O cultivo de maconha começa a sair do armário
no Brasil
Já se vão quase vinte anos desde que a Lei de
Drogas brasileira meteu que é permitido plantar maconha para fins medicinais e
científicos — desde que a União autorizasse. O problema é que, por razões
“políticas”, essa autorização nunca veio. Nesta semana, a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) finalmente abriu esse armário, aprovando as
primeiras regras para o cultivo legal da cannabis no Brasil e, pela primeira
vez, reconheceu formalmente as associações de pacientes como parte da solução,
e não do problema.
Nesta quarta, 28 de janeiro, uma centena de
dirigentes e membros de associações de pacientes de usuários medicinais de
maconha se reuniram em frente à sede da Anvisa, em Brasília. O objetivo era
marcar presença e fazer pressão na primeira reunião da diretoria colegiada da
agência de 2026, na qual, atendendo a uma decisão do STJ de novembro de 2024
(IAC 16) finalmente foram apresentadas três minutas das RDCs (Resoluções da
Diretoria Colegiada) que regulam o cultivo da planta cannabis para fins
industriais, medicinais e de pesquisa, todas aprovadas com unanimidade.
As regulações surpreenderam positivamente a
maioria das pessoas procuradas pela Agência Pública. Segundo várias fontes,
entre membros de associações e pesquisadores, a mudança de “cabeça” da Anvisa
deve-se sobretudo a Thiago Lopes Cardoso Campos, graduado em Direito, com
especializações em Gestão Empresarial, Gestão de Políticas de Saúde e Direito
Sanitário. Nomeado para a quinta diretoria da agência em agosto do ano passado,
o baiano, com seu penteado black power, foi relator das resoluções e arrancou elogios
da maioria dos dirigentes de associação que participaram da audiência.
A primeira resolução aprovada nesta semana
regula o “uso industrial farmacológico” da cannabis, definindo critérios para o
cultivo por empresas com fins de produção de remédios à base de CBD ou com até
0,3% de THC.
A segunda resolução aponta um novo caminho, a
abertura de um edital para que associações de pacientes de cannabis medicinal
com no mínimo dois anos de constituição e sem fins industriais ou comerciais
possam participar de um “sandbox”, um ambiente de testes regulatório, onde, por
cinco anos serão testadas propostas regulatórias. Também foram definidos
critérios para o cultivo com fins de pesquisa, no qual será permitido o cultivo
e produção de medicamentos com alto teor de THC para pesquisadores e associações.
Já a terceira resolução é focada em regras
para a pesquisa científica.
<><> Por que isso importa?
• As
novas resoluções da Anvisa regulamentam que associações, grupos de pesquisa e
empresas podem plantar e cultivar a cannabis para desenvolvimento de produtos
para fins medicinais.
• Isso
retira esses grupos de um limbo regulatório, que muitas vezes leva à repressão
de quem produz esses medicamentos, apesar de não regulamentar o uso recreativo
ou ancestral da planta.
O advogado Emílio Figueiredo, fundador da
Rede Reforma, uma rede jurídica pela reforma da lei de drogas, fala em uma
retomada: “há um século, a maconha estava na farmácia, nas boticas. Então,
dentro desse processo de regulação, as associações são as protagonistas, pois
elas representam os próprios pacientes desta retomada do uso medicinal.”
Figueiredo frisa que, nos últimos movimentos
regulatórios, as associações e o cultivo da maconha no geral estavam sendo
desconsiderados, o que não impediu elas de continuarem existindo e resistindo.
Ele avalia com bons olhos a proposta da
Anvisa. “Eu já conhecia esse instrumento do sandbox, mas eu não achava que a
Anvisa teria coragem de implementar essa solução, é uma ideia muito boa, porque
é uma ferramenta, onde, em vez do poder público chegar e impor uma norma, ele
fala assim: ‘Ó, toma aqui uma caixinha de areia para vocês brincarem,
crianças’. É mais adequado pois tem-se muito mais chance de criar regras
coerentes com a realidade.”
Figueiredo acredita que a forma genérica como
os critérios para o enquadramento das associações foi apresentado até agora,
inclusive favorece as pequenas associações. “A minuta diz ‘sem finalidade
industrial e comercial’. Isso é do caralho, né?”. Questionado a respeito de
associações ainda em via de formalização, ou com menos do mínimo de dois anos
de existência, ele enfatiza: “Eu acredito que quando sair o edital todas as
associações têm que aplicar. E aí, quem ganhar o não, a gente vai avaliar caso
a caso, e brigar por isso. ”
Até então, propostas regulatórias como o
PL399, ou propostas de resoluções da Anvisa que não chegaram a ser votadas, ou
excluíam totalmente a possibilidade de participação das associações ou
propunham prazo para adequação com exigências dispendiosas. Desta vez foi
diferente.
“Se havia uma preocupação do campo de se
criar um sarrafo muito alto, onde só as grandes instituições entravam, agora
não, é um sarrafo baixo, e as grandes instituições é que estão preocupadas,
justamente por não terem esse caráter não industrial e não comercial que o
sandbox exige.”
Embora a regulação atual permita desde 2020
que a indústria farmacêutica produza e comercialize medicamentos com THC a
partir de matéria prima importada, dos quase quarenta produtos disponíveis hoje
nas farmácias, nenhum contém THC. Talvez, por conta desse aparente desinteresse
que a Anvisa não tenha previsto o THC na atual regulação do cultivo para fins
industriais. Para Figueiredo, ao afastar o THC da grande indústria, constroi-se
um caminho mais seguro para a molécula, “dentro da lógica da pesquisa científica,
que é praticamente feita pelo poder público.”
O advogado Erik Torquato, outro conhecido
militante do movimento, reconhece e louva a mudança na postura da Anvisa, mas
discorda de outros ativistas já que, para ele, a limitação da aplicação de
finalidade unicamente medicinal do cultivo industrial coloca o Brasil em
desvantagem regulatória em relação ao mundo.
“Não faz sentido regulamentar o uso
medicinal, muito mais sensível, e não regulamentar as outras aplicações da
indústria, que têm um risco muito menor”, defende Torquato. Os exemplos disso
seriam o uso da fibra da maconha para produção de tecidos e papeis – sem a
regulamentação, esses produtos seguem em um limbo, que pode levar à proibição e
perseguição quem os produza.
Torquato também discorda do limite de 0,3% de
THC, imposto pela nova resolução da Anvisa. “A regulação considera o THC uma
molécula quase que explosiva igual o plutônio, sei lá, urânio, uma coisa
perigosa”, e aponta uma série de invasões de competência por parte da Anvisa:
“nessa boa vontade regulatória, ela acaba por invadir competência de outras
áreas da administração pública, como o Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento, do Ibama e do Ministério do Meio Ambiente. A Anvisa também se
comporta como um um órgão de censura científica evocando para si atribuições no
Ministério da Ciência e Tecnologia e o CNPQ restringindo a autonomia científica
prevista no marco legal de ciência e tecnologia. A Anvisa deveria se restringir
ao controle de insumos a partir da colheita, da porta da fábrica e não sobre o
manejo do solo e do plantio”, critica.
<><> Associações seguem
preocupadas com limite imposto para concentração de THC
Como é praxe em audiências públicas, houve
espaço para a manifestação de diversas entidades, a maioria da indústria
farmacêutica, mas também uma representação do campo antiproibicionista.
Cidinha Carvalho e Margarete Brito são mães
de portadoras de doenças raras que fazem tratamento contínuo com óleo de
maconha. Ambas estiveram na Anvisa quinze anos atrás, lutando pela
regulamentação da importação de remédios à base de canabidiol. Mesmo conseguindo
a vitória daquela vez, os custos de importação impossibilitaram um tratamento
contínuo para suas filhas e, ambas, que antes contavam com ajuda de uma rede de
cultivadores anônimos solidários, passaram a elas mesmas cultivar maconha para
produzir seu próprio remédio e posteriormente fundaram respectivamente as
associações Cultive e Apepi.
Cidinha fez questão de usar a plenária para
lembrar de como todo o processo de regulamentação veio debaixo pra cima,
“cultivadores ensinando mães e mães ensinando médicos a prescrever e dosar”. A
partir daí, todas as conquistas na pauta medicinal junto à Anvisa e Conselho
Federal de Medicina (CFM) vieram da pressão destas e outras associações, sempre
auxiliadas por um batalhão de cultivadorese advogados.
“Eu vim aqui pela primeira vez me defendendo
para não ser [considerada] traficante internacional e hoje eu volto me
defendendo para não ser traficante doméstica” anunciou Margarete no início do
seu depoimento, que fez questão de lembrar que o óleo de cannabis é um remédio
de conhecimento ancestral que pode ser feito na cozinha de casa – “não tem
nenhum segredo”.
Também ressaltou a responsabilidade que é
produzir remédio para terceiros e lembrou que hoje a Apepi conta com 115
funcionários CLT e colhe 2 toneladas de maconha seca ao mês. “Enquanto não tem
regra, a gente continua fazendo do jeito que a gente acha que é correto, sempre
dentro das boas práticas”.
Igualmente emocionante foi o depoimento de
Cidinha, mãe da Clarian — uma menina com prognóstico de não chegar à
adolescência e que hoje é uma mulher de 22 anos — que sobrevive graças ao uso
terapêutico de óleo de maconha, que tem mais que 0,3% de THC. “Não queremos
ficar na desobediência civil, mas se necessário irei ficar, isso não é uma
afronta, é um estado de necessidade. A história está sendo escrita, com a
caneta vocês podem escrever com justiça social, transformação”.
Cidinha encerrou seu testemunho pedindo um
processo que contemple justiça social e reparação às comunidades historicamente
impactadas com a proibição da maconha e também celebrou a memória do médico
Elisaldo Carlini o patrono da maconha medicinal no Brasil, lembrando que ele
propunha a criação de uma “Agência Nacional da Cannabis”.
<><> O movimentos políticos de
apoio à maconha medicinal
Só com o médico Carlini, vão aí uns cinquenta
anos de pesquisa sobre maconha medicinal no Brasil. O não-avanço na pauta nunca
se deu por ignorância, mas sim por má vontade política. A lacuna deixada pela
ausência de um debate consistente sobre a regulação da maconha ao longo dos
últimos governos abriu espaço para recentes apropriações oportunistas do tema.
O até ontem presidenciável Tarcísio de
Freitas passou a defender a cannabis exclusivamente sob o prisma medicinal,
sancionando a distribuição de canabidiol no estado pelo SUS, enquanto veta
propostas de produção pública e mantém uma política repressiva contra
associações de pacientes, alvo recorrente de operações policiais no estado. Uma
das mais recentes foi a “Operação Green Fall”, que teve como alvo a associação
Santa Gaia. Após uma operação policial cinematográfica, a operação manteve em
cárcere por três meses o presidente Guilherme Viel.
Ricardo Nemer, advogado e também fundador da
Reforma, ficou à frente do caso e, além da liberdade, conseguiu a devolução dos
remédios e equipamentos apreendidos. O caso da Santa Gaia é um de muitos que
correm na justiça à deriva num limbo regulatório.
Enor Machado de Moraes, da associação Flor da
Vida, lembrou na audiência pública dos cultivadores e diretores de associações
que estiveram presos e, mesmo estando aquém das atribuições da agência, rogou
por “prioridade para pessoas que foram condenadas: é preciso ter alguma espécie
de segurança para as associações, pois quem cuida das pessoas está ficando
adoecido”, disse.
Gabriel Camatta trouxe o relato da invasão da
sede da associação Mama Flor nesta semana no interior do Rio de Janeiro: apesar
de não ter ficado preso, suas plantas foram destruídas. Em janeiro de 2026, a
Associação Mama Flor Ação Terapêutica, que atende cerca de 300 pacientes com
cannabis medicinal, teve sua sede rural invadida pela Polícia Militar, e cerca
de 120 plantas foram apreendidas e parte destruídas, com dirigentes conduzidos
à delegacia e a entidade passou a ser investigada por tráfico — tudo isso
enquanto tramitava na Justiça Federal uma ação justamente pedindo autorização
para cultivar e produzir medicamentos à base de cannabis.
Dias depois, a Justiça Federal negou o pedido
de liminar da associação contra a Anvisa e a União. Na decisão, o juiz
reconheceu que a Lei de Drogas permite o cultivo medicinal mediante autorização
estatal e cita o Incidente de Assunção de Competência 16 do STJ, que determinou
que a Anvisa regulamente o cultivo. Ainda assim, conclui que, enquanto essa
regulamentação não estiver plenamente em vigor, qualquer cultivo associativo
segue sendo considerado ilícito, cabendo às associações “aguardar” a norma — mesmo
quando essa espera interrompe tratamentos e resulta na destruição de
medicamentos já em uso.
Camatta leu uma decisão da juíza sobre a
associação que citava justamente o aguardo da regulação da Anvisa. “Enquanto a
Anvisa continuar adiando uma regulação ela vai estar assinando a sentença e
possível prisão de nossos diretores, além de não evitar que o mesmo ocorra com
outras associações. Pensem em nós e nas famílias que representamos, por amor,
por compaixão, saúde vem acima da lei sim!”. Após seu depoimento, o deputado
Eduardo Suplicy (PT-SP), que também acompanhava a audiência, levantou-se para abraçar
e simpatizar com o militante.
A decisão deixa explícito um paradoxo que
atravessa toda a política de cannabis no Brasil: o Estado admite o direito,
posterga a regra e criminaliza quem atua no vazio que ele próprio criou.
<><> A demonização do THC
O THC é proibido no Brasil dentro de uma
lógica imposta pelo tratado internacional da Convenção Única de Drogas,
assinado em 1961 e emendado em 1972. A convenção de 1961 falava em
canabinoides, pois o THC ainda não havia sido descoberto. Mais recentemente o
HHC, outro canabinoide, também foi proibido pela Anvisa.
Segundo Emílio Figueiredo, “o legislativo
trouxe para dentro do ordenamento jurídico brasileiro a convenção de drogas,
né? E aí é muito interessante, quando a gente para pra pensar, pô, o Uruguai
assinou a conversão de drogas. Mas lá nunca teve proibição criminal para o uso.
E de 2013 para cá é regulamentado. Então, há uma autonomia, só que ela não
passa pela Anvisa, tem de vir pelo governo”, explica.
O advogado cearense Ítalo Coelho frisa: “os
cultivos com fins de pesquisa ou de associações estão fora desse rigor em
relação THC, porque vários pacientes precisam de uma quantidade muito maior de
THC. É histórico porque a Anvisa reconheceu o potencial da planta e as
associações como atores sociais de construção de política pública de saúde, e
tá mudando as regras em relação à maconha. Isso abre um paradigma da segurança
jurídica para as associações, possibilidade de geração de emprego e renda no
Brasil.”
O engenheiro agrônomo Lorenzo Rolim explica
que o nível de 0,3% de THC é totalmente subjetivo, depende muito de como é
feita a medição, e em alguns casos é biologicamente impossível de alcançar. “A
questão do 0,3% de THC, isso é uma medida que sempre foi adotada em países
europeus. Os Estados Unidos quando legalizaram, adotaram o mesmo padrão. Mas
não existe, nunca existiu, uma classe de plantas de cannabis que produz abaixo
de 0,3% de THC naturalmente. Foi tudo uma decisão que um dia algum burocrata em
algum lugar tomou se assumiu que era isso dali para frente, né? E aí se adotou
isso como padrão na ONU e ficou como padrão para todos os países.”
Na prática, se o objetivo é produção de
fibra, a planta é colhida antes da criação de flores, então é possível o nível
de 0,3% de THC, mas quando começa a floração, sobretudo com a temperatura e
incidência de raios infravermelhos específicos do Brasil, é muito difícil
conseguir esse nível de THC. “Nesse cenário aqui para o Brasil, para a produção
medicinal, seguir o limite de 0,3% é perda de tempo, vai ser muito difícil,
mais do que isso, vai abrir brechas para criação de dificuldades, né? Em geral,
é uma decisão bem burra, porque nos países aqui na volta, o Uruguai, a
Colômbia, que já legalizaram há muitos anos, começaram com 0,3%, viram que deu
errado e depois voltaram atrás, mudaram a lei e hoje estão a maioria em torno
de 1%. ”, explica
Embora não seja competência da Anvisa a
regulação do cultivo individual e o uso não-medicinal, os advogados consultados
pela Pública concordam que a regulação, junto com recentes decisões do STJ e
STF criam um ambiente de segurança jurídica melhor para os praticantes do uso
“lúdico-ancestral” da cannabis.
Fonte: Por Matias Maxx, da Agência Pública

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