quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Por que Brasil faz exercício militar na Amazônia com novo míssil e blindados

As Forças Armadas brasileiras entram nesta semana na principal fase da Operação Atlas — um grande exercício conjunto com mais de 8 mil militares coordenado pelo Ministério da Defesa, que reúne Marinha, Exército e Aeronáutica para aprimorar a atuação das Forças Armadas na Amazônia.

O exercício acontece no Amapá, Amazonas, Pará e Roraima e envolve, segundo o governo, o "deslocamento estratégico de recursos humanos e materiais de diferentes regiões do País para a Amazônia, com o objetivo de fortalecer a capacidade militar de atuação em uma das áreas mais estratégicas do Brasil". Há também algumas etapas realizadas no Espírito Santo e Goiás.

A operação está acontecendo em um momento de aumento das tensões militares entre Estados Unidos e Venezuela, com repercussão nos demais países da região.

Há notícias da presença de aviões e navios militares americanos no Sul do Caribe neste mês. No começo de setembro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria ordenado o envio de dez jatos F-35 para Porto Rico para realizar operações contra cartéis de drogas na região do Caribe, segundo a agência Reuters.

Além disso, há relatos da presença de navios de guerra americanos deslocados rumo ao Caribe, incluindo destróieres de mísseis guiados, um grupo anfíbio, um submarino de propulsão nuclear, além de aeronaves de reconhecimento P-8 e 4,5 mil fuzileiros navais.

Os militares dos EUA atacaram barcos com supostos traficantes de drogas, que teriam partido da Venezuela. Em discursos na Assembleia Geral da ONU, os presidentes da Colômbia, Gustavo Petro, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, fizeram alusões à presença americana no mar do Caribe.

Em resposta, a o governo da Venezuela ordenou que soldados da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) ensinassem a população das comunidades pobres a usar armas.

Na terça-feira (30/9), Trump voltou a falar sobre a Venezuela e respondeu que "vamos ver o que acontece" a um repórter que perguntou sobre ataques mais diretos contra os cartéis.

O presidente americano complementou dizendo que, após os ataques no mar, não há mais barcos saindo da Venezuela para levar drogas aos EUA e que agora o país vai se concentrar em combater a chegada dos entorpecentes por terra.

<><> Operação programada em 2024

O governo brasileiro nega que sua operação tenha qualquer relação com as tensões entre Venezuela e EUA, e diz que a Operação Atlas já havia sido programada em 2024 para acontecer este ano.

Além do exercício conjunto das forças, o ministério diz que o foco da operação é preparar o apoio à Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, a COP 30, que será realizada em novembro em Belém.

"Nós estamos deslocando tropas para fronteiras, pensando na COP 30, pensando em dar uma maior assistência a uma parte da fronteira mais inóspita, mais inacessível. De repente, estourou esse problema. A pessoa [diz] 'foi lá para ajudar a Venezuela'. [Não] foi lá para não ajudar ninguém", disse o ministro da Defesa, José Múcio, segundo a Agência Brasil.

Múcio disse que teme que a crise entre Venezuela e EUA possa chegar à fronteira do Brasil.

"Estamos preocupados, como eu disse, com a nossa fronteira, para que ela não sofra e não transforme a nossa fronteira numa trincheira. O Brasil é um país pacífico. Nós investimos em armas, nas nossas forças, para defender o nosso patrimônio. Não é de olho na terra de ninguém", disse.

Em dezembro de 2023, o Brasil colocou tropas e diplomatas de prontidão após uma escalada de tensões entre a Venezuela e a Guiana, que disputam o controle da região de Essequibo.

<><> 'Defesa da Amazônia'

A Operação Atlas foi deflagrada em julho e tem previsão para acabar em outubro.

O objetivo da operação é fazer com que os três braços das Forças Armadas executem um exercício conjunto "em um dos cenários mais desafiadores do país, a Amazônia" e "enfrentar na prática os desafios operacionais da região", segundo o ministério da Defesa.

O foco da operação é a "prontidão, integração e defesa" da Amazônia.

Segundo o plano operacional divulgado pelo ministério da Defesa, está prevista a atuação de cerca de 8,6 mil militares.

A Marinha vai empregar 4.619 militares, 46 embarcações, 247 meios de Fuzileiros Navais incluindo viaturas blindadas (Astros e Clanf), além de 12 helicópteros.

O Exército participará do exercício com 3.607 militares, 434 viaturas leves e pesadas, 40 blindados (Astros, Guarani e Leopardo) e 7 helicópteros.

A Força Aérea reunirá 410 militares, 21 aeronaves (transporte, patrulha, caça e helicóptero), além de 3 satélites.

"Essa operação nos habilita a que nós avaliemos essas capacidades de deslocamento das nossas forças para qualquer local do país. Em especial estamos testando agora no teatro amazônico que é o local mais difícil para se fazer essa mobilidade", diz o almirante de esquadra Renato Rodrigues de Aguiar Freire, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas.

"Se nós conseguirmos realizar a mobilidade no teatro amazônico, será menos desafiador realizar em outros lugares."

>>> A operação acontece em três fases:

•        Fase 1 — Planejamento integrado (30 de junho a 11 de julho): essa a etapa ocorreu na Escola Superior de Defesa, em Brasília, com o planejamento conjunto das ações das Forças Armadas. Foram definidos os procedimentos de deslocamento estratégico, os sistemas de comando e controle, além da análise de cenários e problemas simulados.

•        Fase 2 — Deslocamento estratégico (27 de setembro e 1 de outubro): Esse foi o período de movimentação de pessoal e equipamentos militares em direção à área de atuação na Amazônia e na região marítima da foz do Amazonas.

•        Fase 3 — Exercício no terreno (2 a 11 de outubro): Essa é a fase do exercício em si, com duração de dez dias. Ela ocorre diretamente no terreno, abrangendo os Estados do Amapá, Amazonas, Pará e Roraima, e envolve a execução das ações previamente planejadas. As Forças Armadas realizam operações táticas em campo, com atividades integradas em ambientes terrestre, fluvial, marítimo e aéreo.

"O mais comum é cada força praticar separado o seu trabalho, mas a função da Defesa é justamente integrar isso", afirma o general de divisão Júlio César Palú Baltieri, subchefe de Operações Internacionais do ministério da Defesa.

Para a Operação Atlas, as Forças Aéreas destacaram três aeronaves de caça A-1M do Primeiro Esquadrão do Décimo Grupo de Aviação da Base Aérea de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que se deslocaram para Boa Vista, em Roraima.

Há também aeronaves A-29 Super Tucano, do Primeiro Esquadrão do Terceiro Grupo de Aviação, da Base Aérea de Boa Vista.

Segundo a Força Aérea, o A-29 possui maior capacidade de permanência e menor velocidade, usado para contato visual e coordenação e ideal para cenários irregulares, enquanto o A-1M tem maior poder de fogo, maior performance e armamentos guiados, o que favorece em um cenário com maiores ameaças.

Em setembro, foi realizado no Campo de Instrução de Formosa, em Goiás, um teste de armamentos, dentro de uma etapa da operação chamada de Atlas Armas Combinadas.

Foram testados armamentos como o míssil antiaéreo Mistral, as metralhadoras .50, o míssil anticarro 1.2 AC MAX e o drone kamikaze, primeira aeronave de ataque remotamente pilotada das Forças Armadas.

Segundo a agência de notícias da Marinha, uma das novidades deste ano foi o teste com míssil anticarro 1.2 AC MAX, que chegou aos Batalhões de Infantaria de Fuzileiros Navais em junho "desenvolvido com tecnologia 100% brasileira".

"O armamento pode atingir uma velocidade de 240 metros por segundo, tem alcance de até 2 quilômetros e capacidade de penetração maior que 300 milímetros em chapa blindada, contribuindo para deter veículos do tipo em operações terrestres", disse a agência.

•        Após enviar frota ao Caribe, Trump promete enfrentar cartéis na Venezuela por terra

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (30) que pretende intensificar o combate aos cartéis de drogas na Venezuela “por terra”. “Agora vamos analisar os cartéis. Vamos analisar seriamente os cartéis que chegam por terra”, disse Trump ao falar com repórteres ao deixar a Casa Branca, de acordo com a CNN Brasil.

<><> Trump anuncia ofensiva contra cartéis na Venezuela

A declaração de Trump reforça a estratégia de endurecimento dos Estados Unidos em relação à Venezuela. Nos últimos dias, Washington enviou navios de guerra e até um submarino nuclear para o sul do Caribe, em meio às acusações de envolvimento de cartéis no território venezuelano.

<><> Maduro decreta estado de exceção em Caracas

A vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, afirmou na segunda-feira (29) que Nicolás Maduro assinou um decreto de estado de exceção. “O presidente assinou o decreto de ‘comoção externa’”, explicou Rodríguez, ressaltando que essa medida está prevista na Constituição para casos de conflito interno ou externo que ameacem a segurança da nação. Ela acrescentou que o decreto será ativado caso a Venezuela sofra agressão militar direta dos Estados Unidos.

<><> Ameaça militar eleva tensão no Caribe

O estado de exceção concede poderes adicionais ao governo para agir em situações emergenciais, ampliando a capacidade de reação diante de uma possível ofensiva. Enquanto Washington justifica suas ações como parte da luta contra cartéis, Caracas denuncia o que considera uma escalada militar contra sua soberania.

•        EUA anunciam fim da liderança militar "politicamente correta"

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou nesta terça-feira (30) que pretende utilizar cidades americanas como campos de treinamento militar e prometeu acabar com a chamada cultura “woke” nas Forças Armadas. Ao lado do secretário de Defesa, Pete Hegseth, Trump discursou em um encontro incomum que reuniu centenas de altos oficiais militares em Quantico, na Virgínia, convocados às pressas de diferentes partes do mundo.

Segundo a Associated Press, a reunião foi cercada de mistério até a manhã do evento. Durante sua fala, Trump exaltou o poderio nuclear dos EUA e afirmou que o país vive uma “invasão interna”. “Depois de gastar trilhões de dólares defendendo as fronteiras de outros países, agora estamos defendendo as fronteiras do nosso próprio território”, declarou.

<><> Críticas à diversidade e às políticas "politicamente corretas"

Em um discurso de quase uma hora, Hegseth apresentou novas diretrizes que incluem padrões de condicionamento físico “neutros em relação ao gênero”. Ele defendeu que cargos de combate exijam o mesmo nível de exigência física para homens e mulheres. “Se mulheres conseguirem alcançar, ótimo. Se não, é o que é. Isso não é a intenção, mas pode ser o resultado”, afirmou.

Hegseth também criticou políticas ambientais, exigências de diversidade e a presença de militares transgêneros, classificando a ênfase em representatividade como um “delírio”. Para ele, “a era da liderança politicamente correta, excessivamente sensível, que tenta não ferir os sentimentos de ninguém, termina agora em todos os níveis”.

Trump reforçou a posição ao dizer que a função das Forças Armadas “não é proteger sentimentos, mas sim proteger a república”. Ele acrescentou: “Não seremos politicamente corretos quando se trata de defender a liberdade americana. Seremos uma máquina de combate e vitória”.

<><> Flexibilização da disciplina e polêmicas internas

Outra medida anunciada por Hegseth foi a flexibilização das regras disciplinares. Ele disse que revisará as definições de “liderança tóxica, bullying e trote” para dar maior autonomia aos comandantes. O secretário defendeu mudanças nos registros de pessoal, de modo que infrações consideradas menores não prejudiquem carreiras militares. “As pessoas cometem erros, e esses erros não devem definir toda uma carreira”, justificou.

O tema é sensível, já que casos de assédio e abuso têm sido apontados como fatores ligados a suicídios de militares, como o do jovem marinheiro Brandon Caserta, em 2018. Na ocasião, uma investigação apontou que a postura abusiva de seu superior foi determinante para a tragédia.

<><> Um encontro fora do comum

Embora reuniões entre oficiais e líderes civis não sejam raras, a forma como o encontro foi convocado gerou especulações. Generais e almirantes vindos de zonas de conflito no Oriente Médio e em outras regiões foram surpreendidos com uma palestra voltada a debates sobre raça e gênero. Para observadores, o episódio simboliza como as chamadas guerras culturais ganharam protagonismo dentro do Pentágono sob a gestão de Hegseth.

O secretário de Defesa ainda anunciou cortes no número de oficiais-generais e a demissão de líderes de alto escalão, reforçando sua promessa de endurecer a hierarquia. Ao lado de Trump, ele também defendeu a militarização da segurança na fronteira com o México e operações em cidades americanas, iniciativas que têm despertado debates dentro e fora das Forças Armadas.

O encontro em Quantico ocorreu em meio a tensões políticas internas, com a ameaça de paralisação do governo federal pairando sobre Washington, e serviu para reforçar a guinada do atual governo em direção a uma política militar mais rígida e centralizada.

 

Fonte: BBC News Brasil/Brasil 247

 

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