A
esquerda não pode deixar a nostalgia para a direita
Um espectro assombra a política global: o
espectro da nostalgia. Nostalgia pela família nuclear, onde apenas um provedor
é o suficiente; nostalgia pelo Estado-nação etnicamente definido e uniforme;
nostalgia por tempos mais simples, pré-internet; nostalgia por uma época em que
homens eram homens e mulheres eram mulheres, ponto final.
A nostalgia na política tem a reputação de
estar inextricavelmente ligada a projetos reacionários. Por exemplo, o filósofo
Jason Stanley inicia seu livro de 2018, Como Funciona o Fascismo,
com uma discussão sobre como a nostalgia, um olhar ansioso para “um passado
mítico puro tragicamente destruído”, é o afeto fundamental explorado pelo
fascismo. De fato, os fascistas originais eram bastante explícitos sobre o
apelo a um passado mítico. Em um discurso de 1922 no Congresso Fascista em
Nápoles, Benito Mussolini declarou: “Criamos nosso mito […] Nosso mito é a
nação; nosso mito é a grandeza da nação!”
Hoje, pode parecer que a nostalgia
ressuscitou e está arruinando o mundo. Mas a nostalgia não tem uma inclinação
inerentemente fascista. Ela pode ser direcionada a períodos de esperança,
solidariedade e revolução. A nostalgia tem uma capacidade incomparável de
coordenar grandes grupos de pessoas em torno de rituais, memórias e desejos
compartilhados. E, ao relembrar o melhor do passado e reinterpretá-lo
criativamente à luz das necessidades atuais, a nostalgia pode nos ajudar a
criar novas visões.
<><> A Revolução dos Cravos
Crescendo nos subúrbios lisboetas no início
dos anos 2000, meu feriado favorito era o 25 de abril, a celebração da
Revolução dos Cravos. Marca o dia que, em 1974, um grupo de oficiais do
exército marchou para Lisboa, foi recebido de braços abertos pela população e
pôs fim à ditadura fascista mais duradoura da Europa.
No ano e meio que se seguiu à Revolução dos
Cravos, Portugal finalmente abandonou seu projeto colonial, negociando a
independência de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde. O país passou
por um período revolucionário efervescente. O tipo de país que Portugal se
tornaria era uma incógnita, e cada um podia decidir.
Como
escreve a historiadora Raquel Varela, três
milhões de pessoas — impressionantes um terço da população — participaram
diretamente dos conselhos de trabalhadores, moradores e soldados, reunindo-se
regularmente para discutir de maneira acalorada tanto suas próprias condições
materiais quanto os rumos que o país deveria tomar. Os bancos foram
nacionalizados e expropriados; 360 empresas foram adquiridas e administradas
por seus trabalhadores. Cooperativas habitacionais foram construídas com a
colaboração de jovens arquitetos e moradores locais em todo o país, construindo
novas casas para pessoas que só conheciam a vida em favelas.
Trabalhadores rurais que antes viviam em
condições de quase servidão agora tomavam posse da terra onde trabalhavam
arduamente. No Ribatejo, como mostra o documentário Terra Bela,
trabalhadores sem-terra se viram lado a lado com revolucionários barbudos
vasculhando os armários dos donos de terras e experimentando alegremente suas
roupas. “Agora pareço mesmo um duque!”, gritava um deles, enquanto outros
examinavam os livros nas prateleiras com curiosidade.
Talvez não seja surpresa que, em um país que
faz da saudade — uma saudade melancólica por coisas, pessoas e
lugares que já se foram — um modo de vida, a revolução e o período
revolucionário que se seguiu sejam recordados com intensa e amorosa nostalgia
em Portugal. Praticamente não há protesto progressista, seja sobre habitação,
violência policial ou questões econômicas, sem que “25 de Abril para sempre!
Fascismo nunca mais!” irrompa como um cântico em voz alta. Quando as
comunidades de imigrantes sul-asiáticos no centro de Lisboa foram assediadas
pela polícia em dezembro, figuras públicas progressistas apareceram no bairro
no dia seguinte para distribuir cravos vermelhos, remetendo aos soldados com
espingardas em cada foto da revolução.
O olhar carinhosamente nostálgico em direção
ao passado que encontramos aqui está muito distante da nostalgia da extrema
direita, encapsulada no chamado de Trump para “Make America Great Again”
(Tornar a América Grande Novamente), com sua propulsão reacionária para nos
aprisionar em uma versão fantasiosa dos subúrbios dos anos 1950. É igualmente
distante da nostalgia estética do consumidor de assistir a reprises da TV dos
anos 90 de moletom, deixando o Spotify guiá-lo para outra música conhecida e
navegando no Instagram por conteúdo do tipo “leve-me de volta a (insira a
década)” — o que o teórico da nostalgia Grafton Tanner chama de “retrobait”.
Enquanto esses tipos mais familiares de
nostalgia anseiam por um passado nitidamente imaginado, a nostalgia pela
Revolução dos Cravos é encapsulada no slogan “Ainda não cumprimos abril”. O
anseio nostálgico é transformado em apego a uma promessa ainda a ser cumprida.
<><> Diferentes sabores de
nostalgia
Todo dia 25 de abril da minha infância, meus
pais, minha irmã e eu dançávamos de pijama ao som de músicas de protesto dos
anos 1970 a manhã toda, cantando como “o povo é quem manda”. Meu pai, que era
adolescente na época da revolução, contava as mesmas histórias todos os anos:
de ver as ondas de prisioneiros políticos em êxtase descendo a colina de uma
das prisões políticas mais infames do regime, recém-libertados após meses de
tortura; tardes na praia se transformando em disputas hormonais entre as alas
jovens dos partidos comunista e maoísta sobre os detalhes mais sutis do Livro
Vermelho e do Manifesto Comunista; de passar o verão de
1975 no sul rural, trabalhando duro em um celeiro com outros jovens comunistas
para ensinar trabalhadores agrícolas mal-humorados a ler e escrever.
No início da tarde, prendemos cravos
vermelhos em nossas camisas e seguimos para o centro de Lisboa, onde marchamos
pela Avenida da Liberdade. Inevitavelmente, encontramos amigos da família que
só víamos uma vez por ano. Todos os anos, pessoas de todos os tipos estavam lá,
de ativistas antirracistas ou queer a sindicalistas da velha guarda, de membros
do Partido Comunista a famílias geralmente apolíticas que talvez votassem no
centro-direita.
Trump, Vladimir Putin, Viktor Orbán e seus
aliados globais compreendem bem os prazeres da nostalgia. A nostalgia em que a
direita contemporânea trafega tem um objeto de desejo claro: um passado mítico
em que famílias nucleares heterossexuais podiam viver em uma casa suburbana com
uma única renda, onde as mulheres ficavam felizes em casa cuidando de seus
muitos filhos e esperavam obedientemente para servir um copo de uísque aos
maridos depois do trabalho. É verdade que, pelo menos nos Estados Unidos e em muitas
democracias europeias, o pós-guerra foi uma época de menor desigualdade, maior
densidade sindical, maior militância trabalhista e prosperidade para muitos.
Mas a direita reacionária canaliza a nostalgia do período precisamente para
suas características mais questionáveis.
A nostalgia reacionária distorce o passado e
se recusa a reconhecer qualquer progresso desde que aquele mundo mítico tão
desejado foi roubado; cultiva o ressentimento pelo paraíso perdido e a
ansiedade pela mudança. E, como constatamos a cada dia, a nostalgia reacionária
não tolerará objeções à transformação desse mito rígido na realidade de todos,
quer queiram ou não.
A nostalgia reacionária tem uma longa
história em Portugal. O regime fascista aproveitou a nostalgia da gloriosa era
das “descobertas” marítimas do país, quando os portugueses “deram novos mundos
ao mundo”, para forjar o consentimento para a guerra contra os movimentos de
libertação nas colônias. E, infelizmente, continua bem viva em Portugal. Nas
eleições deste ano, o partido de extrema-direita Chega obteve mais de 20% dos
votos, mais do que triplicando a sua percentagem de votos em três anos,
ultrapassando o partido de centro-esquerda como a segunda maior força política
do país. O seu líder comparou-se explicitamente ao ditador António de Oliveira
Salazar, que liderou o regime fascista português entre 1932 e 1968.
A resposta, na marcha da Revolução dos
Cravos, que comemora seu quinquagésimo aniversário em 2024, foi uma onda de
mais de duzentas mil pessoas marchando pela avenida, cravos vermelhos presos às
camisas, gritando: “Fascismo nunca mais!”. Quando minha namorada e eu chegamos
ao início da marcha — minha primeira vez de volta desde que saí do país para a
faculdade aos dezoito anos — fiquei impressionada com a quantidade de pessoas
presentes. Fazendo uma equivalência entre o tamanho das áreas metropolitanas de
Lisboa e Nova York, seria como se um milhão e meio de pessoas tivessem se
reunido para marchar pela Quinta Avenida.
O clima era de euforia. No topo da marcha,
ativistas com uma enorme faixa “Abril exige moradia” escalavam a estátua no
centro da praça. Aposentados carregavam faixas exigindo melhorias na saúde
pública. Uma jovem de jaqueta de couro carregava orgulhosamente uma placa com
os dizeres “Lesbianize Abril”. No final, um grupo de ativistas havia escalado
uma estátua, exibindo orgulhosamente a bandeira palestina. Cartazes de pop art
com cravos sobre fundos de cores diferentes, espalhados por toda a cidade, celebravam
as muitas conquistas da democracia portuguesa, desde o direito ao salário
mínimo em 1974 até a legalização do aborto em 2007.
Se a nostalgia reacionária é forte em
Portugal, também o é o poder de um passado revolucionário compartilhado para
coordenar uma multidão em torno do valor da democracia — a nostalgia como uma
forte cola unificadora para os valores democráticos, não como uma bota
pressionando nossos pescoços.
“Se a nostalgia reacionária é forte em
Portugal, também o é o poder de um passado revolucionário compartilhado para
coordenar uma multidão em torno do valor da democracia.”
Nesta versão de nostalgia, não há desejo de
retornar a 1974. O foco está no que a revolução tornou possível e em onde
podemos querer ir. A marcha não é uma reconstituição histórica, com homens
uniformizados, tanques do exército e civis aplaudindo com calças boca de sino.
É um protesto, que se renova a cada ano para focar nas questões
mais urgentes do momento. Aqueles que marcham pela avenida adotam os valores da
revolução — paz, pão, moradia, saúde e educação para todos, como canta uma
famosa canção portuguesa dos anos 70 — e os incorporam, remodelam e
redirecionam de acordo com as necessidades do momento.
A nostalgia pela revolução pode levar
centenas de milhares às ruas. Pode nos lembrar da miséria humana que uma virada
antidemocrática traria. E no ano passado, além dos limites legais das
celebrações oficiais da revolução, a nostalgia ofereceu um vislumbre de algo
mais transformador.
<><> Como a nostalgia pode
impulsionar a esquerda
Enquanto eu passeava tranquilamente pela
Avenida da Liberdade, um grupo de ativistas da cena anarquista de Lisboa
invadiu uma escola abandonada no bairro de Santa Engrácia, que estava em
processo de gentrificação (e turistificação).
Eles batizaram a ocupação de “Centro Social
de Santa Engrácia”. O plano era que o prédio abandonado funcionasse como o que
o sociólogo urbano Ray Oldenburg chamou de “um terceiro lugar”, um espaço
informal de encontro que não é nem trabalho nem lar, e que ele defendia ser o
coração da democracia. Terceiros espaços estão ameaçados em todos os lugares.
Em Lisboa — uma cidade que é vendida a qualquer um que possa pagar por um
Golden Visa (uma autorização de
residência baseada em investimentos no país,
geralmente por meio da compra de imóveis) — e convertida em uma Disneylândia
hipster para nômades digitais, eles estão desaparecendo a cada hora.
Em 1974, o país também enfrentou uma crise
habitacional. Cinquenta mil pessoas viviam em barracos só em Lisboa. Após a
revolução, famílias inteiras, muitas vezes lideradas por mulheres, mudaram-se
para moradias vazias, que iam desde prédios de nove andares quase prontos até
os palácios dos ricos que haviam fugido do país aterrorizados após a revolução.
Algumas dessas ocupações eram lideradas por ativistas e ofereciam serviços
normalmente indisponíveis para os pobres: clínicas de saúde pública, maternidades,
creches ou cantinas.
Essas ocupações tiveram vida curta. Assim que
o país se estabeleceu em uma democracia liberal plácida, após a eleição do
partido de centro-esquerda apoiado pelos EUA para o governo em 1976, ocupar
prédios abandonados tornou-se ilegal. Famílias foram despejadas sob promessas
de moradia futura, e as propriedades foram devolvidas aos seus proprietários do
período pré-revolucionário. Com o tempo, a casa própria substituiu a abolição
da propriedade privada como sonho norteador. Pelo menos, isso aconteceu para todos,
exceto para um punhado de esquerdistas nostálgicos que ansiavam pelo período
pós-revolucionário.
Esse anseio nostálgico pode parecer a
manifestação de um dos principais pecados da nostalgia: distorce nossa visão do
passado ao ignorar seus aspectos negativos. Realisticamente, Portugal em
1974-75 não foi uma utopia. A maioria da população permaneceu miseravelmente
pobre. A situação política e econômica era extremamente instável. Cerca de meio
milhão de colonos retornaram, desorientados, desempregados e amargurados após a
independência das colônias portuguesas. Houve muita agitação e violência da
direita. O período só parece uma utopia se vislumbrada com uma visão limitada.
Mas qualquer pensamento sobre o mundo é
necessariamente seletivo. Somos seres limitados. Podemos sentir nostalgia por
características positivas distintivas de um período sem acreditar que esse
período foi uniformemente positivo e, ao mesmo tempo, reconhecer que houve
progresso desde então. Em vez de funcionar como um caleidoscópio distorcido, a
nostalgia pode servir como um indicador: aqui reside um
gostinho de utopia.
“A nostalgia pode ser aproveitada não como um
anseio por hierarquias rígidas de classe e raça e pela família tradicional, mas
para destacar que podemos viver de acordo com valores diferentes.”
Se a utopia fosse real, ainda que breve e em
escala local, seria também uma possibilidade viva para o futuro, algo concreto
e realizável. Se vivemos assim uma vez, poderíamos viver novamente. A
nostalgia pode ser aproveitada, não como um anseio por hierarquias rígidas de
classe e raça e pela família tradicional, mas para destacar que podemos viver
de acordo com valores diferentes; que podemos, por exemplo, ocupar prédios
abandonados para habitar coletivamente, para sentar juntos, brincar e cuidar
uns dos outros.
Visitei a ocupação pela primeira vez alguns
dias depois da marcha, no final da tarde. Na área externa, exuberantemente
coberta de vegetação, jovens de vinte e trinta e poucos anos, com mullets e
franjas, amontoavam-se em grupos bebendo cerveja e conversando. Crianças
circulavam com supervisão mínima dos pais. Mulheres na casa dos setenta
revisitavam o prédio fechado há muito tempo, onde algumas delas haviam estudado
muitas décadas atrás. Havia pessoas pintando murais nas paredes, variando de
frutas coloridas e arco-íris a absurdos (“punks não trapaceiam em jogos de
cartas!!” ao lado de uma pintura naïf de um diabo jogando
cartas) e slogans políticos (“aborto para todos”; “a Revolução dos Cravos
começou na África”). Todos pareciam ocupados com alguma coisa: limpando,
organizando o espaço, carregando móveis, levando comida e produtos de limpeza
para a despensa compartilhada. Aparentemente não havia ordem nas coisas, mas a
despensa estava totalmente abastecida, uma refeição era preparada e uma festa
estava marcada para mais tarde. Parecia que eu estava esperando por isso depois
de todos aqueles anos ouvindo reminiscências da revolução.
Enquanto passei os dias seguintes no prédio
ocupado da escola, participando de assembleias, cozinhando refeições, ouvindo
música ao vivo e assistindo a documentários temáticos, nossa nostalgia
revolucionária se manifestou de maneiras que nada têm a ver com as lembranças
ociosas de assistir a reprises de TV. Quando deixamos nossa nostalgia invadir a
vida coletiva, nunca estamos apenas ansiando por um passado perdido. Mesmo que
os projetos em que nos envolvemos remetam romanticamente a um período passado,
eles não podem deixar de responder aos desejos que temos agora: neste caso,
construir uma cidade que seja para seus habitantes, não mero alimento para as
forças impessoais do capital ou para os apetites de viajantes do Airbnb.
<><> De volta para o futuro
Nos Estados Unidos, não há uma revolução
unificadora de esquerda pela qual ansiar coletivamente. Mas não faltam períodos
de ebulição progressista, ação coletiva vigorosa e sonhos ferozes.
De fato, uma espécie de nostalgia
revolucionária já faz parte da prática progressista em um setor da política de
esquerda geralmente considerado alérgico ao passado: o movimento LGBTQ. Todos
os anos, a Parada do Orgulho não corporativa unifica uma coalizão diversa em
torno da memória coletiva de Stonewall. Ao lembrar que “a Parada do Orgulho foi
uma revolta”, também relembramos o Greenwich Village de 1969 como uma promessa
de libertação de gênero e sexual ainda a ser cumprida e nos comprometemos a
lutar por ela.
A
nostalgia revolucionária também foi fundamental para os acampamentos estudantis
de 2024 em defesa da Palestina. Os acampamentos ecoaram conscientemente as mobilizações estudantis em
massa contra a Guerra do Vietnã no final dos anos 1960 e início dos anos 1970,
tanto em termos de estratégia quanto de princípios éticos. Foi a nostalgia que
tornou os protestos inteligíveis para um amplo público, desencadeando uma onda
que se espalhou muito além dos Estados Unidos.
A estrutura da nostalgia progressista é a
mesma nesses casos e no da Revolução dos Cravos: fazer um esforço ativo para
produzir uma memória compartilhada de um momento revolucionário; destacar os
valores pelos quais nossos precursores lutaram; e então usar as celebrações
desse passado para renovar o compromisso com os valores compartilhados e
organizar como podemos torná-los vivos agora.
Há muitas experiências na história dos EUA
que valem a pena ser nostálgicas. Podemos relembrar os belos murais
encomendados pela Works Progress Administration durante o New Deal e aproveitar
essa energia para encontrar inspiração em outros projetos importantes do
período. Ou recontar a história da greve do Pão e das Rosas de 1912, que uniu
cerca de vinte mil trabalhadores de mais de cinquenta e uma nacionalidades em
Massachusetts, inventou novas táticas e popularizou o slogan “Pão para todos e
rosas também”. Ou celebrar a Marcha
sobre Washington por Empregos e Liberdade,
orientando-nos em torno de uma agenda de justiça racial e econômica para todos.
Em Lisboa, em abril de 2024, a ocupação durou
apenas uma semana, com a polícia chegando de madrugada para expulsar os
ativistas que dormiam lá dentro. Hoje, o prédio ainda está lá, trancado e sem
uso. Para mim, aquela semana se consolidou em um novo conjunto de memórias
nostálgicas.
A nostalgia que sinto em torno da data de 25
de abril — por uma revolução que não vivi, pelos dias felizes da infância, pela
ocupação de uma semana do ano passado — me diz que utopias são possíveis. Essas
utopias não são cenários determinados perdidos em um passado distante — o do
lar suburbano e da esposa obediente que alguns querem impor —, mas desejos
indefinidos de liberdade coletiva, à espera de que os articulemos em conjunto.
Em Portugal, abril continua sendo uma
promessa a ser cumprida. Em outros lugares, outros abris permanecem nas
sombras, esperando para serem descobertos, saboreados e transformados em fontes
de força e união.
Fonte: Por Carolina
Flores - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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