Janeiro
Branco e o chamado à saúde mental coletiva em um mundo de assimetrias
“Os
fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem.” A frase registrada
por Tucídides no Diálogo dos Melianos, em sua História da Guerra do Peloponeso,
atravessou séculos como síntese brutal do realismo político. Costuma ser citada
como se fosse uma “lei natural da história. Mas essa leitura é apressada – e
perigosa.
Tucídides
não escreveu um manual de cinismo. Ele construiu um alerta civilizatório. E que
se deve aplicar até hoje, no mundo político, organizacional e social. Ao
registrar a lógica de Atenas diante da pequena ilha de Melos, o historiador não
legitima a força: expõe o custo humano, moral e histórico de quando o poder se
descola da prudência.
O mais
incômodo – e atual – é que Tucídides não fala de monstros. Ele fala de humanos.
Melos
simboliza o momento em que a força perde a consciência. Em 416 a.C., Atenas,
potência imperial à frente da Liga de Delos, exige a rendição de Melos. O
argumento é direto: não se trata de justiça, mas de sobrevivência. Os melianos,
vinculados à Esparta e à Liga de Peloponeso apelam à ética, ao direito, aos
deuses. Atenas responde com realismo cru e o desfecho é conhecido: execução dos
homens em idade militar e escravização de mulheres e crianças.
Poucos
anos depois, Atenas mergulha na desastrosa expedição siciliana visando
conquistar Siracusa, aliada de Esparta. A sensação de invulnerabilidade e o
desprezo por limites aceleram sua queda. Acusado de sacrilégio, o mentor da
frota ateniense, Alcibíades, deserta para Esparta. Ele entregou todos os planos
militares de Atenas e sugeriu o contra-ataque, que resultou na destruição de
suas próprias tropas em Siracusa. Atenas nunca se recuperou financeiramente ou
militarmente desse golpe, perdendo sua hegemonia marítima para sempre.
Essa
cena não é apenas histórica. Ela revela um padrão recorrente: quando a
assimetria é extrema, o mais forte tende a converter poder em direito – e o
mais fraco paga o preço. Tucídides sugere, sem moralizar: a força sem freios
cobra seu preço – inclusive de quem a exerce.
É fácil
reconhecer esse “padrão Melos” no presente. A agressão do mais forte sobre o
mais fraco reaparece em guerras e disputas geopolíticas assimétricas, como a
invasão russa na Ucrânia, além de intervenções, sanções e guerras híbridas que,
independentemente da narrativa justificatória, produzem sofrimento humano
massivo. Na liderança organizacional, na política e até na parentalidade, algo
semelhante pode ocorrer quando “o poder de decidir” se desacopla da
responsabilidade: mitigam-se os danos no curto prazo, mas acumulam-se perdas,
gerando cinismo, estagnação, involução e sofrimento.
O ponto
não é equiparar contextos históricos distintos, mas identificar a lógica
subjacente: quando o poder se legitima apenas pela capacidade de impor-se, a
violência deixa de ser exceção e vira método – com efeitos que não ficam
restritos ao front.
A
neurociência e a psicologia contemporâneas atualizam Tucídides: violência e
radicalização adoecem desde o corpo social até o cérebro humano.
A
biologia evolutiva e a neurociência social mostram, sim, que assimetrias de
poder produzem estratégias adaptativas dos menos fortes, incluindo adulação,
submissão estratégica, prestação de serviços, alianças e mimetismo social.
Pesquisas de Robert Sapolsky, neuroendocrinologista e primatologista
norteamericano da Stanford University, mostram que hierarquias rígidas elevam o
estresse crônico nos subordinados: hiperativação do eixo do estresse,
inflamação, pior regulação emocional.
Mas
mostram também os limites, custos e condições em que isso ocorre. Submissão e
adulação não são virtudes; são estratégias de sobrevivência. Há ainda o outro
lado – e ele é decisivo. O poder, quando não encontra freios institucionais e
culturais, altera quem o exerce: reduz sensibilidades, normaliza privilégios e
facilita confundir força com merecimento. Sapolsky resumiu no livro
Comporte-se, a biologia humana em nosso melhor e pior em que demonstra as
múltiplas raízes do comportamento humano, mostrando que somos complexos
produtos de nossa biologia, história, cultura e ambiente, e que entender essas
camadas é fundamental para compreender a nós mesmos e à sociedade.
É do
humano tanto dominar quanto ser dominado. O mesmo indivíduo que sofre sob
opressão pode, em outro contexto, reproduzi-la. Essa ambivalência é central
para entender a saúde mental coletiva. Quem foi abusado pode tornar-se
abusador: a clínica e a psicopatologia da violência mostram trajetórias em que
trauma, humilhação e dissociação moral alimentam repetição e escalada.
O
psicólogo norte-americano de origem paquistanesa Nafees Hamid, do King’s
College London-ICSR, investiga o cérebro de extremistas violentos por
neuroimagem. Ele demonstra que humilhação, exclusão, violência moralizada e
perda de dignidade são gatilhos centrais da violência. Em muitos contextos, a
agressão surge como tentativa de restauração moral, não como impulso
irracional. E ele defende estratégias eficazes de desradicalização como, em vez
de atacar as crenças “sagradas” do extremista, deve-se focar no combate à
exclusão social e no acolhimento de traumas, já que o isolamento e a dor tornam
o cérebro mais propenso à violência. O objetivo é transformar esses achados em
políticas públicas que ajudem a reintegrar indivíduos à sociedade.
Tenho
vivenciado isto na prática clínica e no combate à infodemia. Participar de
grupos antivacinas (antivax), por exemplo, é um campo que exige paciência e
empatia e, muitas vezes, preciso reequilibrar-me. Na mentoria clínica com
lideranças produtivas, porém predatórias, também. Haja governança e compliance!
É o que
Noam Chomsky, biolinguísta norte-americano, professor emérito do MIT,
evidenciou como um mecanismo complementar: de qual modo a linguagem participa
da arquitetura do poder e influencia a mente. Eufemismos e enquadramentos,
“danos colaterais”, “operações de segurança”, anestesiam a empatia e deslocam a
responsabilidade. A violência torna-se administrável – e invisível. Chomsky, no
livro A fabricação do consentimento: a economia política dos meios de
comunicação em massa, com Edard Herman, usa a análise política e social para
criticar as estruturas de poder que, segundo ele, geram as condições de
injustiça e exclusão que levam à revolta e à violência em primeiro lugar. O
resultado é um ambiente simbólico em que a humilhação é normalizada, a
obediência é premiada, o dissenso vira ameaça e o sofrimento psíquico se
espalha silenciosamente. A linguagem nos torna humanos, mas o sistema pode usar
essa mesma capacidade para nos manipular.
Steven
Pinker, psicólogo e cientista cognitivo canadense-americano em Harvard, é
conhecido por analisar a violência sob perspectiva histórica, estatística e
institucional. Ele argumenta que a violência diminui quando instituições,
normas e a empatia simbólica regulam impulsos e interesses. Ao mesmo tempo,
reconhece recaídas quando hierarquias, medo e exclusão se intensificam, pontos
que dialogam com saúde mental coletiva.
E no
que a violência estrutural se conecta com a saúde mental coletiva? O sociólogo
norueguês Johan Galtung, inspirado pela ética de Gandhi e pela filosofia de
Arne Næss, lançou as bases conceituais da investigação científica sobre a paz.
Ele cunhou o conceito de violência estrutural: danos produzidos por sistemas
que negam acesso a recursos, dignidade e oportunidades, mesmo sem agressor
visível.
Nesse
cenário, a saúde mental deixa de ser problema individual e torna-se coletivo. A
Organização Mundial da Saúde estima que mais de um bilhão de pessoas vivem com
transtornos mentais, com impactos humanos e econômicos massivos. Reduzir isso a
acesso a tratamento é insuficiente. Sociedades que naturalizam assimetrias
extremas, exclusão e violência simbólica produzem ansiedade difusa,
desesperança aprendida e polarização.
E é
aqui que o Janeiro Branco ganha sentido e densidade. A campanha propõe saúde
mental como prevenção, educação e responsabilidade coletiva e não apenas
assistência clínica. Cuidar da saúde mental coletiva implica rever padrões de
poder, linguagem e tomadas de decisão. E cultura de paz não é ausência de
conflito: é gestão consciente do conflito antes que ele vire humilhação e
adoecimento coletivo, além de força predatória.
Não se
trata de pedir que o forte “não seja forte”, nem que o fraco “seja resiliente”.
Trata-se de educar adultos para consciência do próprio poder.
E como
podemos participar ativamente? Algumas propostas andragógicas para prevenir
violência e humilhação coletiva em quaisquer ambientes: coletivos, individuais,
sociais e políticos:
1. Alfabetização da humilhação: reconhecer
micro-humilhações (ironia, silenciamento, desqualificação).
2. Consciência situacional de poder: quem
tem mais poder agora – e como está usando?
3. Desacoplamento ameaça–resposta: pausas,
nomeação de afetos, perguntas de realidade antes de decidir.
4. Transformação de conflitos por
interesses: menos identidade, mais necessidades.
5. Higiene semiótica: desmontar eufemismos
que banalizam violência como “alinhamento duro = humilhação”, “danos
colaterais= civis morreram”, “foi só uma brincadeira=zombaria que humilhou o
outro”.
6. Pactos verificáveis de convivência:
regras claras e métricas simples reduzem cinismo e medo.
Essas
práticas não eliminam conflitos, mas impedem que eles se degradem em violência.
A
atualidade de Tucídides não está em legitimar a força, mas em alertar: quando o
poder se torna surdo à dignidade humana, ele adoece sociedades inteiras – e
acaba corroendo a si mesmo. No plano psicológico, a frase descreve estados de
ameaça: quando o medo domina, o cérebro opera em lógica de sobrevivência, não
de cooperação. No plano educacional, aceitá-la como “lei natural” gera
conformismo, cinismo e desistência ética. No plano civilizatório, superá-la
exige instituições, empatia, literacia, autocontenção e consciência histórica.
Reconhecer
que dominar e ser dominado fazem parte do humano não nos condena à barbárie.
Nos convoca à responsabilidade. Em tempos de assimetrias globais, guerras e
crise de saúde mental, a pergunta decisiva é: o que estamos fazendo com o poder
que temos – nas decisões políticas, nas organizações e nas relações
cotidianas? Porque, em algum momento,
todos ocupamos o lugar do mais forte.
Os
fortes fazem o que podem; os conscientes escolhem o que devem. E os maduros
fazem o que é preciso – sem humilhar. Essa é, hoje, uma tarefa de sanidade
global e de cultura de paz. Que o Janeiro Branco nos inspire.
Fonte:
Por Rubens Harb Bollos, no Le Monde

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