Todos
os homens do presidente: Compare 13 mulheres candidatas ao STF aos favoritos de
Lula
Em mais
de 134 anos de história, dos 172 magistrados que já passaram pela Corte, apenas
três eram mulheres, 1,7% do total. Nunca uma negra foi ministra do Supremo
Tribunal Federal (STF). Por isso, o presidente Lula lida com uma pressão
crescente para indicar uma mulher negra para a vaga do ex-ministro Luís Roberto
Barroso, que anunciou seu pedido de aposentadoria no início de outubro. A
Agência Pública comparou os currículos de 13 candidatas indicadas por
organizações da sociedade civil frente os nomes de homens apontados como
favoritos a receber indicação do presidente.
O
comparativo revela que as candidatas têm, em média, cinco anos a mais de
carreira e ostentam paridade nos quesitos formação acadêmica e publicações
editoriais. Do grupo de mulheres, seis têm doutorado, três têm mestrado e as
outras são advogadas e bacharéis em direito. Entre os três homens mais
especulados, dois são doutores: o Advogado-geral da União, Jorge Messias, e o
Ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Bruno Dantas. Dantas é o único
com pós-doutorado. Já o senador Rodrigo Pacheco é advogado e bacharel em
direito. As candidatas variam entre 35 e 66 anos, enquanto os homens alternam
de 45 a 49.
A
Pública fez a análise a partir da lista de candidatas publicada pela iniciativa
Nós, composta pelas organizações Justa, Themis e Fórum Justiça. “É uma reação
rápida a uma flagrante afronta à expectativa de redução das desigualdades no
Supremo”, explicou a advogada e diretora executiva da Justa, Luciana Zaffalon.
“É
[para] deixar o mais evidente possível que não é por falta de excelentes
candidatas, que reúnem atributos dos mais brilhantes nas áreas técnicas, de
circulação no âmbito jurídico, de circulação política, [e] com trajetória de
compromisso com os valores constitucionais, que a nomeação deixará de ser
feita”, concluiu. A organização é um centro de pesquisa e incidência que busca
promover a gestão mais democrática das instituições judiciais.
<><>
Por que isso importa?
• Mulheres são mais da metade da
população, mas menos de 2% do STF, instituição máxima da Justiça, que, de forma
recorrente, decide sobre os direitos dessa população.
• É preciso verificar o discurso político
de autoridades que dizem lutar pela redução de desigualdades e garantir que
suas ações seja correspondente, quando há chance.
“As
mulheres já são praticamente metade da categoria [jurídica]. E a representação
delas em todos os mecanismos de liderança e de gestão é sempre muito
minoritária. O Supremo é um exemplo evidente, flagrante, disso”, acrescenta a
advogada e integrante do conselho diretor da Themis Denise Dora.
Se as
apostas se confirmarem, entretanto, Cármen Lúcia deve seguir sendo a única
mulher da corte até ao menos 2028, data da aposentadoria obrigatória do
ministro Luiz Fux, a menos que algum magistrado deixe o cargo antes do previsto
e abra uma nova vaga. No momento, o atual Advogado-geral da União, Jorge
Messias, tem sido apontado nos bastidores como a escolha de Lula.
Desde
que assumiu seu terceiro mandato, o presidente já fez duas nomeações, ambas de
homens: o ex-advogado do presidente Cristiano Zanin, indicado em junho de 2023
para a vaga de Ricardo Lewandowski, hoje ministro da Justiça, e o ex-governador
do Maranhão Flávio Dino, indicado em dezembro de 2023 para o lugar de Rosa
Weber. Weber substituiu a primeira mulher da história da corte: Ellen Gracie,
indicada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em outubro de 2000.
Barroso
participou de sua última sessão na corte no dia 17 de outubro e deixa o
tribunal após tê-lo presidido entre setembro de 2023 e 2025. A Constituição
define que um ministro do STF deve ser brasileiro nato, ter entre 35 e 69 anos,
notável saber jurídico e reputação ilibada. Os indicados pelo presidente depois
precisam ser aprovados pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e pelo
plenário do Senado Federal.
Após a
indicação e aprovação para o cargo, o ministro ou ministra pode atuar no STF
até completar 75 anos, quando ele é obrigado a se aposentar, a chamada
aposentadoria compulsória. A maior parte das mulheres indicadas pela sociedade
civil tem entre 35 e 58 anos. Três têm mais de 60 anos. As treze candidatas são
brasileiras, mas uma delas nasceu na Síria.
<><>
Além de mulher, negra
Para
Zaffalon, é necessário desnaturalizar “a apresentação de apenas homens nas
listas de cotados, de melhores apostas e de possíveis indicações”. “Como se
pode ter essa tranquilidade de, num contexto de desigualdade como esse, começar
a lançar a lista e cogitar nomes apenas de homens?”, questiona.
“A
gente tem três cenários. Ou a gente fica como a gente estava, com duas mulheres
[brancas] quando o Lula assumiu a presidência, ou o presidente assume a
possibilidade histórica que tem diante de si de trazer um avanço civilizatório
e ter a primeira ministra negra no Supremo Tribunal Federal, ou ele assume a
vanguarda do atraso e mantém essa redução de desigualdade ainda menor”,
acrescenta.
Das 13
mulheres indicadas pelas organizações, nove são negras. Entre elas, estão as
ministras substitutas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Edilene Lôbo e Vera
Lúcia Santana, além da juíza auxiliar no Conselho Nacional de Justiça (CNJ),
Karen Luise Vilanova, e da promotora de justiça no Ministério Público da Bahia
(MPBA), Lívia Sant’Anna Vaz. Outras organizações, como o Movimento Mulheres
Negras Decidem, também enviaram listas com juristas negras para embasar a
escolha de Lula. A maior parte dos nomes se repete.
Denise
Dora ressalta que indicar uma mulher negra ao Supremo teria efeitos práticos no
dia a dia das pessoas. “Tanto a experiência de fazer leis quanto a experiência
de aplicar e implementar as leis é uma experiência de poder. Se você leva uma
demanda para o sistema de justiça, a maneira como os integrantes, os servidores
de carreira desse sistema, vão lidar com a sua demanda, e vão tratar ela com
cuidado ou com menos cuidado, com discriminação ou sem discriminação, é muito
relevante para a vida das pessoas. E o que a gente vê? Que as demandas que
chegam das mulheres e da população negra no sistema de justiça são regular e
estruturalmente maltratadas”.
Fonte:
Por Laura Scofield, em Agência Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário