sexta-feira, 12 de junho de 2026

O desempenho da seleção brasileira nas Copas

O futebol é um jogo que, como outras modalidades, faz a simulação de uma luta desarmada. A política é o terreno da luta pelo poder. Em grande medida, a vida é uma luta impiedosa, mas é muito raro que os desenlaces das disputas sociais sejam realmente imprevisíveis. Já nas competições esportivas há margem para muitas e inesperadas surpresas, uma compensação emocional. Há quase sempre algum favoritismo, mas também desfechos incríveis, até espantosos.

Nos últimos cem anos o futebol conquistou o lugar de principal esporte no mundo. Por quê? Estudiosos defendem que o jogo coletivo por times – e não a disputa individual como na ginástica – e a disputa de uma bola com os pés – e não com as mãos foram algumas das razões que despertaram, desde o início, a paixão da classe trabalhadora britânica. Só que o futebol não é somente um esporte. Tem uma dimensão de diversão e brincadeira, mas não é só entretenimento.

O futebol profissional com as transmissões ao vivo é hoje um imenso negócio capitalista que atrai grandes investimentos. Acontece que o desenlace de campeonatos nacionais, ou mesmo internacionais de clubes, não incide nas oscilações da luta política. Mas a Copa do Mundo entre seleções nacionais tem, pelo menos desde os anos setenta com a transmissão por satélite, uma inescapável dimensão política. Os povos do mundo se identificam com suas seleções: a metáfora da “pátria em chuteiras” tem mais do que um grão de verdade.

As ditaduras militares no Brasil em 1970, e na Argentina em 1978 manipularam as vitórias das seleções como triunfos seus, como o regime fascista de Benito Mussolini tinha feito na Itália em 1934.

Desconsiderar a repercussão da Copa do Mundo com a luta política no Brasil seria um erro. A Copa do Mundo é o evento esportivo mundial de maior impacto na sociedade brasileira. A relação de cada nação com o futebol é muito variada: da irrelevância à máxima importância. Uma nação não é mesmo que um Estado. Há nações oprimidas sem Estado, como os palestinos e curdos. Há Estados que exercem poder sobre várias nações, como o Espanhol, que oprime catalães, bascos e galegos, entre outros.

Toda nação tem determinações objetivas – uma geografia e uma história, espaço e tempo – mas é, sobretudo, a construção histórica da consciência que um povo tem de si mesmo. A formação de uma nação é um processo enquanto se consolida uma identidade nacional. Ou quando um povo se reconhece a si mesmo como uma comunidade de destino compartilhado. Nessa dimensão, a nação é uma consciência de pertencimento. O Estado é um aparelho de coerção e representação do poder político. O país é uma síntese do Estado-nação.

A maioria das nações foram construções políticas, porque primeiro surgiu um Estado como sujeito de um projeto que antecipava a nação. Em outras palavras, o padrão histórico foi a consolidação de Estados nacionais como instrumentos da transformação da sociedade, com suas estratificações raciais, sociais, regionais, linguísticas e culturais em uma nação. Acontece que os países não se relacionam como iguais.

Existem duzentos Estados no mundo, mas o núcleo de poder é restrito aos países da Tríade liderados pelos EUA. E o Brasil é um país na semiperiferia: foi colônia de Portugal por mais de trezentos anos, semicolônia inglesa por mais cem anos e, desde o final da Segunda Guerra Mundial, está sujeito a uma relação de dependência pela dominação dos EUA na América Latina.

Só que no futebol o Brasil é uma das maiores potências e a força cultural da idiossincrasia brasileira se expressa dentro do campo na irreverência do drible. Um jeito brasileiro de jogar futebol fascinou o mundo unindo a ginga da capoeira, o swing do samba, a força do maracatu à alegria do axé.

No Brasil, o futebol cumpriu um papel na formação da identidade nacional. Somos a única seleção que esteve presente em todas as Copas, a única pentacampeã, um dos raros e grandes orgulhos nacionais, e tivemos Pelé, indiscutivelmente, o maior jogador de futebol do século XX. Devemos considerar que a relação entre o desempenho da seleção em Copas do Mundo e a conjuntura política é um fator lateral. Mas existe em algum grau.

O Brasil é um país dependente: atrasado econômica, social e culturalmente em relação aos países centrais, só que na periferia é a maior nação do hemisfério sul do planeta. A percepção desta posição intermediária nas relações de riqueza e poder no mundo tem refrações distorcidas e até curiosas. A expectativa popular com a seleção conhece oscilações entre a euforia e a depressão. Mas no que remete ao futebol o Brasil é a nação mais vitoriosa e, de longe, aquela que desperta maior respeito e simpatia no mundo, em especial entre as nações da África, Ásia e América Latina.

A seleção brasileira brilhou na Copa do Mundo de 1938, na França, com a conquista do terceiro lugar, com um time liderado por Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, que se consagrou como o artilheiro isolado, e despertou deslumbramento com o acrobático gol de bicicleta. O Brasil perdeu a Copa no Maracanã em 1950 diante do Uruguai, mas a vitória em 1958 com Djalma Santos e Didi, mais Garrincha e, sobretudo, Pelé e, de novo em 1962, era a cara de um povo de maioria negra que conquistava orgulho de si mesmo, e embalou o entusiasmo com a dinâmica da urbanização e industrialização que culminou nas grandes mobilizações populares, sob o impacto continental do triunfo da revolução cubana, durante o governo Jango.

A seleção foi eliminada por Portugal na Copa da Inglaterra em 1966, quando Pelé foi impiedosamente caçado em campo, mas deixou o mundo fascinado, em 1970, com um futebol arrebatador. Esta vitória foi apropriada pela ditadura que lançou o slogan Brasil ame-o ou deixe-o, uma massiva campanha publicitária para promover o patriotismo exacerbado impulsionado pelo “milagre econômico” que originou uma nova classe média branca acomodada, e legitimava a repressão.

Um fator indivisível de uma peculiaridade brasileira. Por que Pelé não tem no Brasil um prestígio equivalente ao de Maradona ou Lionel Messi na Argentina, Cristiano Ronaldo em Portugal, Johan Cruyff na Holanda, ou Zinédine Zidane na França? Dizem os especialistas: porque Pelé era um homem preto em um país racista, em que a presença negra nas camadas médias é insipiente, e ausente na burguesia.

É difícil dizer qual dos dois ciclos da seleção brasileira foi mais vitorioso, O primeiro que culminou com o tricampeonato no México ou o segundo do penta em 2002? Os anos oitenta foram uma década de luta política muito intensa no Brasil. A seleção de 1982 comandada por Telê Santana foi uma paixão nacional, um time do “futebol arte”, com Leandro e Júnior nas laterais, e Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico no meio-campo: o entusiasmo era uma das expressões de um processo de mobilização nacional da fase final de luta contra a ditadura que culminou nas “Diretas Já” em 1984.

A seleção de 1986 encantou com um futebol envolvente e ofensivo, alegre, passes precisos e movimentação intensa, inteligência tática e brilho individual, mas foi, dramaticamente, eliminada nos pênaltis pela França: era a despedida da geração de 1982. Nem a priorização da força física e a marcação, nem volta para casa diante da Argentina de Maradona, em 1990, diminuiu a intensa expectativa popular no desempenho da seleção.

A vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, quebrou um jejum de 24 anos sem títulos, e consagrou a primeira tetracampeã mundial. Mais do que um feito esportivo, foi um momento de catarse, liderado por Romário e Bebeto no ataque e Taffarel no gol, no contexto do apoio popular ao Plano Real que conseguiu conter quinze anos de superinflação, favorecendo a estabilidade do governo Fernando Henrique.

Muito além das teorias de conspiração – teve até CPI no Congresso Nacional – a dolorosa derrota do Brasil por 3 a 0 para a França na final da Copa do Mundo de 1998 pode ser explicada como uma combinação de forte abalo psicológico da seleção – provocada pela convulsão de Ronaldo – e clara superioridade tática dos franceses. As fragilidades defensivas ao longo do torneio (tendo sofrido gols contra a Escócia, Noruega, Dinamarca e Holanda).

O segundo ciclo se encerrou em 2002 com o triunfo na Ásia. Scolari montou um sistema com três zagueiros (Lúcio, Roque Júnior e Edmílson), liberando os alas Cafu e Roberto Carlos para atacar, e a magia do trio Rivaldo, Ronaldinho gaúcho e Ronaldo Fenômeno fez a diferença. No início do século XXI a vitória na Copa embalou uma esperança tão grande que favoreceu a espetacular vitória de Lula, depois de três derrotas seguidas, abrindo o caminho para que, pela primeira vez, um partido de esquerda pudesse chegar ao poder.

Na sequência, o Brasil perdeu todas as Copas, mas a esquerda venceu todas as eleições, em 2006, 2010, e 2014, e só com golpe institucional foi possível a eleição de Bolsonaro em 2018. A seleção foi eliminada pela Croácia na Copa de 2022, mas a extrema direita foi, também, derrotada nas eleições. Como será a repercussão da Copa de 2026 nas eleições gerais de outubro? Qual será o impacto do desempenho da seleção sobre o estado de espírito das massas, a psicologia social das multidões?

O Brasil mudou muito nas últimas décadas. O aumento da escolaridade média sugere uma relação mais madura com os sucessos ou desventuras esportivas. Até agora não parece prevalecer um grande interesse, mas é possível, senão provável que a paixão nacional será despertada, sobretudo se vierem vitórias avassaladoras que recuperem a confiança na seleção. Existem pelo menos três hipóteses: (i) uma vitória pode despertar esperança e favorecer a reeleição de Lula; (ii) uma derrota pode facilitar a campanha da oposição; (iii) o desenlace, seja qual for, pode não ter maiores consequências. Em grande medida, portanto, é imprevisível. Ninguém pode saber.

 

Fonte: Por Valério Arcary, em A Terra é Redonda

 

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