América
Latina: a esquerda assumirá o anti-imperialismo?
Em 04
de dezembro de 2025 o governo Trump anunciou de modo formal sua nova doutrina
de segurança nacional publicando o National Security Strategy. Através dessa
nova estratégia rompeu-se com a lógica anterior ao realocar o foco para o
hemisfério ocidental, exercendo especificamente sua influência para a América
Latina.
No dia
03 de janeiro de 2026, o bombardeios terrestre à Venezuela e o sequestro do
Presidente Nicolas Maduro significou a expressão mais aberta e cristalina desse
giro político realizado pela gestão norte-americana.
Qual é
então o real significado, para a esquerda da América Latina, desse giro
realizado pelo imperialismo norte-americano?
Em
primeira linha é necessário apontar que o imperialismo representa a ditadura
global. Portanto, pela lógica imperial, os inúmeros povos, territórios e bens
naturais do globo estão sob o seu poder. Assim, se, nas origens do século XX,
tivemos o surgimento e/ou a estruturação de conglomerados empresariais globais
controlados pelas nações imperialistas, hoje temos uma estrutura mundializada
que abrange mecanismos como o dólar enquanto moeda hegemônica para trocas
internacionais, o controle sobre o sistema financeiro global, sobre os preços
das commodities e a existência de bases militares norte-americanas espalhadas
por todos os continentes. Dessa maneira, um dos núcleos centrais da
reprodução global do imperialismo envolve o domínio econômico sobre bens
naturais localizados em países periféricos, explorados por oligopólios
mundiais, sendo esse núcleo central contornado por aspectos culturais,
ideológicos, políticos e militares.
No
concreto, do ponto de vista histórico, o Estado nacional norte-americano esteve
historicamente a serviço de enormes companhias petrolíferas herdeiras diretas
da Standard Oil, como a Chevron e a Exxon. O aparato militar estatal serve, por
exemplo, tanto como instrumento de apropriação de reservas petrolíferas por
meio da invasão de países quanto como comprador estatal de enormes volumes de
combustíveis. Por outro lado, os países latino-americanos apresentam abundância
de recursos petrolíferos, minerais e agrários. A herança colonial, no entanto,
colocou esses recursos a serviço de pequenas elites nacionais e dos oligopólios
mundiais.
Se com
o despertar do século XXI, inúmeras foram as experiências de governos de
esquerda na América Latina, na América do Sul, todos os países
latino-americanos tiveram, em algum momento, governos de esquerda. Algumas
experiências tiveram ampla duração; outras apresentaram curto tempo de comando
sobre o governo. Algumas realizaram amplos processos de reformas do Estado e
nacionalizações; outras mantiveram intactas as estruturas deixadas pelos
governos neoliberais anteriores.
Por
isso, o fio condutor da aplicação do receituário neoliberal na América Latina
derivou, em inúmeros sentidos, do modo como se reproduz globalmente o
imperialismo a partir da década de 1990. Por exemplo, grande parte das reformas
regressivas que atingiram os povos latino-americanos decorreu de pressões
externas que utilizaram instrumentos de dívida pública por meio de entidades
transnacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.
Portanto,
do ponto de vista global, após a queda do Muro de Berlim, o que temos é que a
esmagadora maioria dos poros da economia mundial, no que se refere às trocas
internacionais, foi tornada subordinada à produção de valor do sistema
financeiro internacional controlado pelo imperialismo. Mesmo sociedades
pós-revolucionárias, como a chinesa, hoje mantêm, ainda que com relativa
autonomia, dependência do capital financeiro mundial. Nesse sentido, a tônica
geral é a existência de nações com maior ou menor autonomia em relação à
atmosfera de ditadura das finanças mundiais controladas pelo imperialismo e,
excepcionalmente, de nações que são desligadas do sistema global para serem
destruídas. Assim, tanto sociedades pós-revolucionárias como Cuba e Coreia do
Norte permanecem excluídas da possibilidade de realizar comércio quanto nações
que, do ponto de vista regional, ofereciam algum grau de desatrelamento dos
interesses imperialistas, como Iraque e Líbia, foram esmagadas do ponto de
vista econômico e/ou militar.
Trazendo
essa discussão para a América Latina, em que pese o fato de que,
invariavelmente, nenhuma experiência de esquerda no governo conseguiu romper
com o caráter primário-exportador das nações do continente, a dinâmica de maior
ou menor autonomia em relação ao capital financeiro mundial controlado pelos
oligopólios permanece como a tônica. Para exemplificar, há, em comum nos
governos de esquerda do Peru Libre, da Frente Ampla no Chile e do PT no Brasil,
a prática de indicar para a presidência do Banco Central representantes dos
mercados, o que deixa intacta a política monetária adequada aos interesses dos
oligopólios mundiais.
Mesmo
que o giro que se processa com a nova doutrina norte-americana para sua
política exterior no que se refere à América Latina tenha seu ponto de
expressão mais visível e chocante na agressão militar e no sequestro do
presidente Maduro, da Venezuela, mas envolve também outras medidas menos
midiáticas, como a autorização, pelo Congresso do Peru, da entrada e
permanência de forças armadas norte-americanas no país ao longo do ano de 2026,
ou a possibilidade de reativação de bases militares no Panamá, no Equador e em
Porto Rico.
Dupla é
a questão que se apresenta a partir do giro geopolítico que os EUA realizam em
direção à América Latina. A primeira é que, diante do relativo declínio de sua
hegemonia global frente aos países do Sul Global, o imperialismo
norte-americano busca ampliar a extração de excedente daquilo que considera seu
“quintal”. A segunda é que, por essa perspectiva, não irá mais tolerar nenhum
nível de autonomia por parte dos países latino-americanos. A disjuntiva que
surge para esses países é, portanto, ou a submissão total, ou a violência
econômica, institucional e até mesmo bélica.
Assim,
se por um lado, a aparência imediata da vida social nos faz perceber o mundo
como um conjunto de espaços separados: o “interno” de cada Estado nacional, com
sua política doméstica, e o “externo”, onde operariam as potências e a
geopolítica. Se, para a consciência individual, essa separação comparece como
algo quase natural: acredita-se que os conflitos de classe se resolvem
principalmente no interior das fronteiras e que a política internacional atua
como pano de fundo. Por outro lado, o próximo período tende a desfazer essa
divisão aparente. A intensificação da interferência externa dos Estados Unidos
na América Latina, seja por mecanismos financeiros, por controle tecnológico e
informacional, por guerra jurídica, por coerção diplomática ou por presença
militar direta e indireta, tende a produzir um efeito específico: derrubar como
biombos as fronteiras imaginárias que isolam os povos, revelando que o
“interno” de cada país é atravessado por determinações externas que organizam o
próprio campo de possibilidades do Estado.
Quando
uma potência imperial decide aumentar o grau de comando sobre a região, ela não
atua apenas sobre governos; ela opera sobre a totalidade social. Ao interferir
nos preços, na moeda, na circulação de capitais, na logística, nos sistemas de
segurança e na capacidade soberana de definir políticas econômicas, o
imperialismo reorganiza a reprodução social em vários países simultaneamente.
Nesse
quadro, a classe trabalhadora de cada país deixa de ser apenas uma classe
“nacional” e volta a aparecer como aquilo que sempre foi em essência: parte de
uma classe regional submetida a um mesmo regime de extração de excedente, de um
mesmo enquadramento da dependência e de um mesmo horizonte de coerção. O avanço
da intervenção imperial torna mais visível o que já estava dado no real: as
classes trabalhadoras latino-americanas estão interconectadas pela mesma
estrutura histórica de subordinação, ainda que essa interconexão permaneça
obscurecida em períodos de menor tensão geopolítica.
Daí
decorre uma consequência decisiva: a solidariedade latino-americana não pode
ser tratada como valor moral abstrato, como gesto cultural ou como preferência
subjetiva de militantes. Ela tende a se converter, cada vez mais, em
necessidade histórica, isto é, em condição prática de sobrevivência política e
material.
Quando
o comando imperial se torna mais agressivo, a derrota de um processo popular em
um país tende a funcionar como precedente e laboratório de contenção para os
demais; e o êxito relativo de um governo que amplia margens de soberania tende
a produzir efeitos de encorajamento e abertura para outras experiências. A
coerção internacional opera em cadeia: sanções, bloqueios, estrangulamento
financeiro, desestabilização política e militarização seletiva não se
distribuem por acaso, são mecanismos de disciplina regional. O que se impõe,
portanto, é uma elevação do nível de consciência: não se trata de “cada povo
resolver seu problema”, mas de reconhecer que há um conflito de escala
continental, onde as vitórias e derrotas se comunicam. A unidade passa a ser menos
um ideal e mais um imperativo de autodefesa coletiva.
É nesse
ponto que se torna possível enunciar o segundo movimento: o anti-imperialismo
como razão existencial das organizações e dos governos de esquerda
latino-americanos. Existencialmente, a esquerda não pode ser definida apenas
por intenções éticas ou por programas distributivos; ela se define pela posição
que ocupa no conflito entre a reprodução social da classe trabalhadora e os
mecanismos estruturais que transformam essa reprodução em excedente apropriável
por oligopólios mundiais. Em formações dependentes e primário-exportadoras, o
imperialismo não é um fenômeno externo acidental: ele é um elemento
constitutivo da forma concreta de existência do Estado, das classes dominantes
locais e do lugar do país na divisão internacional do trabalho.
Por
isso, a esquerda que se limita a gerir o Estado sem enfrentar os mecanismos de
subordinação externa tende a ser capturada pela própria forma do Estado
dependente: ela administra a escassez, negocia margens mínimas, preserva o
essencial da dependência e se torna refém das condições impostas pelo capital
financeiro e pelos dispositivos geopolíticos.
Ser
anti-imperialista, então, não é um “tema” adicional, nem uma ênfase discursiva:
é a própria condição existencial para que governos e organizações de esquerda
possam existir enquanto tais. Se a esquerda pretende representar o trabalho e
ampliar a soberania popular, ela precisa confrontar aquilo que, na periferia,
delimita de antemão o que é possível governar: o controle externo da moeda e do
crédito, a chantagem da dívida, o comando sobre cadeias logísticas e
tecnológicas, a tutela militar e o regime de sanções como punição
exemplificadora. Não se trata de negar contradições internas, elites locais,
burguesias dependentes, aparelhos repressivos e formas específicas de dominação
nacional, mas de reconhecer que, em nossa região, essas contradições internas
estão organicamente articuladas ao comando imperial.
A
burguesia local não é apenas uma classe nacional: ela é também mediadora
interna de um sistema mundial de apropriação. Portanto, a luta democrática, a
luta social e a luta anti-imperialista não são três lutas separadas; são
dimensões de um mesmo processo histórico.
Assim,
a conclusão se impõe com rigor: no próximo período, o aumento do grau de
intervenção imperial tende a expor a unidade real do continente como campo de
disputa e tende a deslocar a esquerda para uma prova de verdade. Ou a esquerda
assume o anti-imperialismo como núcleo organizador de sua estratégia — por
necessidade existencial e por imperativo de sobrevivência política — ou ela
será empurrada para a gestão impotente da dependência, sendo eventualmente
substituída por formas abertas de coerção e submissão. A tarefa histórica,
portanto, não é apenas resistir a medidas pontuais, mas construir uma forma
continental de solidariedade, coordenação política e projeto econômico que
torne material a soberania dos povos. Quanto mais o imperialismo tentar separar
e disciplinar as nações, mais o real exigirá que elas se reconheçam como parte
de uma mesma luta.
Fonte: Por
Gabriel Cavalcante, em Outras Palavras

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