Pressão
de Trump sobre Venezuela e América Latina agrava situação na Palestina
O
governo dos Estados Unidos anunciou, em 14 de janeiro, o início da segunda fase
do cessar-fogo para a Palestina, plano elaborado pelo presidente Donald Trump.
Após o comunicado, tímidas reportagens voltaram a relatar o conflito em Gaza
com notas de rodapé, expondo novos bombardeios israelenses no território
palestino e a situação dos habitantes diante de um cerco que continua impedindo
a entrada de alimentos, medicamentos e auxílio médico na Faixa de Gaza.
Em
entrevista à Diálogos do Sul Global, Sieg destrincha a atual situação da
Palestina após o início do acordo de cessar-fogo formulado por Trump, explica a
importância da tática de boicote adotada pelo BDS e dá mais detalhes sobre como
os últimos acontecimentos na Venezuela e no Irã impactam a conjuntura na Faixa
de Gaza. <><> Confira:
- Para começarmos,
qual é a situação da Palestina desde o anúncio do acordo de cessar-fogo
elaborado por Donald Trump? Existe alguma mudança de conjuntura no
território desde então?
Juh
Sieg – É uma situação bastante complexa e contraditória. Por um lado, a gente
sabe que a agressão continua. O genocídio, os bombardeios e a violência são
incessantes, porque não há como esperar do Estado de Israel, nem das forças de
ocupação israelenses, qualquer compromisso real com um cessar-fogo, ou mesmo
com o respeito à lei internacional. A quantidade de mortos e feridos segue
aumentando, assim como o agravamento brutal das condições de vida do povo
palestino, resultado de um genocídio contínuo que já dura mais de dois anos.
Estamos falando de mortes por bombardeio, mas também por frio, por doenças, por
falta de insumos, por fome. Desde o anúncio do próprio cessar-fogo, já temos
quase 500 mortos, mais de mil feridos e mais de 700 corpos recuperados. As
projeções oficiais do Ministério da Saúde da Palestina apontam para mais de 70
mil mártires e mais de 170 mil feridos desde outubro. Ou seja, esse cessar-fogo
não trouxe, de fato, um cessar-fogo. O que ele trouxe foram compromissos
constantemente violados e uma tentativa de administrar, entre aspas, um momento
específico do avanço colonial da ocupação sionista, particularmente em Gaza.
Quando olhamos para a Cisjordânia, vemos um cenário distinto, mas igualmente
grave: intensificação das agressões, aumento dos deslocamentos forçados e da
violência cotidiana. O que está em curso é um reordenamento das forças
políticas e militares. Esse momento, apesar de tudo, pode ser utilizado pelas
forças da resistência palestina como um espaço de reorganização: das tropas,
das táticas de luta e, sobretudo — e esse talvez seja o ponto mais importante
—, como uma oportunidade concreta de fortalecer a construção da unidade
nacional palestina. Isso passa pela criação de mecanismos políticos unitários
que levem em conta não apenas Gaza, mas também a Cisjordânia, os palestinos
dentro do território de 1948 e a população refugiada nos países vizinhos. Nesse
sentido, há sim uma leitura, por parte de setores importantes da resistência,
de que esse momento de cessar-fogo pode abrir brechas para esse reordenamento
político mais amplo, e é por isso que ele é visto, com todas as contradições,
com algum grau de expectativa.
- Diante desse
contexto, como você avalia o cenário interno de resistência após a decisão
de aceitar o acordo elaborado por Trump?
Uma
parte importante dessa avaliação já aparece no que coloquei antes, porque esse
cenário precisa ser entendido como um processo, como uma trajetória. Há, sim,
uma compreensão por parte das forças de resistência da necessidade de aceitar
um cessar-fogo inicial, sobretudo para aliviar a catástrofe humanitária,
garantir a entrada de ajuda e viabilizar a libertação de prisioneiros. Mas
isso, em nenhum momento, poderia significar um recuo estratégico ou político da
resistência. Ao mesmo tempo, esse processo carrega contradições reais. Ele pode
gerar algum grau de fragmentação, inclusive porque um dos elementos previstos
para a chamada “fase dois” é o desarmamento total da resistência. E há uma
compreensão bastante clara de que entregar as armas seria, na prática, uma
sentença de morte. Então, existe uma resistência generalizada a esse ponto, que
atravessa diferentes organizações. Isso coloca as forças de resistência numa
espécie de sinuca de bico. Por um lado, há um desgaste enorme: a escalada da
fome, a exaustão física e psicológica da população, o acúmulo de perdas e o
aprofundamento desse novo capítulo da guerra genocida tornam muito mais difícil
a manutenção da resistência, mesmo ela demonstrando uma capacidade
impressionante de permanência. Por outro lado, os flancos seguem se ampliando,
com a expansão colonial, as incursões diárias e os crimes cometidos por colonos
na Cisjordânia, além das tentativas sistemáticas de erradicação do povo
palestino. Nesse contexto, algumas forças, em especial a Frente Popular para a
Libertação da Palestina, têm buscado usar esse momento para renovar os vínculos
entre a resistência e o povo palestino, recuperando elementos comuns da luta e
da unidade nacional. Isso passa por fortalecer redes de ajuda popular, ampliar
a solidariedade, lidar com o deslocamento das famílias, aliviar feridas
concretas e, ao mesmo tempo, consolidar uma frente capaz de enfrentar os planos
de deslocamento forçado. Então, para além das batalhas militares, que continuam
apesar do suposto cessar-fogo, há um elemento central que é a garantia das
condições de vida e, sobretudo, a garantia da permanência do povo palestino em
suas terras. Esse é um ponto fundamental para entender quais podem ser os
próximos passos. Também acho importante destacar o nível de coordenação e
cooperação que se construiu desde o 7 de outubro, ainda que com todas as
contradições. Houve um avanço real no trabalho conjunto entre as forças de
resistência, com foco na proteção da unidade nacional, no fortalecimento da
capacidade de sumud do povo palestino e
no compromisso com a autodeterminação e com a continuidade da luta pela
libertação. O desafio agora é fortalecer esses vínculos para que qualquer
tentativa de “solução pelo alto”, seja por meio da Autoridade Palestina, seja
através de uma espécie de Oslo reeditado, não desestruture essas conquistas. É
fundamental que etapas como a formação de um governo tecnocrata ou os
desdobramentos posteriores do cessar-fogo não sirvam para abafar a resistência,
mas sejam compreendidas, no máximo, como um reordenamento de forças. Isso, no
entanto, vai depender de muitos fatores: da capacidade de organização do
próprio povo palestino, que sabemos estar profundamente debilitada; da atuação
de atores regionais; e, claro, do papel permanente das potências imperialistas
com interesses diretos na região, especialmente os Estados Unidos.
- Fazendo um
balanço da atuação dos movimentos de solidariedade internacional à
Palestina, como a segunda onda de acampamentos em universidades, as
Flotilhas que navegaram rumo a Gaza e as atuações do próprio movimento
BDS, qual é a sua visão sobre o papel que esses movimentos têm conseguido
prestar dentro do conflito?
Veja,
desde o 7 de outubro, a gente acompanha um movimento claramente ascendente de
mobilizações massivas em solidariedade ao povo palestino. Essas mobilizações
aparecem, sobretudo, nos países mais diretamente envolvidos com o financiamento
político, econômico e, principalmente, com o envio de equipamentos, armas e
tecnologias militares para Israel, como os Estados Unidos e os países europeus.
Nos Estados Unidos, por exemplo, esse movimento tem uma característica muito
marcante: ele é fortemente vinculado a setores da própria comunidade judaica,
que se colocam contra o uso da religião como discurso legitimador do genocídio.
É nesse contexto que ganham força os movimentos antissionistas, que fazem
questão de afirmar que antissionismo não é antissemitismo. Esse é um elemento
político e ideológico muito relevante. Já nos países europeus, vemos uma
articulação bastante significativa com o movimento operário, os sindicatos e os
movimentos populares. Foram esses setores, por exemplo, que protagonizaram
ações diretas para impedir o envio de armamentos, como o bloqueio de portos e a
recusa em atracar ou carregar navios. A Itália é um caso emblemático, com
greves gerais que tiveram grande participação sindical e que denunciaram
abertamente a cumplicidade do governo italiano com o genocídio em curso. Também
é importante mencionar as mobilizações em diversos países árabes e de maioria
islâmica, que tiveram um peso político relevante. Na América Latina, o volume
das mobilizações foi, em geral, menor, muito em função das condições objetivas
e do próprio fluxo dos movimentos populares nesses países, mas ainda assim
foram mobilizações importantes, considerando a realidade social e política da
região. No caso das Flotilhas, especialmente da mais recente, nós vimos um
salto qualitativo. Ela contou com representantes de mais de 40 países e dezenas
de embarcações, o que trouxe um nível muito elevado de visibilidade
internacional para a questão palestina e para a voz dos próprios palestinos. E,
se ainda restava alguma dúvida, essa ação escancarou de vez o desprezo absoluto
de Israel por qualquer legislação internacional, por convenções de direitos
humanos ou pelo direito internacional humanitário. Ficou evidente que não há
lei, não há norma, não há discurso jurídico que seja suficiente, por si só,
para conter Israel. Eu acho que o conjunto dessas experiências, das
universidades, das Flotilhas, das ações sindicais e do próprio movimento BDS,
aponta para um aprendizado central: é preciso pôr o dedo na ferida. É preciso
atingir os pilares que sustentam o genocídio, sejam eles políticos, militares,
econômicos ou ideológicos. Esses movimentos mostram, na prática, que a
solidariedade não pode se limitar a declarações ou palavras de ordem. Ela
precisa ser uma solidariedade ativa, capaz de gerar custos reais para quem
sustenta e legitima a violência contra o povo palestino.
- Especialmente em
relação à atuação do BDS: na sua perspectiva, qual a importância desse
tipo de tática para ações contra Estados e governos?
Um dos
elementos centrais do movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções é
justamente o “S”, que diz respeito às sanções. Trata-se de um conjunto de ações
voltadas a exigir dos Estados e dos governos um posicionamento mais contundente
frente ao genocídio, ao regime de apartheid e aos crimes sistemáticos
promovidos pelo Estado de Israel. Hoje, um dos aspectos mais importantes
trabalhados pelo movimento está relacionado aos embargos energéticos e
militares, especialmente no que diz respeito à militarização e ao consumo de
tecnologias militares e de uso duplo. Estamos falando, por exemplo, de sistemas
de vigilância, tecnologias de cibersegurança, equipamentos de monitoramento,
telecomunicações, entre outros, que são amplamente utilizados tanto em contextos
civis quanto militares. Esse debate é particularmente relevante para países da
América Latina, que importam esse tipo de tecnologia ou mantêm relações
comerciais diretas com a indústria militar israelense. Nesse sentido, a
aplicação de sanções passa por embargar tecnologias estratégicas, suspender
contratos, sancionar compras governamentais e, sobretudo, interromper a
cooperação militar. Isso inclui, por exemplo, o fim das importações e
exportações de armamentos, mas também de insumos que alimentam a indústria
militar, como o aço e outras matérias-primas. Vale lembrar que a própria
Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) já aprovou resoluções
que apontam para a necessidade de sanções contra Israel em função de suas
violações sistemáticas aos direitos humanos. É importante destacar que, ao
exigir essas sanções, o movimento BDS não está propondo nada fora do marco
existente: trata-se, em grande medida, de cobrar o cumprimento do direito
internacional. Evidentemente, não há nenhuma ilusão em relação aos limites da
lei internacional ou à forma como ela é aplicada de maneira seletiva. Mas esses
mecanismos podem e devem ser utilizados como instrumentos políticos de pressão
e de exposição das contradições. Quando falamos de países que funcionam como sustentáculos
centrais de Israel, essa tática ganha ainda mais peso. No caso brasileiro, por
exemplo, estamos falando da exportação de petróleo, de aço e de outros insumos
estratégicos. Em outros países, trata-se da exportação direta de armas ou da
importação de tecnologia militar israelense. A sanção, nesse sentido, atua
diretamente contra a capacidade material do Estado de Israel de sustentar sua
máquina de guerra, tornando o BDS uma ferramenta concreta e eficaz de
enfrentamento estatal e governamental ao genocídio em curso.
- No que tange ao
Brasil, o movimento tem denunciado a exportação de petróleo e aço para
Israel, além da importação de treinamento militar e material bélico. Na
sua avaliação, qual é o papel que o Brasil possui dentro de uma
perspectiva internacional para a continuidade do genocídio em Gaza e,
paralelamente, quais os efeitos para o Brasil dessas negociações?
O
Brasil ocupa uma posição bastante ambígua nesse cenário. De um lado, há um
discurso diplomático supostamente avançado em alguns fóruns internacionais; de
outro, existe um envolvimento material que não pode ser ignorado. Relatórios da
ONU e de organizações como a Oil Change International apontaram que, em 2024, o
Brasil foi responsável por cerca de 9% do petróleo que abasteceu Israel. Esse
petróleo, seja bruto ou derivado, é absolutamente estratégico para a logística
militar israelense, viabilizando o funcionamento de tanques, aviões e navios.
Em 2025, aparentemente, houve uma redução brusca desses números, o que levanta,
inclusive, a hipótese de que isso possa ser resultado da pressão exercida pelos
movimentos de solidariedade no Brasil. Ao mesmo tempo, vimos denúncias feitas
pelo movimento BDS e por sindicatos portuários, especialmente em Santos e no
Rio de Janeiro, sobre o embarque de aço brasileiro no final do ano passado.
Trata-se de uma matéria-prima de uso duplo, que pode ser empregada tanto em infraestrutura
civil quanto na fabricação de munições, blindados e outros equipamentos da
indústria de defesa israelense. Então, enquanto o governo brasileiro utiliza
espaços internacionais para classificar as ações em Gaza como genocídio, esses
fluxos comerciais e militares seguem operando normalmente. Na prática, eles
funcionam como um suporte material que esvazia e neutraliza qualquer condenação
diplomática, que acaba ficando no plano do discurso. Isso projeta a imagem de
um país que joga dos dois lados, priorizando a balança comercial em detrimento
de um compromisso real com a libertação do povo palestino. Há também impactos
diretos para o Brasil quando olhamos para a política interna, especialmente no
campo da segurança pública. O país é um dos grandes compradores de tecnologia
israelense de monitoramento, drones e treinamento militar. São tecnologias
testadas em combate contra a população palestina e que depois são importadas
para serem aplicadas nas periferias brasileiras. Isso contribui para a
intensificação da militarização da segurança pública e para o aprofundamento do
ciclo de letalidade policial, algo que vimos de forma muito clara em episódios
recentes, como as chacinas no Rio de Janeiro. No fim das contas, o papel do
Brasil tem sido o de fornecedor de insumos e commodities para a economia do
genocídio. Evidentemente, não estamos falando de um envolvimento tão central
quanto o dos Estados Unidos ou de países europeus, que fornecem diretamente
armas e equipamentos militares. Mas o Brasil tampouco se desvinculou dessa
engrenagem. A estrutura da nossa indústria militar, do nosso agronegócio e de
setores estratégicos da economia segue profundamente conectada aos fluxos de
tecnologias e insumos que vêm de Israel ou que são destinados a sustentar sua
máquina de guerra.
- Em relação aos
eventos internacionais mais recentes, desde o fim do ano passado, a
Venezuela tem sido o foco das manchetes da mídia internacional, dado os
avanços do tensionamento com os Estados Unidos até o desenrolar da
situação na madrugada de 3 de janeiro, com os bombardeiros em Caracas e o
sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa. Pensando na situação pela qual
passa a Venezuela, podemos traçar paralelos entre esse cenário e a
Palestina?
Bom, é
possível traçar paralelos, sim. Se a gente parte do entendimento de que o
imperialismo é a forma de organização do capitalismo no atual momento
histórico, então é natural que existam desenvolvimentos e desdobramentos que,
ao mesmo tempo, se assemelham e se diferenciam em cada caso concreto. No caso
da Venezuela, o que vemos é uma agressão direta dos Estados Unidos que mira a
soberania venezuelana, a integridade territorial do país e o direito do povo
venezuelano de determinar livremente o próprio destino. Trata-se de uma
ofensiva que busca desestabilizar um governo, impor um projeto de interesse
econômico estrangeiro e rasgar qualquer noção de soberania nacional. Quando
olhamos para a Palestina, esse cenário aparece de forma ainda mais
radicalizada. O povo palestino sequer é soberano sobre seu próprio território:
não há integridade territorial, o espaço é completamente fragmentado e
intercortado pela ocupação colonial, e a possibilidade de autodeterminação é
sistematicamente negada. Ou seja, aquilo que na Venezuela aparece como uma
tentativa de violar a soberania, na Palestina já se consolidou como uma
realidade estrutural de ocupação. É interessante perceber como, historicamente,
as intervenções dos Estados Unidos sempre foram apresentadas como precedentes
perigosos para todos os povos do mundo e para a classe trabalhadora
internacional. As décadas de colonização e agressão impostas ao povo palestino,
com apoio direto do imperialismo estadunidense, já demonstravam isso. Da mesma
forma, o bloqueio, a disputa por recursos naturais e o desrespeito aberto à
soberania legal de governos, como vemos no caso venezuelano, também estabelecem
precedentes extremamente perigosos. Assim como na história palestina de
enfrentamento ao colonialismo, o que se evidencia é que o colonialismo e o
imperialismo não operam apenas pela busca de recursos, mas também pela
destruição da soberania dos povos, pela subjugação política e pela dependência
econômica. Nesse sentido, a luta da classe trabalhadora venezuelana faz parte de
uma luta mais ampla dos povos e da classe trabalhadora internacional pela
libertação nacional, pela soberania e pela sua independência. Esse é um
elemento que conecta profundamente os cenários da Venezuela e da Palestina.
Entender essas relações é fundamental para compreender que não se tratam de
conflitos isolados, mas de expressões distintas de um mesmo sistema
imperialista em escala global, em um momento de conflitos interimperialistas
pipocando no mundo inteiro.
- O Documento
sobre a Estratégia de Segurança Nacional elaborado pelo governo Trump
descreve uma mudança de foco na política estadunidense na qual a América
Latina assume um maior protagonismo para o país. Na sua visão, essa
mudança de rota altera a correlação de forças na Palestina?
Esse
novo documento, que na prática resgata a Doutrina Monroe, não significa uma
troca de foco, como se os Estados Unidos estivessem deixando a Palestina de
lado para se concentrar na América Latina. Não é uma coisa ou outra. O que ele
faz é consolidar a América Latina como uma retaguarda segura e praticamente
exclusiva para os interesses estadunidenses. Isso passa pelo controle dos
minerais críticos, das cadeias de suprimento e das rotas estratégicas na
região, além do esforço para bloquear a influência da China e da Rússia. Ao
mesmo tempo, essa estratégia busca reduzir ao máximo qualquer possibilidade de
resistência interna no continente americano que possa desviar recursos, atenção
política ou capacidade militar das prioridades centrais dos Estados Unidos no
Oriente Médio e na disputa global com a China. Nesse sentido, essa mudança de
rota piora, sim, a correlação de forças para o povo palestino. Essa
concentração de poder serve para reafirmar a lógica da “paz através da força”.
Ela sinaliza tanto para Israel quanto para os aliados árabes que os Estados
Unidos estão dispostos a usar coerção militar, econômica e diplomática para
impor seus acordos, como o plano de Trump para Gaza, sem qualquer margem real
para negociações que envolvam soberania palestina. Há também um impacto
importante no campo diplomático. Com a América Latina sob maior pressão
política e econômica, a Palestina tende a perder peso relativo no apoio de
aliados diplomáticos que, historicamente, cumpriram algum papel de contenção ou
denúncia nos fóruns internacionais, mesmo que limitado. Além disso, quanto mais
os Estados Unidos buscam controlar a América Latina, mais dependem de Israel
como um enclave militar estável, agressivo e funcional para a gestão dos
interesses energéticos e das rotas comerciais no Oriente Médio. Portanto, não
se trata de uma mudança que nos faça “esquecer” a Palestina, mas de uma
reconfiguração que reforça a centralidade de Israel dentro da estratégia do
imperialismo estadunidense. Ao mesmo tempo, ela fortalece a necessidade de
pensar as alternativas de resistência interna na América Latina, que acaba
sendo empurrada a financiar e sustentar, ainda que indiretamente, por meio do
comércio de energia, gás e petróleo, a hegemonia militar dos Estados Unidos e o
silêncio em relação à Palestina. Basta pensar, por exemplo, no papel de
empresas como a Chevron e na centralidade do combustível e da energia dentro
dessa engrenagem.
- Além da
Venezuela, desde o fim do ano passado vemos o avanço de protestos massivos
no Irã com crescente teor de oposição ao regime dos Aiatolás, bem como um
aumento das declarações de Trump em relação a uma possível intervenção
também neste território. A situação interna do Irã leva a uma mudança de
conjuntura regional no Oriente Médio? O que isso pode significar para a
conjuntura de Gaza?
Vamos
ressaltar um ponto de partida: a instabilidade interna no Irã não é um evento
isolado ou um simples complô estrangeiro, mas sim o resultado de uma crise
profunda do capitalismo teocrático e neoliberal dos Aiatolás. Atualmente, o
país enfrenta um colapso econômico em que 40 milhões de pessoas vivem abaixo da
linha da pobreza, quadro exacerbado por uma corrupção sistêmica liderada pela
Guarda Revolucionária (IRGC). Essa fragilidade interna altera a conjuntura
regional ao colocar o Irã em uma posição defensiva e, simultaneamente, ao
incentivar o imperialismo estadunidense a intensificar sua agressividade. Essa
mudança de rota impacta diretamente a Palestina ao enfraquecer um dos
principais eixos de contraposição regional ao projeto sionista e estadunidense.
As declarações de Trump sobre intervenção sinalizam uma tentativa de
“sequestrar” a insatisfação popular iraniana para impor uma mudança de regime
que transforme o Irã em um enclave de influência ocidental, semelhante ao que
ocorreu no golpe de 1953. Se o Irã for forçado a se voltar inteiramente para
sua sobrevivência interna ou se for alvo de uma agressão militar (como a
ocorrida em junho de 2025), o apoio logístico e político à causa de Gaza é
severamente comprometido, deixando o povo palestino ainda mais isolado diante
da brutalidade do genocídio. Nesse sentido, a situação piora a correlação de
forças para Gaza. É interessante notarmos o quanto o imperialismo estadunidense
utiliza o discurso de “liberdade e democracia” para justificar intervenções que,
na prática, visam garantir o controle de recursos energéticos e rotas
comerciais. Para Israel, a instabilidade no Irã é uma oportunidade de ouro para
acelerar a limpeza étnica e a anexação de territórios, contando com a distração
ou o enfraquecimento de seus adversários regionais. Além disso, a postura de
Trump busca consolidar uma “paz através da força”, onde a soberania palestina é
completamente descartada em favor de acordos comerciais e militares que incluam
os aliados árabes sob a égide dos EUA. Há também uma dimensão de classe que
conecta as duas realidades: tanto o regime de Khamenei quanto o imperialismo de
Trump ignoram as demandas reais dos trabalhadores iranianos. A conjuntura de
Gaza torna-se ainda mais dramática porque a resistência palestina corre o risco
de ser deslegitimada internacionalmente se for vinculada exclusivamente a um
regime iraniano em crise, permitindo que a propaganda israelense classifique
qualquer oposição em Gaza como mero “terrorismo por procuração” de um Estado em
colapso.
Assim,
a crise no Irã e a agressividade de Trump não são fenômenos desconectados da
questão palestina, mas sim parte de uma reconfiguração imperialista que busca
eliminar focos de contraposição regional. O que isso significa para Gaza é a
urgência de uma resistência que não dependa apenas de equilíbrios geopolíticos
entre Estados, mas que se conecte a uma luta internacionalista contra o capital
e o imperialismo, impedindo que a queda de um regime autoritário no Irã seja
substituída por uma ocupação ou tutela ainda mais funcional aos interesses de
Israel e dos Estados Unidos.
- Por fim, em
relação às instituições internacionais, temos visto a mídia intensificar
um diagnóstico de corrosão desses organismos desde o ano passado, algo que
se aprofunda agora em meio à intervenção estadunidense na Venezuela. Na
sua avaliação, é possível falar de fato de uma corrosão? Quais são as
consequências desse cenário?
Antes
de tudo, o termo “corrosão” usado pela mídia liberal é impreciso, pois sugere
que essas instituições — como a ONU ou o Tribunal Penal Internacional (TPI) —
funcionavam outrora como árbitros neutros e justos. O que ocorre não é uma
simples falha institucional, mas o fato de que o imperialismo estadunidense e
seus aliados decidiram que, nesta nova fase, não reconhecem mais “quaisquer
regras ou limites” em suas intervenções. A intervenção na Venezuela em 3 de
janeiro, com o sequestro de autoridades, é o exemplo máximo dessa “nova fase”
em que a diplomacia é substituída pela força bruta sem o verniz da legalidade
internacional. Essa mudança de postura sinaliza que as instituições
internacionais só são preservadas enquanto servem para legitimar a hegemonia
das potências centrais. Quando essas instituições produzem denúncias de
genocídio (como em Gaza) ou tentam mediar soberanias nacionais que desafiam os
interesses de Washington (como na Venezuela ou no Irã), elas são simplesmente
ignoradas ou atropeladas. Vamos tomar como exemplo as sanções unilaterais
contra o Irã, que devastam a vida do povo trabalhador à revelia do direito
internacional. Elas são prova inconteste dessa “corrosão” prática, onde a força
econômica e militar se impõe sobre qualquer carta de princípios das Nações
Unidas. Essa erosão institucional força uma reconfiguração das estratégias
revolucionárias. Não se pode mais — se é que algum dia se pode — buscar
“salvação” nessas instituições ou em fóruns internacionais que, no limite, são
geridos pelo capital. A consequência direta é a necessidade de retomar a
independência política da classe trabalhadora. Se o direito internacional não
protege mais as fronteiras ou os povos, a única defesa real reside na
organização interna e na solidariedade internacionalista entre os
trabalhadores, e não na confiança em mecanismos diplomáticos que se provaram
incapazes de deter o genocídio em Gaza ou os golpes de Estado na América
Latina.
Fonte:
Por Isabelle Paiva, em Diálogos do Sul Global

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