sexta-feira, 12 de junho de 2026

Sayid Marcos Tenório: Naksa 59 anos - A guerra colonial contra a Palestina nunca terminou

Em junho de 2026 completam-se 59 anos da Naksa, palavra árabe que significa "revés" ou "derrota", utilizada pelos palestinos para designar os acontecimentos de junho de 1967. Mais do que uma guerra entre “Estados”, a Naksa representou uma nova etapa de um processo colonial iniciado décadas antes e que continua em curso até os dias atuais.

A narrativa dominante apresenta a chamada Guerra dos Seis Dias como um conflito convencional travado entre “Israel” e países árabes vizinhos. Essa interpretação, porém, ignora a dimensão central do problema, de que a Palestina é palco de um processo de colonialismo de assentamento, baseado na ocupação da terra, na expulsão da população nativa e na implantação de colonos sobre os territórios ocupados.

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A Nakba de 1948 expulsou mais de 750 mil palestinos de suas casas e destruiu centenas de aldeias. A Naksa de 1967 aprofundou esse processo. Em apenas seis dias, “Israel” ocupou Jerusalém Oriental, a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, o Sinai egípcio e as Colinas de Golã sírias, passando a controlar praticamente toda a Palestina histórica.

Não se tratou de uma ocupação temporária. Desde então, a colonização tornou-se política permanente. 

Assentamentos ilegais foram construídos sobre terras palestinas, recursos naturais passaram a ser controlados pelo ocupante, comunidades foram fragmentadas por muros, cercas e postos militares, enquanto Jerusalém Oriental passou a sofrer um acelerado processo de colonização destinado a alterar sua composição demográfica.

Foi a partir da Naksa que se consolidou o sistema hoje identificado por organizações internacionais de direitos humanos como apartheid. Palestinos e colonos israelenses vivem sob regimes jurídicos distintos, embora ocupem o mesmo território.

Enquanto os colonos desfrutam de plenos direitos civis e proteção estatal, milhões de palestinos permanecem submetidos à ocupação militar, à restrição de movimentos, às demolições de casas, às prisões arbitrárias e à violência cotidiana dos colonos.

O muro que corta a Cisjordânia, os bloqueios militares, a fragmentação territorial e a expansão constante dos assentamentos não são desvios ocasionais. São instrumentos de um projeto colonial destinado a inviabilizar a autodeterminação palestina e transformar a ocupação em fato consumado.

A Naksa, portanto, não terminou em junho de 1967.

Ela continua em cada novo assentamento construído. Continua em cada família expulsa de Jerusalém. Continua nos milhões de refugiados impedidos de regressar às suas terras. Continua nos presos políticos palestinos e na tentativa permanente de apagar a identidade nacional de um povo que se recusa a desaparecer.

Os acontecimentos posteriores a 7 de outubro de 2023 demonstram essa continuidade histórica. O genocídio em Gaza não surgiu de forma isolada. Ele representa a radicalização de um processo iniciado com a Nakba e aprofundado pela Naksa.

A destruição sistemática de bairros inteiros, hospitais, escolas e infraestrutura civil é parte de uma lógica colonial que busca tornar inviável a permanência dos palestinos em sua própria terra.

Diante dessa realidade, surge uma questão fundamental: qual é a legitimidade da resistência palestina?

A resposta encontra-se no próprio Direito Internacional. Diversas resoluções das Nações Unidas reconhecem o direito dos povos submetidos ao colonialismo, à ocupação estrangeira e à dominação racial de lutarem pela autodeterminação. 

As Resoluções 3070, 3246 e 37/43 da Assembleia Geral da ONU reafirmam a legitimidade da luta dos povos colonizados por todos os meios compatíveis com esse objetivo, inclusive a luta armada de resistência como está ocorrendo em Gaza.

Esse princípio foi reconhecido nas lutas de libertação nacional da Argélia, Angola, Moçambique, Namíbia, Vietnã e África do Sul. Não existe razão jurídica ou moral para negar aos palestinos um direito reconhecido a tantos outros povos submetidos à dominação colonial.

Por isso, a memória da Naksa deve ser compreendida não apenas como recordação de uma derrota militar, mas como símbolo de uma luta que permanece viva.

Cinquenta e nove anos depois, a Palestina continua sendo uma das grandes questões anticoloniais do nosso tempo.

A Naksa recorda ao mundo que a questão palestina não é apenas uma disputa territorial. Trata-se de uma luta contra o colonialismo de assentamento, contra o apartheid e pela autodeterminação nacional.

É a luta de um povo que, apesar de massacres, expulsões, cercos e ocupação, continua afirmando seu direito de existir, resistir e viver livre em sua própria terra.

¨      Por que o Hezbollah é importante para o Irã?

A situação no Oriente Médio permanece tensa. Apesar de um cessar-fogo frágil entre o Irã de um lado e Israel e os Estados Unidos do outro, as duas partes do conflito seguem trocando hostilidades e ameaças.

Ainda na madrugada desta quarta-feira (10/06), houve um novo confronto militar entre Teerã e Washington, após um helicóptero do Exército dos EUA ter sido abatido no Estreito de Ormuz. Antes disso, no fim de semana, o Exército israelense já havia bombardeado alvos nos subúrbios de Beirute, numa retaliação a ataques com foguetes do Hezbollah, aliado xiita do Irã, contra o norte de Israel. Pouco depois, Teerã respondeu com mísseis contra território israelense. Israel, por sua vez, revidou com ataques a alvos no Irã.

As recentes escaladas ameaçaram frustrar os esforços por um acordo, defendido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para resolver o conflito na região.

<><> Estratégia regional do Irã sob pressão

"Do ponto de vista iraniano, a prioridade central no momento é garantir que o Hezbollah seja considerado em possíveis acordos políticos e negociações de paz", diz o especialista em Oriente Médio Arman Mahmoudian, da University of South Florida. Qualquer acordo exigiria concessões mútuas, avalia.

Para Teerã, no entanto, é crucial que o Hezbollah não se torne objeto de negociação. O regime iraniano considera que a questão vai muito além do Hezbollah: o que está em jogo é sua influência regional.

"Se o Hezbollah continuar sob ataque israelense e ao mesmo tempo surgir a impressão de que Teerã o abandonou, isso pode ter consequências significativas para o Irã e abalar a confiança de outros atores alinhados ao país na região — como os houthis no Iêmen ou milícias xiitas no Iraque. Afinal, o Hezbollah entrou nesse conflito principalmente por lealdade ao Irã e atacou Israel após a morte de Khamenei", pontua Mahmoudian.

Após o início da guerra com o Irã em 28 de fevereiro e a morte do chefe de Estado iraniano, aiatolá Ali Khamenei, a milícia libanesa Hezbollah disparou foguetes contra Israel e passou a atuar ao lado de Teerã no conflito. Israel respondeu com bombardeios nos subúrbios do sul da capital Beirute e em outras partes do país vizinho ao norte. Como consequência, a guerra se ampliou para o Líbano.

<><> O Hezbollah como organização multifuncional

O grupo xiita surgiu no início dos anos 1980, durante a guerra civil libanesa e após a invasão israelense no Líbano. No país, vivem além de sunitas (cerca de 32%), aproximadamente 31% de xiitas, além de diversas comunidades cristãs, drusos e alauítas.

O Irã, que também segue o ramo xiita do islamismo, desempenhou um papel decisivo na sua fundação após a Revolução Islâmica de 1979 e apoia a organização financeiramente, militarmente e ideologicamente.

O movimento possui uma ala armada, mas também atua como partido político representado no Parlamento libanês, além de manter algumas instituições sociais.

A Alemanha, os Estados Unidos e vários outros países classificam o Hezbollah total ou parcialmente como uma organização terrorista. Na Alemanha, as atividades do grupo estão proibidas desde 2020.

Ao mesmo tempo, o Hezbollah é hoje considerado significativamente enfraquecido. Nos últimos anos, ataques militares israelenses reduziram fortemente suas capacidades militares e sua estrutura de liderança. Ainda assim, a organização conseguiu se reerguer parcialmente, de forma semelhante ao que ocorreu após a guerra do Líbano em 2006.

<><> Custos crescentes da confrontação com Israel

O Hezbollah é, há décadas, um elemento central da estratégia regional iraniana. O especialista em Irã Arash Azizi descreve essa lógica como "forward defence" (defesa avançada). Segundo essa abordagem, o Irã tenta dissuadir ameaças potenciais o mais longe possível de seu próprio território, contando para isso com a ajuda de aliados.

No entanto, essa estratégia se inverteu parcialmente. Hoje, o Irã se vê cada vez mais obrigado a proteger ativamente seus aliados e a executar ataques diretos contra Israel, bem como aceitar contra-ataques em seu próprio território e infraestrutura.

A nova liderança iraniana procura justificar o apoio ao Hezbollah mais com base em interesses de segurança nacional do que em argumentos ideológicos, ressalta Arash Azizi.

"No entanto, permanece o argumento de que o Irã, como Estado que se vê em conflito com Israel, não pode simplesmente abandonar seus aliados regionais", afirma.

Ao mesmo tempo, os custos de novas confrontações com Israel são elevados para o Irã. Os danos econômicos da guerra são consideráveis, as condições de vida de grande parte da população pioraram e as perspectivas econômicas continuam difíceis.

"A nova liderança terá de enfrentar não apenas desafios de segurança e política externa, mas também responder à pergunta sobre qual visão de futuro pode oferecer à população iraniana."

¨      Quais são as condições do Irã para fechar acordo com os EUA?

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a afirmar na madrugada desta terça-feira (09/06) que a diplomacia americana está a um passo de fechar um acordo com o Irã, um dia após a cessação dos ataques mútuos entre a República Islâmica e Israel.

"Estamos na fase final do que será um acordo muito, muito bom", disse Trump a repórteres, acrescentando que ele poderia ser concluído em "dois ou três dias".

Ao longo dos dois meses transcorridos desde que os EUA e o Irã concordaram com um cessar-fogo inicial, Trump repetiu diversas vezes que um acordo estaria próximo.

No dia anterior, Israel e Irã anunciaram o fim das hostilidades após uma onda de ataques mútuos que colocou em risco a frágil trégua no conflito do Oriente Médio, em vigor desde abril.

Buscando uma saída urgente para o conflito extremamente impopular entre os americanos, e a poucos meses das eleições de meio de mandato, Trump havia instado o Irã e Israel a encerrar as hostilidades.

<><> Posições duras

Mediadores, liderados principalmente pelo Paquistão, vêm tentando há semanas viabilizar o acordo. No entanto, tanto o Irã quanto os EUA têm sido inflexíveis em suas demandas.

Os EUA querem que o Irã abra mão de seu estoque de urânio altamente enriquecido – que se acredita ainda estar armazenado em instalações subterrâneas no país após os ataques aéreos americanos na guerra de 12 dias em 2025.

Mas o Irã recusa essa exigência e reivindica o alívio das sanções. O país também quer a liberação de ativos congelados antes mesmo de um acordo final ser firmado, algo rejeitado por Trump.

Antes dos comentários de Trump sobre as negociações, o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse na segunda-feira que as declarações de Trump até o momento sobre um possível acordo "contradiziam os pontos já acordados, demonstrando que [os EUA] não buscam nem um cessar-fogo nem diálogo".

<><> Conflito no Líbano entre prioridades

O conflito contínuo entre Israel e o Hezbollah também segue sendo uma grande prioridade para o Irã. O chefe do Exército do Líbano, general Rodolphe Haykal, viajou para o Paquistão nesta terça-feira. Lá, ele se reuniu com o chefe do exército paquistanês, marechal de campo Asim Munir, que tem sido uma figura-chave nas negociações entre Irã e EUA.

A visita de Haykal ocorre num momento em que o governo do Líbano adota uma postura cada vez mais rígida em relação ao Hezbollah, mas continua incapaz de desarmar a poderosa milícia. O Hezbollah agradeceu ao Irã por atacar Israel "em defesa do nosso povo libanês", sugerindo que o governo do Líbano deveria aproveitar a oportunidade para melhorar as relações com Teerã.

Entre as exigências de negociação do Irã estão um cessar-fogo no Líbano, incluindo a retirada das forças israelenses, o descongelamento de metade dos ativos iranianos congelados — cerca de 12 bilhões de dólares (R$ 62,3 bilhões) —, além de uma forma de gestão iraniana sobre o Estreito de Ormuz.

<><> Garantias contra novas agressões

Autoridades iranianas afirmam que qualquer acordo dependerá não apenas da interrupção dos ataques, mas também de garantias políticas, econômicas e estratégicas que impeçam novas ações militares contra o país.

Após semanas de negociações predominantemente indiretas, fontes familiarizadas com o assunto disseram no final de maio que os EUA e o Irã concordaram com um memorando de entendimento que suspenderia a guerra e daria aos negociadores 60 dias para chegar a um acordo final.

Fontes iranianas afirmaram que um acordo preliminar visa apenas o fim da guerra em todas as frentes, o estabelecimento de um prazo de 30 dias para a circulação internacional e iraniana pelo Estreito de Ormuz e, possivelmente, a concessão de algum alívio financeiro.

Posteriormente, então, começariam as conversas sobre as questões mais difíceis, como o status do urânio altamente enriquecido do Irã e detalhes relativos ao estreito, além de vários outros pontos do acordo preliminar, como o alívio das sanções e a segurança.

<><> Reparos de danos

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou em março que a única maneira de encerrar o conflito seria reconhecer os "direitos legítimos" do Irã, reparar os danos provocados pela guerra e estabelecer garantias internacionais contra futuras agressões.

Ao mesmo tempo, o governo iraniano tenta equilibrar pressões internas. De acordo com o jornal britânico The Guardian, setores mais radicais defendem ampliar os confrontos com Israel e abandonar completamente as negociações mediadas pelos Estados Unidos. No entanto, grupos ligados ao núcleo político e econômico do governo argumentam que o país precisa de alívio financeiro urgente para evitar o agravamento da crise econômica interna.

<><> Fim das sanções e programa nuclear

Essa ala pragmática vê a suspensão gradual das sanções americanas como ponto central das negociações. A economia iraniana enfrenta forte inflação, desvalorização da moeda nacional e dificuldades para exportar petróleo em larga escala. Por isso, autoridades iranianas consideram indispensável recuperar acesso ao sistema financeiro internacional e ampliar receitas energéticas.

Outro ponto decisivo continua sendo o programa nuclear iraniano. Os Estados Unidos e Israel pressionam Teerã a limitar drasticamente o enriquecimento de urânio, desmontar parte de sua infraestrutura nuclear e aceitar inspeções internacionais rígidas. Washington chegou a apresentar uma proposta ampla de negociação com restrições militares e nucleares em troca da suspensão parcial de sanções.

Entretanto, o Irã resiste à ideia de abrir mão completamente de seu programa nuclear. O governo iraniano afirma que o desenvolvimento nuclear possui fins pacíficos e representa um direito soberano do país. Lideranças políticas e militares também afirmam que as exigências americanas seriam excessivas e incompatíveis com os interesses estratégicos iranianos.

 

Fonte: Brasil 247/DW Brasil

 

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