O
desempenho da seleção brasileira nas Copas
O
futebol é um jogo que, como outras modalidades, faz a simulação de uma luta
desarmada. A política é o terreno da luta pelo poder. Em grande medida, a vida
é uma luta impiedosa, mas é muito raro que os desenlaces das disputas sociais
sejam realmente imprevisíveis. Já nas competições esportivas há margem para
muitas e inesperadas surpresas, uma compensação emocional. Há quase sempre
algum favoritismo, mas também desfechos incríveis, até espantosos.
Nos
últimos cem anos o futebol conquistou o lugar de principal esporte no mundo.
Por quê? Estudiosos defendem que o jogo coletivo por times – e não a disputa
individual como na ginástica – e a disputa de uma bola com os pés – e não com
as mãos foram algumas das razões que despertaram, desde o início, a paixão da
classe trabalhadora britânica. Só que o futebol não é somente um esporte. Tem
uma dimensão de diversão e brincadeira, mas não é só entretenimento.
O
futebol profissional com as transmissões ao vivo é hoje um imenso negócio
capitalista que atrai grandes investimentos. Acontece que o desenlace de
campeonatos nacionais, ou mesmo internacionais de clubes, não incide nas
oscilações da luta política. Mas a Copa do Mundo entre seleções nacionais tem,
pelo menos desde os anos setenta com a transmissão por satélite, uma
inescapável dimensão política. Os povos do mundo se identificam com suas
seleções: a metáfora da “pátria em chuteiras” tem mais do que um grão de
verdade.
As
ditaduras militares no Brasil em 1970, e na Argentina em 1978 manipularam as
vitórias das seleções como triunfos seus, como o regime fascista de Benito
Mussolini tinha feito na Itália em 1934.
Desconsiderar
a repercussão da Copa do Mundo com a luta política no Brasil seria um erro. A
Copa do Mundo é o evento esportivo mundial de maior impacto na sociedade
brasileira. A relação de cada nação com o futebol é muito variada: da
irrelevância à máxima importância. Uma nação não é mesmo que um Estado. Há
nações oprimidas sem Estado, como os palestinos e curdos. Há Estados que
exercem poder sobre várias nações, como o Espanhol, que oprime catalães, bascos
e galegos, entre outros.
Toda
nação tem determinações objetivas – uma geografia e uma história, espaço e
tempo – mas é, sobretudo, a construção histórica da consciência que um povo tem
de si mesmo. A formação de uma nação é um processo enquanto se consolida uma
identidade nacional. Ou quando um povo se reconhece a si mesmo como uma
comunidade de destino compartilhado. Nessa dimensão, a nação é uma consciência
de pertencimento. O Estado é um aparelho de coerção e representação do poder
político. O país é uma síntese do Estado-nação.
A
maioria das nações foram construções políticas, porque primeiro surgiu um
Estado como sujeito de um projeto que antecipava a nação. Em outras palavras, o
padrão histórico foi a consolidação de Estados nacionais como instrumentos da
transformação da sociedade, com suas estratificações raciais, sociais,
regionais, linguísticas e culturais em uma nação. Acontece que os países não se
relacionam como iguais.
Existem
duzentos Estados no mundo, mas o núcleo de poder é restrito aos países da
Tríade liderados pelos EUA. E o Brasil é um país na semiperiferia: foi colônia
de Portugal por mais de trezentos anos, semicolônia inglesa por mais cem anos
e, desde o final da Segunda Guerra Mundial, está sujeito a uma relação de
dependência pela dominação dos EUA na América Latina.
Só que
no futebol o Brasil é uma das maiores potências e a força cultural da
idiossincrasia brasileira se expressa dentro do campo na irreverência do
drible. Um jeito brasileiro de jogar futebol fascinou o mundo unindo a ginga da
capoeira, o swing do samba, a força do maracatu à alegria do axé.
No
Brasil, o futebol cumpriu um papel na formação da identidade nacional. Somos a
única seleção que esteve presente em todas as Copas, a única pentacampeã, um
dos raros e grandes orgulhos nacionais, e tivemos Pelé, indiscutivelmente, o
maior jogador de futebol do século XX. Devemos considerar que a relação entre o
desempenho da seleção em Copas do Mundo e a conjuntura política é um fator
lateral. Mas existe em algum grau.
O
Brasil é um país dependente: atrasado econômica, social e culturalmente em
relação aos países centrais, só que na periferia é a maior nação do hemisfério
sul do planeta. A percepção desta posição intermediária nas relações de riqueza
e poder no mundo tem refrações distorcidas e até curiosas. A expectativa
popular com a seleção conhece oscilações entre a euforia e a depressão. Mas no
que remete ao futebol o Brasil é a nação mais vitoriosa e, de longe, aquela que
desperta maior respeito e simpatia no mundo, em especial entre as nações da
África, Ásia e América Latina.
A
seleção brasileira brilhou na Copa do Mundo de 1938, na França, com a conquista
do terceiro lugar, com um time liderado por Leônidas da Silva, o “Diamante
Negro”, que se consagrou como o artilheiro isolado, e despertou deslumbramento
com o acrobático gol de bicicleta. O Brasil perdeu a Copa no Maracanã em 1950
diante do Uruguai, mas a vitória em 1958 com Djalma Santos e Didi, mais
Garrincha e, sobretudo, Pelé e, de novo em 1962, era a cara de um povo de
maioria negra que conquistava orgulho de si mesmo, e embalou o entusiasmo com a
dinâmica da urbanização e industrialização que culminou nas grandes
mobilizações populares, sob o impacto continental do triunfo da revolução
cubana, durante o governo Jango.
A
seleção foi eliminada por Portugal na Copa da Inglaterra em 1966, quando Pelé
foi impiedosamente caçado em campo, mas deixou o mundo fascinado, em 1970, com
um futebol arrebatador. Esta vitória foi apropriada pela ditadura que lançou o
slogan Brasil ame-o ou deixe-o, uma massiva campanha publicitária para promover
o patriotismo exacerbado impulsionado pelo “milagre econômico” que originou uma
nova classe média branca acomodada, e legitimava a repressão.
Um
fator indivisível de uma peculiaridade brasileira. Por que Pelé não tem no
Brasil um prestígio equivalente ao de Maradona ou Lionel Messi na Argentina,
Cristiano Ronaldo em Portugal, Johan Cruyff na Holanda, ou Zinédine Zidane na
França? Dizem os especialistas: porque Pelé era um homem preto em um país
racista, em que a presença negra nas camadas médias é insipiente, e ausente na
burguesia.
É
difícil dizer qual dos dois ciclos da seleção brasileira foi mais vitorioso, O
primeiro que culminou com o tricampeonato no México ou o segundo do penta em
2002? Os anos oitenta foram uma década de luta política muito intensa no
Brasil. A seleção de 1982 comandada por Telê Santana foi uma paixão nacional,
um time do “futebol arte”, com Leandro e Júnior nas laterais, e Toninho Cerezo,
Falcão, Sócrates e Zico no meio-campo: o entusiasmo era uma das expressões de
um processo de mobilização nacional da fase final de luta contra a ditadura que
culminou nas “Diretas Já” em 1984.
A
seleção de 1986 encantou com um futebol envolvente e ofensivo, alegre, passes
precisos e movimentação intensa, inteligência tática e brilho individual, mas
foi, dramaticamente, eliminada nos pênaltis pela França: era a despedida da
geração de 1982. Nem a priorização da força física e a marcação, nem volta para
casa diante da Argentina de Maradona, em 1990, diminuiu a intensa expectativa
popular no desempenho da seleção.
A
vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, quebrou um
jejum de 24 anos sem títulos, e consagrou a primeira tetracampeã mundial. Mais
do que um feito esportivo, foi um momento de catarse, liderado por Romário e
Bebeto no ataque e Taffarel no gol, no contexto do apoio popular ao Plano Real
que conseguiu conter quinze anos de superinflação, favorecendo a estabilidade
do governo Fernando Henrique.
Muito
além das teorias de conspiração – teve até CPI no Congresso Nacional – a
dolorosa derrota do Brasil por 3 a 0 para a França na final da Copa do Mundo de
1998 pode ser explicada como uma combinação de forte abalo psicológico da
seleção – provocada pela convulsão de Ronaldo – e clara superioridade tática
dos franceses. As fragilidades defensivas ao longo do torneio (tendo sofrido
gols contra a Escócia, Noruega, Dinamarca e Holanda).
O
segundo ciclo se encerrou em 2002 com o triunfo na Ásia. Scolari montou um
sistema com três zagueiros (Lúcio, Roque Júnior e Edmílson), liberando os alas
Cafu e Roberto Carlos para atacar, e a magia do trio Rivaldo, Ronaldinho gaúcho
e Ronaldo Fenômeno fez a diferença. No início do século XXI a vitória na Copa
embalou uma esperança tão grande que favoreceu a espetacular vitória de Lula,
depois de três derrotas seguidas, abrindo o caminho para que, pela primeira
vez, um partido de esquerda pudesse chegar ao poder.
Na
sequência, o Brasil perdeu todas as Copas, mas a esquerda venceu todas as
eleições, em 2006, 2010, e 2014, e só com golpe institucional foi possível a
eleição de Bolsonaro em 2018. A seleção foi eliminada pela Croácia na Copa de
2022, mas a extrema direita foi, também, derrotada nas eleições. Como será a
repercussão da Copa de 2026 nas eleições gerais de outubro? Qual será o impacto
do desempenho da seleção sobre o estado de espírito das massas, a psicologia
social das multidões?
O
Brasil mudou muito nas últimas décadas. O aumento da escolaridade média sugere
uma relação mais madura com os sucessos ou desventuras esportivas. Até agora
não parece prevalecer um grande interesse, mas é possível, senão provável que a
paixão nacional será despertada, sobretudo se vierem vitórias avassaladoras que
recuperem a confiança na seleção. Existem pelo menos três hipóteses: (i) uma
vitória pode despertar esperança e favorecer a reeleição de Lula; (ii) uma
derrota pode facilitar a campanha da oposição; (iii) o desenlace, seja qual
for, pode não ter maiores consequências. Em grande medida, portanto, é
imprevisível. Ninguém pode saber.
Fonte:
Por Valério Arcary, em A Terra é Redonda

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