AMAZÔNIA
E ÁFRICA: Conhecimento, ancestralidade e futuro compartilhado
A
assinatura de 23 acordos de cooperação acadêmica entre a Universidade Federal
do Pará e instituições de ensino superior de 13 países africanos representa um
daqueles acontecimentos que ajudam a compreender o papel que uma universidade
pública pode desempenhar no mundo contemporâneo. Em um cenário internacional
marcado por disputas geopolíticas, desigualdades históricas e desafios
ambientais cada vez mais complexos, fortalecer os laços entre Amazônia e África
significa ampliar as possibilidades de produção do conhecimento a partir de
experiências, territórios e perspectivas que durante muito tempo ocuparam
posições periféricas nos grandes fluxos globais da ciência.
O
encontro que resultou nessas parcerias ocorreu em Brasília, durante o I Fórum
de Reitores Brasil-África. Ao longo de três dias, dirigentes universitários
discutiram caminhos para ampliar a cooperação acadêmica, científica e cultural.
Para a UFPA, o resultado foi expressivo. Os acordos firmados envolvem
universidades de Angola, Burkina Faso, Camarões, Egito, Guiné, Guiné-Bissau,
Moçambique, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Ruanda,
São Tomé e Príncipe, Tanzânia e Togo, consolidando uma rede de relações que vai
produzir intercâmbios, pesquisas conjuntas, formação de pesquisadores e novas
oportunidades para estudantes e pesquisadores.
Os
números são importantes, mas o significado dessa aproximação ultrapassa o
alcance estatístico dos acordos. Amazônia e África compartilham questões que
atravessam a vida de milhões de pessoas: a riqueza de sua biodiversidade, a
presença de povos tradicionais, os desafios relacionados ao desenvolvimento
sustentável, as disputas em torno dos recursos naturais e a necessidade
permanente de construir modelos de crescimento capazes de combinar prosperidade
econômica, justiça social e preservação ambiental.
Existe
também uma dimensão histórica que merece atenção. A formação da sociedade
brasileira foi profundamente marcada pela contribuição dos povos africanos.
Essa herança está presente em nossa cultura, em nossas formas de sociabilidade,
em nossas manifestações religiosas, artísticas e linguísticas. Na Amazônia,
essa influência adquiriu características próprias e se integrou às matrizes
indígenas e caboclas que ajudaram a construir a identidade da região. Aproximar
universidades amazônicas e africanas significa criar condições para que essas
histórias sejam estudadas, compreendidas e reinterpretadas por novas gerações
de pesquisadores.
A UFPA
possui uma responsabilidade particular nesse processo. Produzir conhecimento
não consiste apenas em ampliar fronteiras científicas. Significa também ampliar
horizontes de compreensão sobre quem somos, de onde viemos e quais caminhos
desejamos construir coletivamente. Quando pesquisadores da Amazônia dialogam
com cientistas africanos, surgem oportunidades para comparar experiências,
compartilhar soluções e formular perguntas que dificilmente emergiriam em
contextos mais homogêneos.
Essa
perspectiva ganha relevância especial em um país que, nas últimas décadas,
passou por transformações importantes no acesso à educação superior. As
políticas afirmativas abriram espaço para que estudantes oriundos de grupos
historicamente excluídos ocupassem as universidades brasileiras e contribuíssem
para diversificar a produção acadêmica. A presença crescente de estudantes
negros, indígenas e de diferentes segmentos populares ampliou o repertório de
temas, olhares e experiências presentes na vida universitária.
Os
acordos firmados pela UFPA dialogam diretamente com essa trajetória. Eles
reforçam uma concepção de internacionalização comprometida com a diversidade,
com a circulação de conhecimentos em múltiplas direções e com a valorização de
experiências produzidas no Sul Global. Trata-se de uma agenda que reconhece a
importância das grandes redes científicas internacionais, mas que também
compreende a necessidade de fortalecer vínculos entre países que enfrentam
desafios semelhantes e compartilham processos históricos relacionados à
colonização, à desigualdade e à busca por desenvolvimento.
Os
temas que mobilizam pesquisadores amazônicos e africanos revelam a dimensão
estratégica dessa cooperação. Biodiversidade, saúde pública, mudanças
climáticas, bioeconomia, segurança alimentar, energias renováveis e direitos
humanos estão entre os assuntos que exigem respostas cada vez mais articuladas
entre diferentes países e instituições. A produção científica tende a ser mais
consistente quando incorpora múltiplas perspectivas e quando se desenvolve em
diálogo com realidades diversas.
Na
UFPA, essa aproximação já faz parte do cotidiano. Atualmente, centenas de
estudantes internacionais integram nossa comunidade acadêmica, e a presença
africana possui papel de destaque nesse processo. A convivência entre
diferentes culturas transforma nossos 12 campi universitários em espaços de
aprendizagem que vão além das salas de aula e dos laboratórios. O intercâmbio
de experiências humanas amplia a formação acadêmica e fortalece valores
fundamentais para a vida democrática.
Os 23
acordos firmados durante o Fórum Brasil-África ampliam esse horizonte e apontam
para uma visão de futuro baseada na cooperação. Em vez de enxergar a
internacionalização apenas como um mecanismo de inserção institucional,
compreendemos esse movimento como uma oportunidade de construir redes de
conhecimento comprometidas com a redução das desigualdades e com a produção de
soluções para problemas compartilhados.
A
Amazônia ocupa hoje uma posição central nos debates sobre o futuro do planeta.
A África, por sua vez, assume protagonismo crescente em discussões relacionadas
à demografia, inovação, sustentabilidade e desenvolvimento. Aproximar esses
dois territórios por meio da educação superior significa fortalecer a
capacidade de ambos contribuírem para as grandes transformações deste século.
É essa
convicção que orienta a atuação internacional da Universidade Federal do Pará.
Cada acordo firmado representa uma porta aberta para novas pesquisas, novas
experiências formativas e novas possibilidades de contribuição. Mais do que
aproximar instituições, estamos aproximando sociedades que possuem muito a
aprender umas com as outras e que podem construir, juntas, respostas mais
justas e mais duradouras para os desafios do nosso tempo.
Fonte:
Por Gilmar Pereira da Silva, em A Terra é Redonda

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