposta vitória do bolsonarismo
com a tipificação de CV e PCC como grupos terroristas pelos Estados Unidos. O
objetivo óbvio é fazer com que a pauta da “soberania nacional” do governo seja
vista como defesa de “bandidos”.
A
medida vinda dos EUA pode causar muito estrago na economia interna e mesmo no
sistema financeiro, pois, além das ameaças ao Pix, pode gerar sanções
comerciais a empresas nacionais, aumentar custos operacionais e diminuir o
investimento.
E,
talvez mais importante no médio prazo, a discussão sobre a escala 6×1, se por
um lado incita a oposição de parte do empresariado, por outro lado dá
visibilidade a empresas e movimentos civis que podem sustentar projetos de
desenvolvimento nacional mais inclusivos. O isolamento político do
bolsonarismo, se vier, irá necessariamente exigir algum tipo de aliança com
setores das classes dominantes e das classes médias.
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Lições para a esquerda
O
cenário também sugere importantes lições para a própria esquerda. A primeira é
observar que a pauta do fim da escala 6 por 1 veio, a rigor, “de fora” do
governo, especialmente pela atuação de Rick Azevedo, criador do movimento Vida
Além do Trabalho, depois eleito vereador pelo PSol do Rio de Janeiro, após uma
vitoriosa campanha nas redes sociais sobre o tema.
No
Congresso, a pauta foi incorporada pela deputada Erika Hilton, do Psol de São
Paulo. O próprio ministro do trabalho, Luís Marinho, mostrou-se inicialmente
contrário à proposta . O caso lembra de alguma maneira o que se viu, em meados
dos anos 2000, com a pauta das cotas raciais. Foi preciso certo trabalho para
que Fernando Haddad, ministro da Educação à época, fosse convencido pelo
acúmulo dos movimentos negros.
A
segunda lição diz respeito ao debate frequente na esquerda sobre a estratégia
mais adequada para enfrentar as novas direitas, em particular o bolsonarismo.
Nesse ponto se encontram as divergências, por exemplo, sobre “radicalizar a
pauta de esquerda” x “buscar o centro” ou “pauta identitária” x “pauta
econômica”.
A
vitória no tema da escala 6 por 1 nos mostra uma superação real dos termos
desse debate: foram lideranças periféricas e pejorativamente chamadas de
identitárias que construíram uma pauta diretamente vinculada às condições de
vida material da população trabalhadora. Nesse processo, elas fizeram com que o
“centro” fosse conquistado e, até certo ponto, o bolsonarismo radical ficasse
isolado.
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O papel de Guilherme Boulos e a agitação permanente nas ruas
A
terceira lição é a que tem sido menos comentada no debate público, embora seja
igualmente decisiva para o futuro da esquerda. A vitória foi também o resultado
de uma efetiva politização do tema vindas de vários lugares e vozes.
Não é
possível subestimar o papel da Secretaria da Presidência, ocupada desde janeiro
por Guilherme Boulos no intuito, segundo Lula, de promover a união da luta
institucional com as ruas e o povo. Boulos escolheu ficar fora das eleições
deste ano para manter um tipo de agitação e propaganda, de dentro do governo,
nas eleições e num eventual Lula 4. A ideia é fazer com que setores
progressistas da sociedade, especialmente os movimentos sociais populares,
trabalhem de forma mais orgânica e coordenada de acordo com a dinâmica
institucional de cada conjuntura.
Por que
este é um ponto decisivo? A força social do bolsonarismo é produto de um
sistema de agitação e propaganda permanente, feito em escala industrial e
formatado aos meios técnicos de massa. Mais do que a força de seus líderes, é
um movimento social que promove a politização radical da sociedade. Os líderes
do bolsonarismo interpretam as notícias para sua base diariamente e, com isso,
geram um comportamento político orgânico em temas diversos.
A
esquerda teve vitórias importantes, mas não tem um equivalente ao que o meio
bolsonarista produziu e continua a produzir. Há várias razões para explicar
esse desequilíbrio. O fato é que, para vencer a guerra, e não as batalhas, o
governo e a esquerda precisam encontrar novas soluções para esse desafio.
Fonte:
Por Sávio Cavalcante, em The Intercept

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