sexta-feira, 12 de junho de 2026

Citações a Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira não salvaram delação de Vorcaro

A nova proposta de colaboração premiada apresentada pelo banqueiro Daniel Vorcaro enfrenta resistência na Polícia Federal e na Procuradoria-Geral da República. A avaliação predominante é que o material entregue não amplia de forma relevante os fatos já apurados nem oferece vantagens suficientes para justificar os benefícios previstos em um acordo de delação.

A expectativa dentro da PF é de que a proposta seja novamente rejeitada. Na PGR, a análise ainda não foi concluída, mas a tendência é de convergência com o entendimento da Polícia Federal.

A nova versão da delação menciona personagens como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e questões relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse. Apesar disso, investigadores entendem que os relatos não apresentam elementos inéditos capazes de alterar significativamente o rumo das apurações.

A percepção dentro da investigação é que os fatos narrados já eram conhecidos, estavam sob análise ou podem ser aprofundados por diligências que independem da colaboração do banqueiro. Inclusive, ele admite que os valores e as vantagens pagos a Ciro seriam propina em troca da atuação do senador em favor do banco.

Entre os exemplos citados por fontes ouvidas pela reportagem está o caso do filme Dark Horse. A relação entre Vorcaro, o financiamento da produção e pessoas ligadas ao projeto já é objeto de investigação e pode ser aprofundada por meio de provas documentais, quebras de sigilo e material já apreendido pelas autoridades.

O mesmo raciocínio é aplicado aos relatos envolvendo Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira. A avaliação é que eventuais contatos, movimentações financeiras, mensagens ou vínculos podem ser confirmados por instrumentos investigativos já disponíveis.

A Polícia Federal possui oito aparelhos eletrônicos apreendidos com Vorcaro. Além disso, os inquéritos permitem acesso a quebras de sigilo bancário, fiscal, telefônico e telemático, considerados suficientes para verificar grande parte dos fatos mencionados na proposta.

Outro fator que reduziu o interesse especialmente da PGR pela colaboração envolve a recuperação de ativos. A possibilidade de ressarcimento financeiro chegou a ser um dos principais argumentos para manter aberta a discussão sobre um eventual acordo. Esse cenário, porém, mudou.

A avaliação é de que a decisão da Justiça das Bahamas de reconhecer a liquidação do Banco Master e autorizar medidas para a localização de patrimônio no exterior ampliou significativamente as possibilidades de recuperação de ativos sem depender da colaboração do banqueiro. Embora a decisão tenha sido proferida no fim de maio, as autoridades brasileiras só foram notificadas nos últimos dias.

Além disso, a Polícia Federal avalia a inclusão de Daniel Vorcaro na lista de difusão prateada da Interpol. A ferramenta internacional é utilizada para rastrear, identificar e localizar bens, valores e ativos financeiros ilícitos em diferentes jurisdições.

A combinação dessas medidas reduziu a importância estratégica da delação para fins de recuperação patrimonial. A expectativa das autoridades é que os valores eventualmente localizados e bloqueados por meio da cooperação internacional possam superar os cerca de R$ 60 bilhões que Vorcaro teria colocado na mesa durante as negociações.

Uma colaboração premiada só se justifica quando oferece informações inéditas, provas relevantes ou caminhos que não poderiam ser alcançados pelos meios tradicionais de apuração. Hoje, a percepção predominante é que a proposta apresentada por Vorcaro não atende a nenhum desses requisitos.

Esse entendimento tem aproximado as posições da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República e aumentado as chances de uma nova rejeição da colaboração apresentada pelo ex-controlador do Banco Master.

<><> Vorcaro menciona propina a Ciro Nogueira em segunda versão de delação, diz jornal

O banqueiro Daniel Vorcaro alterou sua versão sobre a relação com o senador Ciro Nogueira (PP-PI) em na segunda proposta de acordo de delação premiada apresentada à Polícia Federal e à PGR. Segundo pessoas que acompanham as negociações, os pagamentos antes descritos como decorrentes de uma relação de amizade passaram a ser apresentados como propina para obter apoio político para interesses do Banco Master. As informações são de Aguirre Talento e Fausto Macedo, do Estadão.

Na primeira tentativa de colaboração, Vorcaro afirmava que havia custeado benefícios ao senador, como viagens e eventos, sem contrapartidas, atribuindo os gastos à proximidade pessoal entre ambos. A proposta foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Após a troca de equipe jurídica e cerca de duas semanas de revisão do material, o banqueiro apresentou uma nova versão dos fatos. De acordo com interlocutores das negociações, o novo documento traz relatos mais detalhados sobre possíveis irregularidades e inclui informações adicionais relacionadas à captação de recursos de fundos de previdência municipais e estaduais pelo Banco Master.

Apesar das mudanças, investigadores avaliam que os novos relatos acrescentam pouco às apurações já em andamento, que contam com provas obtidas a partir da análise do celular de Vorcaro. A tendência, segundo fontes ligadas ao caso, é que a Polícia Federal mantenha posição contrária ao acordo. A PGR ainda conclui sua análise.

A alteração do relato envolvendo Ciro Nogueira ocorreu após uma fase da Operação Compliance Zero apontar suspeitas de pagamentos mensais de R$ 300 mil a uma empresa ligada ao senador. Segundo a investigação, os repasses poderiam estar associados à defesa de interesses do Banco Master em propostas discutidas no Congresso Nacional.

Ciro Nogueira nega irregularidades. Após a operação, o senador afirmou que não apresentou projetos para beneficiar diretamente o banco e contestou qualquer ilegalidade nos pagamentos mencionados pela investigação.

Até o momento, não houve comunicação oficial sobre a aceitação ou rejeição definitiva da nova proposta de delação. A expectativa é de que uma decisão seja anunciada nos próximos dias.

As investigações também apontam a proximidade entre Vorcaro e Ciro Nogueira. Conversas obtidas pela Polícia Federal mostram o banqueiro se referindo ao senador como um de seus “grandes amigos de vida”. Os dois participaram de eventos em comum, incluindo o casamento da filha do parlamentar, realizado em agosto de 2024.

Dez dias após a cerimônia, Ciro apresentou uma proposta que ficou conhecida no mercado financeiro como “Emenda Master”. O texto sugeria ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) por CPF e por instituição financeira. A medida foi vista por integrantes do setor financeiro e agentes políticos como potencialmente favorável ao Banco Master, cujo modelo de negócios dependia fortemente de produtos cobertos pela garantia do fundo. A proposta, porém, não avançou no Congresso.

•        Master pagou R$ 102 mi a grupo investigado por lavagem de dinheiro em combustíveis

Um repasse de R$ 102 milhões feito pelo Master de 2023 a 2025 pode conectar o banco de Daniel Vorcaro a um setor suspeito de ligações com o crime organizado: o varejo de postos de gasolina.

Os pagamentos, classificados pela instituição financeira como prestação de serviços, foram feitos a uma empresa chamada Metanoein Participações e Consultoria Ltda, que hoje é alvo de investigação por um suposto esquema de lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa no Rio de Janeiro. A sócia-administradora da firma, Rose Evelyn Machado Coité, é apontada pelo Ministério Público Federal como dona de uma rede de postos operada por meio de laranjas.

Rose Evelyn é conhecida em Bangu, bairro da zona oeste da capital fluminense, como importante empresária do mercado de combustíveis, viúva do advogado criminalista César Pimentel Coité, que morreu em 2020. Porém, não há nenhum posto registrado no nome dela nem dos filhos do casal, também apontados como donos de estabelecimentos.

Oficialmente, os registros da Receita Federal mostram participação de Rose Evelyn em apenas cinco firmas de outros ramos, como escritório de advocacia, consultoria e empresa de diagnósticos médicos, todos na zona oeste do Rio.

O CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) da Metanoein tampouco a situa no setor de abastecimento. As atividades da empresa são registradas como serviços de escritório, consultoria em gestão e negócios em geral.

Desde a deflagração da operação Carbono Oculto, iniciada em agosto do ano passado, as investigações têm avançado sobre a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis e no sistema financeiro, mas ainda não veio a público o repasse direto de dinheiro do Master no varejo de postos de gasolina.

A Folha tentou contato com Rose Evelyn desde 27 de abril, por email e WhatsApp, mas não teve resposta. Ela atendeu uma ligação da reportagem, mas desligou. A assessoria de imprensa de Vorcaro diz que a defesa dele não se manifestará sobre o tema.

Nos últimos meses, paralelamente ao avanço das apurações do caso Master, a Metanoein foi alvo de uma medida da 8ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, que impediu a transferência de valores ligados à empresa.

O processo está em segredo de Justiça, mas algumas informações foram divulgadas nos documentos da Metanoein na junta comercial. Os dados mostram um pedido do Ministério Público Federal para o sequestro de contas e aplicações financeiras de Rose Evelyn e seus filhos, apontados como reais proprietários de postos de gasolina mantidos em nome de terceiros.

Também são citados mais quatro nomes apontados como donos de postos e outros 17 que seriam interpostas pessoas, os chamados laranjas. Essa investigação envolve 46 empresas, e a ordem judicial foi registrada na certidão da Metanoein na junta comercial no dia 7 de maio, um dia depois da operação Centelha, deflagrada pela Polícia Federal contra um esquema de lavagem de dinheiro e sonegação ligado ao jogo do bicho no Rio.

A Folha procurou a assessoria de imprensa da PF, mas o órgão não revela se a família de Rose Evelyn foi alvo da Centelha.

De acordo com reportagem da Folha publicada na data da operação, as investigações da operação também apuram ligação com integrantes da família do bicheiro Rogério de Andrade, herdeiro de uma das principais estruturas do jogo do bicho no estado. A suspeita remonta ao período em que o bicheiro Castor de Andrade exercia forte influência sobre a contravenção no Rio.

Um dos alvos da operação foi o posto Castor, cujo dono formal é sócio de uma firma de informática chamada Softcoop, que tinha Cesar Coité entre os sócios. Em 1997, Rose Evelyn trabalhou como advogada do posto Castor.

<><> Mesmo endereço

A Metanoein tem características semelhantes a outra firma que transacionou com o banco de Vorcaro, a Mídias Promotora, que foi alvo de busca e apreensão no mês passado no contexto das apurações sobre investimentos temerários do Rioprevidência, fundo que gere os benefícios de aposentados e pensionistas do Rio de Janeiro.

A Mídias, que recebeu R$ 126,6 milhões do Master, divide com a Metanoein um escritório vizinho ao calçadão de Bangu, tradicional centro do comércio popular do bairro.

As duas firmas têm mais coincidências entre si: cada uma é sócia de uma SCP (Sociedade em Conta de Participação), as quais foram fundadas exatamente no mesmo dia, 28 de julho de 2021. SCP é uma estrutura empresarial de menor regulação, que trabalha com dois tipos de sócio, aquele que aparece nos dados oficiais (chamado de sócio ostensivo, como indica o próprio nome), e aqueles que permanecem ocultos.

Ambas também estão entre as empresas que receberam os maiores volumes de dinheiro do Master, de acordo com os dados enviados pela Receita Federal à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado.

Conforme a Folha revelou em abril, a Mídias Promotora tem como sócio-administrador Gilson Bahia Vasconcelos, um homem que, a despeito das cifras milionárias recebidas do Master por sua empresa, foi beneficiário do auxílio emergencial do governo na pandemia. Ele também é réu em um processo por golpe de um call center contra aposentados e pensionistas do INSS.

Na primeira reportagem sobre Bahia Vasconcelos, publicada em 24 de abril, a Folha conversou com o advogado dele, que negou participação do administrador no call center do caso em que é réu por estelionato e diz que ele cumpre medidas cautelares. Sobre a Mídias Promotora LTDA, afirma que as movimentações financeiras são legais.

A reportagem voltou a procurar o advogado em 27 de maio, mas não houve atualização de suas manifestações.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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