No Rio Grande do Sul, projeto de celulose de
R$ 25 bilhões ameaça indígenas e o rio Guaíba
No Rio Grande do Sul, a multinacional chilena
CMPC (Companhia Manufatureira de Papéis e Cartões, traduzido do Espanhol)
pretende instalar nos próximos meses a sua segunda unidade industrial para
processamento de celulose na Região Metropolitana de Porto Alegre. O chamado
“Projeto Natureza” é o maior investimento privado da história do Estado, e vai
custar R$ 25 bilhões à empresa. Apesar de ainda não ter a Licença Prévia
aprovada, o empreendimento já é denunciado pelos impactos ao povo Guarani Mbyá,
que vive na região, e também ao rio Guaíba e ao bioma dos Pampas.
Os Guarani Mbyá são uma população indígena de
mais de 9 mil pessoas, segundo dados do Censo 2022, que vivem no Rio Grande do
Sul e em outros estados brasileiros, além de países como a Argentina, o
Paraguai e a Bolívia. Até outubro do ano passado, o Estudo de Impacto Ambiental
do projeto da multinacional chilena havia subestimado a presença dos indígenas
na região. O povo só foi considerado no estudo após o Ministério Público
Federal (MPF) fazer recomendações à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai)
e à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), questionando o tratamento
aos indígenas pela empresa. A partir de então, a CMPC procurou o MPF para a
elaboração de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC), e passou a fazer reuniões
com Guarani Mbya para tratar sobre o Licenciamento Ambiental.
Segundo denúncia de caciques, indigenistas e
ambientalistas, este processo de aproximação tem desconsiderado o Protocolo de
Consulta do povo Mbya Guarani — ao invés de consultar os indígenas de forma
adequada previamente, estariam apenas repassando um cronograma já definido pela
empresa. “Após a denúncia ao MPF, a CMPC se aproxima e cria uma estratégia de
informar aos guaranis sobre o empreendimento, mas é uma informação sem diálogo.
Não é uma consulta, é um repasse”, relata Roberto Liebgott, advogado e missionário
do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). “Isso é um ponto sério pois
contamina todo restante do procedimento e acaba gerando um ambiente de
insegurança no meio dos indígenas”.
Desde a publicação do TAC, a empresa tem
promovido reuniões com os caciques das aldeias indicadas em Termo de Referência
da Funai como as principais atingidas, que são as comunidades Ka’aguy Porã, Yvy
Poty, Guapoy, Tekoá Porã, Nhu’u Poty, Tapé Porã e Passo Grande da Ponte. Consta
também a Ponta da Formiga, área indígena em estudo, hoje inabitada.
“A empresa causou uma fissura nas relações
entre as comunidades, na medida que ela se atém ao diálogo somente com aqueles
que são mais diretamente afetados e ignora o protocolo que obriga a empresa a
ouvir todo o conselho de caciques, não só os que estão na região”, denúncia
Liebgott. “Isso gerou um desconforto e uma divisão. Isso é um impacto na auto
organização do povo, uma violência que já está acontecendo”.
Além disso, a CMPC, através do TAC, ofereceu
aos guaranis R$ 50 milhões para serem geridos através de um fundo coletivo como
forma de compensação.
“A empresa está oferecendo recurso financeiro
como uma forma de estabelecer uma boa relação. Isso na nossa visão pode ser
visto como um processo de chantagem”, denuncia Eduardo Raguse, engenheiro
ambiental, membro da Amigas da Terra Brasil, da Rede Alerta Contra os Desertos
Verdes e autor do estudo “Expansão dos desertos verdes em um Pampa em
Extinção”. “Muitas vezes, encontramos os guaranis em acampamentos de beira de
estrada, sem alimentação. Eles também foram muito afetados pelas enchentes, mas
as empresas não podem se aproveitar desta situação e oferecer recursos. Isso
pode configurar um ferimento ao princípio da liberdade da consulta livre,
prévia e informada. A empresa tem pressa para constituir os seus lucros e
avançar com o licenciamento. Mas ela não pode atravessar e apressar o processo,
acelerar, assediar o povo guarani por uma decisão.”, crítica.
Procurada, a assessoria de imprensa da CMPC
ainda não se manifestou.
<><> Multinacional pressiona
indígenas: “hoje a reunião é aqui na nossa ‘aldeia’”
Em 15 de dezembro, aconteceu, no escritório
da CMPC Celulose no município de Barra do Ribeiro, a quarta reunião após o TAC.
No encontro, estavam representantes do MPF, Funai e Sesai, diretores de
Assuntos Corporativos da CMPC, diretores financeiros e advogados. A intenção
era a aprovação, por parte dos caciques, do plano de trabalho de Elaboração do
Componente Indígena, necessário para a sequência da Licença Prévia do Projeto
Natureza.
No jardim do escritório, embaixo de uma
figueira, antes da reunião, homens brancos, alguns de roupa social, tentavam se
integrar com os caciques com falas como: “Hoje a reunião é aqui na nossa
aldeia”, “aqui damos aulas para as crianças em círculo, como na cultura de
vocês”, “a maioria de vocês é gremista, certo?”.
A primeira fala foi do procurador federal do
MPF, Ricardo Gralha, que destacou a necessidade da empresa seguir as cláusulas
apontadas no TAC, para escutar efetivamente os indígenas segundo as
determinações da Convenção 169, e respeitando o tempo das comunidades neste
trabalho, por mais que a empresa tivesse cronogramas a cumprir.
Já os indígenas apontaram dúvidas sobre o
número de aldeias atingidas e consequentemente escutadas no Licenciamento.
“Quem tem que definir quantas tekoás são atingidas é o povo guarani, não a
Funai ou a empresa”, defendeu Cacique Eloir Werá, da Tekoá Nhe’engatu. Os
caciques também questionaram quais serão realmente os impactos da unidade
industrial. “Teve impacto em outros países? Precisamos saber dessas coisas”,
questionou Maurício da Silva, da Aldeia Estiva, uma das lideranças presentes.
O diretor-geral da CMPC no Brasil, Antônio
Lacerda, que guiou a reunião, respondeu: “sim, teve impacto, mas, com os
Mapuches, por exemplo, temos um trabalho de compensação com poços artesianos e
incentivos ao artesanato. Mas não negamos que tem impacto”, disse.
No sul do Chile, a CMPC hoje planta
eucaliptos em áreas de ocupação histórica do povo Mapuche (território
Wallmapu). Os Mapuche são a maior população indígena do Chile, e conhecidos por
terem resistido por séculos aos colonizadores espanhois. Apesar disso, os
indígenas que enfrentam as obras nos seus territórios têm sido criminalizados e
encarcerados pelo Estado chileno, inclusive por meio da Lei Antiterrorista do
país. Héctor Llaitul Carrillanca, líder da organização mapuche Coordinadora
Arauco-Malleco (CAM), foi condenado pela Justiça chilena a 23 anos de prisão
por ações de resistência contra as empresas CMPC e Arauco, acusado de roubo de
madeira, usurpação e desacato à autoridade pelo Ministério Público chileno.
Na reunião, o diretor da CMPC, Antônio
Lacerda anunciou que, neste processo, o tempo de decisão guarani seria
respeitado, mas depois disse que, “para compensar, precisamos gerar o impacto e
para isso precisamos operar. Queremos entre hoje e amanhã protocolar o início
do Componente Indígena na Funai, por isso precisamos da aprovação de vocês”.
Após um intervalo de dez minutos para
cafezinhos e conversas em pequenos grupos de representantes da CMPC e caciques,
representantes da Tekóa Pindó Mirim (Aldeia de Itapuã) leram, por cerca de 20
minutos, uma carta intitulada “Declaração da Tekoá Pindó Mirim de sua
Perspectiva Existencial Ancestral Xiripá perante o Agravamento das Agressões à
Natureza”, assinada pela Associação Guarani Takua Pindó Mirim e pelo Círculo de
Pais e Mestres da Escola Estadual Indígena Nhamandu Nhemopuã.
“[…] Como poderíamos consentir que o ar que
respiramos seja poluído, que as águas das quais dependemos para viver seja
contaminada, que o solo que nos sustenta seja empobrecido, que os animais
fiquem sem as florestas para viver, cercados de um deserto de plantações de
eucalipto? Como poderíamos nos favorecer às custas de tais agressões? Como
poderemos dormir tranquilos? Sabemos que não é possível. E ainda assim o
favorecimento que é oferecido em uma bandeja é uma migalha, pequena o
suficiente para aqueles que forem ingênuos se estapearem por ela”.
A mensagem tinha como principal objetivo
alertar os demais caciques sobre as armadilhas de se negociar com uma empresa
como a CMPC Celulose.
“[…] Do que adianta oferecerem poços
artesianos se a sujeira da empresa poderá contaminar até o lençol freático? Do
que adianta construírem escolas, se não tivermos um exemplo para ensinar nossos
filhos?” Nós não negociamos a vida de nossas crianças, não negociamos a vida de
nossos anciãos, não negociamos a vida de nossos descendentes, não negociamos a
vida dos animais dos quais dependemos, das abelhas, das flores. Não negociamos
a vida.
Após lerem a mensagem, os representantes da
Tekóa Pindo Mirim anunciaram a sua retirada da reunião e das negociações.
Tão pronto acabou a manifestação, surpreso,
mas sem perder o foco dos seus objetivos, o diretor da CMPC não fez comentários
sobre a intervenção, mas alterou sem anúncios o roteiro do encontro. O
executivo trouxe a necessidade de, naquele momento, os indígenas aprovarem,
frente às câmeras, o plano de trabalho apresentado e que pudessem apontar quem
seriam os caciques que seguiram nas negociações com a empresa. O procedimento
se deu de forma dispersa, à toque-de-caixa, com alguns dos caciques reagindo à
provocação, mas sem um nítido consenso. No entanto, o diretor considerou como
aprovado, deu a reunião como encerrada e o churrasco foi servido, em clima
forçado de celebração.
“Este procedimento pressiona os guaranis a
aceitarem um empreendimento à força, através de promessas de benefícios
compensatórios, em relação a um empreendimento que já está em curso. Isso
contamina o licenciamento ambiental, o componente indígena. Nesta pressão, um
bloco dos guaranis, mais atingidos, eles acabam, pela pressão e promessas da
empresa, aceitando o início do estudo de componente indígena no processo de
licenciamento”, defende o indigenista Roberto Liebgott.
Analisando este cenário, o ambientalista
Eduardo Raguse relembra o processo da Mina Guaíba, que seria a maior mina de
carvão da América Latina a céu aberto. “A empresa Copelmi invisibilizou o povo
guarani do entorno da mina no seu Eia-Rima. Através da articulação do Comitê de
Combate à Megamineração, apresentamos esta denúncia. A empresa foi obrigada a
fazer o Componente Indígena, mas não conseguiu levar adiante, por não responder
os questionamentos da própria Fepam, com mais de 100 itens, que o órgão fez depois
de receber denúncias e pareceres elaborados coletivamente por mais de 50
técnicos. E aí o projeto foi desidratando”, relembra Raguse.
Em 2022, a Mina Guaíba teve seu licenciamento
ambiental anulado pela Justiça Federal por não realizar a consulta prévia,
livre e informada ao povo Mbya Guarani segundo a Convenção 169.
Raguse compara: “A CMPC já fez diferente. O
capital aprende muito rápido. Arrancaram na frente buscando os guaranis de uma
forma questionável. Estes megaprojetos começam a causar impacto quando
apresentam seus projetos. Na Mina Guaíba foi a mesma coisa. Apesar do
empreendimento não ter acontecido, causou uma série de disrupturas sociais onde
seria implantada. Rachas em comunidades, inclusive em assentamentos da reforma
agrária. E nesse momento esse projeto da CMPC já está causando impacto no povo
guarani. É muito relevante, e muito sério o que está acontecendo. Antes do
empreendimento sequer começar”.
<>< Indígenas divididos frente a
proposta de empresa
Desde a reunião do dia 15 de dezembro, os
guaranis estão divididos. Em janeiro, algumas aldeias já estão recebendo as
visitas técnicas da empresa Espaço, Gestão de Patrimônio Cultural, contratada
pela CMPC para elaboração do Componente Indígena.
“Os relatos que recebo das comunidades são
que esse estudo está sendo feito sem o devido cuidado, sem ser um movimento
para realmente entender os guaranis”, conta Liebgott. “Visitam, falam
rapidamente sobre o empreendimento, comentam sobre alguns tipos de impacto que
eventualmente a comunidade pode sofrer, mas não há uma metodologia da escuta, é
com tempo marcado, para começar a terminar, não escutam a todos, não visitam as
casas, não levam em conta o modo ser guarani, pois as entrevistas são em
português, não há um intérprete, sendo que a maioria das pessoas da comunidade
não entendem adequadamente o português. É um procedimento absolutamente
contaminado. A elaboração do componente indígena não poderia ter passado à
frente da Consulta Prévia seguindo o protocolo Guarani”, defende Roberto
Liebgott.
Nos dias 21 e 22 de janeiro, caciques Guarani
Mbyá do Rio Grande do Sul, articulados através da Comissão Guarani Yvyrupá,
estiveram reunidos na Tekoá Pindó Mirim para discutir sobre todo esse processo
envolvendo a CMPC. As lideranças em diálogo com a CMPC não compareceram.
Na reunião, o procurador do MPF, Ricardo
Gralha, explicou como recomendou para Funai a necessidade de considerar outras
aldeias que não constavam no Termo de Referência inicial e também questionou a
Fepam sobre a localidade do empreendimento, em Barra do Ribeiro, região que há
expressiva presença de aldeias.
No município de Barra do Ribeiro está o maior
número de comunidades Guarani no Estado: são seis, que totalizam 90 famílias e
321 pessoas. A partir destas recomendações, em outubro de 2025, a CMPC procurou
o MPF para a construção do TAC. “O MPF não coloca nenhum direito de vocês nessa
negociação. O TAC é para assegurar que seja respeitada a oitiva prévia, que não
tinha sido feita até então”, explicou o procurador.
“É óbvio que a empresa quer ver o projeto
andar e a indústria funcionar. Ao meu ver, com esse TAC, a empresa deseja criar
uma relação de harmonia com as comunidades indígenas, mas isso não significa
que vocês vão precisar se submeter a violações de direitos. Mais do que isso,
dentro do processo de licenciamento, vocês podem dizer que não querem o
empreendimento. E aí, nesse processo de Licenciamento, a Fepam vai decidir se
acolhe a decisão de vocês ou não”, destacou Gralha.
“Talvez o ponto que esteja gerando maior
desentendimento seja sobre a gerência destes R$ 50 milhões, que será feita
através de um comitê gestor formado por vocês. Entendo que o tema dinheiro não
é bom de tratar, especialmente quando é um recurso limitado, que precisa ver
onde vão ser atendidas as necessidades, mas é através destes recursos que
infelizmente as comunidades indígenas conseguem o bem estar mínimo. Houve um
tempo que a mata estava ali, se precisava construir derrubava um xaxim, pegava
umas taquaras, hoje não. Hoje as comunidades não têm acesso a estes recursos e
sequer água potável conseguimos adequadamente para as aldeias”, complementou.
Os caciques presentes ressaltaram que sem o
consentimento do povo, não há TAC e nem deveria haver empreendimento.
“A empresa já está causando impacto na vida
guarani, na perspectiva psicológica, é uma pressão que afeta o cotidiano. Os
guaranis são adversários dos conflitos. Eles sofrem com esse tipo de pressão. É
um componente psicológico negativo que eles não tinham, porque não é a empresa
só, é tudo que circunda, inclusive o poder público pressionando para que o
empreendimento saia”, relata Liebgott, do Conselho Indigenista Missionário.
Como encaminhamento, as lideranças presentes
na Pindó Mirim demandaram uma reunião viabilizada pelo MPF que reúna todos os
caciques, inclusive os que estão em diálogo com a CMPC, para debaterem
coletivamente enquanto povo o empreendimento e o TAC.
Esta reunião acontecerá no dia 5 de
fevereiro, no MPF.
<><> Os impactos da produção de
celulose no sul do Brasil
A CMPC não é uma empresa nova no Rio Grande
do Sul.
Em 2024, a multinacional chilena anunciou a
intenção de instalação de mais uma Fábrica de Celulose no estado, dessa vez no
município de Barra do Ribeiro, Fazenda Barba Negra, a 50 km de Porto Alegre. A
empresa já é responsável, desde 2009, por uma Unidade Industrial na área urbana
do município de Guaíba, a 30 km da capital. Somando as duas fábricas, a empresa
chegará perto de 5 milhões de toneladas de celulose produzidas por ano. Uma
quantia expressiva na realidade do Brasil, que é o maior exportador de celulose
do mundo. Em 2024 o país exportou 20 milhões de toneladas.
O empreendimento preocupa ambientalistas, não
só pelo impacto que já causa ao povo Guarani, mas pelo potencial de toxicidade
atmosférica, pela emissão de efluentes no Rio Guaíba e por todo o impacto que a
cadeia da celulose, com o monocultivo de árvores, provoca nas estradas, nos
rios e no Bioma Pampa.
O engenheiro ambiental, membro da Amigas da
Terra Brasil, da Rede Alerta Contra os Desertos Verdes e autor do estudo
“Expansão dos desertos verdes em um Pampa em Extinção”, Raguse, relembra que em
2015 a CMPC quadruplicou a Unidade Industrial de Guaíba.
“Essa expansão representou para os moradores
de Guaíba um impacto bem significativo, principalmente pelas partículas que são
expelidas pela fábrica, que caem sobre a casa das pessoas, nas roupas, nos
carros. A fábrica de celulose expele compostos reduzidos de enxofre, com um
cheiro bem forte, semelhante a ovo podre. Causa dor de cabeça, ardência nos
olhos e no nariz. Além disso, são conhecidos os impactos devido ao ruído e à
forte trepidação, que em determinados locais ocorrem 24h por dia, causando rachaduras
em residências e levando pessoas a transtornos de sono, stress e ansiedade”,
relata.
Em fevereiro de 2025, houve um grave
vazamento de cloro líquido na fábrica da CMPC em Guaíba. Para os moradores do
entorno, o incidente causou sensação de sufocamento, forte ardência e queimação
nos olhos e nariz, náusea, salivação e dor de cabeça. Em funcionários da CMPC,
desmaios.
“São indústrias que utilizam muita água e
produtos químicos pesados, o que também é um fator de risco. Usam o cloro para
branquear a polpa de celulose”. Segundo pesquisa de Raguse no estudo, a CMPC
despeja dez vezes mais efluentes do que toda a cidade de Guaíba, com 100 mil
habitantes, produz de esgoto por dia.
Com a nova unidade industrial, o rio Guaíba
também será atingido pelo fluxo de embarcações. A empresa pretende utilizar o
rio Guaíba para o deslocamento de eucalipto e celulose. No dia 20 de janeiro, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador Eduardo Leite se reuniram
com representantes da CMPC. O governo federal cedeu à multinacional um terminal
próprio no Porto de Rio Grande, ampliando a logística de escoamento da
produção. Também será construído um Porto em Barra do Ribeiro.
Segundo dados da própria CMPC, no Rio Grande
do Sul, a empresa planta eucalipto em 1,2 mil fazendas de mais de 75
municípios, o que representa mais de 270 mil hectares de terra. Somente a
Fazenda Barba Negra, do Projeto Natureza em Barra do Ribeiro, com seus 10 mil
hectares, tem mais áreas do que todas as oito terras dos Guarani Mbyá
oficializadas até o momento no Estado.
“Toda parte de impacto ambiental, social,
econômico do plantio de eucalipto não vai passar por um processo de
licenciamento ambiental. Deveria estar se fazendo uma Avaliação Ambiental
Integrada, não só da Fábrica, mas dos plantios, o transporte do eucalipto. Vai
se negligenciar todo impacto ambiental do aumento do plantio do eucalipto no
estado, que vai impactar não só as comunidades guaranis, kaingang, [mas também
os] quilombos. São muitos quilombos na metade sul do estado.”, acrescenta
Raguse.
Em maio de 2024, enquanto o Rio Grande do Sul
vivia a maior tragédia climática de sua história, foi publicada a Lei Federal
14.876, que excluiu a silvicultura de atividades potencialmente poluidoras e
utilizadoras de recursos ambientais e dispensa a monocultura de eucalipto de
qualquer tipo de licenciamento ambiental. A Associação Brasileira dos Membros
do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa) submeteu, em julho de 2024,
uma representação à Procuradoria-Geral da República, pedindo o ajuizamento de uma
Ação Direta de Inconstitucionalidade.
Aliada à Lei Federal, está a alteração no
Zoneamento Ambiental da Silvicultura (ZAS) do estado, aprovada pelo Conselho
Estadual do Meio Ambiente (Conama) em 2023. “Foi flexibilizado por um estudo
encomendado pela própria CMPC”, denuncia Raguse. A medida facilitou as regras
de plantio e possibilita que as áreas de monocultivos no estado passem dos
atuais 1,2 milhões de hectares para 4 milhões de hectares.
Neste cenário, a CMPC intenciona o aumento da
sua área plantada, especialmente na metade Sul do estado. Além da expansão de
suas propriedades, também lançou o programa de fomento chamado RS+Renda, que
está buscando produtores rurais para implementar plantios de eucaliptos em suas
propriedades através de contratos de garantia ou preferência de compra da
madeira futura. “As áreas prospectadas pela empresa coincidem com a área do
Bioma Pampa, desde a região metropolitana de Porto Alegre até Uruguaiana, toda
metade sul do Estado. Mais um fator de pressão no bioma que é o menos protegido
do país, que já sofre com a soja, a ameaça da mineração”, explica Raguse.
Para plantar um monocultivo de eucalipto, a
vegetação nativa e biodiversa é posta abaixo. Com a remoção de campos e
florestas, o solo fica suscetível à erosão e ao assoreamento dos rios, o que
aumenta a chance de inundações durante fortes chuvas. Além disso,os plantios de
eucalipto têm alto consumo de água e um impacto significativo na dinâmica da
água superficial e subterrânea, o que aumenta o risco tanto de enchentes como
de secas extremas.
“Na serra gaúcha, onde havia plantação de
monocultivos, foram áreas que sofreram com o deslizamento de encostas. Em 2024,
na enchente, a maioria das 185 mortes não foram por afogamento, mas sim por
deslizamentos, muitas em áreas de monocultivo”.
“[A CMPC] Patrocina o Campeonato Gaúcho de
Futebol, tem muita propaganda nos meios de comunicação. E o próprio nome do
projeto, ‘Natureza’. Parece que, quanto mais poluidor, mais de verde tem que se
pintar. O setor da celulose se coloca com quem contribui na luta pelas mudanças
climáticas, porque captura gás carbônico da atmosfera. Só que isso é o que
chamamos de ‘métrica do carbono’, que reduz todo o debate climático à partícula
do CO2, que coloca megaplantios e até usinas nucleares como soluções climaticamente
inteligentes. Mas os impactos à biodiversidade, ao déficit hídrico, compactação
de solo, concentração de terra não entram nesta conta.”, completa Raguse.
Para o professor da Faculdade de Direito da
UFRGS e membro da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (Renap),
Emiliano Maldonado, é essencial a Consulta Prévia ao Povo Guarani e a
participação ampla da sociedade civil e científica no processo de licenciamento
do Projeto Natureza.
“Esta empresa possui histórico de violação de
direitos humanos e da natureza em seu país de origem e a silvicultura no Brasil
e, sobretudo, no Estado do Rio Grande do Sul, é uma das formas utilizadas pelas
grandes corporações transnacionais para adentrar em territórios originários,
quilombolas, tradicionais ou campesinos. A garantia do respeito ao direito ao
consentimento e à consulta, prévia livre e informada dos povos indígenas,
quilombos, comunidades pesqueiras e campesinas (OIT, 169 e Declaração das Nações
Unidas sobre os Direitos dos Camponeses e de Outras Pessoas que Trabalham em
Áreas Rurais) que serão impactadas pela expansão dessa atividade no Rio Grande
do Sul deve ser o eixo central do licenciamento de qualquer grande
empreendimento desse tipo, ainda mais emitindo quantidades imensas de poluição
química e por se tratar de uma área localizada no entorno do rio Guaíba”.
Além do caso da Mina Guaíba, no dia 14 de
janeiro deste ano, a Justiça Federal suspendeu o licenciamento ambiental de um
aterro sanitário no município de Viamão (RS). A decisão fundamenta-se na
violação da Convenção 169 e aconteceu após recurso de Ricardo Gralha, o mesmo
procurador do MPF que acompanha os guaranis no empreendimento da CMPC.
No dia 29 de janeiro, às 16h, no Parque
Municipal Nenê Naibert, centro do município de Barra do Ribeiro, acontece a
primeira Audiência Pública do “Projeto Natureza”.
Fonte: Por Alass Derivas, em Agência Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário