Os
primórdios do comunismo no Brasil
Em
1922, foi fundado o Partido Comunista do Brasil (PCB). Nas primeiras décadas do
século o marxismo era difundido de forma bastante limitada no Brasil. Não se
encontra no período “nenhuma análise, satisfatória ou não, do materialismo
dialético, e o mais curioso, nenhuma tradução de trechos ou artigos de Marx e
Engels”.[i] Na época, chegavam ao Brasil, em língua estrangeira, algumas das
obras desses autores, especialmente em francês e espanhol, fazendo com que sua
leitura estivesse restrita a pequenos grupos, dificultando às organizações
operárias a elaboração teórica e política partindo do método de análise
marxista.
Embora
alguns socialistas se dissessem marxistas, no geral eram “partidários de um
socialismo evolucionista e reformista”. Os partidos socialistas organizados
durante a Primeira República defendiam um programa reformista, centrado em uma
“transformação gradativa do sistema social existente”, que seria possível por
meio “da ação política e do sufrágio, ou seja, a transformação social seria
decorrente de reformas graduais e crescentes”.
Esse
programa expressava, por um lado, a influência de setores do movimento
republicano, como o positivismo, e, por outro, uma interpretação difusa do
socialismo reformista desenvolvido na Europa pelos partidos ligados à Segunda
Internacional.
No
processo de consolidação da República, no final do século XIX e nas primeiras
décadas do século XX, manifestaram-se ideologias das mais variadas, como o
positivismo, o jacobinismo, o socialismo reformista, o anarquismo, o comunismo,
entre outras. Soma-se a essas expressões ideológicas “o reforço das influências
positivistas e evolucionistas no socialismo internacional da época (incluindo,
depois, o próprio ‘marxismo-leninismo’ da III Internacional) que não abandonará
tão cedo o pensamento socialista brasileiro”. Esses são os elementos
ideológicos e organizativos que antecederam a fundação do PCB.
Essa
pluralidade também pode ser avaliada pela análise das trajetórias individuais
de uma parcela de militantes que construíram o PCB, encarnando tradições,
contradições e ideologias das mais diversas. Entre os fundadores ou membros que
viriam a se incorporar ao partido, encontra-se militantes oriundos dos
movimentos anticlerical (Everardo Dias) e tenentista (Luiz Carlos Prestes),
além de ter um maçom entre os delegados do congresso de fundação do partido
(Cristiano Cordeiro).
Fizeram
parte da primeira geração de comunista também militantes oriundos do anarquismo
ou do sindicalismo revolucionário, como Astrojildo Pereira, Joaquim Pimenta e
Octávio Brandão.
O
processo que levou à fundação do partido está marcado principalmente pela
influência da Revolução Russa. No período houve importantes lutas do movimento
operário no Brasil, como a greve geral de 1917, sendo elemento fundamental no
processo que levou à organização de pequenos grupos comunistas em diferentes
regiões do Brasil. Um dos primeiros grupos a ser fundado foi a União
Maximalista, de Porto Alegre, em 1º de novembro de 1918.
Em seu
manifesto de lançamento, que conclamava os operários a seguir o exemplo russo,
afirmava-se que “o mundo só deve ser daquele que produzem; e todo aquele que
não produzir é parasita e como tal não lhe deixareis consumir vosso produto”.
Fundada por Abílio de Nequete, a União Maximalista passou a se chamar Grupo
Comunista de Porto Alegre, a partir de 1921.
Em
março de 1919 houve a constituição de um primeiro PCB, que, segundo seu próprio
relato, “que admite em seu seio anarquistas, socialistas e todos os que
aceitarem o comunismo social”. Não era incomum que os anarquistas expressassem,
pelo menos inicialmente, simpatia pela Revolução Russa. Esse primeiro PCB, que
constituiu núcleos em São Paulo e no Rio de Janeiro, publicou, em agosto de
1919, o jornal Spártacus, contando com José Oiticica e Astrojildo Pereira entre
os responsáveis pela publicação. No jornal foram publicados textos de
militantes que viriam a participar de organizações comunistas, como Olgier
Lacerda, Antônio Bernardo Canellas e Octávio Brandão.
O
partido realizou uma conferência nacional, no Rio de Janeiro, de 21 a 23 de
junho, que tinha como objetivo “estabelecer de um modo claro e decisivo a nossa
organização, bases de acordo e programa”. Em abril foram expedidas “circulares
para todas as localidades do país onde existem grupos comunistas ou militantes
comunistas isolados, convidando-os a participarem dos trabalhados dessa
conferência, fazendo-se nela representar por camaradas mandados ao Rio
especialmente para esse fim”.
Estiveram
presentes representantes dos estados de Alagoas, Minas Gerais, Paraíba,
Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. Compareceram à
conferência vinte e dois delegados, “sendo 17 deles brasileiros natos e outros
5 estrangeiros com longa residência no Brasil”.
Em 7 de
novembro de 1921, com a presença de doze militantes, entre os quais Astrojildo
Pereira, foi fundado o Grupo Comunista do Rio de Janeiro, como “primeiro passo
para a próxima e definitiva constituição do Partido Comunista brasileiro”.
Entre os fundadores do Grupo Comunista estavam: Astrojildo Pereira, Antônio
Branco, Antônio de Carvalho, Antônio Cruz Júnior, Aurélio Durães, Francisco
Ferreira, João Argolo, José Alves Diniz, Luís Peres, Manuel Abril, Olgier
Lacerda e Sebastião Figueiredo. O grupo decidiu pela “publicação de um mensário
de doutrina e informativo sobre o movimento revolucionário internacional,
intitulado Movimento Comunista, o que de fato aconteceu, começando a sair logo
em janeiro de 1922”. Foram publicados um total de vinte e quatro números da
revista, até junho de 1923, com uma tiragem total de trinta e seis mil
exemplares, numa média de mil e quinhentos exemplares por edição.
O Grupo
Comunista do Rio de Janeiro buscou contato com militantes de outras cidades,
divulgando as vinte e uma condições para a adesão dos partidos na Terceira
Internacional e recomendando a formação de outros grupos comunistas.
Entre
as condições defendidas pela Terceira Internacional, seria possível destacar o
fato de que toda organização desejosa de aderir à Internacional Comunista
deveria afastar de suas posições os dirigentes comprometidos com o reformismo;
que o dever de propagar as ideias comunistas implicaria a necessidade absoluta
de conduzir uma propaganda e uma agitação sistemática e perseverante; que todos
os partidos desejosos de pertencer à Terceira Internacional deveriam romper
completamente com o reformismo e a política do centro, que todo partido deve
realizar uma propaganda perseverante e sistemática nos sindicatos; que devem
ser construídos com base no princípio do centralismo democrático; que devem
defender todas as repúblicas soviéticas nas suas lutas com a contrarrevolução;
que devem modificar o nome e se intitular “Partido Comunista”.
Nos
meses seguintes foram criados grupos comunistas no Recife, Juiz de Fora e
Cruzeiro (São Paulo). Convergiu no processo de construção do PCB uma grande
quantidade de grupos regionais, com dinâmicas e características diversas.
Edgard Carone ressalta que “o fato de pulularem em regiões geograficamente
distantes prova que há uma demanda social comum a todo o Brasil, e é isto que
irá explicar o caráter nacional que tomará o PCB”.
Um dos
exemplos mais significativos desse caráter nacional veio no Recife, onde
contribuíram para a formação do partido a publicação do jornal A hora social
(1919) e a estruturação do Centro de Estudos Sociais. Cristiano Cordeiro, um
dos articuladores da criação do PCB em Recife, assim narrou o processo:
“Correspondi-me em 1921 com Astrojildo Pereira que, no Rio de Janeiro, editava
o jornal Spártacus. Conhecíamo-nos somente de ideias. Combinamos criar, ele no
Rio de Janeiro e eu no Recife, embriões de futuros comitês do partido. Como eu
já atuava no meio sindical, não tive dificuldades de atrair os operários mais
aguerridos. Assim, se comprometeram com ele, entre outros, o carvoeiro Joaquim
Francisco, o padeiro José Caetano Machado, o pedreiro José Amaro, o estivador
Pedro Lira e até pequenos burgueses como o farmacêutico Pedro Coutinho. O Grupo
Comunista do Recife estabeleceu-se no dia 1º de janeiro de 1922, com uma
reunião realizada em minha casa na Rua da Concórdia. Li, na ocasião, os
chamados “21 pontos de Moscou”, condição para adesão à Internacional Comunista.
A ata de fundação foi assinada por cerca de 35 pessoas que decidiram, ainda,
que eu seria o delegado de Pernambuco ao encontro para a criação do PCB”.
Realizado
entre os dias 25 e 27 de março de 1922, no Rio de Janeiro, o congresso de
fundação do PCB foi o resultado do “esforço de lideranças e facções dos
movimentos operários de diversas partes do país”. O bolchevismo parecia ganhar,
pouco a pouco, o apoio de setores da vanguarda operária, devido a um conjunto
de fatores, como a simpatia pela Revolução Russa e a cisão ocorrida nas
correntes anarquistas, o processo de reorganização do movimento operário e a
criação dos grupos comunistas.
O
anúncio oficial da fundação do PCB se fez por meio da revista Movimento
Comunista, de junho de 1922. O congresso, realizado em março, contou com a
presença de nove delegados, representando um total de setenta a três membros,
com delegados oriundos dos núcleos do Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco,
Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Os delegados eram Abilio Nequete (barbeiro),
Astrojildo Pereira (jornalista), Cristiano Cordeiro (funcionário público),
Hermogênio Silva (eletricista), João da Costa Pimenta (gráfico), Joaquim
Barbosa (alfaiate), José Elias da Silva (funcionário público), Luis Peres
(artesão) e Manuel Cendón (alfaiate). Entre os delegados do congresso de
fundação, não eram brasileiros natos Manuel Cendón, espanhol, e Abílio Nequete,
libanês.
Considerando
a trajetória dos delegados, percebe-se que em sua maioria os militantes eram
oriundos do anarquismo. Contudo, há igualmente trajetórias que não se enquadram
nesse perfil. Manuel Cendón, sobre o qual não existem muitas informações, seria
“o único advindo de fileiras socialistas”, dominando “de forma rudimentar o
marxismo”.
Um
personagem com uma trajetória bastante peculiar é Abílio Nequete, cujo vínculo
com o catolicismo teria sido um motivo de choque com organizações anarquistas.
Octávio Brandão definia Nequete como um “fanfarrão e charlatão”, que despejava
“a cada momento, fora de propósito, citações de Lênin, extraídas de más
traduções espanholas” e que “sentia um ódio furioso dos anarquistas”.
Outra
trajetória bastante diversa foi a de Cristiano Cordeiro. Embora tenha
participado de organizações operárias associadas ao anarquismo, nunca foi
efetivamente um militante dessa corrente. Cristiano Cordeiro era maçom, em um
período no qual alguns setores da Maçonaria apontavam certa simpatia pelo
socialista, ainda que por sua versão reformista. Esse setor da Maçonaria parece
ter em grande medida se aproximado do socialismo por conta de sua inserção no
movimento anticlerical, como é o caso do também maçom Everardo Dias, que viria
aderir ao PCB pouco depois da fundação do partido.
Embora
os membros que fundaram o PCB tenham sua origem principalmente no anarquismo e
no sindicalismo revolucionário, militantes com outras trajetórias teóricas e
políticas também convergiram nesse processo. De um lado, há a aproximação com o
comunismo de militantes oriundos de correntes republicanas afinadas com o
positivismo, em especial do movimento anticlerical. Por outro lado, alguns
militantes que têm sua origem nas pouco influentes e esparsas tentativas de
organização socialista, portanto, setores influenciados pelo marxismo da
Segunda Internacional.
Embora
se observe essa diversidade, ao analisar a trajetória dos militantes e das
organizações que convergiram na fundação do PCB percebe-se a decisiva
influência da Revolução Russa. O PCB, a despeito dessa diversidade de origens,
foi a primeira tentativa de constituir um núcleo bolchevique no Brasil, vindo a
esboçar as primeiras tentativas de explicação marxista da realidade brasileira.
O
partido acabou enfrentando tanto dificuldades em âmbito nacional, como os
limites em sua inserção no movimento operário, como internacional, em especial
o fortalecimento do stalinismo como uma das expressões do refluxo da revolução
na Europa. O núcleo trotskista no Brasil, constituído por membros do PCB, foi
fundado em oposição ao processo de burocratização do partido e da Internacional
Comunista ainda na década de 1920.
Fonte:
Por Michel Goulart da Silva, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário