Medo
e censura nas escolas do Brasil
Lançada
no começo de dezembro/2025, a pesquisa “A violência contra educadoras/es como
ameaça à educação democrática”, que analisa o avanço das tentativas de censura
e perseguição a educadoras e educadores desde 2010 e seus impactos na saúde, na
carreira e no clima escolar, passa longe de trazer boas notícias.
O
levantamento do ONVE (Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es),
financiado pelo MEC (Ministério da Educação) e disponível para download, mostra
que a censura é um fenômeno espalhado por todo o território nacional e
atravessa todas as etapas da educação.
Os
dados são alarmantes. Nove em cada dez profissionais da educação básica e
superior, das redes pública e privada, já sofreram ou presenciaram episódios de
perseguição e censura em instituições de ensino no Brasil.
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A guerra cultural chega à sala de aula
A
violência contra educadores aumentou ao longo da última década, impulsionada
por episódios como a controvérsia do kit Escola sem Homofobia, em 2011; o
avanço do ativismo religioso conservador contra discussões de gênero e
sexualidade nos planos nacionais, estaduais e municipais de educação a partir
de 2014; e a disseminação de projetos Escola sem Partido entre 2014 e 2018.
Houve
picos de violência em 2016, 2018 e 2022, anos marcados por tensões políticas e
eleições presidenciais. “A tensão política que o país vive está, infelizmente,
entrando nas escolas”, aponta o coordenador.
De
acordo com Fernando Penna, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e
coordenador do ONVE, trata-se de um fenômeno que atinge não apenas educadores
individualmente, mas a própria possibilidade de garantir a liberdade de
aprender. “Estudantes estão deixando de discutir temáticas vitais para sua
formação”, afirma.
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Medo e intimidação viram rotina profissional
Entre
os professores que sofreram censura direta, são frequentes os relatos de
intimidação, questionamentos agressivos sobre métodos de trabalho e proibição
de conteúdos. Segundo o levantamento, as temáticas que mais levam ao
questionamento do papel e da prática pedagógica do educador são lideradas por
questões políticas (73%), questões de gênero e sexualidade (53%), questões de
religião (48%) e negacionismo científico (41%).
Também
aparecem casos de demissões, remoção de funções, agressões verbais e até
agressões físicas.
Em
entrevista à Agência Brasil, Fernando destacou o exemplo de um professor que
tentou distribuir um material do Ministério da Saúde sobre a vacinação durante
a pandemia e foi impedido sob o argumento de que estaria promovendo
“doutrinação”. “E quando ele foi entregar isso à diretora da escola, ela disse
para ele que na escola não ia ter doutrinação de vacina.”
“Professores
que tentam levar conhecimento às crianças e adolescentes acabam sendo demitidos
ou transferidos”, comenta o coordenador.
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Adoecimento emocional se espalha na categoria
O
estudo também revela impactos profundos na saúde física e emocional dos
educadores. Entre aqueles que tiveram contato direto com situações de censura e
perseguição (grupo que representa 76% desses profissionais) a grande maioria
relatou tristeza e estresse (79%), além de sinais de adoecimento emocional,
como ansiedade e depressão (60% desse público).
A
convivência constante com o medo também aparece como marca dessa violência: 41%
disseram temer pela própria segurança e 39% têm medo de perder o emprego. Em
muitos casos, a perseguição gera ainda consequências financeiras, afetando 22%
desses profissionais. O impacto pessoal foi classificado como alto ou extremo
por 72% dos entrevistados.
Entre
aqueles que apenas testemunharam episódios ou souberam que ocorreram na
instituição, o que corresponde a 38% dos respondentes, a sensação de
insegurança e sofrimento também é predominante. Desses, 65% passaram a se
sentir mais tristes e estressados e 39% desenvolveram ansiedade e/ou depressão.
No total, 83% relataram algum nível de impacto em sua vida pessoal.
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Autocensura vira estratégia de sobrevivência
As
experiências de censura têm repercussões diretas na prática pedagógica. Tanto
vítimas diretas quanto indiretas relatam mudanças em seu cotidiano
profissional, com destaque para mecanismos de autocensura.
Entre
os que sofreram perseguição diretamente, 60% passaram a refletir mais sobre o
que podem ou não dizer em sala de aula; 59% afirmam sentir-se constantemente
vigiados; 53% questionaram sua permanência no local de trabalho; e 52% chegaram
a duvidar da continuidade na carreira docente — sendo que 2% efetivamente
deixaram a educação.
A
retirada de conteúdos curriculares também se tornou comum: 38% deixaram de
abordar temas, metodologias ou materiais, enquanto 32% desistiram de projetos e
cerca de um terço diminuiu sua atuação pública em redes sociais e debates.
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Chilling effect: educar se torna arriscado
Esse
processo é descrito por Fernando Penna como um chilling effect (efeito inibidor
ou amedrontador), expressão usada no campo jurídico para caracterizar o efeito
inibitório causado pela ameaça de punição. “As pessoas estão com medo de
discutir temas. Estão com medo de fazer o seu trabalho de acordo com o seu
saber profissional”, afirma.
Quando
perguntados sobre quem foram os agentes da violência, os educadores citaram os
próprios integrantes da comunidade interna da escola ou da universidade. Ou
seja, a própria direção, coordenação, além de estudantes e seus familiares.
“Isso é muito grave porque traz um dado de pesquisa que mostra que essa
violência pode ter partido de figuras públicas, de uma atenção política mais
ampla, mas, infelizmente, ela já está dentro das comunidades educativas”,
comenta o coordenador do estudo.
A
pesquisa identificou ainda que são os próprios integrantes da comunidade
educativa que estão levando essa violência para dentro da escola, liderados
pelos profissionais da área pedagógica (57%), familiares dos estudantes (44%),
estudantes (34%), os próprios professores (27%), profissional da administração
da instituição (26%), funcionário da instituição (24%) ou da secretaria de
educação (municipal ou estadual) ou reitoria, no caso das universidades (21%).
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Risco de apagão docente aumenta
O
cenário contribui para o desprestígio da carreira docente e pode intensificar o
chamado “apagão de professores”. “Em muitos casos, professores que vivenciaram
esses episódios acabaram deixando de ser educadores”, explica o coordenador.
Os
resultados reforçam a necessidade de medidas de proteção a educadoras e
educadores, especialmente em anos eleitorais, quando a violência tende a se
intensificar. O relatório recomenda a criação de uma política nacional de
enfrentamento à violência contra educadores, proposta que está em discussão no
MEC, e a inclusão desses profissionais como defensores de direitos humanos nas
políticas do Ministério dos Direitos Humanos. “Vivemos em uma sociedade na qual
educadores têm medo de falar e de trabalhar de acordo com seu saber
profissional”, lamenta Fernando Penna.
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Quando a escola silencia, a democracia perde
O
estudo abre a série “Ameaças à educação democrática”, dedicada a mapear as
novas formas de violência contra docentes no Brasil. O Observatório sugere a
criação de uma política nacional de enfrentamento à violência contra
educadores, como resposta do poder público, que estaria sendo elaborada no
âmbito do MEC.
O
Observatório tem ainda um acordo de cooperação técnica com o Ministério dos
Direitos Humanos.
Quando
um episódio de censura ocorre dentro de uma instituição, ele não afeta apenas
quem o sofre: “Quando a violência acontece em uma escola ou universidade, ela
degrada o clima escolar. O dano para a sociedade é gigantesco”, finaliza o
coordenador do estudo.
Fonte:
Porvir

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