quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Pressão de Trump sobre Venezuela e América Latina agrava situação na Palestina

O governo dos Estados Unidos anunciou, em 14 de janeiro, o início da segunda fase do cessar-fogo para a Palestina, plano elaborado pelo presidente Donald Trump. Após o comunicado, tímidas reportagens voltaram a relatar o conflito em Gaza com notas de rodapé, expondo novos bombardeios israelenses no território palestino e a situação dos habitantes diante de um cerco que continua impedindo a entrada de alimentos, medicamentos e auxílio médico na Faixa de Gaza.

Em entrevista à Diálogos do Sul Global, Sieg destrincha a atual situação da Palestina após o início do acordo de cessar-fogo formulado por Trump, explica a importância da tática de boicote adotada pelo BDS e dá mais detalhes sobre como os últimos acontecimentos na Venezuela e no Irã impactam a conjuntura na Faixa de Gaza. <><> Confira:

  • Para começarmos, qual é a situação da Palestina desde o anúncio do acordo de cessar-fogo elaborado por Donald Trump? Existe alguma mudança de conjuntura no território desde então?

Juh Sieg – É uma situação bastante complexa e contraditória. Por um lado, a gente sabe que a agressão continua. O genocídio, os bombardeios e a violência são incessantes, porque não há como esperar do Estado de Israel, nem das forças de ocupação israelenses, qualquer compromisso real com um cessar-fogo, ou mesmo com o respeito à lei internacional. A quantidade de mortos e feridos segue aumentando, assim como o agravamento brutal das condições de vida do povo palestino, resultado de um genocídio contínuo que já dura mais de dois anos. Estamos falando de mortes por bombardeio, mas também por frio, por doenças, por falta de insumos, por fome. Desde o anúncio do próprio cessar-fogo, já temos quase 500 mortos, mais de mil feridos e mais de 700 corpos recuperados. As projeções oficiais do Ministério da Saúde da Palestina apontam para mais de 70 mil mártires e mais de 170 mil feridos desde outubro. Ou seja, esse cessar-fogo não trouxe, de fato, um cessar-fogo. O que ele trouxe foram compromissos constantemente violados e uma tentativa de administrar, entre aspas, um momento específico do avanço colonial da ocupação sionista, particularmente em Gaza. Quando olhamos para a Cisjordânia, vemos um cenário distinto, mas igualmente grave: intensificação das agressões, aumento dos deslocamentos forçados e da violência cotidiana. O que está em curso é um reordenamento das forças políticas e militares. Esse momento, apesar de tudo, pode ser utilizado pelas forças da resistência palestina como um espaço de reorganização: das tropas, das táticas de luta e, sobretudo — e esse talvez seja o ponto mais importante —, como uma oportunidade concreta de fortalecer a construção da unidade nacional palestina. Isso passa pela criação de mecanismos políticos unitários que levem em conta não apenas Gaza, mas também a Cisjordânia, os palestinos dentro do território de 1948 e a população refugiada nos países vizinhos. Nesse sentido, há sim uma leitura, por parte de setores importantes da resistência, de que esse momento de cessar-fogo pode abrir brechas para esse reordenamento político mais amplo, e é por isso que ele é visto, com todas as contradições, com algum grau de expectativa.

  • Diante desse contexto, como você avalia o cenário interno de resistência após a decisão de aceitar o acordo elaborado por Trump?

Uma parte importante dessa avaliação já aparece no que coloquei antes, porque esse cenário precisa ser entendido como um processo, como uma trajetória. Há, sim, uma compreensão por parte das forças de resistência da necessidade de aceitar um cessar-fogo inicial, sobretudo para aliviar a catástrofe humanitária, garantir a entrada de ajuda e viabilizar a libertação de prisioneiros. Mas isso, em nenhum momento, poderia significar um recuo estratégico ou político da resistência. Ao mesmo tempo, esse processo carrega contradições reais. Ele pode gerar algum grau de fragmentação, inclusive porque um dos elementos previstos para a chamada “fase dois” é o desarmamento total da resistência. E há uma compreensão bastante clara de que entregar as armas seria, na prática, uma sentença de morte. Então, existe uma resistência generalizada a esse ponto, que atravessa diferentes organizações. Isso coloca as forças de resistência numa espécie de sinuca de bico. Por um lado, há um desgaste enorme: a escalada da fome, a exaustão física e psicológica da população, o acúmulo de perdas e o aprofundamento desse novo capítulo da guerra genocida tornam muito mais difícil a manutenção da resistência, mesmo ela demonstrando uma capacidade impressionante de permanência. Por outro lado, os flancos seguem se ampliando, com a expansão colonial, as incursões diárias e os crimes cometidos por colonos na Cisjordânia, além das tentativas sistemáticas de erradicação do povo palestino. Nesse contexto, algumas forças, em especial a Frente Popular para a Libertação da Palestina, têm buscado usar esse momento para renovar os vínculos entre a resistência e o povo palestino, recuperando elementos comuns da luta e da unidade nacional. Isso passa por fortalecer redes de ajuda popular, ampliar a solidariedade, lidar com o deslocamento das famílias, aliviar feridas concretas e, ao mesmo tempo, consolidar uma frente capaz de enfrentar os planos de deslocamento forçado. Então, para além das batalhas militares, que continuam apesar do suposto cessar-fogo, há um elemento central que é a garantia das condições de vida e, sobretudo, a garantia da permanência do povo palestino em suas terras. Esse é um ponto fundamental para entender quais podem ser os próximos passos. Também acho importante destacar o nível de coordenação e cooperação que se construiu desde o 7 de outubro, ainda que com todas as contradições. Houve um avanço real no trabalho conjunto entre as forças de resistência, com foco na proteção da unidade nacional, no fortalecimento da capacidade de sumud  do povo palestino e no compromisso com a autodeterminação e com a continuidade da luta pela libertação. O desafio agora é fortalecer esses vínculos para que qualquer tentativa de “solução pelo alto”, seja por meio da Autoridade Palestina, seja através de uma espécie de Oslo reeditado, não desestruture essas conquistas. É fundamental que etapas como a formação de um governo tecnocrata ou os desdobramentos posteriores do cessar-fogo não sirvam para abafar a resistência, mas sejam compreendidas, no máximo, como um reordenamento de forças. Isso, no entanto, vai depender de muitos fatores: da capacidade de organização do próprio povo palestino, que sabemos estar profundamente debilitada; da atuação de atores regionais; e, claro, do papel permanente das potências imperialistas com interesses diretos na região, especialmente os Estados Unidos.

  • Fazendo um balanço da atuação dos movimentos de solidariedade internacional à Palestina, como a segunda onda de acampamentos em universidades, as Flotilhas que navegaram rumo a Gaza e as atuações do próprio movimento BDS, qual é a sua visão sobre o papel que esses movimentos têm conseguido prestar dentro do conflito?

Veja, desde o 7 de outubro, a gente acompanha um movimento claramente ascendente de mobilizações massivas em solidariedade ao povo palestino. Essas mobilizações aparecem, sobretudo, nos países mais diretamente envolvidos com o financiamento político, econômico e, principalmente, com o envio de equipamentos, armas e tecnologias militares para Israel, como os Estados Unidos e os países europeus. Nos Estados Unidos, por exemplo, esse movimento tem uma característica muito marcante: ele é fortemente vinculado a setores da própria comunidade judaica, que se colocam contra o uso da religião como discurso legitimador do genocídio. É nesse contexto que ganham força os movimentos antissionistas, que fazem questão de afirmar que antissionismo não é antissemitismo. Esse é um elemento político e ideológico muito relevante. Já nos países europeus, vemos uma articulação bastante significativa com o movimento operário, os sindicatos e os movimentos populares. Foram esses setores, por exemplo, que protagonizaram ações diretas para impedir o envio de armamentos, como o bloqueio de portos e a recusa em atracar ou carregar navios. A Itália é um caso emblemático, com greves gerais que tiveram grande participação sindical e que denunciaram abertamente a cumplicidade do governo italiano com o genocídio em curso. Também é importante mencionar as mobilizações em diversos países árabes e de maioria islâmica, que tiveram um peso político relevante. Na América Latina, o volume das mobilizações foi, em geral, menor, muito em função das condições objetivas e do próprio fluxo dos movimentos populares nesses países, mas ainda assim foram mobilizações importantes, considerando a realidade social e política da região. No caso das Flotilhas, especialmente da mais recente, nós vimos um salto qualitativo. Ela contou com representantes de mais de 40 países e dezenas de embarcações, o que trouxe um nível muito elevado de visibilidade internacional para a questão palestina e para a voz dos próprios palestinos. E, se ainda restava alguma dúvida, essa ação escancarou de vez o desprezo absoluto de Israel por qualquer legislação internacional, por convenções de direitos humanos ou pelo direito internacional humanitário. Ficou evidente que não há lei, não há norma, não há discurso jurídico que seja suficiente, por si só, para conter Israel. Eu acho que o conjunto dessas experiências, das universidades, das Flotilhas, das ações sindicais e do próprio movimento BDS, aponta para um aprendizado central: é preciso pôr o dedo na ferida. É preciso atingir os pilares que sustentam o genocídio, sejam eles políticos, militares, econômicos ou ideológicos. Esses movimentos mostram, na prática, que a solidariedade não pode se limitar a declarações ou palavras de ordem. Ela precisa ser uma solidariedade ativa, capaz de gerar custos reais para quem sustenta e legitima a violência contra o povo palestino.

  • Especialmente em relação à atuação do BDS: na sua perspectiva, qual a importância desse tipo de tática para ações contra Estados e governos?

Um dos elementos centrais do movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções é justamente o “S”, que diz respeito às sanções. Trata-se de um conjunto de ações voltadas a exigir dos Estados e dos governos um posicionamento mais contundente frente ao genocídio, ao regime de apartheid e aos crimes sistemáticos promovidos pelo Estado de Israel. Hoje, um dos aspectos mais importantes trabalhados pelo movimento está relacionado aos embargos energéticos e militares, especialmente no que diz respeito à militarização e ao consumo de tecnologias militares e de uso duplo. Estamos falando, por exemplo, de sistemas de vigilância, tecnologias de cibersegurança, equipamentos de monitoramento, telecomunicações, entre outros, que são amplamente utilizados tanto em contextos civis quanto militares. Esse debate é particularmente relevante para países da América Latina, que importam esse tipo de tecnologia ou mantêm relações comerciais diretas com a indústria militar israelense. Nesse sentido, a aplicação de sanções passa por embargar tecnologias estratégicas, suspender contratos, sancionar compras governamentais e, sobretudo, interromper a cooperação militar. Isso inclui, por exemplo, o fim das importações e exportações de armamentos, mas também de insumos que alimentam a indústria militar, como o aço e outras matérias-primas. Vale lembrar que a própria Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) já aprovou resoluções que apontam para a necessidade de sanções contra Israel em função de suas violações sistemáticas aos direitos humanos. É importante destacar que, ao exigir essas sanções, o movimento BDS não está propondo nada fora do marco existente: trata-se, em grande medida, de cobrar o cumprimento do direito internacional. Evidentemente, não há nenhuma ilusão em relação aos limites da lei internacional ou à forma como ela é aplicada de maneira seletiva. Mas esses mecanismos podem e devem ser utilizados como instrumentos políticos de pressão e de exposição das contradições. Quando falamos de países que funcionam como sustentáculos centrais de Israel, essa tática ganha ainda mais peso. No caso brasileiro, por exemplo, estamos falando da exportação de petróleo, de aço e de outros insumos estratégicos. Em outros países, trata-se da exportação direta de armas ou da importação de tecnologia militar israelense. A sanção, nesse sentido, atua diretamente contra a capacidade material do Estado de Israel de sustentar sua máquina de guerra, tornando o BDS uma ferramenta concreta e eficaz de enfrentamento estatal e governamental ao genocídio em curso.

  • No que tange ao Brasil, o movimento tem denunciado a exportação de petróleo e aço para Israel, além da importação de treinamento militar e material bélico. Na sua avaliação, qual é o papel que o Brasil possui dentro de uma perspectiva internacional para a continuidade do genocídio em Gaza e, paralelamente, quais os efeitos para o Brasil dessas negociações?

O Brasil ocupa uma posição bastante ambígua nesse cenário. De um lado, há um discurso diplomático supostamente avançado em alguns fóruns internacionais; de outro, existe um envolvimento material que não pode ser ignorado. Relatórios da ONU e de organizações como a Oil Change International apontaram que, em 2024, o Brasil foi responsável por cerca de 9% do petróleo que abasteceu Israel. Esse petróleo, seja bruto ou derivado, é absolutamente estratégico para a logística militar israelense, viabilizando o funcionamento de tanques, aviões e navios. Em 2025, aparentemente, houve uma redução brusca desses números, o que levanta, inclusive, a hipótese de que isso possa ser resultado da pressão exercida pelos movimentos de solidariedade no Brasil. Ao mesmo tempo, vimos denúncias feitas pelo movimento BDS e por sindicatos portuários, especialmente em Santos e no Rio de Janeiro, sobre o embarque de aço brasileiro no final do ano passado. Trata-se de uma matéria-prima de uso duplo, que pode ser empregada tanto em infraestrutura civil quanto na fabricação de munições, blindados e outros equipamentos da indústria de defesa israelense. Então, enquanto o governo brasileiro utiliza espaços internacionais para classificar as ações em Gaza como genocídio, esses fluxos comerciais e militares seguem operando normalmente. Na prática, eles funcionam como um suporte material que esvazia e neutraliza qualquer condenação diplomática, que acaba ficando no plano do discurso. Isso projeta a imagem de um país que joga dos dois lados, priorizando a balança comercial em detrimento de um compromisso real com a libertação do povo palestino. Há também impactos diretos para o Brasil quando olhamos para a política interna, especialmente no campo da segurança pública. O país é um dos grandes compradores de tecnologia israelense de monitoramento, drones e treinamento militar. São tecnologias testadas em combate contra a população palestina e que depois são importadas para serem aplicadas nas periferias brasileiras. Isso contribui para a intensificação da militarização da segurança pública e para o aprofundamento do ciclo de letalidade policial, algo que vimos de forma muito clara em episódios recentes, como as chacinas no Rio de Janeiro. No fim das contas, o papel do Brasil tem sido o de fornecedor de insumos e commodities para a economia do genocídio. Evidentemente, não estamos falando de um envolvimento tão central quanto o dos Estados Unidos ou de países europeus, que fornecem diretamente armas e equipamentos militares. Mas o Brasil tampouco se desvinculou dessa engrenagem. A estrutura da nossa indústria militar, do nosso agronegócio e de setores estratégicos da economia segue profundamente conectada aos fluxos de tecnologias e insumos que vêm de Israel ou que são destinados a sustentar sua máquina de guerra.

  • Em relação aos eventos internacionais mais recentes, desde o fim do ano passado, a Venezuela tem sido o foco das manchetes da mídia internacional, dado os avanços do tensionamento com os Estados Unidos até o desenrolar da situação na madrugada de 3 de janeiro, com os bombardeiros em Caracas e o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa. Pensando na situação pela qual passa a Venezuela, podemos traçar paralelos entre esse cenário e a Palestina?

Bom, é possível traçar paralelos, sim. Se a gente parte do entendimento de que o imperialismo é a forma de organização do capitalismo no atual momento histórico, então é natural que existam desenvolvimentos e desdobramentos que, ao mesmo tempo, se assemelham e se diferenciam em cada caso concreto. No caso da Venezuela, o que vemos é uma agressão direta dos Estados Unidos que mira a soberania venezuelana, a integridade territorial do país e o direito do povo venezuelano de determinar livremente o próprio destino. Trata-se de uma ofensiva que busca desestabilizar um governo, impor um projeto de interesse econômico estrangeiro e rasgar qualquer noção de soberania nacional. Quando olhamos para a Palestina, esse cenário aparece de forma ainda mais radicalizada. O povo palestino sequer é soberano sobre seu próprio território: não há integridade territorial, o espaço é completamente fragmentado e intercortado pela ocupação colonial, e a possibilidade de autodeterminação é sistematicamente negada. Ou seja, aquilo que na Venezuela aparece como uma tentativa de violar a soberania, na Palestina já se consolidou como uma realidade estrutural de ocupação. É interessante perceber como, historicamente, as intervenções dos Estados Unidos sempre foram apresentadas como precedentes perigosos para todos os povos do mundo e para a classe trabalhadora internacional. As décadas de colonização e agressão impostas ao povo palestino, com apoio direto do imperialismo estadunidense, já demonstravam isso. Da mesma forma, o bloqueio, a disputa por recursos naturais e o desrespeito aberto à soberania legal de governos, como vemos no caso venezuelano, também estabelecem precedentes extremamente perigosos. Assim como na história palestina de enfrentamento ao colonialismo, o que se evidencia é que o colonialismo e o imperialismo não operam apenas pela busca de recursos, mas também pela destruição da soberania dos povos, pela subjugação política e pela dependência econômica. Nesse sentido, a luta da classe trabalhadora venezuelana faz parte de uma luta mais ampla dos povos e da classe trabalhadora internacional pela libertação nacional, pela soberania e pela sua independência. Esse é um elemento que conecta profundamente os cenários da Venezuela e da Palestina. Entender essas relações é fundamental para compreender que não se tratam de conflitos isolados, mas de expressões distintas de um mesmo sistema imperialista em escala global, em um momento de conflitos interimperialistas pipocando no mundo inteiro.

  • O Documento sobre a Estratégia de Segurança Nacional elaborado pelo governo Trump descreve uma mudança de foco na política estadunidense na qual a América Latina assume um maior protagonismo para o país. Na sua visão, essa mudança de rota altera a correlação de forças na Palestina?

Esse novo documento, que na prática resgata a Doutrina Monroe, não significa uma troca de foco, como se os Estados Unidos estivessem deixando a Palestina de lado para se concentrar na América Latina. Não é uma coisa ou outra. O que ele faz é consolidar a América Latina como uma retaguarda segura e praticamente exclusiva para os interesses estadunidenses. Isso passa pelo controle dos minerais críticos, das cadeias de suprimento e das rotas estratégicas na região, além do esforço para bloquear a influência da China e da Rússia. Ao mesmo tempo, essa estratégia busca reduzir ao máximo qualquer possibilidade de resistência interna no continente americano que possa desviar recursos, atenção política ou capacidade militar das prioridades centrais dos Estados Unidos no Oriente Médio e na disputa global com a China. Nesse sentido, essa mudança de rota piora, sim, a correlação de forças para o povo palestino. Essa concentração de poder serve para reafirmar a lógica da “paz através da força”. Ela sinaliza tanto para Israel quanto para os aliados árabes que os Estados Unidos estão dispostos a usar coerção militar, econômica e diplomática para impor seus acordos, como o plano de Trump para Gaza, sem qualquer margem real para negociações que envolvam soberania palestina. Há também um impacto importante no campo diplomático. Com a América Latina sob maior pressão política e econômica, a Palestina tende a perder peso relativo no apoio de aliados diplomáticos que, historicamente, cumpriram algum papel de contenção ou denúncia nos fóruns internacionais, mesmo que limitado. Além disso, quanto mais os Estados Unidos buscam controlar a América Latina, mais dependem de Israel como um enclave militar estável, agressivo e funcional para a gestão dos interesses energéticos e das rotas comerciais no Oriente Médio. Portanto, não se trata de uma mudança que nos faça “esquecer” a Palestina, mas de uma reconfiguração que reforça a centralidade de Israel dentro da estratégia do imperialismo estadunidense. Ao mesmo tempo, ela fortalece a necessidade de pensar as alternativas de resistência interna na América Latina, que acaba sendo empurrada a financiar e sustentar, ainda que indiretamente, por meio do comércio de energia, gás e petróleo, a hegemonia militar dos Estados Unidos e o silêncio em relação à Palestina. Basta pensar, por exemplo, no papel de empresas como a Chevron e na centralidade do combustível e da energia dentro dessa engrenagem.

  • Além da Venezuela, desde o fim do ano passado vemos o avanço de protestos massivos no Irã com crescente teor de oposição ao regime dos Aiatolás, bem como um aumento das declarações de Trump em relação a uma possível intervenção também neste território. A situação interna do Irã leva a uma mudança de conjuntura regional no Oriente Médio? O que isso pode significar para a conjuntura de Gaza?

Vamos ressaltar um ponto de partida: a instabilidade interna no Irã não é um evento isolado ou um simples complô estrangeiro, mas sim o resultado de uma crise profunda do capitalismo teocrático e neoliberal dos Aiatolás. Atualmente, o país enfrenta um colapso econômico em que 40 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, quadro exacerbado por uma corrupção sistêmica liderada pela Guarda Revolucionária (IRGC). Essa fragilidade interna altera a conjuntura regional ao colocar o Irã em uma posição defensiva e, simultaneamente, ao incentivar o imperialismo estadunidense a intensificar sua agressividade. Essa mudança de rota impacta diretamente a Palestina ao enfraquecer um dos principais eixos de contraposição regional ao projeto sionista e estadunidense. As declarações de Trump sobre intervenção sinalizam uma tentativa de “sequestrar” a insatisfação popular iraniana para impor uma mudança de regime que transforme o Irã em um enclave de influência ocidental, semelhante ao que ocorreu no golpe de 1953. Se o Irã for forçado a se voltar inteiramente para sua sobrevivência interna ou se for alvo de uma agressão militar (como a ocorrida em junho de 2025), o apoio logístico e político à causa de Gaza é severamente comprometido, deixando o povo palestino ainda mais isolado diante da brutalidade do genocídio. Nesse sentido, a situação piora a correlação de forças para Gaza. É interessante notarmos o quanto o imperialismo estadunidense utiliza o discurso de “liberdade e democracia” para justificar intervenções que, na prática, visam garantir o controle de recursos energéticos e rotas comerciais. Para Israel, a instabilidade no Irã é uma oportunidade de ouro para acelerar a limpeza étnica e a anexação de territórios, contando com a distração ou o enfraquecimento de seus adversários regionais. Além disso, a postura de Trump busca consolidar uma “paz através da força”, onde a soberania palestina é completamente descartada em favor de acordos comerciais e militares que incluam os aliados árabes sob a égide dos EUA. Há também uma dimensão de classe que conecta as duas realidades: tanto o regime de Khamenei quanto o imperialismo de Trump ignoram as demandas reais dos trabalhadores iranianos. A conjuntura de Gaza torna-se ainda mais dramática porque a resistência palestina corre o risco de ser deslegitimada internacionalmente se for vinculada exclusivamente a um regime iraniano em crise, permitindo que a propaganda israelense classifique qualquer oposição em Gaza como mero “terrorismo por procuração” de um Estado em colapso.

Assim, a crise no Irã e a agressividade de Trump não são fenômenos desconectados da questão palestina, mas sim parte de uma reconfiguração imperialista que busca eliminar focos de contraposição regional. O que isso significa para Gaza é a urgência de uma resistência que não dependa apenas de equilíbrios geopolíticos entre Estados, mas que se conecte a uma luta internacionalista contra o capital e o imperialismo, impedindo que a queda de um regime autoritário no Irã seja substituída por uma ocupação ou tutela ainda mais funcional aos interesses de Israel e dos Estados Unidos.

  • Por fim, em relação às instituições internacionais, temos visto a mídia intensificar um diagnóstico de corrosão desses organismos desde o ano passado, algo que se aprofunda agora em meio à intervenção estadunidense na Venezuela. Na sua avaliação, é possível falar de fato de uma corrosão? Quais são as consequências desse cenário?

Antes de tudo, o termo “corrosão” usado pela mídia liberal é impreciso, pois sugere que essas instituições — como a ONU ou o Tribunal Penal Internacional (TPI) — funcionavam outrora como árbitros neutros e justos. O que ocorre não é uma simples falha institucional, mas o fato de que o imperialismo estadunidense e seus aliados decidiram que, nesta nova fase, não reconhecem mais “quaisquer regras ou limites” em suas intervenções. A intervenção na Venezuela em 3 de janeiro, com o sequestro de autoridades, é o exemplo máximo dessa “nova fase” em que a diplomacia é substituída pela força bruta sem o verniz da legalidade internacional. Essa mudança de postura sinaliza que as instituições internacionais só são preservadas enquanto servem para legitimar a hegemonia das potências centrais. Quando essas instituições produzem denúncias de genocídio (como em Gaza) ou tentam mediar soberanias nacionais que desafiam os interesses de Washington (como na Venezuela ou no Irã), elas são simplesmente ignoradas ou atropeladas. Vamos tomar como exemplo as sanções unilaterais contra o Irã, que devastam a vida do povo trabalhador à revelia do direito internacional. Elas são prova inconteste dessa “corrosão” prática, onde a força econômica e militar se impõe sobre qualquer carta de princípios das Nações Unidas. Essa erosão institucional força uma reconfiguração das estratégias revolucionárias. Não se pode mais — se é que algum dia se pode — buscar “salvação” nessas instituições ou em fóruns internacionais que, no limite, são geridos pelo capital. A consequência direta é a necessidade de retomar a independência política da classe trabalhadora. Se o direito internacional não protege mais as fronteiras ou os povos, a única defesa real reside na organização interna e na solidariedade internacionalista entre os trabalhadores, e não na confiança em mecanismos diplomáticos que se provaram incapazes de deter o genocídio em Gaza ou os golpes de Estado na América Latina.

 

Fonte: Por Isabelle Paiva, em Diálogos do Sul Global

 

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