Brasileiro
fica preso quase 2 meses nos EUA, passa por nove presídios, incluindo de
segurança máxima
Era fim
de tarde do dia 17 de junho, em Newport, no estado de Vermont, na fronteira com
o Canadá, quando seis carpinteiros brasileiros deixaram a obra de uma casa onde
trabalhavam em uma reforma. No horizonte, surgiram oito viaturas em alta
velocidade que pararam abruptamente próximas aos trabalhadores, de onde
desceram dezenas de agentes da Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, em inglês) e
ordenaram que o grupo deitasse no chão. “Pisaram na nossa cabeça, algemaram a
gente e levaram para a delegacia. E a gente não sabia por que estava sendo
preso”, contou Salomão Castelo Branco Borges, de 21 anos, um dos detidos.
Com o
rosto espremido no asfalto, Borges questionou os agentes, em inglês: “Por que
estou sendo preso?”, mas não teve nenhuma resposta. O jovem brasileiro temia
esboçar alguma reação que pudesse gerar ainda mais agressões. “Nós estávamos
com medo, porque eles podiam atirar ou usar arma de choque, porque lá é desse
jeito: qualquer movimento brusco que tu faz, eles pensam que tu tá querendo
fazer alguma coisa e já atiram”, disse à Agência Pública.
“No
primeiro dia, eu pensei que tinham me pegado por engano […] Eu não sabia em que
lugar eu estava me metendo”, contou. Borges soube 24 horas depois que o motivo
de sua prisão era por não possuir o “green card” (passe livre de imigrante nos
EUA), já na delegacia de Newport. Ele e a família tinham somente o visto de
estudante, mas estavam em processo de manutenção para adquirir o de
permanência.
Durante
as 24 horas na delegacia, ele e os colegas de trabalho ficaram amontoados em
uma cela, exaustos de passarem o tempo deitados sobre o chão frio, sem comida,
água, banho ou banheiro, e com direito apenas a uma ligação de dois minutos.
“Mãe, eu fui preso, mas eu devo sair amanhã”, foi o pouco que Salomão Borges
pôde compartilhar, pois até então não tinha informações suficientes para
fornecer.
A
partir de então, o jovem brasileiro passou por uma jornada de 51 dias sob poder
dos agentes estadunidenses, onde passou por presídios de segurança mínima,
máxima e um centro de detenção para imigrantes, onde, segundo ele, água e
comida eram racionadas e nada se falava sobre quando poderia voltar ao convívio
da família.
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Por que isso importa?
• A mudança das leis de imigração nos EUA
por Donald Trump levou à deportação de mais de 200 mil pessoas nos seis
primeiros meses deste ano. Cerca de 1,8 mil brasileiros foram detidos;
• As prisões e detenções têm sido
denunciadas pelo uso de violência por parte dos agentes e por infrações a
direitos humanos nas prisões e durante o processo de deportação.
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O fim do sonho americano
Borges,
os pais e os dois irmãos mais novos tinham como objetivo viver o “sonho
americano” – um ideal de cultura estadunidense do século 20 de que qualquer
pessoa poderia prosperar no território, independente da classe social de onde
vem -, mas para a família a experiência se tornou um pesadelo, descrita por ele
como “humilhante” e “traumática” no país de Donald Trump.
“Quando
eu fecho os olhos, me vem a imagem do que eu passei lá: da cadeia e a escuridão
das celas. Aí eu acordo assustado, pensando que posso passar por tudo aquilo de
novo”, descreveu o jovem.
Borges
só chegou ao Brasil em 7 de agosto, em um voo da Força Aérea dos EUA que trazia
apenas deportados de diversas nacionalidades. A aeronave saiu de Houston, no
Texas, com outras duas paradas, e como último destino final a cidade de Belo
Horizonte, capital mineira, em um trajeto que durou 24 horas, sem comida, água
ou direito ao diálogo com outros imigrantes, segundo denuncia o brasileiro.
Parte
da justificativa da prisão do brasileiro é o endurecimento da política
imigratória imposta pelo presidente Trump, desde que assumiu o cargo em janeiro
deste ano. Até junho de 2025, mais de 200 mil pessoas foram deportadas dos
Estados Unidos e outras 60 mil, detidas pelos agentes da ICE, incluindo 1,8 mil
brasileiros, segundo um levantamento da Pública.
Alvaro
de Castro Lima é fundador do Instituto Diáspora Brasil, com sede em Boston, que
estuda a imigração de brasileiros para os Estados Unidos. Ele define que as
prisões realizadas pelo ICE são parte de uma política para redefinir “o que é
ser americano” de “um grupo forte de cristãos brancos nacionalistas que quer
uma América deste tipo.”
“Tem
sido uma violação a todos os direitos civis e direitos humanos dos imigrantes
[…] E a primeira violação é tratar um caso criminal, porque não é um crime você
atravessar a fronteira”, explicou Lima. “Eles estão deportando [até] pessoas
com dupla nacionalidade”, concluiu.
Larissa
Salvador, advogada brasileira e especialista em imigração nos EUA, explica que
manter-se no país com o visto vencido ou usar um outro tipo de visto, que não
seja o de permanência, para se estabelecer no país, é considerado crime e os
agentes do ICE são orientados a realizar as detenções, mas a forma como tem
ocorrido é “questionável”.
“A
pessoa só passou do visto. Você não precisa tratá-la como se ela tivesse matado
o seu pai, seu irmão, seu tio e os seus filhotinhos de cachorro. Porque muitas
prisões têm sido feitas assim”, disse a advogada.
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“Tratado como um bandido, apenas por ser imigrante”, diz brasileiro que foi
preso nos EUA
No dia
seguinte à prisão, Borges e outros cinco brasileiros foram algemados nos
pulsos, tornozelos e abdômen pelos agentes da ICE e, na sequência, transferidos
para a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP, em inglês),
ainda no estado de Vermont, onde passaram 14 dias. Esse era apenas um dos nove
espaços de detenção por onde o jovem transitou em 51 dias.
O CBP
foi descrito pelo brasileiro como “tranquilo”, pois o esaço era compartilhado
com mais 50 pessoas, que cometeram crimes de menor potencial ofensivo. Depois,
o ICE transferiu o grupo de carpinteiros para um presídio de segurança máxima
em Berlin, no estado de Nova Hampshire, na costa oeste dos EUA, onde havia mais
de 300 presos, que cumpriam penas de crimes diversos como roubos, estupros e
homicídios.
“Foi lá
que o terror aconteceu. Eu vi muita briga, [entre elas] um cara a 10 metros de
mim cortando a cara do outro com uma gilete”, lembrou. “Lá a gente não
conseguia dormir direito com medo”, disse.
A cela
era pequena e retangular, com duas camas, e apenas uma janela pequena onde
entrava a luminosidade. Borges e outro brasileiro passavam 16 horas, em média,
reclusos no espaço. No tempo ocioso, ele contou que a saudade da família
aumentava a cada dia, e era inevitável não contar os minutos para que o
“pesadelo acabasse”.
De
acordo com Borges, a comida era servida às 5h, 11h e 16h, mas nem sempre
traziam proteínas. “De manhã era sempre uma papa de aveia. No jantar e almoço,
sempre era verdura e uma sopa, de vez em quando aqui ou acolá, eles mandavam um
pedaço de frango”, contou.
Para
dar uma alimentação mais digna, a família do brasileiro enviava dinheiro aos
presídios onde ele esteve preso, na expectativa de que os funcionários
comprassem comida. A prática é comum nos centros de detenção estadunidenses. No
entanto, em virtude das constantes transferências a que ele foi submetido, ele
diz que a comida nunca chegou.
Além da
comida, o pouco contato que podia estabelecer com a família tinha custo:
ligações custavam 2 dólares, chamadas de vídeo 6, e mensagens de texto 25
centavos de dólares.
“Botando
assim por baixo, 10 mil dólares (cerca de R$ 54 mil), porque só de advogado a
gente gastou 4 mil dólares. [Também] a gente precisava pagar para manter a
comunicação com ele, precisava muitas vezes mandar dinheiro pra ele tentar se
alimentar de alguma forma, Porque a comida da penitenciária era escassa, de
péssima qualidade e pouca”, contou Edlaine Távora, mãe de Salomão Borges.
A
advogada Larissa Salvador explica que o ICE tem colocado imigrantes em
presídios de segurança máxima em virtude do alto número de prisões que têm
ocorrido. “A razão que eles têm usado centros de detenção máxima ou prisões de
segurança máxima é porque, com o índice de prisões que estão sendo feitas, eles
não conseguem dar vazão: você não consegue nem deportar, nem colocar na frente
de um juiz rápido o suficiente para aquilo funcionar”, apontou.
As
prisões privadas por onde o brasileiro passou têm sido uma prática cada vez
mais comum nos EUA, uma vez que é um “negócio lucrativo, por estar na bolsa de
valores”, segundo o presidente da Diáspora Brasil. “Há um negócio dentro da
prisão: a família manda dinheiro para comprar mais comida, roupa e água”, disse
Lima. “Mas se a família não tem dinheiro, eles [prisões privadas] inventaram
uma coisa ‘extraordinária’ que é que você pode trabalhar por um dólar por dia
para ter acesso a essas coisas”, ironizou.
Enquanto
estava preso em Berlin, Borges passou por um julgamento e o juiz havia dito
que, caso ele comprasse a própria passagem aérea, poderia deixar a prisão e o
país. Amigos e familiares, então, se uniram para contribuir e arrecadaram 800
dólares (cerca de R$ 4,3 mil), que seriam suficientes para arcar com um voo de
Boston com escala em São Paulo e, depois, Fortaleza.
“Eu
comprei minha passagem, mas eles não me levaram pro aeroporto. Não cumpriram
com o acordo deles, porque falaram que era ‘perda de tempo’ e que ‘era
contramão’ para eles”, contou o brasileiro.
Neste
período, em um novo julgamento, o brasileiro se voluntariou para que deixasse o
país e não mais aguardasse pelo andamento do seu pedido de asilo no país.
Segundo a mãe, Edlaine Távora, a audiência ocorreu quando Borges completou um
mês preso e a procuradora federal de acusação disse que ele o caso do
brasileiro era um “expedited removal” (remoção acelerada, em português). “A
juíza falou: ‘Salomão, você tem direito a recorrer’ e ele mesmo disse: ‘não
quero’ […] ele pediu saída voluntária”, contou a mãe.
Após a
audiência, o brasileiro contou que transitou por outras três delegacias de
Massachusetts, antes de ser transferido para o estado do Texas, onde cumpriu o
final de sua detenção.
Segundo
Alvaro Lima, do Diáspora Brasil, as constantes transferências de presídios
ocorrem de forma “maliciosa” para enfraquecer os laços dos imigrantes,
deixando-os distantes de comunidades brasileiras, advogados e da própria
família. “[O ICE] te prendem em Massachusetts, por exemplo, onde os juízes são
mais liberais, eles te mandam pro Texas ou para lugares onde as prisões são
mais brutas, os juízes acham que se devem deportar, deportam”, trouxe Lima,
como um exemplo.
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Nem um litro de água por dia, brasileiro denuncia
As
últimas transferências de Borges nas prisões dos EUA ocorreram no final de
julho, quando o brasileiro foi colocado em um voo de Boston para Houston, no
Texas, onde cumpriria a parte final de sua detenção, antes do retorno ao
Brasil.
Antes
de ser transferido para o centro de detenção para imigrantes, em Port Isabel, o
brasileiro passou por mais duas delegacias. “Foram dez dias só comendo pão,
mortadela e queijo. Manhã, tarde e noite. Só isso, nada mais”, contou Borges
sobre o período em que passou no Texas.
O
racionamento se estendia até para água, uma vez que os imigrantes teriam
direito a apenas 8oo ml de água, abaixo dos dois litros de água recomendados
pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “Não podia escovar os dentes, não
podia trocar de roupa e não podia nada”, contou o brasileiro.
Retangular,
frio e vazio, o espaço foi apelidado pelo brasileiro e seus colegas de
“geladeira”. Para se abrigar do frio, eram entregues aos imigrantes mantas
térmicas laminadas, que não eram o suficiente para aquecer o corpo. “Sem cama,
só com vaso sanitário e sem comida”, definiu Borges.
Naquela
altura de sua prisão, ele estava acompanhado de apenas mais três dos outros
cinco brasileiros presos junto com ele em Newport. Um deles conseguiu asilo,
outro foi transferido de presídio ainda no início. Os demais conseguiram
embarcar no mesmo voô que o trouxe de volta para o Brasil.
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A angústia de uma mãe
O
domingo, 15 de junho, era dia dos pais nos Estados Unidos. A família estava
toda reunida em casa para celebrar a data com um jantar. No entanto, Borges
precisou dormir mais cedo, pois, na madrugada seguinte, sairia de Boston, onde
vivia e iria para Newport, onde faria mais um de seus trabalhos como
carpinteiro. “Foi o nosso último contato físico com ele”, contou a mãe do
brasileiro.
No dia
em que o filho foi preso, Távora estranhou que o seu primogênito havia passado
muito tempo sem dar notícias. A mãe olhou a localização do celular – que é
compartilhada entre a família – e descobriu que Borges estava em uma delegacia.
Ele estava há quase quatro horas sem dar notícias, até que fizesse a única
ligação autorizada pelos agentes de imigração.
Ao ser
comunicada pelo filho da prisão, na ligação de apenas dois minutos e sem
detalhes, Távora disse que a primeira coisa que pensou foi: “Como vou tirar ele
de lá?”. “São muito confusos os sentimentos, sabe? É um medo, é angústia, é
pavor!”, exclamou.
Depois
da única ligação recebida do filho, por quatro dias, Távora só teve informações
sobre o paradeiro de Borges por meio do rastreador de celular, enquanto ainda
havia bateria no aparelho dele. “Em nenhum momento eles [o ICE] comunicam
absolutamente nada. Pelo contrário, eles dificultam a comunicação”, contou.
Durante
o período, os pais de Borges procuraram pelo ICE para tentar obter informações
sobre o paradeiro do filho, mas não tinham respostas. “Eles diziam que não
podiam dar informação ou então diziam que estava no local, mas quando a gente
ligava eles diziam que estava em outro. Eram as informações totalmente
desencontradas e a gente não sabia nem como agir”, disse Távora.
Conforme
Borges dava notícias, a mãe conta que ficava em desespero e os instintos de
proteção vinham à cabeça. “A minha vontade era de ir lá pra porta [do centro de
detenção] e brigar […] vontade de pegar o guarda e sacolejar, como se fosse um
instinto de sobrevivência mesmo”, desabafou.
“Eu não
conseguia dormir ou me alimentar direito, porque cada vez que eu ia comer,
ficava imaginando: ‘como eu vou comer com o meu filho passando fome lá dentro”,
contou a mãe.
Até
mesmo a notícia de que o filho estava a caminho do Brasil não foi comunicada à
família. Borges havia ligado horas antes do embarque e disse que os guardas
haviam pedido para que ele fizesse as malas.
O
telefone de Távora tocou, mas do outro lado da linha estava um ex-colega
brasileiro com quem Borges dividiu a cela no Texas: “Eu sou amigo do Salomão e
ele pediu pra eu lhe telefonar para avisar que ele realmente foi pro voo [de
volta para o Brasil]. Ele não foi transferido para outro outro presídio.”
Távora
escutou a ligação aliviada e pediu para que a família no Brasil desse todo o
suporte ao filho, assim que ele chegasse. O ICE, no entanto, não deu qualquer
informação sobre o horário do pouso em território brasileiro e a rota.
“O que
eu sempre falo para algumas pessoas é que a gente está passando pelo luto de um
filho vivo, mas que não deixa de ser um luto […] Ele foi arrancado da gente,
porque ele não queria ir embora. Ele queria ficar com a nossa família”,
concluiu Távora.
Por
meio de nota, o Itamaraty respondeu que “o Ministério das Relações Exteriores,
por meio do Consulado-Geral do Brasil em Boston, prestou assistência consular
ao nacional brasileiro detido em Vermont e a seus familiares”, referindo-se ao
caso de Borges.
A nota
diz ainda que “O governo brasileiro tem feito gestões contínuas para garantir
tratamento justo, digno e humano a todos os brasileiros sob custódia nos
Estados Unidos. As gestões do governo brasileiro incluem, além de garantias de
tratamento digno em solo americano, condições adequadas de tratamento durante
voos de repatriação, como, por exemplo, a utilização de rotas aéreas mais
curtas, a presença de agente consular brasileiro no momento do embarque e a não
utilização de algemas em território brasileiro, entre outras providência.”
O ICE
foi questionado pela reportagem sobre as denúncias feitas, mas disse que só se
posicionaria caso tivesse os nomes dos detidos, que foram preservados, no
pedido de nota, pelo risco que suas famílias – que ainda vivem nos EUA – podem
correr.
Fonte:
Por Rafael Custódio, da Agencia Pública

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